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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

"Orpheu"

     Revista lançada em 1915, cujos dois únicos números publicados, em abril e julho, marcam o início o modernismo em Portugal. Com direção, no n.º 1, de Fernando Pessoa e do brasileiro Ronald de Carvalho, e, no n.º 2, de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, o escândalo provocado pela publicação de Orpheu deveu-se, entre outros motivos, à apresentação de práticas de escrita e correntes artísticas vanguardistas (paulismo, intersecionismo, simultaneísmo, futurismo, sensacionismo), embora surjam na revista ainda compaginadas com leituras e práticas simbolistas e decadentistas.
     O n.º 1 foi preenchido com a seguinte colaboração: Luís de Montalvor, "Introdução"; Mário de Sá-Carneiro, "Para os Indícios de Oiro" (poemas); Ronald de Carvalho, "Poemas"; Fernando Pessoa, "O Marinheiro" (drama estático); Alfredo Pedro Guisado, "Treze Sonetos"; José de Almada-Negreiros, "Frizos" (prosas); Côrtes-Rodrigues, "Poemas", e Álvaro de Campos, "Opiário" e "Ode Triunfal".
     O número dois recebeu os seguintes autores: Ângelo Lima, "Poemas Inéditos"; Mário de Sá-Carneiro, "Poemas sem Suporte"; Eduardo Guimarães, "Poemas"; Raul Leal, "Atelier" (novela vertígica); Violante de Cisneiros, "Poemas"; Álvaro de Campos, "Ode Martítima"; Luís de Montalvor, "Narciso" (poema); Fernando Pessoa, "Chuva Oblíqua" (poemas intersecionistas); Santa-Rita Pintor, "Quatro Hors de texte duplos".
     Para o projetado número três - cuja publicação esteve prevista para 1916 mas que, por razões financeiras, não foi posto à venda - Orpheu contaria com os seguintes textos: Mário de Sá-Carneiro, "Poemas de Paris"; Albino de Meneses, "Após o Rapto"; Fernando Pessoa, "Gládio" e "Além-Deus" (poemas); Augusto Ferreira Gomes, "Por Esse Crepúsculo a Morte de um Fauno..."; José de Almada-Negreiros, "A Cena do Ódio"; D. Tomás de Almeida, "Olhos"; C. Pacheco, "Para Além doutro Oceano", e Castelo de Morais, "Névoa". Mais tarde, deste número do Orpheu, chegaram ainda a ser publicados poemas de Fernando Pessoa, assim como algumas notas em Inglês. A revista Orpheu foi considerada por Pessoa "a soma e a síntese de todos os movimentos literários modernos".

Fonte: Infopédia

Sobre o aparecimento da revista "Orpheu"

