Finalmente, as transições espaciais e rituais da cena carregam uma forte dimensão simbólica. A ida ao templo antes da escolha representa o caráter sagrado, jurídico e irrevogável do juramento que o Príncipe deve prestar, enquanto o jantar simboliza a hospitalidade cortesã e a comunhão social que pacificam o espaço antes da provação definitiva. Todo este rito é emoldurado pelos sons de clarins que abrem e fecham a cena, simbolizando a teatralidade, a pompa régia e a dignidade cerimonial que elevam este momento de escolha a um rito de passagem quase mitológico.
20. Cegueira de Gobbo
Sendo o pai incapaz de reconhecer o seu próprio filho devido à extrema falta de visão, a sua debilidade física funciona como uma metáfora da ignorância humana e da limitação da perceção. Este equívoco tátil e visual espelha a cegueira metafórica que afeta outras personagens: antecipa a incapacidade de Shylock em enxergar a insatisfação da sua filha e a humanidade do seu criado, ao mesmo tempo que prefigura o erro dos pretendentes de Belmonte, que escolhem os cofres guiados pelo caprichoso e enganador testemunho dos olhos.
21. O bordão
Lanceloto, como o cajado que ampara o pai idoso, simboliza a continuidade geracional, a dependência mútua e a preservação do núcleo familiar. Este laço de amor incondicional, que sobrevive mesmo após as partidas de Lanceloto, oferece um contraste intencional com a iminente rutura na casa de Shylock, onde Jéssica se prepara para quebrar a linhagem e o amparo do pai ao fugir com um cristão.
22. O presente de pombos
O presente de pombos trazido pelo Velho Gobbo simboliza a oferenda humilde e o sacrifício rústico para obter favor. Ao desviar o presente originalmente destinado a Shylock para o oferecer a Bassânio, opera-se uma transição simbólica de lealdade. No plano teológico subjacente, esta mudança representa a transição da severidade inflexível da lei antiga, associada à fome e à rigidez da casa de Shylock, para a promessa de graça, generosidade e comensalidade associada ao banquete de Bassânio.
23. O contraste entre as costelas de Lanceloto e a farda luzidia
A oposição física entre as costelas visíveis de Lanceloto e a farda mais luzida prometida pelo seu novo amo sintetiza o conflito entre a avareza e a prodigalidade venezianas. A fome do criado simboliza a natureza estéril do capital de Shylock, que acumula riqueza material, mas priva os que o rodeiam de nutrição e vida. Em contrapartida, a farda sumptuosa que Bassânio se apressa a encomendar simboliza a estética das aparências e do desperdício da fidalguia cristã, que prioriza o brilho exterior e o consumo ostentoso, mesmo quando assente na ruína financeira e em dinheiro emprestado.
24. A leitura da palma da mão
A quiromancia ou leitura da palma da mão realizada por Lanceloto surge como uma versão popular, carnal e alegre do destino. Enquanto as elites em Belmonte se submetem a uma solene e austera lotaria moral mediada pelos cofres, o lacaio encontra a sua promessa de felicidade (expressa em casamentos, viúvas e fugas milagrosas à morte) inscrita nas linhas simples da sua própria carne. Trata-se de uma dessacralização humorística do fado, onde a sorte é tratada com otimismo supersticioso e vitalidade carnal.
25. A casa de Shylock enquanto inferno
Jéssica define a sua própria habitação como um "inferno", o que significa que, longe de constituir um espaço de comunhão, proteção ou calor familiar, a casa de Shylock é simbolicamente representada como um território de reclusão espiritual, silêncio imposto e esterilidade afetiva. Este "inferno" doméstico opõe-se diretamente à Veneza festiva e musical dos cristãos, funcionando como uma metáfora da própria rigidez e austeridade que Shylock personifica. A partida de Lanceloto, descrito como o único elemento capaz de mitigar a melancolia daquele lar, simboliza a perda definitiva da última réstia de calor humano daquela casa, deixando Jéssica numa solidão absoluta que precipita e justifica a urgência da sua própria fuga.
26. O ducado
O ducado oferecido por Jéssica a Lanceloto assume uma dimensão simbólica que transcende o seu valor económico. Enquanto para Shylock o dinheiro é um fim em si mesmo, acumulado de forma estéril e calculista, para a sua filha a moeda converte-se num instrumento de generosidade, gratidão e humanidade. Ao presentear o criado que se despede, Jéssica opera uma purificação simbólica do ouro do pai, utilizando-o para cimentar laços de afeto e cumplicidade. Este ato de dar livremente prefigura a sua posterior apropriação das riquezas de Shylock durante a fuga, sugerindo que, na sua perspetiva, os bens materiais só ganham verdadeiro significado quando são colocados ao serviço da libertação pessoal e do amor.
