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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Caracterização de Pórcia, de O Mercador de Veneza

    A nível físico, Pórcia é idealizada como uma jovem de uma beleza extraordinária e indescritível, para a qual parecem não existir palavras suficientemente dignas de elogio. A sua fisionomia destaca-se pelos seus loiros cabelos encaracolados que lhe cobrem e emolduram a fronte, sendo poeticamente comparados a um precioso velo de ouro que brilha e atrai a atenção de todos. Além disso, possui um olhar extremamente expressivo e magnético, capaz de comunicar de forma silenciosa mas eloquente, falando diretamente ao coração daqueles que a contemplam e transmitindo sentimentos profundos sem a necessidade de proferir uma única palavra.
    No plano social, ela é uma nobre e riquíssima herdeira que reside no castelo de Belmonte, uma figura de imenso prestígio cuja fama e valor são amplamente reconhecidos. A sua elevada posição e a sua vasta fortuna transformam-na no alvo de cobiça de inúmeros e ilustres pretendentes que viajam de terras longínquas, assemelhando-se a heróis míticos, como novos Jasões, que se deslocam a Belmonte para disputar a sua mão. Embora a sua riqueza e estatuto a coloquem numa posição de enorme privilégio e destaque na sociedade, o seu destino matrimonial está fortemente condicionado pelos desígnios familiares e pelas regras de herança da época, sendo o seu casamento disputado através de um teste com cofres que atrai a aristocracia mundial.
    A nível psicológico-moral, Pórcia revela-se uma mulher dotada de qualidades brilhantes, de uma inteligência vivaz e de uma sabedoria invulgar. É descrita como sendo muito superior em virtude e caráter a figuras femininas célebres da Antiguidade Clássica, como a Pórcia da Roma Antiga, filha de Catão e esposa de Bruto. Sob a sua faceta de herdeira cortejada esconde-se uma personalidade arguta, com um agudo sentido de discernimento e uma enorme nobreza de espírito. Esta inteligência e engenho excecionais manifestar-se-ão de forma decisiva na sua capacidade de demonstrar uma grande lucidez, determinação e conhecimento prático, disfarçando-se mais tarde para intervir com sucesso na justiça e salvar a vida de António, provando que a sua sensibilidade moral e afeto andam de mãos dadas com uma mente brilhante e estratégica.
    Pórcia revela-se uma jovem aristocrata que, apesar de gozar de uma exagerada abundância e de múltiplas venturas, se encontra profundamente exaurida e melancólica devido à constante e sufocante receção de pretendentes que disputam a sua mão. Ela demonstra uma lucidez filosófica invulgar e uma aguda autoconsciência sobre as fraquezas humanas, reconhecendo que a razão é frequentemente impotente perante os impulsos da juventude, já que um temperamento ardente tende a desprezar as leis frias ditadas pelo cérebro. O seu maior drama existencial é a total privação da sua liberdade de escolha, lamentando com amargura o facto de a sua vontade como filha viva estar irremediavelmente subjugada aos preceitos e ao testamento de um pai morto, o que a impede de escolher quem lhe agrada ou de rejeitar quem detesta. Todavia, apesar desta profunda frustração, ela manifesta uma fidelidade e integridade moral inabaláveis, jurando que preferirá viver até à idade avançada da sibila e morrer tão casta como a deusa Diana a desobedecer ao método dos três cofres ordenado pelo seu progenitor.
    Pórcia destaca-se ainda por uma inteligência brilhante, mordaz e altamente satírica, evidente na forma implacável e irónica como analisa e ridiculariza o caráter dos seus pretendentes. Ela escarnece da obsessão quase animal do príncipe napolitano pelos cavalos, rejeita a tristeza estéril do conde palatino — preferindo casar com uma caveira —, ridiculariza a falta de identidade própria do fidalgo francês e expõe a superficialidade do barão inglês, que compara a uma estátua bela, mas muda, com quem é impossível comunicar. A sua firmeza moral leva-a a desprezar profundamente o vício da embriaguez do jovem alemão, contra quem arquiteta uma astuta sabotagem com um copo de vinho para garantir que ele escolhe o cofre errado, recusando terminantemente casar-se com uma "esponja".
    Por fim, a sua personalidade é moldada por uma clara seletividade afetiva e pelos preconceitos estéticos da sua época. Enquanto manifesta uma imediata rejeição em relação ao príncipe de Marrocos devido à sua tez escura, afirmando que preferiria tê-lo como confessor do que como marido mesmo que ele possuísse as qualidades de um santo, ela revela uma doce e guardada inclinação por Bassânio. Ao ser lembrada por Nerissa deste jovem veneziano, Pórcia recorda-o perfeitamente como um homem instruído e valente, confirmando com entusiasmo que ele é inteiramente merecedor de todos os elogios e o mais digno do seu amor.
