Português: Análise do conto "A Milésima Segunda História de Xerazade"

sábado, 1 de agosto de 2026

Análise do conto "A Milésima Segunda História de Xerazade"

    O conto apresenta uma versão alternativa e satírica do célebre conto de "As Mil e Uma Noites", baseada num livro raro que o narrador consultou, revelando o que verdadeiramente aconteceu na milésima segunda noite (que no original não existe, como se pode comprovar, desde logo, pelo seu título: Mil e Uma Noites).
    A narrativa começa por recapitular o contexto clássico: um monarca cruel, por ciúmes, decide desposar e executar uma donzela diferente todas as manhãs. Xerazade, a astuta filha do grão-vizir, decide casar-se com o rei para acabar com este massacre. O seu plano consiste em pedir à irmã que durma no mesmo quarto e, durante a madrugada, começar a contar-lhe histórias (como a de um gato preto e de um rato, ou de cavalos cor-de-rosa). Falando alto o suficiente para despertar o interesse do rei, mas interrompendo sempre a narrativa ao amanhecer, Xerazade consegue que o monarca adie a sua execução dia após dia, movido pela curiosidade.
    Após mil e uma noites, o rei decide finalmente abolir a cruel lei, e a vida de Xerazade é poupada. No entanto, é aqui que a história diverge do conhecimento comum. Na milésima segunda noite, movida por uma tagarelice incontrolável (que o narrador ironicamente atribui a uma herança direta de Eva), Xerazade decide acordar o rei, que dormia e ressonava profundamente. O seu objetivo é corrigir uma omissão e contar-lhe o verdadeiro desfecho das aventuras de Sinbad, o marinheiro.
    Na história que Xerazade passa a narrar, um Sinbad já idoso e aborrecido com a tranquilidade decide voltar a viajar. Enquanto espera por um navio na praia, juntamente com um carregador, avista uma mancha negra no horizonte que se aproxima a uma velocidade incrível, revelando-se um monstro colossal.
    A criatura é descrita de forma aterradora e mecânica: é maior que as árvores mais altas, negra com uma risca cor de sangue, coberta de escamas metálicas e não tem barbatanas nem boca. Move-se de forma estranha, tem olhos salientes e as suas narinas emitem um hálito ruidoso e estridente. Nas costas deste monstro viajam estranhas criaturas que se assemelham a homens, mas que vestem roupas justas e desconfortáveis e usam caixas quadradas na cabeça. Quando o monstro colossal atinge a costa, emite um clarão de fogo, uma nuvem de fumo e um estrondo semelhante a um trovão, após o qual os estranhos homens-animais começam a desembarcar. (A descrição sugere fortemente o espanto de uma civilização antiga perante um navio a vapor moderno).
    Após ser capturado, Sinbad arrepende-se inicialmente da sua ousadia, mas decide adaptar-se. Com esforço, consegue cair nas boas graças do líder dos marinheiros e aprende a sua linguagem áspera, que o narrador, de forma satírica, associa ao dialeto dos habitantes de um bairro londrino. A partir daí, relata as maravilhas que encontra, e o conto foca-se na progressiva perda de paciência do monarca perante o que ele considera ser um rol de mentiras intoleráveis. De facto, no início, o rei reage às descrições científicas com um cético e repetido "Hum!". É assim que responde ao ouvir falar das ilhas formadas por corais (descritos como "animaizinhos semelhantes a lagartas"), das vastas florestas petrificadas de pedra maciça, da colossal caverna com rios onde nadam peixes sem olhos, e dos abismos vulcânicos que cospem rios de metal fundido e cinzas que escurecem o sol. Contudo, a sua tolerância quebra-se à medida que os fenómenos descritos se tornam mais bizarros. A sequência das suas interrupções espelha a sua frustração:
  • Quando Xerazade descreve uma floresta luxuriante submersa no fundo de um lago transparente, o rei protesta com um "Eh, lá!".
  • Ao ouvir falar de uma atmosfera tão densa que poderia suportar o peso do ferro, o monarca não se contém e grita: "Que disparate!".