27. A carta de Jéssica
A carta clandestina que Jéssica confia a Lanceloto para que seja entregue a Lourenço funciona como o símbolo material da conspiração, da agência e da rutura com a autoridade patriarcal. Num ambiente onde a voz da jovem é silenciada pela severidade do pai, a carta representa a materialização do seu próprio arbítrio e do seu desejo de autodeterminação. Ela é a ponte física que transpõe os muros claustrofóbicos da casa de Shylock e alcança o espaço público e livre de Veneza, ligando o isolamento doméstico à promessa de salvação representada pela ceia e pela festa dos cristãos. Esta mensagem secreta simboliza a inteligência e a coragem ativa de Jéssica, que deixa de ser uma peça passiva no tabuleiro familiar para se assumir como arquiteta do seu próprio destino.
28. As lágrimas de Lanceloto
As lágrimas de Lanceloto ao despedir-se de Jéssica constituem um poderoso símbolo da universalidade dos afetos humanos, que desafia e contorna as rígidas barreiras religiosas e sociais impostas pela sociedade veneziana. O choro sincero do criado, que confessa que a emoção lhe retira o ânimo e a capacidade de falar, demonstra que a empatia e a ligação afetiva não conhecem fronteiras confessionais. Ao apelidar Jéssica de "linda pagã" e "amável judia", Lanceloto utiliza o paradoxo linguístico para simbolizar a disjunção entre a identidade religiosa oficial da jovem e a sua inegável virtude e beleza pessoal. Este momento de dor partilhada revela que, sob a capa dos discursos de exclusão e preconceito que dividem a cidade, pulsa uma humanidade comum que une as personagens nas suas vivências mais íntimas.
29. A mascarada
A mascarada planeada pelos jovens venezianos surge como um símbolo central da suspensão das regras sociais e religiosas que governam a cidade. O disfarce e o uso de máscaras oferecem uma cobertura ritualizada para a transgressão, permitindo que a ordem estabelecida seja temporariamente desafiada. É sob este pretexto de folia e anonimato que Lourenço e os seus amigos organizam a fuga de Jéssica, revelando como o espaço público da festa carnavalesca se converte num território de emancipação e audácia juvenil.
30. O archote
O debate em torno do archote e da necessidade de guias iluminados para o cortejo introduz a dialética elementar entre a luz e as trevas. A revelação de que Jéssica assumirá o papel de porta-archote é profundamente simbólica. A jovem, que momentos antes vivia confinada na escuridão e no isolamento doméstico do pai, é agora designada como a própria portadora da luz. Ao guiar o grupo com o seu archote, Jéssica deixa de ser uma figura passiva e sequestrada para se transformar na força ativa que ilumina o seu próprio caminho em direção à liberdade e ao amor.
Por outro lado, a recusa inicial de Jéssica em assumir o papel de porta-archote introduzem uma rica simbologia sobre a luz, a exposição e a vergonha moral. Jéssica hesita em segurar a chama por recear que a claridade ilumine a sua própria vergonha — a transgressão de estar vestida como homem e de atraiçoar o seu lar. O archote simboliza a verdade que expõe a fraude e o pecado aos olhos do mundo. No entanto, ao aceitar finalmente transportar a luz, opera-se uma inversão simbólica: a jovem que vivia aprisionada nas trevas da casa austera do pai passa a ser a portadora da luz que guia os amantes, transformando-se de objeto passivo de um rapto em sujeito ativo da sua própria emancipação e guia do seu caminho em direção à liberdade.
31. A caligrafia de Jéssica
A caligrafia de Jéssica e o elogio poético que Lourenço lhe faz, declarando que a mão que escreveu a carta é mais branca do que o próprio papel, carregam uma forte simbologia de pureza e nobreza de espírito. Numa sociedade marcada por profundas tensões religiosas, a "brancura" da mão de Jéssica é associada pelo seu amante à virtude, à beleza e à elevação moral, distanciando-a simbolicamente da escuridão espiritual que os cristãos atribuem à conduta e à fé do seu pai.