    As regras estabelecidas pelo falecido pai de Pórcia limitam a sua liberdade de forma absoluta ao anularem completamente o seu livre-arbítrio na escolha de um companheiro de vida. Ajovem lamenta esta situação, desabafando que não tem o poder de escolher quem lhe agrada nem de recusar quem lhe desperta aversão, o que a leva a constatar com amargura que a vontade de uma filha viva se encontra irremediavelmente subjugada aos preceitos de um pai morto. O seu destino matrimonial não depende dos seus sentimentos ou afinidades, mas sim do resultado de um teste cego idealizado pelo seu progenitor, constituído por uma lotaria de três cofres feitos de ouro, prata e chumbo, onde o pretendente que escolher o cofre correto ganhará o direito de casar com ela. Esta imposição legal e moral deixa-a vulnerável à possibilidade de ser conquistada por pretendentes que despreza, como o jovem alemão com graves problemas de embriaguez, forçando-a a conceber estratégias de sabotagem, como sugerir que se coloque um grande copo de vinho sobre o cofre errado para o desviar da escolha certa e evitar o que considera ser uma desgraça. Apesar de se sentir encurralada por este cenário de profunda restrição, a integridade moral de Pórcia impede-a de contornar ou violar as decisões do seu progenitor, jurando que, mesmo que atinja a idade avançada da profética sibila, preferirá morrer tão casta como a deusa Diana a aceitar dar a sua mão por qualquer outra via que não seja o método estritamente prescrito pelo testamento paterno.
    Na cena VII do ato II, Pórcia revela-se como uma figura de grande elegância, compostura e contenção, cuja aparente passividade diante do desafio dos três cofres esconde uma determinação silenciosa e sentimentos muito firmes sobre o seu próprio destino. Embora seja descrita pelos seus pretendentes em termos quase sagrados — como uma santa viva, uma pérola preciosa de valor inestimável e dona de um retrato celestial que atrai admiradores de todos os cantos do globo através de desertos e oceanos —, ela submete-se com firmeza às regras do teste que dita a entrega da sua mão a quem decifrar os cofres. De facto, poderia recusar ou, no mínimo, contestar os ditames do pai, mas não o faz. No trato direto com o Príncipe de Marrocos, a jovem adota um comportamento estritamente formal, polido e distante, limitando-se a apresentar de forma clara os termos do desafio e a entregar-lhe a chave com serenidade, mantendo-se como uma observadora impassível durante a longa reflexão do candidato. No entanto, a sua verdadeira natureza e o seu enorme alívio emocional são expostos no instante em que o príncipe falha e se retira de Belmonte. Convém ter presente que ela tem sentimentos por Bassânio e é ele que deseja ter como marido. Ao ordenar imediatamente a Nerissa que feche a cortina e ao exclamar de forma espontânea que se livrou de mais um candidato, Pórcia demonstra um espírito pragmático, vivo e espirituoso. Ao mesmo tempo, o seu comentário final revela que a sua tolerância é limitada pelos preconceitos raciais e culturais do seu meio social, ao desejar abertamente que todos os pretendentes que partilhem da mesma cor de pele do príncipe enfrentem o mesmo insucesso no desafio.
    Na cena IX do ato II, Pórcia revela-se uma personagem de extraordinária nobreza, inteligência analítica, ironia refinada e uma vibrante expectativa romântica, contrastando de forma brilhante a sua faceta pública e protocolar com a sua verdadeira personalidade íntima. No início da cena, apresenta-se como uma anfitriã digna, polida e estritamente cumpridora das regras testamentárias do seu falecido pai. Ela recebe o Príncipe de Aragão com a devida deferência aristocrática, tratando-o por nobre príncipe e recordando-lhe com clareza e serenidade as regras severas do desafio. Manifestando uma modéstia protocolar condizente com a fidalguia, ela realça o peso do juramento a que os pretendentes se submetem, afirmando com elegância que aceitam o risco do teste mesmo sabendo que ela própria se julga indigna de tamanha honra. No entanto, por trás desta máscara de formalidade cortesã, esconde-se uma mulher de espírito aguçado e dotada de uma ironia mordaz. Pórcia não hesita em desarmar a soberba do pretendente com observações secas e precisas. No momento em que Aragão abre o cofre de prata e se depara com a imagem do idiota, ela comenta de forma direta que não valia a pena perder tanto tempo para encontrar tal resultado. Perante a indignação arrogante do príncipe, que contesta o veredicto do cofre, ela rebate com uma lucidez cirúrgica, lembrando-lhe que ninguém pode assumir simultaneamente o papel de juiz e de parte no seu próprio caso, dada a óbvia incompatibilidade entre as duas condições.
    Após a retirada humilhada de Aragão, Pórcia revela toda a sua capacidade de observação crítica e desdém pelos afetados. Com inteligência poética, ela compara o príncipe a uma mariposa que acabou por queimar as asas na luz, classificando estes pretendentes intelectuais como loucos que, ao tentarem usar um juízo excessivamente calculado e racional para escolher, acabam ironicamente por encontrar o dom de perder de forma perfeitamente científica e racional.
    Por fim, a chegada do criado com a notícia do mensageiro veneziano faz emergir uma Pórcia completamente diferente: bem-humorada, espirituosa e impaciente pelo amor. Ela quebra o tom formal ao zombar abertamente dos elogios hiperbólicos do criado, gracejando que o recém-chegado só pode ser parente dele para merecer tamanha adulação. Ao confessar a sua pressa e impaciência por conhecer este gracioso correio de Cupido, ela despe-se da frieza com que tratou os arrogantes pretendentes anteriores, revelando o seu coração jovem e esperançoso, que anseia secretamente que o visitante seja o prenúncio da chegada de Bassânio.