Sobre o aparecimento da revista Orpheu

     Quando falamos sobre a revista Orpheu temos de, julgo eu, dar primeiro que tudo voz àqueles que a fizeram e a sonharam. Por isso perante a pergunta "o que foi a revista Orpheu?" responderemos em primeira linha com partes da introdução de Luiz de Montalvor ao número n.º 1 da mesma: "O que é propriamente revista em sua essencia de vida e quotidiano, deixa-o de ser ORPHEU, para melhor se engalanar do seu titulo e propôr-se. E propondo-se, vincula o direito de em primeiro lugar se desassemelhar de outros meios, maneiras de formas de realisar arte, tendo por notavel nosso volume de Beleza não ser incaracteristico ou fragmentado, como literarias que são essas duas formas de fazer revista ou jornal. (...) Nossa pretenção é formar, em grupo ou ideia, um numero escolhido de revelações em pensamento ou arte, que sobre este principio aristocratico tenham em ORPHEU o seu ideal esotérico e bem nosso de nos sentirmos e conhecermo-nos."
     Projecto portanto aparentemente pessoal, de poder ser uma montra para o "sentir" e o "conhecer" dos seus autores. Mas também algo em "dessemelhança"; ou seja representativo de uma rutpura com o status quo literário.
     É nas palavras do próprio Pessoa que podemos revelar o processo da génese desta invulgar revista, que revolucionou a literatura Portuguesa no início do século XX: "- O que quer Orpheu? - Criar uma arte cosmopolita no tempo e no espaço. (...) a verdadeira arte moderna tem de ser desnacionalizada - acumular dentro de si todas as partes do mundo. (...) feita esta fusão espontaneamente, resultará uma arte-todas-as-artes, uma inspiração espontaneamente complexa".
     Mas como apareceu a revista?
     Pessoa responde, com um longo texto que só viu a luz do dia em 1968, pelas mãos do Pessoano Francois Castex e que resumimos de seguida:
     - A ideia da revista foi originalmente de Luis de Montalvor, em princípios de 1915, quando regressou do Brasil. Em Fevereiro, no café Montanha, reunido com Pessoa e Sá-Carneiro, ele lançou a ideia de uma revista trimestral. - O título "Orpheu" veio também de Luis de Montalvor (Orpheu é uma figura mitica que vai ao mundos dos mortos socorrer a sua mulher, sem nunca poder olhar para trás). - A ideia avançou inicialmente pelo entusiasmo dos 3 e das possibilidades económicas de Sá-Carneiro (que recorreu ao pai). - Estaria latente em todos a vontade de "reagir em Leonino contra o ambiente", nas palavras do próprio Pessoa. - Ficaram como directores Luís de Montalvor e um outro poeta brasileiro, Ronald de Carvalho, mas a direcção era realmente compartilhada com Pessoa e Sá-Carneiro, bem como com Alfredo Guisado. - A tríade contactou então Alfredo Guisado e Cortes-Rodrigues para obter originais, bem como Almada Negreiros. Depois Pessoa trabalhou no poema "Opiário", para o incluir também. Aqui Pessoa revela que "Opiário" foi escrito depois da "Ode Triunfal", embora tenha "fingido" a prioridade posteriormente. - Como editor foi o nome de António Ferro - estritamente uma ilegalidade, mas que muito divertiu Pessoa e Sá-Carneiro (que desconhecia que Ferro era ainda menor quando colocou o nome daquele na revista). Outra "mentira" foi a designação da empresa editora: Orpheu ltda. Na realidade não tinha sido constituída nenhuma empresa por quotas Orpheu, e a designação ficou por insistência de Sá-Carneiro, perante as reservas de Pessoa. - Pessoa parece passar a imagem da revista ter uma base de "blague", de brincadeira levada a sério. É bom pensar neste ponto: na realidade era preciso uma coragem de brincalhão para inovar assim, corajosamente, sem pensar nas consequências. - Pessoa não considerava a revista futurista. Futurista - diz ele - nessa altura, do n.º 1, era apenas Santa-Rita Pintor. - Pessoa recusa o epíteto de mestre na revista. Ele diz que tanto ele quanto Sá-Carneiro eram "individualistas absolutos". - A intenção da revista era provavelmente dar voz a uma geração, mas não uma voz clara e inequívoca: aliás é bem claro pelas palavras de Pessoa que tanto ele como Sá-Carneiro tinham uma certa noção de que não iriam ser compreendidos, e por isso insistiam mesmo numa certa opacidade das suas intenções.
     Claro que "Orpheu" acabou por ser decisiva, mesmo só com dois números, precisamente porque não foi entendida. O seu testemunho ficou duradouro. Nas palavras de Pessoa em Novembro de 1935: "Orpheu acabou. Orpheu continua". E o que continuou foi esse rompimento com o passado, romântico e simbolista. "Os de Orpheu" eram o retrato de uma geração nova que se afirmava e que, à boa maneira das novas gerações, recusava com prazer a herança dos seus pais.
     Mas quiçá aparecida noutra altura não tivesse o mesmo peso. A verdade é que em 1915 Pessoa está precisamente no ponto decisivo da sua vida - o dia triunfal tinha acontecido no ano anterior e a sua enorme energia criativa começava a dirigir-se para os seus novos heterónimos. Haveria Orpheu sem Campos? Talvez, mas é porventura Campos o motor da modernidade da revista e do subsequente escândalo que a mesma causou. E depois da ruptura, pouco mais haveria a fazer do que deixar a "fenda" alargar-se a todos os espectros sociais, começando nas artes. Como fenómeno explpsivo, bem se compreende que Orpheu não tenha tido a necessidade de ter mais do que apenas dois números (mesmo com um terceiro planeado mas nunca publicado).
Estava aberto o horizonte para uma nova literatura, uma nova maneira de pensar e agir. Os loucos haviam ocupado o manicómio.

Fonte: Um Fernando Pessoa.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A cigarra e a formiga, Miguel Macedo e Alexandre O'Neill

     Miguel Macedo, atual ministro do governo português, aludiu à fábula da cigarra e da formiga nos seguintes termos: "É nestes tempos difíceis que é preciso ter esta pedagogia: nós não podemos ser um país de muitas cigarras e poucas formigas.".

     Esquecendo o significado metafórico que o ministro lhe quis emprestar em termos de atualidade, esta referência constitui sobretudo uma boa oportunidade para recordar o poema de Alexandre O'Neill (visto que a fábula é por demais conhecida):

Minuciosa formiga

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

«Perda» ou «perca»?

     Estas palavras são parónimas e é comum usá-las indevidamente.
  • Perda: nome que significa «privação de alguém ou de alguma coisa que se possuía»:
                    - Houve perda de liquidez na SAD do Benfica.
                    - O Benfica tem acumulado perdas financeiras.
                    - Sou uma vítima da perda de cabelo.
                    - A Miquelina ficou destroçada com a morte do pai.
  • Perca: flexão do verbo «perder»:
                    - Tu queres que eu perca a paciência?
                    - Não perca a esperança, D. Esperança.