  • A chegada a um território sombrio, onde se deparam com o que o rei apelida de "Reino do Horror", arranca-lhe um assustado "Safa!".
    O limite absoluto da paciência do rei (e o ponto onde o excerto termina) ocorre quando Sinbad descreve as bizarrias biológicas e botânicas deste novo reino. Ele relata ter visto miríades de monstros com chifres que cavam cavernas em forma de funil para capturar e sugar o sangue de outros animais (uma descrição dramatizada do inseto formiga-leão). A isto, juntam-se descrições de plantas que crescem no ar sem terra (orquídeas), vegetais que se alimentam da substância de animais vivos, fungos que brilham com fogo intenso na escuridão e flores que parecem respirar e mover-se à sua vontade. Perante estas maravilhas finais — que as notas de rodapé continuam a comprovar como factos científicos documentados na época —, a suspensão da descrença do rei colapsa por completo, rejeitando a própria realidade da Natureza com um exasperado e definitivo "Ora bolas!".
    A narrativa atinge o seu clímax à medida que Sinbad prossegue com a descrição dos "prodígios" desta estranha nação de feiticeiros. Na verdade, estas maravilhas incompreensíveis não são mais do que os grandes avanços tecnológicos, científicos e industriais do século XIX, descritos através da perspetiva de uma civilização antiga. Xerazade relata a existência de bestas colossais feitas de ferro, com sangue de água a ferver, que se alimentam de pedras negras e puxam cargas pesadas a velocidades superiores às do voo dos pássaros — uma clara alusão aos comboios a vapor. A lista de milagres modernos inclui ainda galinhas mecânicas sem penas que chocam centenas de ovos (incubadoras artificiais), um autómato de bronze e madeira capaz de vencer qualquer humano no xadrez, e uma criatura que realiza cálculos matemáticos complexos num segundo (uma referência à máquina de calcular de Babbage). Xerazade menciona até a capacidade de criar gelo numa fornalha, de obrigar o Sol a pintar retratos (o daguerreótipo ou fotografia) e de observar a luz de astros que existiam milhões de anos antes da criação da Terra (astronomia avançada).
    A cada nova revelação, a irritação do rei agrava-se. As verdades científicas são recebidas com exclamações cada vez mais coléricas: "Disparate!", "Tolices!" e "Patacoadas!". O monarca rejeita por completo a validade do mundo moderno. Contudo, o golpe final na paciência do rei — e o erro fatal de Xerazade — não é provocado por nenhuma invenção mecânica, mas sim por um capricho da moda. A narradora começa a descrever as mulheres daquela nação distante, explicando que, por influência de um "génio maligno", acreditam que a beleza física reside numa protuberância abaixo das costas. Para atingirem essa perfeição, enchem as saias de almofadas até adquirirem uma silhueta semelhante à de um dromedário (uma sátira brilhante de Edgar Allan Poe à moda vitoriana das anquinhas ou saiotes com volume traseiro). Para o rei, esta é a derradeira e imperdoável mentira. Incapaz de conceber que as mulheres pudessem desfigurar o próprio corpo de forma tão ridícula, o monarca perde as estribeiras. Grita para Xerazade se calar, queixa-se de uma terrível dor de cabeça provocada por aquele rol de falsidades e, sentindo-se insultado na sua inteligência, decreta o fim da clemência. Sem mais demoras, ordena que Xerazade se levante e seja estrangulada.
    O conto conclui-se com uma ironia suprema. Xerazade, surpreendida e profundamente ofendida com a atitude do rei, submete-se resignada ao seu destino. Todavia, no derradeiro momento, enquanto lhe apertam a corda ao pescoço, o seu maior consolo não é a tristeza pela vida perdida, mas sim a certeza de que o seu marido é um estúpido que, com a sua impaciência, acabou de se privar de ouvir o resto das suas maravilhosas e inconcebíveis aventuras.

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