    Na cena II do ato III, inicialmente, surge-nos como uma mulher profundamente dividida entre os imperativos do coração e os limites do dever. Embora esteja confessamente apaixonada por Bassânio e sinta a angústia de o poder perder caso ele escolha o cofre errado, demonstra uma integridade ética inabalável ao recusar-se terminantemente a violar o juramento feito ao seu falecido pai. Mesmo admitindo que saberia facilmente como instruir o amado a fazer a escolha certa, ela prefere arriscar a sua própria felicidade a cometer um perjúrio. Esta nobreza de caráter coexiste com um espírito agudo e altamente intelectual; a sua capacidade de brincar com as palavras e de dialogar com agudeza retórica, visível na forma como ironiza e desconstrói o conceito de tortura e confissão amorosa com Bassânio, mostra que ela possui uma mente brilhante, rápida e avessa a sentimentalismos fúteis.
    Além da sua agilidade mental, Pórcia é dotada de uma profunda sensibilidade artística e poética, transportando o teste dos cofres para uma dimensão mítica e grandiosa. Ao ordenar que se toque música durante a escolha de Bassânio, ela recorre a metáforas clássicas e mitológicas refinadas, comparando-se a uma vítima sacrificial e equiparando o noivo ao herói Hércules. Esta faceta lírica e imaginativa é acompanhada por uma intensidade emocional avassaladora: no instante em que o noivo se aproxima do cofre correto, ela experimenta uma tempestade de sentimentos, sendo forçada a apelar à moderação do seu próprio êxtase para que o excesso de alegria não a consuma fisicamente.
    A complexidade de Pórcia atinge o seu auge na forma como gere a transição de poder no momento da sua entrega matrimonial. Num primeiro momento, adota um tom de extrema modéstia, autocaracterizando-se como uma jovem ingénua e inexperiente que se submete de bom grado à soberania e ao governo do seu novo senhor e rei. No entanto, esta aparente submissão é imediatamente contrabalançada por uma astúcia estratégica brilhante. Ao entregar a Bassânio o controlo do seu castelo, dos seus servos e da sua própria pessoa, sela este pacto através da entrega de um anel sagrado, impondo uma condição contratual severíssima: se ele o perder ou dele se separar, perderá também o seu amor. Através deste gesto, Pórcia inverte subtilmente a relação de poder, mantendo a autoridade moral e a custódia ética da relação nas suas mãos.
    Finalmente, quando a atmosfera idílica de Belmonte é subitamente quebrada pela chegada da carta que anuncia a ruína e a execução iminente de António em Veneza, a sua faceta romântica dá lugar a uma determinação prática e a uma autoridade executiva absolutas. Ela não hesita, não vacila e não se deixa abater pela crise. Pelo contrário, assume de imediato o comando da situação: desvaloriza a imensidão da dívida monetária como se de uma bagatela se tratasse, oferece generosamente o dobro ou o triplo da soma para resgatar a vida do amigo do marido e dita, com voz imperativa, o plano de ação a seguir. É ela quem ordena que o casamento se realize no próprio dia para assegurar a legitimidade da união, quem manda Bassânio partir sem detença para Veneza e quem decide que ela e Nerissa viverão em reclusão temporária durante a ausência dos cônjuges. Pórcia transfigura-se, assim, de uma herdeira passiva e enclausurada numa arquiteta enérgica e generosa do destino alheio, antecipando a inteligência e o fulgor que demonstrará no tribunal veneziano.
    Pórcia revela-se, na cena IV do ato III, como uma figura de extraordinária inteligência e generosidade, afirmando convictamente que nunca se arrependera de praticar o bem. Para ela, a decisão de financiar o resgate de António é fundamentada numa visão filosófica e neoplatónica da amizade, segundo a qual amigos íntimos que partilham a vida e uma afeição santa devem necessariamente partilhar uma conformidade de fisionomia, costumes e carácter. Sob esta premissa, a senhora de Belmonte deduz que António, sendo o amigo mais próximo de Bassânio, deve assemelhar-se ao seu próprio marido. Consequentemente, salvar este amigo da crueldade de Shylock representa resgatar a própria imagem de Bassânio por um preço insignificante, embora ela prefira interromper esta reflexão para não incorrer na vaidade do autoelogio.
    A sua dimensão prática e autoridade executiva evidenciam-se logo de seguida, quando toma as rédeas da organização doméstica e confia o governo e a direção do seu palácio a Lourenço e Jéssica, ordenando expressamente que os seus criados lhes obedeçam como se fossem os próprios donos da casa. Para encobrir a sua verdadeira e audaciosa viagem a Veneza, ela demonstra uma enorme astúcia ao forjar a desculpa socialmente respeitável de que fez um voto sagrado de recolhimento, oração e contemplação num mosteiro situado a duas léguas de distância, onde residirá apenas na companhia de Nerissa. Esta mentira estratégica permite-lhe garantir a privacidade necessária enquanto ativa uma rede de apoio jurídico, enviando o seu fiel servo Baltasar a Pádua com instruções urgentes para obter junto do seu primo, o prestigiado jurista Dr. Belário, os papéis e os trajes masculinos indispensáveis à sua farsa.
