Português

domingo, 2 de agosto de 2026

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 2.ª fase: Pergunta 4 do Grupo I

Pergunta: Infira dois traços da personalidade de Manuel evidenciados no excerto apresentado,                    fundamentando a sua resposta com elementos textuais pertinentes.


    Esta pergunta incide sobre o excerto da peça Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, e o enunciado dita o seguinte: "Infira dois traços da personalidade de Manuel evidenciados no excerto apresentado, fundamentando a sua resposta com elementos textuais pertinentes."

    O nosso objetivo aqui não é adivinhar o que está nos critérios, mas sim perceber como o cérebro deve funcionar na hora do exame para chegar à resposta perfeita. Vamos desmontar isto passo a passo:

Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado

  1. O Verbo de comando (a grande rasteira): "Infira" Regra de ouro: "Inferir" significa deduzir. O texto não vai dizer de forma direta "O Manuel é altruísta" ou "O Manuel é religioso". O aluno tem de ler as atitudes e as falas da personagem, interpretar essas atitudes e dar um nome a esse traço de personalidade.
  2. A Quantidade: "dois traços" Regra: o aluno tem de identificar exatamente duas características psicológicas ou morais distintas. Ficar por uma corta a cotação a meio.
  3. A Exigência Técnica (a prova): "fundamentando [...] com elementos textuais" Regra: sempre que apresentarem um traço de personalidade, são obrigados a ir ao texto buscar as palavras exatas (entre aspas) que provam a vossa teoria.
Passo 2: A Recolha de Dados (a "caça" às pistas no texto)

    Como é que o aluno descobre os traços? Fazendo perguntas ao texto enquanto o lê! Vamos fazer esse exercício mental:

  • Pista 1: Logo no início, Manuel de Sousa chora, porque a filha perdeu a "família e o nome". A seguir, revolta-se por ser apontado pelo "vulgo" (o povo) e lembra o peso do seu nome: "Manuel de Sousa Coutinho, o filho de Lopo de Sousa Coutinho...".
    • O que é que o aluno infere daqui? Se ele sofre tanto com a perda do nome e com a vergonha pública, o traço de personalidade a retirar é o seu profundo sentido de dignidade, de honra ou de orgulho familiar.
  • Pista 2: Ao justificar a sua desgraça, Manuel de Sousa diz: "É o castigo terrível do meu erro... (...) E sabe-o Deus, Jorge, e castigou-me assim".
    • O que é que o aluno infere daqui? Se ele atribui tudo a um castigo divino, o traço de personalidade é a sua profunda religiosidade ou temor a Deus.
  • Pista 3: Quando fala do sofrimento de D. João de Portugal, Manuel de Sousa não foge às culpas. Ele bate no peito e diz: "Fui eu o autor de tudo isto, o autor da minha desgraça e da sua desonra deles...".
    • O que é que o aluno infere daqui? Alguém que assume as culpas sem se esconder demonstra uma enorme integridade, nobreza de carácter ou sentido de responsabilidade.
  • Pista 4: No final do excerto, ele deseja que toda a desonra do mundo caia sobre a sua própria cabeça ("oh, porque não é na minha!") e não na "testa branca e pura" da filha.
    • O que é que o aluno infere daqui? Um pai que prefere sofrer para poupar a filha revela abnegação, altruísmo ou um imenso amor paternal.
Nota: O texto fornece os factos, os alunos usam o seu vocabulário para dar o nome ao traço! Para a resposta, basta escolherem dois (os que parecerem mais fáceis de explicar).

Passo 3: A Construção da Resposta 

    Agora, como passamos isto para o papel para garantir os 13 pontos? Usando uma estrutura limpa, com conectores lógicos para separar o Traço 1 do Traço 2, garantindo que em ambos há "Traço + Explicação + Citação".

    Exemplo de como a cabeça do aluno deve estruturar o texto:

    "Através do excerto, é possível inferir diversos traços da personalidade de Manuel de Sousa Coutinho.

    Por um lado, evidencia-se o seu profundo [INSERIR TRAÇO 1 - ex.: sentido de honra e dignidade], visível na forma como... [EXPLICAR POR PALAVRAS PRÓPRIAS - ex.: sofre com a vergonha pública e a perda do bom nome da família]. Esta característica comprova-se quando afirma... [INSERIR CITAÇÃO - ex.: que foi «posto de alvo à irrisão e ao discursar do vulgo»].