32. O disfarce de Jéssica
O disfarce de pajem e a apropriação dos valores e joias paternos completam esta rede de símbolos. O traje masculino de pajem simboliza a inversão de papéis e a conquista de uma mobilidade física que era vedada a Jéssica enquanto mulher confinada ao lar. Ao mesmo tempo, o ouro e as joias que ela traz consigo deixam de ser símbolos de acumulação estéril e avareza para se converterem em recursos dinâmicos que financiam a sua nova vida, simbolizando a transição do materialismo rígido para a liberdade afetiva e social do mundo cristão.
Por outro lado, o disfarce masculino de pajem adotado por Jéssica constitui um símbolo central de metamorfose e de dissolução de identidades. Ao assumir vestes masculinas, a jovem não recorre apenas a um expediente prático de fuga, mas atravessa simbolicamente as fronteiras de género, de religião e de pertença familiar que a limitavam. Esta transição física representa a renúncia voluntária à sua condição de filha obediente e à sua herança judaica para nascer como um novo sujeito no universo cristão. A sua própria declaração de que o amor é cego e impede os amantes de verem as suas loucuras simboliza a suspensão temporária do discernimento moral sob o efeito da paixão, legitimando a transgressão através de uma idealização romântica que esconde a gravidade da traição filial.
33. O sonho com sacos de dinheiro
Na cena V do ato II, Shylock afirma que sonhou a noite inteira com sacos de dinheiro. Para o credor, a riqueza é o único garante de segurança e estabilidade num mundo que lhe é hostil; por isso, o sonho não é uma mera fantasia noturna, mas um aviso premonitório de desgraça e perda iminente. Este pressentimento, que ele corretamente intui como uma conspiração em curso, simboliza a sua extrema vulnerabilidade psicológica: embora a sua intuição económica detete a ameaça ao seu património, ele permanece cego em relação à rebeldia íntima da sua própria filha, que se prepara para transformar essa perda material e afetiva numa realidade devastadora. Ou seja, para o mercador, cuja vida e segurança giram em torno do seu património, o sonho funciona como um aviso supersticioso e premonitório de que a sua riqueza está em perigo. E, de facto, tem razão, dado que ele antecipa com precisão cirúrgica o roubo dos seus cofres e a fuga da sua filha Jéssica, que terão lugar nessa noite.
34. As chaves da casa de Shylock
Shylock confia a Jéssica as chaves da casa antes de partir para a ceia dos cristãos. Ao entregar-lhe, dessa forma, as chaves e a guarda dos seus haveres, o agiota julga estar a proteger a sua fortaleza doméstica através de preceitos puramente mecânicos e pragmáticos. Este gesto carrega uma ironia dramática avassaladora: as chaves, que tradicionalmente simbolizam a autoridade, a confiança e a posse de um tesouro, são entregues precisamente à pessoa que planeia usar essa mesma chave para abrir a casa por dentro e consumar a fuga. Shylock agarra-se ao provérbio de que o que está debaixo de chave está seguro, ignorando que as fechaduras mecânicas são inúteis quando os laços morais e afetivos da família já foram totalmente rompidos.
35. A ordem para fechar as janelas
Shylock ordena que as janelas de casa, que equipa aos ouvidos da sua residência, sejam fechadas, o que simboliza o isolamento voluntário, a recusa de comunicação e a rejeição absoluta da alteridade representada pelo mundo cristão. Para o agiota, a sua habitação deve permanecer uma fortaleza austera, totalmente impermeável à mascarada exterior, que ele condena como uma "loucura estúpida" associada a "caras desfiguradas" e ao ruído estridente de pífaros e tambores. As janelas trancadas representam a tentativa de bloquear a entrada da folia, da música e do prazer no seu lar sombrio. Contudo, a janela adquire um sentido ambivalente através do sussurro secreto de Lanceloto, que aconselha Jéssica a espreitar para a rua à procura de um cristão, transformando este limite arquitetónico num símbolo de esperança, transição e libertação para a jovem.
36. O juramento de Shylock pelo bordão de Jacob
Este juramento reforça a dimensão religiosa e identitária do isolamento do judeu. O bordão de Jacob simboliza a sua profunda vinculação à herança patriarcal judaica e ao rigor da lei antiga. Ao evocar esta figura sagrada, Shylock confere uma solenidade solene à sua atitude defensiva e ao seu ódio em relação aos cristãos, justificando a sua ida à ceia não por afeto, mas unicamente pelo prazer de comer à custa da prodigalidade alheia. O bordão funciona, assim, como o pilar espiritual que legitima a sua barreira intransponível contra o exterior.