    A revelação do seu plano secreto a Nerissa desvenda uma faceta lúdica, enérgica e extremamente confiante, na qual ela antecipa com humor a sua transformação física em disfarce de jovem cavaleiro e desafia a sua confidente numa aposta sobre quem desempenhará o papel com maior garbo e convicção. Com uma agudeza satírica notável, ela descreve como pretende imitar a performance da masculinidade juvenil, prometendo usar a adaga com elegância, adotar a voz aguda de um adolescente em transição de idade e converter o seu andar modesto num caminhar masculino e galhardo. Mais ainda, ela planeia inventar mentiras espirituosas sobre duelos e proezas académicas, gabando-se de que senhoras de alta linhagem morreram de amor devido à sua indiferença, demonstrando um conhecimento perspicaz da soberba e da vaidade que caracterizam os rapazes recém-saídos do colégio. Por fim, esta determinação de Pórcia é acompanhada por um apurado sentido de urgência e ação imediata, exigindo celeridade ao seu mensageiro, e apressando Nerissa a calar-se e a pôr-se a caminho, uma vez que a carruagem já as aguarda no parque e ainda precisam de percorrer vinte milhas naquele mesmo dia.
    Na cena do tribunal, ergue-se como a mente mais brilhante, estratégica e complexa de toda a peça, assumindo o comando absoluto do drama precisamente no momento em que a autoridade masculina e as instituições de Veneza se encontram paralisadas perante o impasse legal. Sob o disfarce do jovem doutor Baltasar, ela não se limita a resolver um conflito jurídico, mas conduz antes uma encenação meticulosa onde manipula as fraquezas dos opositores, expõe as contradições do sistema e reconfigura as relações de poder no próprio coração do Estado veneziano. Longe de apresentar as suas cartas de imediato, a heroína adota uma estratégia de paciência altamente calculada. Ao entrar no tribunal, começa por validar a posição de Shylock, concordando que o contrato é legítimo e que a lei de Veneza não pode ser alterada por decreto sob pena de minar a credibilidade comercial da República. Esta aparente anuência funciona como uma armadilha psicológica que lisonjeia o ego do credor e alimenta a sua ilusão de invencibilidade legal, induzindo-o a rejeitar categoricamente todas as ofertas de compensação financeira e todas as saídas de emergência morais. Pórcia empurra-o de forma deliberada para o ponto de não-retorno, garantindo que, quando a armadilha se fechar, ele não terá qualquer margem de fuga ou recurso à simpatia da corte.
    Paralelamente, o seu célebre discurso sobre a misericórdia revela uma profunda sofisticação intelectual e teológica. Pórcia eleva o debate da frieza dos códigos civis para uma esfera ética universal, descrevendo a clemência como um atributo divino que enobrece quem a concede e quem a recebe. Contudo, esta apologia à compaixão não é apenas um interlúdio poético, mas sim uma ferramenta de legitimação processual. Ao oferecer formalmente a Shylock a oportunidade de demonstrar misericórdia, ela assegura que a posterior recusa implacável do credor sirva de justificação moral para que o tribunal, no momento da sua derrota, também lhe recuse qualquer clemência autêntica. A misericórdia é apresentada como ideal absoluto, mas Pórcia maneja-a como um pré-requisito tático essencial para o desfecho que já planeou.
    A genialidade de Pórcia atinge o seu clímax quando ela vira a própria arma de Shylock contra ele através de um hiperliteralismo jurídico implacável. Ao exigir que o credor retire exatamente uma libra de carne, sem desvio de peso, e ao proibi-lo estritamente de derramar uma única gota de sangue cristão — já que o contrato mencionava apenas carne, mas não sangue —, ela demonstra uma agilidade mental extraordinária. Pórcia expõe o absurdo intrínseco de isolar a letra da lei da realidade física e humana. Ao derrotar o agiota no seu próprio terreno literalista, prova que o direito, quando divorciado da equidade e da vida, torna-se uma construção insustentável e autodestrutiva.
    Logo após desarmar a pretensão civil de Shylock, Pórcia revela uma faceta inesperadamente dura e punitiva, transitando de árbitra benevolente a promotora implacável do Estado veneziano. É ela quem reativa o estatuto penal contra o estrangeiro que atenta contra a vida de um cidadão, exigindo o confisco total dos bens do agiota e colocando a sua vida nas mãos do Doge. Neste momento, Pórcia age como a guardiã definitiva da ordem patrícia e cristã de Veneza, garantindo que o corpo estranho que ameaçou a comunidade seja totalmente espoliado e neutralizado, mostrando uma justiça tão cortante e cirúrgica quanto a faca que o credor afiava.