    Por outro lado, o protagonista demonstra uma notável [INSERIR TRAÇO 2 - ex.: abnegação / altruísmo], dado que... [EXPLICAR POR PALAVRAS PRÓPRIAS - ex.: prefere suportar sozinho o peso da vergonha em vez de ver a sua filha inocente sofrer]. Este traço é fundamentado através da exclamação em que deseja que a desonra caia sobre si... [INSERIR CITAÇÃO - ex.: «— oh, porque não é na minha! — vai cair toda essa desonra»]."

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 2.ª fase

 Grupo I

    Pergunta 1.

    Pergunta 2.

    Pergunta 3.

    Pergunta 4.

    Pergunta 5.

    Pergunta 6.

    Pergunta 7.


Grupo II

    Pergunta 1.

    Pergunta 2.

    Pergunta 3.

    Pergunta 4.

    Pergunta 5.

    Pergunta 6.

    Pergunta 7.


Grupo III

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 2.ª fase: Pergunta 3 do Grupo I

    Esta é uma questão de escolha múltipla em que o aluno tem de completar um texto com duas alíneas, focando-se no estado emocional com que cada sujeito poético termina o seu poema.

    As respostas corretas são a opção (3) para a alínea (a) e a opção (2) para a alínea (b).
    Vamos desconstruir os motivos pelos quais estas são as respostas certas e desmascarar as "rasteiras" das opções erradas, passo a passo:
Análise da alínea (a) – Poema 1 (Eugénio de Andrade)
    O enunciado foca-se na interrogação final do poema: «Ou será que já só procuro / as mais encabritadas?».
  • A resposta CERTA é a (3) - "funciona como uma possibilidade de explicação lógica da situação apresentada anteriormente".
    • Porquê? Ao longo do poema, o sujeito poético queixa-se de que as palavras se revoltaram, estão ariscas e arreganham os dentes. Na pergunta final, ele vira o espelho para si mesmo e encontra uma justificação lógica para essa dificuldade: talvez as palavras não estejam apenas zangadas; se calhar, é ele próprio que, com a sua exigência, procura ativamente as palavras mais difíceis, selvagens e indomáveis (as «encabritadas»).
  • As Armadilhas (Por que é que as outras estão erradas?):
    • A opção (1) está errada, porque afirma que a interrogação revela "estranheza" (surpresa) perante o comportamento das palavras. No entanto, a estranheza e a queixa já foram apresentadas nos versos anteriores. A interrogação final não é um momento de choque, mas sim de introspeção sobre a sua própria responsabilidade na escolha das palavras.
    • A opção (2) está errada, porque diz que essa faceta das palavras é repudiada (rejeitada) pelo sujeito poético. Pelo contrário! Se ele próprio admite que "já só procura" essas palavras difíceis, ele não as rejeita; ele abraça o desafio criativo que elas representam.

Análise da alínea (b) – Poema 2 (Alberto Caeiro)
    Aqui, o enunciado pede para avaliar a estrofe final do poema de Caeiro: «Um dia deu-me o sono como a qualquer criança. / Fechei os olhos e dormi. / Além disso, fui o único poeta da Natureza.».
  • A resposta CERTA é a (2) - "comprova a serenidade de quem opta por aceitar a realidade das coisas sem as questionar".
    • Porquê? O enunciado principal pedia-nos o "estado emocional" da personagem. A forma como Caeiro encara a morte — comparando-a simplesmente ao sono de uma "criança" que fecha os olhos e dorme — demonstra uma tranquilidade e uma paz absolutas. Ele não faz dramas nem perguntas filosóficas; aceita a morte como um processo totalmente natural.
  • As Armadilhas (Por que é que as outras estão erradas?):
    • A opção (1) está errada, porque fala no "pasmo" (choque/espanto) inicial e no "absurdo da morte". É exatamente o oposto do que lemos. Para Caeiro, a morte não tem nada de chocante ou absurdo; é tão natural, serena e inevitável como ter sono.
    • A opção (3) está errada, porque se foca no último verso onde ele se afirma como o "único poeta da Natureza". Apesar de a afirmação parecer verdadeira dentro do universo de Caeiro, ela foge ao comando do enunciado. O enunciado pede o estado emocional com que a estrofe termina. A opção (3) foca-se apenas no seu estatuto literário e na perceção sensorial, ignorando completamente a profunda serenidade perante a morte que domina o tom e a emoção de toda a estrofe.
    Nestas perguntas de preenchimento, as opções erradas costumam conter factos que até podem ser verdadeiros sobre os autores, mas que não respondem à linha exata da pergunta. O aluno que lê o comando com atenção (focando-se na "explicação lógica" de um lado, e no "estado emocional" do outro) consegue eliminar as rasteiras instantaneamente!

