Português

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Literatura popular: Época medieval – Período pré-trovadoresco

    A literatura popular portuguesa é tão antiga como a língua portuguesa, mas não conseguimos datar com exatidão a sua existência, dado que (segundo Viegas Guerreiro) já no século IX se falava português, não obstante ser impossível fixar a data em que o latim vulgar evoluiu para o romance português (terá sido no século VI? No VII?). A existência de literatura popular nessa época é comprovada por diversos testemunhos: referências literárias, legislação civil e eclesiástica; atos de concílios (desde o século VI) e constituições de bispados atacavam momos e arremedilhos, cantos e danças profanas, tudo considerado atos torpes, lascivos e irreverentes. Assim eram consideradas, por exemplo, as carmina amatoria, turpia, nefaria, isto é, cantigas de mulheres, de índole amorosa, correntes na România. O povo, meio cristianizado, cantava e bailava dentro ou no adro das igrejas, em romarias e procissões, ruas e praças, bodas e enterros, o que era tido por abuso e artes do diabo pela alta hierarquia eclesiástica, ao contrário do que sucedia com o baixo clero, que se misturava com a plebe e folgava o corpo.

    Mucádam ben Muafa el Cabrí, o Cego, natural de Córdova, que viveu entre finais do século IX e princípios do X, criou uma variedade de poesia lírica, a moaxaha (muwaššaha), de versos curtos de cunho popular, que podia terminar em árabe vulgar ou na língua dos cristãos. Ou seja, um poeta árabe escrevia em romance moçarábico, inserindo provavelmente nas suas composições trechos poéticos da tradição cristã. No total, conhecemos atualmente quarenta e três moaxahas, escritas entre meados do século XI e fins do XIII. As coplazinhas que as fecham são as carjas (jaryas) ou saídas. Elas condensam o sentido da moaxaha, que, por outro lado, é também o resultado do seu desenvolvimento. Trata-se de cançõezinhas populares, ou trechos delas, espécie de vilancetes, postas na boca de raparigas andaluzas apaixonadas, que choram a ausência do amigo ou se queixam do seu desamor e infidelidade e desabafam as suas mágoas com a mãe ou com as irmãs. Menéndez Pidal e Dámaso Alonso associam-nas à origem da lírica castelhana quatrocentista e posterior, em que o vilancete, como mote, se desenvolve por meio de glosas, género que, por influência castelhana, teve igualmente grande voga em Portugal. Por outro lado, estes dois autores apresentam-nas também como uma das prováveis origens do lirismo galaico-português de cunho autóctone popular. Estas cantiguinhas constituem o género lírico mais antigo que se conhece no mundo neolatino.
    Como é que essa poesia influenciou a lírica trovadoresca portuguesa? Os cristãos, sob o jugo sarraceno, puderam manter a língua, os costumes e as crenças. Provavelmente, a língua e a cultura seriam mais homogéneas do que diversas no território andaluz. Apesar de os poetas das moaxahas pertençam ao Andaluz espanhol ou ainda tenham vivido, é provável que esses cantares nelas inseridos ou análogos se ouvissem no nosso andaluz, ou seja, que constituam património comum das duas nações peninsulares.
    Exemplifiquemos como isto sucedeu. Judá Ha-Levi, um judeu de Tudela ou Toledo, que viveu a maior parte da sua vida em Sevilha, Córdova e Granada, põe na boca de uma rapariga um canto de saudade incontida, cerca de 1075, mais de um século antes da mais antiga poesia trovadoresca dos três cancioneiros que albergam a poesia
            Garid vos, ay yermanelas
            Com' contener é meu mali?
            Sin el habib non vivreyu
            ed volarei demandari.
    Se traduzirmos os versos, encontraremos o seguinte: "Dizei-vos, ai irmãzinhas, como refrearei meu pesar? Sem o amigo eu não viverei e voarei a buscá-lo."
    Numa moaxaha de Josef ben Saddig, natural de Córdova, falecido em 1149, a figura materna surge como confidente, a quem a jovem pede conselho:
            Que farej, mamma?
            Meu-l' habib est ad yana.
Ou seja: "Que farei, mãe? O meu amigo está à porta."
    Em suma, o mais provável é que as moaxahas e a poesia peninsular tenham tido uma origem comum: um fundo romântico comum, que motivou o surgimento de um certo tipo de poesia feminina, florescida no andaluz, e a poesia nascida no noroeste da Península Ibérica Quer isto dizer, em suma, que um lirismo popular preexistiu à escola dos trovadores galego-portugueses e serviu-lhes de modelo, compondo estes concomitantemente cantares de amor à maneira provençal. Na sua estrutura mais simples — duas estrofes de dois versos que terminavam, cada uma delas, por refrão —, as cantigas paralelísticas decalcarão muitas vezes as similares do povo. Estes dados são exemplificados pela existência de variantes de uma mesma cantiga assinadas por mais de um poeta, como é o caso de duas versões da bailia das "Avelaneiras frolidas", uma assinada por João Zorro e outra por Airas Nunes. Este género continuou na boca do povo pelo tempo fora. De facto, podemos encontrá-lo nos cancioneiros musicais dos séculos XV e XVI, em português e castelhano, em Gil Vicente, em canções de trabalho de Trás-os-Montes, neste caso já em pleno século XIX. Por volta de 1932, são descobertas novas catorze canções, a que chamam ritmos. As primeiras quatro são provenientes de Rebordainhos e as restantes, recolhidas em Parada, Rebordainhos e Nozedo de Cima. Todas estas descobertas são obra de Leite de Vasconcelos. Os textos estão publicados no volume I do Cancioneiro Popular Português (1975), uma obra póstuma.
    O paralelismo, genuinamente popular, está presente nestas composições, mais especificamente dois dísticos, seguidos cada um deles de refrão; o segundo repete o primeiro com substituição da última palavra, a rima é assoante. Se a ideia se desenvolve com mais duas estrofes, o 1.º verso da 3.ª é o 2.º da 1.ª, seguido de verso novo; a 4.ª repete a 3.ª com substituição da última palavra. No cantar transmontano, observam-se repetições análogas. A rima é em -i, -a, como na Idade Média, e não falta a palavra amigo e a tradicional alternância a rima de amigo - amado. Estamos na presença de versos para serem cantados, de música para bailar e mais tarde para acompanhar trabalhos de campo. Repete-se a estrutura rítmica, varia o conteúdo, atualiza-se, sobretudo nos exemplares modernos. Porém, o mais interessante de tudo reside no facto de ainda hoje se manterem, com naturais alterações, letras medievais. Um texto recolhido por Leite de Vasconcelos em Parada, concelho de Bragança, cerca de 1932, diz o seguinte:
                As meninas todas três Marias
                Foram-se a colher as andrinas.
                As meninas todas três Joanas
                Foram-se a colher as maçanas.
                Quando lá chegaram, acharam-nas colhidas
                Quando lá chegaram acharam-nas talhadas
    Por outro lado, temos a letra anónima de uma música do Cancioneiro de Barbieri, datada dos séculos XV e XVI, que reza o seguinte:
                Tres morillas me enamoran
                En Jaen Axa y Fátima y Marien.
                Tres morillas tan garridas,
                Iban a coger olivas,
                Y hallabanlas cogidas,
                En Jaen, Axa y Fátima y Marien.
                Y hallabanlas cogidas
                Y tornaban desmaiadas
                Y las colores perdidas
                En Jaen, Axa y Fátima y Marien.
                Tres moricas tan lozanas,
                Tres moricas tan lozanas,
                Iban a coger manzanas
                En Jaen, Axa y Fátima y Marien
    O poema transcrito em castelhano é anónimo, o que pressupõe a sua origem popular, e evoca tempos de convívio entre cristãos e mouros. Talvez seja anterior ao século XV. O seu tema desenvolve-se sob a forma de zéjel castelhano, ao passo que na versão transmontana é de estrutura.