37. A associação de Lanceloto a um zangão nas colmeias
A caracterização de Lanceloto como um zângão nas colmeias sintetiza a visão utilitarista e puritana que Shylock tem do trabalho e da existência. O zângão, que consome o mel sem produzir, simboliza o desperdício, a preguiça e a voracidade estéril, vícios que o agiota expulsa com agrado do seu lar para que ajudem a desgastar as finanças de Bassânio. Esta obsessão com a utilidade e o cálculo racional colide, no entanto, com a melancolia do monólogo final de Jéssica. Ao constatar que a sua fuga resultará na perda mútua de um pai e de uma filha, Jéssica confronta o espírito estritamente económico do pai com o custo humano e irreparável de uma rutura familiar definitiva.
38. O navio que parte
Na cena VI do ato II, através das figuras do convidado que se levanta saciado de um banquete, do cavalo que trilha com enfado um caminho já conhecido e, fundamentalmente, do navio que parte majestoso e decorado com galhardetes para regressar destroçado e arruinado pelas brisas libertinas, simboliza-se a ideia de que a busca e a expetativa superam sempre a posse. Este simbolismo projeta uma sombra melancólica sobre o romance que se inicia, sugerindo que o ardor da paixão pode desvanecer-se após a conquista, ao mesmo tempo que prefigura de forma profética o trágico destino das embarcações mercantis que ditarão a ruína de António.
39. O cofre recheado de ouro e joias
O cofre bem recheado de ouro e joias que Jéssica atira pela janela, juntamente com a sua decisão de regressar ao interior para arrecadar ainda mais ducados, simboliza a profunda ligação entre o amor e a riqueza material na sociedade veneziana. O ouro do pai, antes retido de forma estéril e obsessiva, converte-se no capital dinâmico que financia a fuga e assegura a aceitação social da jovem no seio da comunidade cristã. Este ato de apropriação material simboliza uma espécie de reparação ou dote autoatribuído, mas também contamina a pureza do ideal romântico, demonstrando que em Veneza a liberdade espiritual e a redenção pessoal se encontram indissociavelmente ligadas ao valor de troca e à transação comercial.
40. O vento favorável
O vento favorável anunciado abruptamente por António e o subsequente cancelamento da mascarada simbolizam a intrusão inevitável da realidade e do destino sobre a fantasia carnavalesca. A brisa que sopra a favor da partida de Bassânio funciona como o sopro do fado que dispersa os disfarces festivos da juventude e repõe a seriedade pragmática dos compromissos e dos negócios. O cancelamento da festa noturna despoja a fuga de Jéssica da cobertura pública que a ocultaria, garantindo que Shylock enfrente uma casa fria, vazia e roubada em absoluto silêncio, o que simbolicamente canalizará a sua dor e fúria paterna diretamente contra o fiador que permaneceu em terra firme, selando a inevitável transição do tom de comédia para a gravidade trágica do tribunal.
41. A cortina que oculta as urnas
A cortina que oculta as urnas e que é corrida no início da cena simboliza a barreira que separa a ilusão da verdade, o mistério do destino e a revelação do caráter. Desvendar os cofres equivale a expor a alma do pretendente ao escrutínio.
42. As inscrições gravadas nos cofres
As inscrições gravadas em cada cofre funcionam como espelhos psicológicos que revelam os desejos íntimos, as ambições e as debilidades daqueles que se atrevem a interpretá-las.
O príncipe de Marrocos seleciona o cofre de ouro. Ao confrontar-se com o teste em Belmonte, realiza um rigoroso exercício de leitura e interpretação das três inscrições, revelando no seu raciocínio a estrutura moral e psicológica que acabará por ditar o seu fracasso. Para o príncipe, as palavras gravadas nos metais não são apenas instruções práticas, mas sim enigmas filosóficos que ele tenta decifrar através de uma escala de valores profundamente aristocrática, onde a aparência material e a essência espiritual se confundem inevitavelmente. Perante o cofre de chumbo, cuja inscrição dita que «Quem me escolher, deve-se a muito atrever», o príncipe reage com imediato desdém. Ele argumenta que qualquer ato de audácia deve ser motivado pela perspetiva de obter vantagens legítimas, concluindo que uma alma elevada não se rebaixa a arriscar tudo por um metal que classifica como vil e de mau agouro. Na sua mente nobre, o sacrifício e o perigo exigidos pelo chumbo são incompatíveis com a indignidade do próprio suporte físico. Esta recusa inicial simboliza a sua rejeição do valor do sacrifício desinteressado, pois Marrocos é incapaz de conceber que a verdadeira virtude possa residir sob uma aparência humilde e desprovida de brilho.