    Por fim, no plano privado, Pórcia conduz um jogo subtil de desconstrução da autoridade matrimonial. Ao escutar, sob disfarce, o marido Bassânio declarar que sacrificaria a sua própria esposa para salvar o amigo António, ela reage com fino sarcasmo, sugerindo que tal oferta causaria discórdia em casa se a mulher a ouvisse. Ao usar a sua autoridade como Baltasar para exigir o anel de casamento como recompensa pelo seu trabalho, ela arquiteta o teste que provará a fragilidade dos compromissos masculinos. Pórcia demonstra compreender que a lealdade dos homens de Veneza é governada por códigos de camaradagem e culpa, e usa essa revelação para fundar o seu futuro casamento em Belmonte numa nova base, onde a soberania e a agência lhe pertencem por direito de inteligência.
    Na cena final em Belmonte, Pórcia revela uma faceta profundamente contemplativa e filosófica ao regressar à sua propriedade. Ao avistar na escuridão a luz que emana do seu palácio, ela tece uma reflexão moral sobre como uma boa ação brilha de forma intensa num mundo perverso. Esta perspetiva estende-se a uma reflexão sobre a relatividade do prestígio, comparando como uma glória menor é sempre obscurecida por outra maior, tal como o brilho régio que acompanha um mensageiro se desvanece por completo assim que o próprio rei se faz presente. Pórcia aplica este mesmo princípio de subjetividade e valor relativo à apreciação estética da música, sustentando que até a melodia mais doce ou o canto do rouxinol apenas alcançam a sua perfeição graças ao silêncio, à atmosfera noturna e às circunstâncias que os rodeiam. Esta sensibilidade filosófica desvela uma mente arguta que compreende que a virtude e a beleza não residem em regras ou qualidades absolutas, mas sim no discernimento prático do momento oportuno.
    Paralelamente, Pórcia demonstra ser uma estrategista nata e detentora do controlo da narrativa ao ordenar segredo absoluto sobre a sua ausência. Ela exige que Lourenço, Jéssica e os criados nada revelem aos maridos que se aproximam, preparando meticulosamente o terreno para o seu posterior jogo de revelações. Ao reencontrar Bassânio, Pórcia acolhe-o com uma réplica ágil sobre o brilho e a modéstia feminina, recebendo de seguida o mercador António com uma cortesia muito inteligente. Contudo, ela recusa-se a ficar prisioneira de uma simples "polidez verbal", asseverando que prefere provar o seu genuíno acolhimento através de ações concretas e práticas.
    A sua inteligência brilha com máximo esplendor dramático ao assumir o papel de uma encenadora e juíza de refinada ironia durante o confronto dos anéis. Pórcia monta uma sofisticada armadilha psicológica ao repreender Graciano com severidade fingida por se ter desfeito do anel de Nerissa, asseverando com orgulho simulado que o seu próprio marido, Bassânio, jamais cometeria tal leviandade por tesouro algum do mundo. Ao descobrir a perda do anel de Bassânio, ela encena uma indignação dramática avassaladora, acusando-o de possuir um coração sem fé e jurando que não partilhará o leito conjugal até ver a joia de volta. Pórcia joga magistralmente com a ironia ao afirmar ter a certeza de que o anel foi entregue a uma mulher, e adensa a provocação ao ameaçar Bassânio com a promessa lúdica de que o jovem doutor de Pádua ocupará o seu lugar no palácio a qualquer momento. Com este domínio da retórica, ela inverte as hierarquias patriarcais e subjuga o marido a um julgamento moral onde ela detém o poder absoluto sobre a verdade e a absolvição.
    No desfecho, Pórcia transforma o seu julgamento privado num ritual de cura, generosidade e reconciliação. Ao aceitar o novo juramento de lealdade de António e ao entregar-lhe o anel para que este o coloque no dedo de Bassânio, ela desfaz o engano revelando a carta de Belário que comprova que ela própria era o jovem jurista Baltasar. Longe de humilhar os maridos, ela usa a verdade para consolidar uma ordem matrimonial assente na cumplicidade e na igualdade intelectual. O seu poder regenerador estende-se à esfera económica ao curar a ruína material de António através da entrega inesperada de uma carta que anuncia a salvação dos seus navios cargueiros. Ao mesmo tempo, Pórcia garante a segurança financeira de Lourenço e Jéssica por via do testamento de Shylock trazido pelo seu escrivão. Pórcia encerra a obra ao conduzir todas as personagens para o interior do castelo enquanto a aurora começa a romper, convidando-as a esclarecer todas as circunstâncias do engano com total transparência e sinceridade, assumindo-se como a arquiteta indiscutível da harmonia social e existencial de Belmonte.

Caracterização de Shylock

    Shylock é um judeu veneziano que orgulhosamente se assume como pertencente à sua "santa nação" e à sua "tribo", identificando-se espiritualmente como descendente de Abraão e da linhagem de Jacob. Possui barbas e veste-se com uma tradicional capa hebraica, que simboliza a sua origem social.
    No âmbito da sua atividade profissional, atua como credor e negociante na praça financeira do Rialto, dedicando-se a emprestar dinheiro a juros — atividade que os cristãos apelidam depreciativamente de usura — com o objetivo pragmático de fazer frutificar e produzir o seu capital, mostrando-se também disponível para outras transações mercantis de compra e venda.