    a) A poesia
    A tradição lírica popular estendeu-se da Idade Média aos nossos dias, embora sejam escassos os textos que se podem inserir no elenco do povo entre os finais do século XII aos do século XV. Cantares anónimos, de invenção popular ou popularizados, encontramo-los, e poucos, em cancioneiros musicais. Algumas cantigas de amigo, sobretudo as paralelísticas, terão também andado na boca do povo, divulgadas pelos jograis, que eram os aedos ou rapsodos da Idade Média. Andavam de terra em terra, por cortes de reis, castelos de fidalgos, conventos abastados, por ruas, praças, feiras e romarias, tangendo na cítola ou violão, cantando obra própria ou alheia. Os reis colocaram-nos ao seu serviço e mais de um bobo deles nasceu. De igual modo, serviam trovadores para eles cantarem os versos. Aos olhos de pessoas privilegiadas (nobreza e alto clero), o ofício de jogral era desonroso, dado que recebiam dinheiro pela sua arte. Alguns, mais talentosos, também trovaram, o que desagradou aos autênticos trovadores, pois, no seu entendimento, uma arte nobre como a sua não cabia na insciência de jograis, pelo que as disputas, as "tensões" entre ambos foram bastantes.
    Os trovadores desdenhavam, portanto, da arte dos jograis, que o povo apreciava, para quem os primeiros também compunham, embora tivessem vergonha disso, pelo que não incluíam esses versos nas obras que publicavam. Foi o que aconteceu com Juan Ruiz, arcipreste de Hita, na primeira metade do século XIV, que confessa ter composto para cegos e outros cantores populares "muitos cantares ou romances".
    O reportório dos jograis variava com os ouvintes: nos palácios, entoavam cantigas de amor, sobretudo; quando o público era o povo, eram cantigas satíricas e bailadas. Os caçurros, mais pobres, tinham a plebe para os ouvir. Nenhum documento escrito do lirismo galego-português de meados do século XIV a meados do XV. Isto pode ter duas explicações: por um lado, as coleções perderam-se; por outro, faltaram compiladores. Constituem exceção os versos cantados pelas "moças sem nenhũ medo, apanhando pedras pelas herdades", durante o cerco montado a Lisboa, em 1385, por D. João de Castela, que Fernão Lopes colocou na 1.ª parte da Crónica de D. João I. Sucede, porém, pelo exposto, que esses versos não são integráveis na escola dos trovadores:
                Esta é Lisboa prezada,
                mirá-la e leixá-la.
                Se quiseres carneiro,
                qual deram ao Andeiro;
                se quiseres cabrito,
                qual deram ao Bispo.
    É nos cancioneiros castelhanos, sobretudo no organizado por João Afonso de Baena (1445), que encontramos continuidade do trovar galego-português, mas de inspiração frouxa. De facto, nesses textos, de cunho popular, pouco mais encontramos do que as formas métricas.
    Segue-se o Cancioneiro Geral, que Garcia de Resende publicou em 1516, e que reúne a produção poética posterior à primeira metade do século XV. Os textos nele incluídos são composições de circunstância, palacianas, aristocráticas, carregadas de "futilidades", elaboradas para entreter os cortesãos; "cousas de folgar e gentilezas", como lhes chama o próprio Garcia. O vulgo e a sua arte não marcam presença nesta compilação.

    b) A prosa
    Não restou nenhum códice da prosa popular medieval, o que era expectável, visto que o exercício de vilãos não cabia no interesse de gente letrada. No entanto, existe notícia dessa atividade literária na Península Ibérica. A segunda das Siete Partidas, um código atribuído ao rei Afonso X, o Sábio, avô de D. Dinis, menciona, entre as diversões de 1260, "... las historias e los romances e los otros libros que fablan de aquellas cosas de que los homes reciben alegria e placer"; "estórias e romances" que corriam na boca do povo. Mais tarde, D. Duarte (1391-1438) escreve no Leal Conselheiro que "... no tempo de orar e ouvir ofícios divinos, nos conselhos proveitosos, falamentos ou desembargos levantamos estórias, recontando longos exemplos". Nas pregações religiosas, nas práticas públicas, nas sentenças dos juízes, no dar de conselhos, contavam-se histórias, com longos exemplos, que o povo ouvia e recontava ou que dele provinham.
    Amostras de algumas narrativas deste género encontram-se nos Livros de Linhagens mais recentes, sobretudo no 4.º, da autoria de D. Pedro, Conde de Barcelos (1289-1354), e nas obras religiosas e morais. Andaram com o povo lendas como "A dona pé de cabra", "A lenda de Gaia" e a do "Rei Leir", esta ainda hoje corrente entre nós, todas incluídas no referido quarto Livro de Linhagens. No Orto do Esposo, um códice alcobacense do século XIV, de caráter apologético e místico, vêm várias histórias e de uma delas publica Adolfo Coelho uma versão contemporânea nos Contos Populares Portugueses.