Apreciação crítica do conto "A Milésima Segunda História de Xerazade"


    "A Milésima Segunda História de Xerazade" (1845), da autoria de Edgar Allan Poe, afirma-se como um dos contos mais singulares e engenhosos do autor norte-americano, combinando o exotismo oriental com a sátira social e a ficção científica. Publicado originalmente no Godey's Lady's Book e, posteriormente, no Broadway Journal, o conto propõe-se como um "verdadeiro final" para a célebre recolha de contos árabes As Mil e Uma Noites. Ao subverter o desfecho clássico, Poe constrói uma narrativa onde Xerazade, sentindo-se segura após o sultão revogar o seu decreto de morte, comete a indiscrição de lhe contar uma última aventura de Sinbad, o Marinheiro. O cerne desta brilhante sátira reside no facto de que as maravilhas descritas por Sinbad nesta oitava viagem não são produtos de magia, mas sim verdadeiros avanços tecnológicos e descobertas geográficas do século XIX. A presente apreciação crítica visa explorar a riqueza desta obra através de múltiplas lentes: a intertextualidade e reescrita, a crítica epistemológica à ciência e ao ceticismo, a sátira ao progresso industrial, e as profundas implicações metanarrativas sobre a própria arte de contar histórias.
    O primeiro aspeto de relevo na obra de Poe é a sua complexa operação de intertextualidade e reescrita, que permite compreender a transcendência de um texto em relação a obras anteriores. Poe apropria-se do texto clássico para criar uma nova narrativa de matriz paródica e satírica. Compreende-se que as traduções e adaptações literárias manipulam frequentemente as obras originais para as adequar às tendências ideológicas e culturais de uma determinada época. O Oriente imaginário foi uma construção fundamental para a literatura romântica ocidental, fornecendo um modelo de evasão estruturado no labirinto narrativo e na magia. Contudo, Poe subverte o fascínio vitoriano pelo sacrifício passivo da mulher, redesenhando a imagem de Xerazade. No seu conto, a narradora não é apenas uma sábia lutando pela sobrevivência, mas uma jovem "política" e maquiavélica, que manipula conscientemente o sultão. A nova imagem de Xerazade aproxima-a de uma hipnotizadora (mesmerista). O facto de Poe frisar o poder dos seus belos olhos negros sublinha a teoria da ótica espiritual, em que o olhar domina a perceção e a vontade alheia. Xerazade usa a sua voz e olhar para manter o monarca num estado de transe parcial; contudo, ao tentar disfarçar factos científicos sob o véu da magia, esse poder mesmérico desmorona-se, o sultão desperta do seu transe, revolta-se contra o que considera serem "falsidades", e sentencia-a à morte.
    A morte de Xerazade leva-nos ao núcleo epistemológico da obra, cristalizado na epígrafe do conto: "A verdade é mais estranha que a ficção". Historicamente, o monarca tolerou (e acreditou em) cavalos cor-de-rosa mecânicos, ratos azuis e génios aprisionados, mas recusa peremptoriamente a realidade comprovada do século XIX. Poe apresenta um catálogo impressionante de "milagres" baseados na ciência contemporânea, muitos deles retirados de publicações de divulgação científica da época. Entre os "monstros" e feitiçarias relatadas estão o telégrafo eletromagnético de Morse, que transmite inteligência instantaneamente, a máquina de calcular e a pilha voltaica. O "monstro colossal" que se move no mar expelindo fogo e fumo é, na realidade, um navio a vapor, enquanto o "pássaro" gigante que rapta casas e atira sacos de areia é um balão de ar quente. Descrevem-se ainda assombros industriais como uma máquina a vapor para incubar ovos (que originava uma "galinha mecânica sem penas") e a famosa invenção do Daguerreótipo, onde o mágico "ordena ao sol que lhe pinte o retrato, e o sol obedece".
    Não menos formidáveis são os fenómenos naturais e geográficos documentados na época, os quais são introduzidos no relato de Sinbad. Através de vastas notas de rodapé irónicas, atesta-se a existência de ilhas formadas por corais, as florestas petrificadas onde a madeira assume a solidez da pedra ou do ferro, e os rios de peixes cegos de colossais cavernas subterrâneas. Descrevem-se ainda episódios vulcânicos verídicos que lançaram quantidades impensáveis de cinza e metal fundido, escurecendo os céus e tornando o meio-dia mais negro que a meia-noite. A cada nova "verdade" relatada por Xerazade, as interrupções do rei tornam-se mais intolerantes ("Que disparate!", "Tolices!", "Patacoadas!"), sublinhando a incapacidade da autoridade tirânica em aceitar o que foge ao seu paradigma de realidade. O que mata Xerazade não é a estranheza do relato, mas sim o perigo inerente em dizer a verdade ao poder; apenas superstições e mitos falsos satisfazem plenamente a autoridade.
