Esta divisão espacial estabelece uma ponte perfeita para o desenrolar da narrativa: Veneza é o espaço da realidade financeira, do risco marítimo e do crédito; Belmonte é o destino de sonho, um refúgio de arte, riqueza herdada e romance que as personagens procuram alcançar.
A segunda cena decorre decorre no interior de um quarto no castelo de Pórcia, em Belmonte. Este espaço fechado e doméstico funciona como um refúgio de confidência feminina, propício ao desabafo sincero e à discussão de segredos e angústias íntimas entre Pórcia e a sua dama, Nerissa. Contudo, este micro-espaço revela também uma dimensão de clausura e limitação, uma vez que representa o local onde a liberdade e a vontade de Pórcia se encontram aprisionadas pelas regras rígidas do testamento do seu falecido pai. A própria imaginação espacial das personagens projeta construções arquitetónicas para dentro do aposento, como quando Pórcia evoca a conversão hipotética de capelas em igrejas e de choças de pobres em palácios para ilustrar a distância que separa o conhecimento moral da sua execução prática. Além disso, é nesta atmosfera reservada que se delineia o espaço moral e físico onde se guardam os três cofres de ouro, prata e chumbo, os quais funcionam como o centro físico em torno do qual se decidirá o destino matrimonial da herdeira.
Em contrapartida ao confinamento deste quarto, o espaço geográfico alarga-se a uma dimensão cosmopolita e internacional extraordinária, transformando o castelo de Belmonte num autêntico cruzamento de caminhos do mundo renascentista. Embora a ação decorra num local isolado e doméstico, este aposento privado funciona como um íman geopolítico que atrai pretendentes das mais diversas e distantes paragens da Europa e do Norte de África. Através do diálogo e das notícias trazidas pelo criado, delineia-se um vasto mapa geográfico que evoca o Reino de Nápoles, o Palatinado, a França, a Inglaterra, a Escócia, o Ducado de Saxe na Alemanha e a vizinha República de Veneza, culminando com a chegada do correio que anuncia a vinda do príncipe de Marrocos. Assim, o espaço geográfico de Belmonte deixa de ser uma mera propriedade isolada para se assumir como um centro de convergência internacional, onde as diferentes culturas, línguas, modas e territórios do mundo conhecido se encontram e são avaliados, unindo a quietude de um quarto de castelo ao dinamismo expansivo do mundo exterior.
O espaço onde se desenrola a cena I do ato II é Belmonte, especificamente um quarto no castelo de Pórcia. Esta localização imediata configura um espaço interior, privado e aristocrático, que se distancia radicalmente do realismo pragmático, comercial e fustigado pela incerteza que caracteriza as praças públicas e o Rialto de Veneza. O castelo funciona como um palácio isolado do mundo exterior, regido por regras estritas, heranças solenes e uma ordem quase mítica, servindo de cenário perfeito para a encenação de um romance idealizado e de provações morais. A atmosfera deste aposento é solenizada por elementos sensoriais e teatrais marcantes, com destaque para os sons de clarins que emolduram o início e o desfecho da cena. Estes acordes musicais majestosos purificam o espaço físico, elevando a receção do visitante a um nível de dignidade cortesã e protocolar. A presença física do Príncipe de Marrocos e de Pórcia, acompanhados pelos seus respetivos séquitos e comitivas, preenche o espaço com uma dimensão cenográfica ritualística, onde cada palavra e gesto parecem seguir uma coreografia previamente estudada. Embora a ação dramática permaneça confinada a este quarto de dormir ou de audiências, o discurso das personagens projeta e evoca uma expansão espacial significativa dentro do domínio de Belmonte, ligando-o a outros locais que estruturam o teste do destino. O primeiro é o templo, o espaço sagrado e religioso para onde as personagens se deslocam imediatamente a fim de orar e onde o pretendente deve proferir o seu solene juramento de renúncia. O segundo é a sala de jantar ou de banquetes, um espaço de comensalidade e hospitalidade que serve para estreitar os laços sociais antes do clímax dramático. Por fim, o espaço mais importante e misterioso, para onde o Príncipe pede inicialmente para ser conduzido, é a sala ou aposento dos cofres, o local onde o segredo da herança de Pórcia está guardado. O castelo revela-se, assim, um espaço físico segmentado e altamente hierarquizado, onde a transição entre as diferentes divisões simboliza as etapas de uma provação espiritual, moral e social pela qual todos os pretendentes têm de passar.
A ação da cena III do ato II decorre especificamente num quarto no interior da casa de Shylock, em Veneza. Este micro-espaço interior, longe de representar um lar ou um refúgio de intimidade familiar, é categorizado sem hesitação por Jéssica como um verdadeiro inferno, o que transforma a habitação numa prisão psicológica e espiritual caracterizada pela melancolia, pela austeridade e pela opressão, onde a presença de Lanceloto constituía o único elemento capaz de trazer alguma alegria. Para além da sua dimensão sombria, este quarto configura-se como um território dominado pelo medo e pela constante vigilância patriarcal. A urgência que Jéssica imprime à despedida do criado, motivada pelo receio explícito de que o pai os veja a conversar, evidencia que no seio desta habitação judaica não existe espaço para a privacidade ou para a livre expressão de afetos. Assim, o quarto converte-se paradoxalmente num local de resistência clandestina, no qual a jovem arquiteta a sua rebeldia silenciosa através da entrega secreta da carta e de um ducado. Por fim, a atmosfera fechada, isolada e silenciosa deste aposento estabelece uma oposição direta com o espaço exterior que as personagens evocam. Ao fazer menção à ceia que terá lugar em casa de Bassânio, o novo amo de Lanceloto, Jéssica projeta na mente do espetador a imagem de uma Veneza vibrante, festiva, integrada e comunitária, associada aos banquetes dos cristãos. A carta clandestina que viaja com o lacaio funciona, deste modo, como uma ponte física e simbólica que rompe a barreira e o isolamento da casa de Shylock, cruzando a fronteira em direção ao espaço de liberdade e sociabilidade onde se encontra Lourenço, antecipando o momento em que a própria Jéssica abandonará de vez a soleira da porta paterna para abraçar uma nova vida.