    c) Provérbios e adivinhas
    Estamos perante géneros menores em prosa e em verso, o que não os torna menos significativos. Todas as classes usam provérbios e adivinhas e, apesar de terem uma presença assinalável na nossa literatura medieval, não chegou até nós qualquer coleção dessa época.
    Como exemplo temos uma cantiga de amigo de João Soares Coelho, composta na segunda metade do século XIII e rematada com um anexim. A história é simples: uma jovem decide ir ver o amigo contra a vontade da mãe:
                Pero m' o ela non quer outorgar,
                hir-o-ei veer aly hu m'el mandou,
                e per quanta coyta por mi levou,
                farey-lh' eu est' e quanto m' al roguar,
                e desy saya per hu deus quiser.
                Ca diz o vervo - ca non semeou
                milho quem passariños receou.
    Na forma atual, o provérbio é o seguinte:
                "Nunca milho semeou
                Quem passarinho receou."
    Atente-se no vocábulo "vervo", que significava "provérbio".
    Igualmente, não possuímos qualquer compilação de adivinhas.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase: Pergunta 7 do Grupo II

Passo 1: O "Raio-X" à Teoria

  1. O que é o Complemento Agente da Passiva? É a função sintática que indica quem pratica a ação quando o verbo se encontra na voz passiva. É sempre introduzido pela preposição "por" (simples ou contraída: pelo, pela).
  2. A Rasteira Visual: Todas as opções apresentadas no enunciado começam por "pela" ou "pelo". O aluno que tenta adivinhar apenas pela aparência da expressão vai errar. O segredo (e a regra obrigatória) é ir ao texto ler o verbo que está imediatamente antes de cada expressão.
Passo 2: A Desconstrução no Texto (Testar os Verbos)

O aluno metódico vai às linhas indicadas e verifica se o verbo associado está na voz passiva ou ativa:

  • A resposta CERTA (a exceção) é a (A): «pela Ásia» (linha 20).
    • Como chegar lá: O aluno lê na linha 20: «...ou dos mercados flutuantes que vemos pela Ásia...». O verbo é "vemos" (nós vemos sujeito nulo subentendido). O verbo está na voz ativa. A expressão «pela Ásia» não indica quem pratica a ação de ver, indica apenas o lugar onde a ação decorre (complemento circunstancial/modificador de lugar). Se não há voz passiva, não pode haver agente da passiva! Sendo a exceção, esta é a resposta a assinalar.
Porque é que as outras opções estão ERRADAS (ou seja, são de facto agentes da passiva):

  • Opção (B): «pelas inúmeras embarcações» (linha 21). É Agente da Passiva.
    • A Prova: O texto diz «...movimento da água a ser rasgada pelas inúmeras embarcações...». A água sofre a ação ("a ser rasgada" - passiva) e quem executa o ato de rasgar são as embarcações.
  • Opção (C): «pelo urbanismo tradicional de edifícios contínuos» (linhas 30 e 31). É Agente da Passiva.
    • A Prova: O texto diz «A acústica do instrumento-cidade é favorecida pelo urbanismo tradicional...». A acústica sofre a ação de ser favorecida (passiva) e quem lhe faz esse favor é o urbanismo tradicional.
  • Opção (D): «pelo automóvel ou pelo avião» (linhas 35 e 36). É Agente da Passiva.
    • A Prova: O texto diz «...poluição sonora causada pelo automóvel ou pelo avião...». A poluição sofre a ação ("causada" - particípio passado passivo) e os "culpados" (quem pratica a ação) são o automóvel e o avião.