     Deste modo, uma frase como "A Casa dos Segredos é uma perca de tempo" é incorreta. A frase correta é "A Casa dos Segredos é uma perda de tempo".

domingo, 23 de setembro de 2012

Concordância do verbo «SER»

     O verbo copulativo ser apresenta uma concordância especial. Regra geral, respeita o princípio que rege a concordância: concorda com o sujeito em número:
  • O Rui comeu os rebuçados.
     No entanto, há casos em que o verbo «ser» concorda com o predicativo do sujeito. Vejamos as situações em que tal acontece.

     Casos especiais de concordância do verbo SER:

1.º) Quando o verbo vem acompanhado dos advérbios «muito», «pouco», «bastante», «suficiente», etc., significando quantidade, distância, peso, etc., conjuga-se no singular:
  • Dez euros é muito para este par de meias.
  • Cem metros de terrenos é suficiente para construir o galinheiro.
  • Oitenta quilos é um exagero. Estou muito gordo.
  • Trezentos mil euros é um preço exagerado.
  • Duas horas de estudo é suficiente para fazer o teste.
  • Dois dias é pouco tempo para estudar tanta matéria.
  • Cinco quilos de carne é suficiente?
  • Vinte quilos é demasiado para uma criança carregar.
     A concordância no singular, nalguns dos exemplos apresentados, soa estranha, mas acontece normalmente com as expressões que denotam «excesso», «suficiência» ou «insuficiência». O sujeito, embora no plural, conserva a ideia coletiva e o verbo no singular sintoniza-se com essa ideia.

2.º) Quando o sujeito ou o predicativo do sujeito é um pronome pessoal, o verbo concorda com o pronome:
  • Ela é linda!
  • Nós somos feios.
  • Eu sou o presidente da junta.
  • Tu és um palerma.
  • A esperança somos nós.
  • Vocês são atrevidos.
  • O Brasil, senhores, sois vós.

3.º) Quando o sujeito é o pronome interrogativo «que»  ou «quem», o verbo concorda com o predicativo:
  • Quem são aqueles homens?
  • Que são dois anos na vida de uma tartaruga?
  • Que são palavras homónimas?
  • Quem foram os responsáveis por este atentado?
  • Que seriam aqueles pontos brilhantes no céu?

4.º) Com expressões numéricas que indicam período de tempo, hora ou distância, o verbo concorda com  a expressão numérica (predicativo) e torna-se impessoal (= sem sujeito):
  • É uma hora e meia.
  • São cinco horas.
  • São três e um quarto.
  • É um minuto para as seis.
  • De casa à escola, são doze minutos certos.
  • Já são dez para as quinze.
  • Eram perto de dez horas.
     No caso de locução verbal, é o verbo auxiliar que concorda com o predicativo:
  • Devem ser dez horas.

5.º) Relativamente às datas, a concordância opera-se do seguinte modo.

          a) Quando a palavra «dia» está expressa, o verbo fica no singular:
  • Hoje é dia 23 de setembro.
          b) Quando a palavra «dia» não está expressa, a concordância é facultativa:
  • Hoje é 23 de setembro.
  • Hoje são 23 de setembro. 

6.º) Quando o sujeito é um dos pronomes «isto», «isso», «aquilo», «o (que)», «tudo», o verbo concorda com o predicativo:
  • Isso são flores.
  • Isso são lembranças de viagens.
  • Aquilo é uma miséria.
  • O que fica na memória são as coisas marcantes.
  • Os bastidores é o que me toca.
     Nota: O verbo «ser» fica no singular quando o predicativo é formado por dois
                elementos no singular:
  • Tudo o mais é tristeza e amargura.

7.º) Quando o sujeito é «nome de coisa ou objeto (no singular)» e o predicativo do sujeito um «nome no plural», o verbo concorda, preferencialmente, com o predicativo:
  • A vida [coisa] não são rosas.
  • A cama [coisa] do meu avô eram umas palhas.
  • O seu segredo [coisa] são essas pernas deslumbrantes.
  • Divertimento é coisa que não falta aqui.
  • Dois metros de tecido é suficiente para fazer a toalha.
Nota: Se o sujeito ou o predicativo forem um nome próprio, o nome de uma pessoa 
           ou uma pessoa, o verbo concorda com a pessoa:
  • Ricardo era só problemas.
  • O homem é cinzas.
  • O teu orgulho são os teus cães.
  • Aquele aluno é o encanto dos professores.

8.º) Quando o sujeito ou o predicativo se encontra no singular e outro (sujeito ou predicativo) no plural, o verbo conjuga-se no plural:
  • Os filhos são o meu tesouro.

9.º) Quando o verbo representa definição ou identidade, pode ser conjugado no singular:
  • Pátria é nosso rios e mares, nossos animais, nossa gente.
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