    A obra serve, simultaneamente, como um poderoso veículo de sátira ao progresso, à tecnologia e à cultura de massas. Torna-se evidente um intenso pessimismo e menosprezo pelos defensores fervorosos do progresso contínuo e pela democracia capitalista. Ao mascarar as maravilhas da Revolução Industrial americana e britânica sob a perspetiva de espanto (e posterior repúdio) de uma cultura antiga, a narrativa goza com o orgulho nacionalista e com as pretensões da civilização contemporânea. A sociedade do século XIX maravilha-se consigo mesma, mas a perspetiva do conto recorda-nos, através do olhar atónito de Sinbad, o quão antinaturais, desconfortáveis e "monstruosas" são as inovações mecanicistas da era vitoriana.
    É especialmente notável a crítica ao mercado literário e à proliferação editorial do tempo. Descreve-se um monstro que não é homem nem besta, com "cérebro de chumbo, misturado com matéria negra semelhante a pez", capaz de escrever dezenas de milhares de cópias numa hora sem a mínima alteração. Trata-se, obviamente, da imprensa a vapor, máquina que dominava o mercado jornalístico e criava uma superprodução de obras vulgares (a "massa" e gordura supérflua da literatura). O facto de se usar estas descrições num conto asiático-árabe reflete o brilhantismo na fusão de diferentes discursos (científico, económico, topográfico e orientalista) numa só forma narrativa de elevado valor estético. Existe também um subtexto político que parodia o mito nacional americano e o seu imperialismo, usando o tom da farsa para obrigar o público leitor a confrontar o absurdo da sua própria exploração e expansão acelerada.
    Por conseguinte, de uma perspetiva metanarrativa, "A Milésima Segunda História de Xerazade" estabelece uma profunda meditação sobre a didática da literatura e o ato de narrar. Alerta-se sobre as estratégias do narrador na sua tarefa de "seduzir" o ouvinte. O erro fatal da esposa do sultão, no conto de Poe, é não saber "ler o seu público" e transgredir a medida certa da paciência do recetor. Ela, insensatamente, prossegue a narrativa julgando-se já imune, mas falha em prever que o sultão era incapaz de assimilar o código linguístico e referencial do século XIX num contexto do seu próprio imaginário medieval. A narrativa, que até aí servira para evitar a morte através da suspensão da descrença baseada em mentiras e fantasia, perde a sua função salvífica quando a narradora insiste em provar realidades chocantes (como as terríveis "anquinhas" ou saiotes impostos pelos ditames da moda das mulheres ocidentais, a derradeira ofensa para o monarca). O sultão, sentindo dor de cabeça com as "falsidades", rompe com o encantamento do conto e sentencia a morte.
    Por fim, não podemos dissociar esta rutura do conceito de infinito literário. A genialidade estrutural de As Mil e Uma Noites residia no abismo do seu encadeamento de espelhos, no momento vertiginoso em que o rei escuta a própria história que está a viver, correndo o risco de ficar confinado num círculo sem fim. Esta vertigem literária espelha o universo. Contudo, através do humor grotesco, a narrativa introduz um corte drástico neste abismo mise-en-abyme oriental. Destrói-se a eternidade cíclica da literatura árabe e expõe-se a barreira epistemológica intransponível entre dois mundos: o mundo da fabulação mitológica do passado, que exige magia, e o mundo do positivismo industrial da era moderna, centrado em fórmulas da ciência. Ao decapitar a narradora basilar do Oriente, encerra-se simbolicamente uma era, demonstrando que, quando o conhecimento e o contexto do emissor e recetor estão desajustados, e a "maravilha" se transforma em engenharia árida, a magia do relato agoniza.
    Em suma, "A Milésima Segunda História de Xerazade" transcende largamente o epíteto de farsa ligeira. Reúne em pouco mais de vinte páginas um ataque feroz e refinado à materialidade utilitária da América vitoriana e ao etnocentrismo oitocentista, enquanto simultaneamente pisca o olho aos absurdos paradoxais do comportamento humano. A subversão do clássico literário permite questionar os limites da verosimilhança na obra de ficção. É a credibilidade — e não a exatidão factual — o fator basilar do sucesso de uma história. Confirma-se que uma mentira bem contada salva vidas, mas uma verdade prematura ou inoportuna conduz inexoravelmente ao carrasco. Através desta obra, deixa-se uma meditação hilariante e inesgotável sobre a fragilidade das nossas certezas conceptuais e o estranho, perpétuo encanto do nosso mundo real.