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase: Pergunta 6 do Grupo II

Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado
  1. Os Dois Valores (O quê?): O enunciado exige que se encontrem dois valores específicos do vocábulo "como": primeiro, exemplificação (dar o exemplo de uma categoria maior); segundo, comparação (estabelecer um paralelismo ou semelhança entre duas realidades).
  2. A Ordem (A Restrição Obrigatória): A palavra "respetivamente" no fim de todas as opções dita a regra principal. A primeira expressão da opção tem de ser obrigatoriamente a exemplificação, e a segunda expressão tem de ser obrigatoriamente a comparação.
Passo 2: A Desconstrução do Texto (O valor de cada "como")
Antes de olhar para as opções e se deixar baralhar, o aluno astuto vai ao texto testar e classificar as ocorrências pedidas:
  • «Como resistir» (l. 15): Aqui, "como" tem o valor de advérbio interrogativo de modo (De que maneira resistir?). Não serve para a resposta.
  • «cidades como Lisboa» (l. 15) e «cidades aquáticas, como Veneza» (l. 20): Nestes dois casos, "como" introduz um exemplo concreto de uma categoria ("cidades" e "cidades aquáticas"). Pode ser substituído por "por exemplo". Logo, têm valor de exemplificação.
  • «tal como numa fuga» (l. 28): Aqui, o autor compara o acumular de sons da cidade ao crescendo de uma composição musical (uma fuga). Pode ser substituído por "à semelhança de". Valor de comparação.
  • «Tal como as cidades» (l. 46): Nova comparação (à semelhança das cidades que precisam de praças, a música precisa de silêncio).
Passo 3: A Triagem das Opções (A Eliminação das Rasteiras)
Sabendo o valor exato de cada linha, o aluno cruza a informação com as opções e anula os distratores do IAVE:
  • A resposta CERTA é a (D): "em «como Veneza» (linha 20) e «como numa fuga» (linha 28), respetivamente."
    • Porquê? Porque cumpre na perfeição os valores e a ordem exigida: "como Veneza" é a exemplificação e "como numa fuga" é a comparação.
Porque é que as outras estão ERRADAS (As Armadilhas):
  • Opção (B): "em «como Lisboa» (linha 15) e «como Veneza» (linha 20), respetivamente. FALSA.
    • A Armadilha da Repetição: Ambas as expressões servem para dar exemplos de cidades. Falta completamente a ideia de comparação exigida para a segunda parte da resposta.
  • Opção (C): "em «como numa fuga» (linha 28) e «como as cidades» (linha 46), respetivamente." FALSA.
    • A Armadilha da Inversão/Repetição: Tal como na opção anterior, o IAVE juntou aqui duas expressões com o mesmo valor. Ambas transmitem a ideia de comparação ("tal como"), ignorando por completo a necessidade de haver uma exemplificação na primeira parte da alínea.
  • Opção (A): "em «Como resistir» (linha 15) e «como Lisboa» (linha 15), respetivamente. FALSA.
    • A Armadilha do Modo: O aluno desatento poderia pensar que "como resistir" funcionaria, mas trata-se de um interrogativo de modo. Para além disso, a segunda expressão ("como Lisboa") é um exemplo, pelo que estaria sempre no lugar errado (o da comparação).

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase: Pergunta 5 do Grupo II

Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado (A Teoria)

  1. O Limite de Pesquisa (Onde?): "Entre as linhas 6 e 22" Regra: O aluno deve analisar o texto do 2.º ao 4.º parágrafo.
  2. O Assunto 1 (O quê?): "coesão lexical" Regra: A coesão lexical faz-se através do vocabulário. O aluno tem de procurar repetições de palavras, sinónimos, antónimos ou palavras do mesmo campo lexical/semântico.
  3. O Assunto 2 (O quê?): "coesão gramatical referencial" Regra: A coesão referencial faz-se através de referências que evitam a repetição. O aluno tem de procurar pronomes (pessoais, demonstrativos, relativos) ou advérbios que retomam algo que já foi dito para trás (anáfora) ou antecipam o que vem à frente (catáfora).
Passo 2: A Triagem das Opções (A Eliminação das Rasteiras)
O aluno analisa cada opção, sabendo que a primeira metade da frase tem de corresponder à coesão lexical e a segunda metade à coesão gramatical referencial, por esta exata ordem.
  • A resposta CERTA é a (A): "o uso de vocábulos que integram os campos lexicais da «música» e da «cidade», no primeiro caso, e o uso dos vocábulos «cujos» e «onde», no segundo caso."
    • Porquê? A primeira parte está corretíssima, pois o autor une o texto com palavras da música ("orquestra", "harmonia", "canto") e da cidade ("edifícios", "ruas", "praças") — isto é o campo lexical (coesão lexical). A segunda parte também está perfeita, pois "cujos" (pronome relativo) e "onde" (advérbio com valor de relativo) retomam referentes anteriores no texto ("tipo de música" e "Ásia/mercados") para não os repetir, assegurando a coesão referencial.
Porque é que as outras estão ERRADAS (As Armadilhas):
  • Opção (C): "o uso de vocábulos que integram os campos lexicais [...], no primeiro caso, e o predomínio de verbos no presente do indicativo, no segundo caso."
    • A Armadilha do Tipo de Coesão: A primeira metade é verdadeira (como vimos na opção A), mas a segunda metade esconde um erro fatal gramatical. O uso de tempos verbais ("predomínio de verbos no presente") assegura a coesão gramatical temporal, e não a coesão gramatical referencial como pedido no enunciado.
  • Opção (B): "o recurso à pronominalização, no primeiro caso, e o predomínio de verbos no presente do indicativo, no segundo caso."
    • A Armadilha Dupla: Esta opção está toda errada. A pronominalização (usar pronomes) é um mecanismo de coesão referencial e não lexical. E, como já vimos, os verbos no presente são coesão temporal e não referencial.
  • Opção (D): "o recurso à pronominalização, no primeiro caso, e o recurso aos vocábulos «cujos» e «onde», no segundo caso."
    • A Armadilha da Ordem: A segunda metade (os vocábulos "cujos" e "onde") está correta para a coesão referencial. No entanto, a primeira metade falha redondamente ao dizer que a pronominalização garante a coesão lexical, o que é um erro de conceito básico na teoria da Gramática