A inscrição do cofre de prata, que promete que «Escolhendo-me, escolhes o que mereces», convida o príncipe a uma avaliação honesta do seu próprio valor. Ele pondera a sua posição de forma aparentemente equilibrada, admitindo que duvidar do seu merecimento seria uma cobardia que o rebaixaria. Com grande autoconfiança, conclui que é digno da mão de Pórcia em virtude do seu nascimento ilustre, da sua fortuna acumulada, das suas qualidades físicas, da educação refinada que recebeu e, acima de tudo, da força sincera do seu amor. No entanto, embora a prata pareça apelar diretamente ao seu mérito individual, o príncipe hesita em decidir-se por ela, sentindo-se irresistivelmente atraído pela promessa de um prémio de projeção universal.
É na leitura da inscrição do cofre de ouro — que promete dar a quem o escolher «o que muitos desejam» — que a lógica do príncipe atinge o seu clímax e a sua derradeira falha. Marrocos identifica Pórcia como o objeto absoluto desse desejo universal, evocando poeticamente os príncipes que cruzam os desertos da Hircânia, as imensas solidões da extensa Arábia e as ondas orgulhosas do oceano apenas para a contemplar. Guiado por uma mentalidade materialista, ele argumenta que seria uma profanação encerrar um retrato tão celestial no chumbo grosseiro ou na prata, cujo valor de mercado é dez vezes inferior ao do ouro sem liga. Evocando a moeda de ouro inglesa que traz gravada a figura de um anjo na superfície, ele conclui que Pórcia é um anjo encerrado no próprio ouro, decidindo-se pelo metal mais valioso por acreditar que uma joia tão preciosa exige o mais rico engaste.
A revelação do esqueleto e a leitura do pergaminho oculto no interior do cofre de ouro desconstroem por completo a interpretação do príncipe, oferecendo uma severa lição de desengano moral. A máxima de que «nem tudo o que luz é oiro» adverte que muitos sacrificaram as suas existências seduzidos apenas pelo fulgor exterior de aparências enganosas, descobrindo tarde demais que os metais mais sumptuosos abrigam apenas a morte e a corrupção física representada pelos vermes da terra. O texto critica diretamente a falta de maturidade de Marrocos, apontando que a sua imensa audácia e a energia da sua juventude não foram acompanhadas pela prudência, pelo discernimento e pela razão da idade madura. Ao falhar em ver que o teste do pai de Pórcia media a profundidade da alma e não o brilho do metal, o príncipe retira-se humilhado e despojado de toda a sua altivez, restando a Pórcia o alívio de ver partir um pretendente que escolheu com os olhos e não com o coração.
43. O esqueleto
O esqueleto encontrado no interior do cofre de ouro constitui o símbolo máximo de memento mori (lembrança da mortalidade). Esta imagem macabra serve de antítese absoluta ao esplendor e ao lavor do metal dourado, representando a decadência, a corrupção física e a vacuidade dos bens terrenos que se escondem por trás da vaidade mundana. O facto de o pergaminho com a mensagem de desengano estar colocado precisamente numa das órbitas oculares vazias do esqueleto carrega uma simbologia avassaladora sobre a cegueira humana. Simboliza que aqueles que escolhem guiados apenas pelos olhos físicos — seduzidos pelo fulgor externo do ouro — são moralmente cegos, incapazes de ver que a beleza superficial abriga, na realidade, uma morada sepulcral onde habitam os torpes vermes da terra.
44. A moeda de ouro inglesa com o cunho de um anjo
A evocação da moeda de ouro inglesa com o cunho de um anjo simboliza a mercantilização do amor e da própria mulher na sociedade da época. Ao comparar Pórcia a um anjo encerrado num cofre de ouro, tal como a figura do anjo gravada na superfície da moeda, o pretendente revela que a sua adoração está contaminada pela lógica da posse e do valor de troca. Para ele, Pórcia é uma pérola preciosa que exige um engaste de ouro para ser valorizada, reduzindo a união sagrada a uma transação de luxo.