sábado, 1 de agosto de 2026

Análise do conto "A Milésima Segunda História de Xerazade"

    O conto apresenta uma versão alternativa e satírica do célebre conto de "As Mil e Uma Noites", baseada num livro raro que o narrador consultou, revelando o que verdadeiramente aconteceu na milésima segunda noite (que no original não existe, como se pode comprovar, desde logo, pelo seu título: Mil e Uma Noites).
    A narrativa começa por recapitular o contexto clássico: um monarca cruel, por ciúmes, decide desposar e executar uma donzela diferente todas as manhãs. Xerazade, a astuta filha do grão-vizir, decide casar-se com o rei para acabar com este massacre. O seu plano consiste em pedir à irmã que durma no mesmo quarto e, durante a madrugada, começar a contar-lhe histórias (como a de um gato preto e de um rato, ou de cavalos cor-de-rosa). Falando alto o suficiente para despertar o interesse do rei, mas interrompendo sempre a narrativa ao amanhecer, Xerazade consegue que o monarca adie a sua execução dia após dia, movido pela curiosidade.
    Após mil e uma noites, o rei decide finalmente abolir a cruel lei, e a vida de Xerazade é poupada. No entanto, é aqui que a história diverge do conhecimento comum. Na milésima segunda noite, movida por uma tagarelice incontrolável (que o narrador ironicamente atribui a uma herança direta de Eva), Xerazade decide acordar o rei, que dormia e ressonava profundamente. O seu objetivo é corrigir uma omissão e contar-lhe o verdadeiro desfecho das aventuras de Sinbad, o marinheiro.
    Na história que Xerazade passa a narrar, um Sinbad já idoso e aborrecido com a tranquilidade decide voltar a viajar. Enquanto espera por um navio na praia, juntamente com um carregador, avista uma mancha negra no horizonte que se aproxima a uma velocidade incrível, revelando-se um monstro colossal.
    A criatura é descrita de forma aterradora e mecânica: é maior que as árvores mais altas, negra com uma risca cor de sangue, coberta de escamas metálicas e não tem barbatanas nem boca. Move-se de forma estranha, tem olhos salientes e as suas narinas emitem um hálito ruidoso e estridente. Nas costas deste monstro viajam estranhas criaturas que se assemelham a homens, mas que vestem roupas justas e desconfortáveis e usam caixas quadradas na cabeça. Quando o monstro colossal atinge a costa, emite um clarão de fogo, uma nuvem de fumo e um estrondo semelhante a um trovão, após o qual os estranhos homens-animais começam a desembarcar. (A descrição sugere fortemente o espanto de uma civilização antiga perante um navio a vapor moderno).
    Após ser capturado, Sinbad arrepende-se inicialmente da sua ousadia, mas decide adaptar-se. Com esforço, consegue cair nas boas graças do líder dos marinheiros e aprende a sua linguagem áspera, que o narrador, de forma satírica, associa ao dialeto dos habitantes de um bairro londrino. A partir daí, relata as maravilhas que encontra, e o conto foca-se na progressiva perda de paciência do monarca perante o que ele considera ser um rol de mentiras intoleráveis. De facto, no início, o rei reage às descrições científicas com um cético e repetido "Hum!". É assim que responde ao ouvir falar das ilhas formadas por corais (descritos como "animaizinhos semelhantes a lagartas"), das vastas florestas petrificadas de pedra maciça, da colossal caverna com rios onde nadam peixes sem olhos, e dos abismos vulcânicos que cospem rios de metal fundido e cinzas que escurecem o sol. Contudo, a sua tolerância quebra-se à medida que os fenómenos descritos se tornam mais bizarros. A sequência das suas interrupções espelha a sua frustração:
  • Quando Xerazade descreve uma floresta luxuriante submersa no fundo de um lago transparente, o rei protesta com um "Eh, lá!".
  • Ao ouvir falar de uma atmosfera tão densa que poderia suportar o peso do ferro, o monarca não se contém e grita: "Que disparate!".