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase: Pergunta 4 do Grupo II

Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado

  1. O Limite de Pesquisa (Onde?): "conclui a sua reflexão" Regra: O aluno deve direcionar a sua atenção exclusivamente para os últimos parágrafos do texto (linhas 35 a 47). O que está para trás serve de contexto, mas a resposta tem de estar no fecho.
  2. O Assunto (O quê?): "defendendo a ideia de que" Regra: O aluno tem de procurar a mensagem principal ou a tese final que o autor quer deixar ao leitor, e não apenas um detalhe ou um exemplo solto.
Passo 2: A Desconstrução do Texto (O que diz a conclusão?)

O aluno lê a reta final do texto e destaca as ideias-chave:

  • O autor identifica uma ameaça à paisagem sonora: a poluição dos carros e aviões (que poderá melhorar com os motores elétricos) e a música amplificada no espaço público.
  • Afirma claramente a sua tese: "A invisível paisagem sonora é, provavelmente, a qualidade mais subvalorizada das nossas cidades e habitações, mas de enorme importância para o nosso bem-estar...".
  • Termina dizendo que este é um "património frágil e de difícil proteção" e que, tal como precisamos de praças vazias para a vida acontecer, precisamos do silêncio como contraponto à música da cidade.
Passo 3: A Triagem das Opções (A Eliminação das Rasteiras)

Com o foco no facto de a paisagem sonora ser subvalorizada, mas de enorme importância para o nosso bem-estar (logo, precisando de proteção/atenção), o aluno analisa as opções:

  • A resposta CERTA é a (B): "pela sua importância, a paisagem sonora deve merecer maior atenção, a fim de criar condições que promovam a sua plena fruição."
    • Porquê? Porque é a tradução perfeita da ideia central das linhas 42 a 47. Se a paisagem sonora é a qualidade "mais subvalorizada", isso significa que lhe damos pouca atenção; e se é de "enorme importância para o nosso bem-estar", então deve merecer maior atenção para podermos usufruir dela (plena fruição).
Porque é que as outras estão ERRADAS (As Armadilhas):

  • Opção (A): "pela sua importância, é fundamental preservar a riqueza do património musical urbano, reduzindo a dimensão das massas edificadas."
    • A Armadilha da Contradição: A primeira metade parece correta, mas o fim destrói a opção. O autor nunca propõe reduzir os edifícios ("massas edificadas"). Pelo contrário, num parágrafo anterior, ele afirma que são exatamente "as frentes edificadas" e os "logradouros fechados" que favorecem a boa acústica das cidades.
  • Opção (C): "dada a revolução que está em curso, as cidades do futuro beneficiarão de melhores qualidades acústicas, visuais, espaciais e térmicas."
    • A Armadilha do Pormenor Secundário: O autor refere, de facto, a "revolução" dos motores elétricos. Contudo, focar a resposta nesta ideia é um erro grave, pois trata-se apenas de um detalhe argumentativo e não da ideia central defendida na conclusão. Além disso, o autor diz expressamente que o bem-estar não se pode resumir ao conforto visual, espacial ou térmico, e a opção (C) mistura tudo de forma errada.
  • Opção (D): "dada a revolução que está em curso, os obstáculos à proteção das paisagens sonoras serão eliminados."
    • A Armadilha da Falsa Promessa (Absoluto): O IAVE adora colocar opções demasiado otimistas ou definitivas. O autor diz apenas que o problema dos motores a combustão "tenderá a ser mitigado" (suavizado) com os carros elétricos. Ele avisa logo a seguir que há outras ameaças (como a música amplificada) e que este é um património "frágil e de difícil proteção". Assim sendo, os obstáculos não "serão eliminados" na sua totalidade.
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