45. Desertos da Hircânia
A transformação simbólica dos desertos da Hircânia e da extensa Arábia, bem como do mar oceânico, que deixam de ser barreiras mortais para se tornarem estradas frequentadas e meros regatos que os viajantes saltam facilmente, simboliza a força avassaladora do desejo de conquista. O mundo inteiro é geograficamente encolhido e subjugado pela obsessão de alcançar o troféu de Belmonte, demonstrando como a vaidade humana desafia as próprias forças da natureza apenas para saciar o seu apetite de glória, culminando na perda irreparável de tempo e na fria indiferença do desengano escrito.
46. O retrato do idiota a piscar o olho
O retrato do idiota a piscar o olho (cena IX, ato II), oculto no interior da urna de prata, é o símbolo máximo da desconstrução da soberba de Aragão. Este elemento visual funciona como uma ironia grotesca, um espelho que devolve ao príncipe a sua verdadeira essência interior, desprovida da sabedoria que ele julgava possuir. Ao deparar-se com esta imagem, o príncipe confronta-se com o facto de que a sua análise intelectual e calculada era, na verdade, uma tolice monumental. O pergaminho que acompanha o retrato reforça este simbolismo ao contrapor as sombras à realidade, advertindo que aqueles que se guiam apenas por aparências prateadas acabam por abraçar uma ilusão intelectual, revelando-se tolos na sua essência mais profunda.
47. O pergaminho do Príncipe de Aragão
O pergaminho encontrado no cofre de prata funciona como a voz moral e a sentença filosófica que desmascara a pretensa sabedoria do Príncipe de Aragão. Escrito em tom poético e satírico, o texto utiliza a própria metalurgia da prata e a imagem do idiota para construir uma severa crítica à vaidade intelectual, ao elitismo e à ilusão do mérito pessoal.
O poema inicia-se com uma metáfora alquímica e moral, lembrando que a prata foi submetida ao fogo purificador sete vezes consecutivas para alcançar a sua têmpera e brilho atuais. O texto estabelece imediatamente um paralelo entre este processo físico e o desenvolvimento da mente humana, sugerindo que o verdadeiro sábio também precisa de passar por sucessivas alternativas, provações e dúvidas antes de consolidar o seu juízo. Ao escolher a prata com uma certeza inabalável e imediata, assente apenas na sua vaidade, o príncipe demonstrou que o seu julgamento carecia dessa maturação pelo fogo da prudência, revelando uma imaturidade espiritual disfarçada de intelecto.
De seguida, o pergaminho confronta a soberba de Aragão com a universal fragilidade humana. Através de uma pergunta retórica, o texto questiona se existirá alguém no mundo que se possa gabar, ao longo das andanças do seu destino, de nunca ter errado na escolha elementar entre o bem e o mal. Esta passagem ataca diretamente a autoimagem infalível do príncipe, que se considerava imune ao erro comum do vulgo. Ao lembrar que a falibilidade é uma condição inerente à existência, o poema condena a arrogância daquele que se julga inteiramente merecedor do prémio sem admitir a sua própria imperfeição.
A ilusão cognitiva é mais profundamente explorada na estrofe seguinte, que aborda a névoa escura da vaidade. O texto adverte que muitos homens ilustres e distintos tomam o espectro das ilusões pela imagem da verdadeira felicidade. No caso do príncipe, essa névoa foi o seu orgulho de classe, que o fez confundir os privilégios sociais e a bajulação cortesã com o mérito espiritual exigido para conquistar Pórcia. A prata, metal que brilha mas não possui o valor do ouro nem a humildade sacrificial do chumbo, torna-se assim o veículo perfeito para esta quimera do merecimento.
O clímax satírico do pergaminho reside na definição dos "néscios magistrais" — os tolos instruídos e pomposos. O poema explica que o mundo está repleto de pessoas que parecem prateadas e brilhantes por fora, sugerindo polidez, nobreza e alta educação, mas que, na sua essência interior, mantêm uma rudez intelectual que nunca se evaporou. O retrato do idiota a piscar o olho, que segura o pergaminho, é a própria personificação desta estrofe: Aragão, apesar da sua casca polida e prateada, é identificado como um desses tolos solenes.
Por fim, o texto encerra com uma despedida trocista e definitiva. O pergaminho avisa o príncipe de que, independentemente de onde ele procure uma esposa a partir de agora, ele carregará consigo a marca da sua própria estultícia, sendo para sempre uma cópia do idiota que acabou de encontrar. O conselho final para que ele faça as malas e se ponha a caminho funciona como um banho de realidade que humilha a pompa aristocrática do pretendente, reduzindo a sua aparatosa comitiva a uma retirada silenciosa e impotente diante da justiça poética de Belmonte.
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