    Shylock revela-se nesta cena como uma figura de extraordinária lucidez pragmática, orgulho identitário e ressentimento meticulosamente calculado. No plano profissional, demonstra ser um negociador extremamente minucioso e analítico, cuja mente opera com uma precisão matemática. Para ele, a caracterização de um indivíduo como "bom" despoja-se de qualquer consideração moral ou espiritual, significando estritamente a sua solvabilidade e capacidade financeira de honrar um compromisso. Esta visão fria e realista permite-lhe mapear com exatidão a volatilidade dos negócios de António, reconhecendo a fragilidade material das embarcações e a falibilidade dos marinheiros perante as forças da natureza e a ameaça de piratas, sem que isso o impeça de aceitar racionalmente a garantia da fiança.
    Esta racionalidade económica é indissociável de uma firmeza cultural e religiosa inflexível. Shylock manifesta um orgulho profundo pelas suas origens e rituais, recusando de forma categórica qualquer tentativa de aproximação social que viole as suas convicções, como partilhar uma refeição de carne de porco com os cristãos. Ele delimita com extrema clareza as fronteiras da sua integração na sociedade veneziana, estando disposto a comerciar e a dialogar, mas nunca a partilhar da intimidade de comer, beber ou orar com aqueles que o oprimem. Nos seus apartes, Shylock expõe a dor de pertencer a uma "santa nação" sistematicamente vilipendiada e revela que a sua aversão a António é motivada não apenas pela barreira religiosa, mas principalmente pelo facto de o mercador prejudicar o mercado financeiro ao emprestar dinheiro sem juros, afetando diretamente o sustento e os lucros que considera legitimamente adquiridos.
    A sua característica mais marcante nesta negociação é a sua paciência estratégica alimentada pelo rancor. Tendo suportado anos de agressões verbais e físicas no Rialto — onde foi esbofeteado, cuspido e chamado de cão —, ele não esquece estas humilhações, mas guarda-as sob uma capa de aparente submissão. Quando surge a oportunidade de inverter a relação de poder, utiliza o sarcasmo e a ironia mordaz para expor a hipocrisia de António, questionando de forma brilhante como pode um "cão" dispor de três mil ducados para salvar quem o pontapeou.
    Finalmente, revela-se um mestre da dissimulação psicológica. Diante da altivez inabalável de António, ele altera subitamente o tom de confronto para uma postura de aparente generosidade e reconciliação, oferecendo um empréstimo sem juros. Ao sugerir a terrível penalidade da libra de carne humana sob o rótulo de uma mera "escritura de brincadeira" e ao ridicularizar a desconfiança de Bassânio através da comparação utilitária com a carne de animais, Shylock demonstra uma inteligência maquiavélica. Ele é capaz de instrumentalizar a própria lei de Veneza e a soberba cega do seu adversário para converter uma transação comercial numa armadilha de vida ou morte, revelando que a sua aparente condescendência é, na verdade, o veículo para uma vingança implacável.
    Na cena V do ato II, é caracterizado nesta cena como uma figura profundamente severa, desconfiada e dominada por uma visão de mundo rígida, autoritária e utilitarista. O seu comportamento com o criado Lanceloto expõe o seu temperamento inflexível, criticando-o de forma implacável pela preguiça e pela gulodice, comparando-o a um caracol no trabalho e apelidando-o de "pobre diabo" e "raça de Agar". A sua obsessão pelo controlo e pela segurança material é patente no orgulho que sente pela austeridade da sua casa e na insistência obsessiva para que Jéssica mantenha todas as portas e janelas fechadas "debaixo de chave", agarrando-se à máxima de que "o seguro morreu de velho". Psicologicamente, revela-se um homem inquieto e atormentado por pressentimentos, interpretando o seu sonho com "sacos de dinheiro" como um aviso de ameaça iminente. O seu profundo ressentimento em relação à comunidade cristã é igualmente manifesto quando confessa aceitar o convite para jantar fora não por simpatia, mas por ódio e pelo prazer de comer à custa de um "cristão pródigo", ordenando ainda à filha que bloqueie a casa para impedir que a "loucura estúpida" e os sons da mascarada penetrem no seu lar.
    Na cena VIII do ato II, Shylock é caraterizado de forma indireta através do olhar satírico e hostil dos amigos de António, revelando-se como uma figura dominada por uma fúria caótica, violenta, estranha e sem nexo. Embora não apareça fisicamente em palco, a sua presença dramática é avassaladora devido ao relato do seu desespero descontrolado que atroa as ruas de Veneza. Shylock surge inicialmente como um homem determinado e implacável na sua perseguição, tendo sido capaz de acordar o próprio Doge com os seus gritos na calada da noite para exigir uma busca imediata ao navio de Bassânio na tentativa de intercetar os fugitivos.
    O traço mais marcante e revelador da sua personalidade nesta passagem é a extrema confusão entre o afeto familiar e a obsessão material. Nos seus gritos desesperados, Shylock sobrepõe de forma grotesca a perda da filha ao roubo das suas riquezas, clamando em simultâneo por Jéssica e pelos sacos de ducados e diamantes raros e preciosos que ela levou consigo. Ele lamenta com igual amargura o facto de a filha ter sido raptada por um cristão e o extravio dos seus "ducados cristãos", expondo uma mente colonizada pela lógica do capital, onde a descendência humana e o dinheiro partilham da mesma importância. Esta dor desmedida converte-se num espetáculo público de humilhação, com o rapazio da cidade a persegui-lo em algazarra pelas ruas, mimetizando e ridicularizando os seus gritos desesperados por diamantes e ducados.