  • A chegada a um território sombrio, onde se deparam com o que o rei apelida de "Reino do Horror", arranca-lhe um assustado "Safa!".
    O limite absoluto da paciência do rei (e o ponto onde o excerto termina) ocorre quando Sinbad descreve as bizarrias biológicas e botânicas deste novo reino. Ele relata ter visto miríades de monstros com chifres que cavam cavernas em forma de funil para capturar e sugar o sangue de outros animais (uma descrição dramatizada do inseto formiga-leão). A isto, juntam-se descrições de plantas que crescem no ar sem terra (orquídeas), vegetais que se alimentam da substância de animais vivos, fungos que brilham com fogo intenso na escuridão e flores que parecem respirar e mover-se à sua vontade. Perante estas maravilhas finais — que as notas de rodapé continuam a comprovar como factos científicos documentados na época —, a suspensão da descrença do rei colapsa por completo, rejeitando a própria realidade da Natureza com um exasperado e definitivo "Ora bolas!".
    A narrativa atinge o seu clímax à medida que Sinbad prossegue com a descrição dos "prodígios" desta estranha nação de feiticeiros. Na verdade, estas maravilhas incompreensíveis não são mais do que os grandes avanços tecnológicos, científicos e industriais do século XIX, descritos através da perspetiva de uma civilização antiga. Xerazade relata a existência de bestas colossais feitas de ferro, com sangue de água a ferver, que se alimentam de pedras negras e puxam cargas pesadas a velocidades superiores às do voo dos pássaros — uma clara alusão aos comboios a vapor. A lista de milagres modernos inclui ainda galinhas mecânicas sem penas que chocam centenas de ovos (incubadoras artificiais), um autómato de bronze e madeira capaz de vencer qualquer humano no xadrez, e uma criatura que realiza cálculos matemáticos complexos num segundo (uma referência à máquina de calcular de Babbage). Xerazade menciona até a capacidade de criar gelo numa fornalha, de obrigar o Sol a pintar retratos (o daguerreótipo ou fotografia) e de observar a luz de astros que existiam milhões de anos antes da criação da Terra (astronomia avançada).
    A cada nova revelação, a irritação do rei agrava-se. As verdades científicas são recebidas com exclamações cada vez mais coléricas: "Disparate!", "Tolices!" e "Patacoadas!". O monarca rejeita por completo a validade do mundo moderno. Contudo, o golpe final na paciência do rei — e o erro fatal de Xerazade — não é provocado por nenhuma invenção mecânica, mas sim por um capricho da moda. A narradora começa a descrever as mulheres daquela nação distante, explicando que, por influência de um "génio maligno", acreditam que a beleza física reside numa protuberância abaixo das costas. Para atingirem essa perfeição, enchem as saias de almofadas até adquirirem uma silhueta semelhante à de um dromedário (uma sátira brilhante de Edgar Allan Poe à moda vitoriana das anquinhas ou saiotes com volume traseiro). Para o rei, esta é a derradeira e imperdoável mentira. Incapaz de conceber que as mulheres pudessem desfigurar o próprio corpo de forma tão ridícula, o monarca perde as estribeiras. Grita para Xerazade se calar, queixa-se de uma terrível dor de cabeça provocada por aquele rol de falsidades e, sentindo-se insultado na sua inteligência, decreta o fim da clemência. Sem mais demoras, ordena que Xerazade se levante e seja estrangulada.
    O conto conclui-se com uma ironia suprema. Xerazade, surpreendida e profundamente ofendida com a atitude do rei, submete-se resignada ao seu destino. Todavia, no derradeiro momento, enquanto lhe apertam a corda ao pescoço, o seu maior consolo não é a tristeza pela vida perdida, mas sim a certeza de que o seu marido é um estúpido que, com a sua impaciência, acabou de se privar de ouvir o resto das suas maravilhosas e inconcebíveis aventuras.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...