Português: Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 2.ª fase: Pergunta 5 do Grupo I

domingo, 2 de agosto de 2026

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 2.ª fase: Pergunta 5 do Grupo I

 Pergunta: incide sobre o excerto de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, e o enunciado dita o seguinte: "Explicite dois objetivos subjacentes às falas de Jorge."

    Vamos desmontar o raciocínio, passo a passo, para perceber como chegar à resposta máxima sem margem para dúvidas.
Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado
  1. O Verbo de Comando (O que fazer?): "Explicite" Regra: Explicitar significa tornar claro. O aluno não pode apenas copiar as falas de Jorge; tem de descodificar a intenção invisível por detrás das suas palavras. Tem de verbalizar para que é que Jorge está a dizer aquilo.
  2. A Quantidade (Quantos?): "dois objetivos" Regra: Têm de identificar exatamente duas intenções diferentes de Frei Jorge ao longo do diálogo.
  3. O Alvo de Pesquisa (Onde?): "subjacentes às falas de Jorge" Regra: O foco da leitura muda totalmente. O aluno tem de ignorar o drama do Manuel por um momento e olhar exclusivamente para as intervenções de Jorge e para as didascálias (indicações cénicas) associadas a ele.
(Nota: Embora o enunciado não diga expressamente "fundamente com elementos textuais", num exame de Português, o aluno de excelência comprova sempre as suas afirmações com pequenas transcrições ou referências ao texto para blindar a resposta.)
Passo 2: A Recolha de Dados
    O aluno vai ao texto e isola as três únicas vezes em que o Jorge fala. Vamos observar cada uma delas:
  • Intervenção 1: Jorge diz "Paciência, paciência: os seus juízos são imperscrutáveis" e a didascália indica que ele (Acalma e faz sentar o irmão).
    • O que é que o aluno retira daqui? O primeiro objetivo de Jorge é claramente acalmar o estado de exaltação e desespero de Manuel, tentando incutir-lhe resignação perante a vontade de Deus.
  • Intervenção 2: Jorge confronta o irmão dizendo: "Tu chamas-te o homem mais infeliz da terra... Já te esqueceste que ainda está vivo aquele...".
    • O que é que o aluno explicita daqui? O segundo objetivo de Jorge é questionar e travar o discurso egocêntrico de Manuel, que se julga a maior vítima de toda aquela tragédia.
  • Intervenção 3: Jorge diz para ele considerar "se podes pleitear misérias com esse homem" (D. João) que conheceu "essoutra agonia maior".
    • O que é que o aluno explicita daqui? O terceiro objetivo de Jorge (que complementa o segundo) é apaziguar o sofrimento do irmão através da relativização, ou seja, obrigá-lo a ver que a sua dor, por muito grande que seja, é inferior à tragédia vivida por D. João de Portugal.
    O texto deu-nos três objetivos claros. Para a resposta, o aluno só precisa de escolher e desenvolver dois!
Passo 3: A Construção da Resposta
    Agora, passamos as nossas descobertas para a folha de prova. Como sempre, usamos a regra dos conectores para separar visualmente as duas ideias, garantindo que o corretor encontra imediatamente os "dois objetivos" exigidos.

Resposta:
    Através das falas e atitudes de Jorge no excerto, é possível explicitar dois objetivos distintos na sua interação com Manuel de Sousa Coutinho.
    Em primeiro lugar, Jorge tem o objetivo de acalmar o ânimo fortemente exaltado do irmão. Perante o desespero e a aflição de Manuel, tenta apaziguá-lo e incutir-lhe resignação face aos desígnios divinos, aconselhando-lhe «Paciência, paciência: os seus juízos são imperscrutáveis» e fazendo-o sentar-se.
    Em segundo lugar, Jorge tem o objetivo de questionar os pressupostos do discurso do irmão e relativizar a sua dor. Quando Manuel se autoproclama «o homem mais infeliz da terra», Jorge procura fazê-lo ganhar perspetiva, recordando-lhe que há outras vítimas da tragédia («Já te esqueceste que ainda está vivo aquele…»). Deste modo, pretende confrontar o sofrimento de Manuel com a «agonia maior» de D. João de Portugal, que «padeceu mais, padeceu mais longamente», para que o irmão compreenda que não tem o direito de se considerar a maior e única vítima daquela fatalidade.

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