    Adicionalmente, Shylock revela um apego intransigente à autoridade jurídica, clamando por justiça em nome da lei e exigindo que prendam a sua própria filha para recuperar os seus bens. Esta rigidez e a profunda humilhação pública decorrente da traição familiar alimentam um rancor perigoso que se projeta diretamente sobre António. Os seus contemporâneos percebem de imediato que esta fúria impotente contra os cristãos se transformará numa sede de vingança implacável, tornando crucial que o mercador seja absolutamente pontual no dia do vencimento da sua fiança, sob pena de vir a pagar caro por toda a afronta sofrida pelo credor.
    Na primeira cena do terceiro ato, Shylock é apresentado em toda a sua complexidade humana, revelando-se uma personagem profundamente dilacerada entre a dor da traição familiar, a obsessão pela perda material e uma sede implacável de vingança que se alimenta do preconceito por si sofrido. A sua caraterização afasta-se de um vilão unidimensional, desdobrando-se numa figura de enorme densidade dramática que expõe as feridas da exclusão social.
    O primeiro grande traço da sua personalidade manifesta-se na relação conflituosa entre o afeto paternal e a avareza. Shylock surge profundamente ferido pela fuga da filha, Jéssica, que ele repetidamente reclama como sendo o seu próprio "sangue e carne", sentindo a sua deserção como uma revolta cruel contra o seu próprio corpo. Todavia, a sua dor é imediatamente obscurecida pela incapacidade de separar o desgosto familiar do prejuízo financeiro. Ele lamenta de forma grotesca a perda do valioso diamante comprado em Frankfurt por dois mil ducados e de outras joias preciosas, chegando ao extremo de desejar, num desespero descontrolado, que a filha estivesse morta aos seus pés com os diamantes feitos brincos, ou que jazesse no túmulo com os seus ducados. Esta sobreposição revela uma mente colonizada pela lógica do capital, onde os laços de sangue e o ouro parecem partilhar do mesmo valor.
    Apesar desta aparente frieza materialista, a caraterização de Shylock é brilhantemente humanizada através do episódio do anel de turquesa. Ao saber que Jéssica trocou essa joia por um macaco em Génova, Shylock é atingido por um sofrimento genuíno e puramente sentimental que transcende qualquer cálculo mercantil. A turquesa fora um presente que recebera de Lea, a sua falecida esposa, quando ainda era solteiro. Ao declarar com angústia que não daria aquele anel por um "regimento de macacos", expõe uma vulnerabilidade afetiva oculta, revelando que possui um passado de amor, nostalgia e respeito pela memória familiar. A profanação desse legado pela futilidade da filha magoa-o mais profundamente do que a perda de qualquer fortuna, provando que a sua alma não está inteiramente ressequida pela usura.
    O pilar central da sua afirmação dramática nesta cena reside no seu discurso de igualdade biológica e moral, que ele utiliza como fundamento para legitimar a sua vingança. Confrontado com o escárnio dos amigos de António, Shylock ergue a voz para defender que o judeu partilha da mesma dimensão física e emocional do cristão, possuindo os mesmos olhos, órgãos, sentidos, afeições e paixões, sendo igualmente vulnerável ao frio do inverno, ao calor do verão, às doenças e às feridas. Contudo, esta apelação a uma humanidade partilhada não é um apelo à tolerância, mas sim uma terrível promessa de retaliação. Ele argumenta que se os cristãos respondem com vingança quando são ofendidos por um judeu, ele limitou-se a aprender a lição de perversidade ensinada por eles, prometendo inclusive superar os seus mestres na aplicação dessa mesma crueldade.
    Por fim, Shylock carateriza-se por uma determinação sádica e um pragmatismo comercial implacável. A sua interação com Tubal funciona como uma montanha-russa emocional, onde o sofrimento pelas extravagâncias da filha é compensado por uma alegria quase febril ao receber a confirmação de que os navios de António naufragaram. Esta fúria vingativa é rapidamente canalizada para uma estratégia jurídica fria: Shylock ordena a contratação de um oficial de justiça com quinze dias de antecedência para garantir a execução da fiança. Para ele, a morte de António não é apenas um alívio para o seu ódio pessoal, mas também uma excelente oportunidade de negócio, pois a eliminação do concorrente que emprestava dinheiro sem juros permitir-lhe-á ditar as regras do mercado financeiro em Veneza. O agendamento do encontro final com Tubal na sinagoga sela esta sinistra convergência entre a sua identidade religiosa, a sua fúria pessoal e a sua ambição económica.
    Shylock justifica a sua sede de vingança contra António através de uma argumentação assente em três pilares fundamentais: a humilhação pessoal e profissional, a afirmação da igualdade humana e a reciprocidade moral do comportamento ensinado pelos próprios cristãos.
    Assim, primeiro, Shylock detalha as constantes ofensas e prejuízos que António lhe causou diretamente, apontando que o mercador o desprezava, zombava dos seus lucros, ridicularizava as suas perdas, contrariava os seus negócios e afastava os seus amigos, ao mesmo tempo que incentivava os seus inimigos. Ele salienta que a única e exclusiva razão para esta perseguição sistemática é o preconceito religioso, resumido na frase: "Porque sou judeu!". Além disso, António prejudicava-o financeiramente ao emprestar dinheiro sem juros ("com caridade cristã"), o que Shylock calcula ter-lhe custado mais de um milhão e meio de ducados em ganhos perdidos.
    Segundo, Shylock sustenta a sua legítima defesa na igualdade biológica e sensorial fundamental entre judeus e cristãos. Ele argumenta que ambos partilham exatamente a mesma condição humana: têm os mesmos olhos, mãos, corpos, órgãos, sentidos, afeições e paixões; alimentam-se do mesmo modo, são vulneráveis às mesmas armas e doenças, curam-se com os mesmos remédios e sentem o mesmo frio no inverno e calor no verão. O agiota ilustra esta igualdade física afirmando que, se o ferirem, o seu sangue correrá exatamente como o de um cristã0, e que o contacto inesperado dos dedos o faria estremecer como qualquer outro homem.
    Terceiro, e de forma mais provocatória, Shylock legitima a sua vingança através do princípio da reciprocidade e do exemplo dado pelos próprios cristãos. Ele questiona qual é a reação habitual de um cristão quando é insultado por um judeu, respondendo que a consequência é invariavelmente a vingança. Portanto, ele argumenta que, quando um cristão insulta um judeu, a reação natural deste último deve ser imitá-lo. Ele conclui que a crueldade que agora demonstra é uma lição aprendida diretamente com os seus opressores: "Ensinastes-me a perversidade, ó cristãos, asseguro-vos que a aprendi; servir-me-ei dela, e se puder excederei os meus mestres". A vingança é, assim, justificada como uma consequência lógica e uma aplicação rigorosa da moral prática que os próprios cristãos exercem no dia a dia.
    Por outro lado, a reação aos gastos extravagantes de Jéssica expõe a sua fragilidade emocional e financeira, revelando o impacto devastador da traição da filha no seu espírito. Quando confrontado com a notícia de que ela gastou oitenta ducados numa única noite em Génova, Shylock reage com uma agonia quase física, afirmando que a revelação é como um punhal cravado no coração. A sua dor imediata foca-se na perda irreparável da sua fortuna, lamentando com desespero que nunca mais voltará a ver os seus ducados. A repetição obsessiva da quantia de oitenta ducados evidencia o seu estado de choque absoluto diante do comportamento perdulário da filha, que dissipa levianamente o património que ele acumulou com tanto esforço. Esta dor material ganha uma dimensão muito mais profunda e humanizadora quando associada à perda do anel de turquesa que Jéssica trocou por um macaco. A joia, que fora um presente de valor sentimental inestimável oferecido pela sua falecida esposa Lea na juventude, representa a memória afetiva e a linhagem da sua família. Ao ver este símbolo sagrado ser profanado por um capricho fútil, a dor de Shylock transcende o mercantilismo, revelando um sofrimento espiritual genuíno que fratura o estereótipo do usurário frio e acelera a sua transformação num vingador implacável.
    Na cena do tribunal, Shylock apresenta-se inicialmente como uma figura de uma altivez formidável, inflexível e intelectualmente dominante, cuja obstinação é alimentada por um profundo ressentimento contra anos de perseguição e humilhação. Ele ergue-se isolado no recinto, rejeitando categoricamente qualquer compromisso financeiro ou apelo à clemência, mesmo quando lhe são oferecidos montantes que duplicam ou triplicam a dívida original. Para o agiota, o contrato não é um mero documento mercantil, mas sim a sua única e legítima arma de retaliação contra António, o homem que o esbofeteou e insultou publicamente no Rialto. A sua defesa ancora-se numa lógica jurídica cortante e inabalável, argumentando que a República de Veneza não tem o direito de interferir na soberania dos contratos privados sem pôr em causa a sua própria credibilidade comercial perante o mundo. Ele maneja a lei com a precisão de um cirurgião, demonstrando uma autoconfiança absoluta ao desafiar a corte e ao equiparar a sua exigência de uma libra de carne à propriedade que os próprios venezianos exercem sobre os seus escravos, arrancando assim a máscara de superioridade moral dos seus julgadores.
    Esta determinação obsessiva materializa-se numa presença cénica assustadora e meticulosa, onde cada gesto acentua a violência literal da sua pretensão. Ao afiar obstinadamente a faca na sola do seu sapato e ao trazer consigo as balanças para o tribunal, Shylock demonstra que a sua vingança não é metafórica, mas sim um ato físico planeado ao pormenor. Ele recusa-se a humanizar o adversário ou a ceder à pressão do Doge e dos nobres que o rodeiam, respondendo a cada insulto com apartes repletos de sarcasmo e desdém. O agiota assume conscientemente o papel de carrasco legalista que a sociedade veneziana o empurrou a desempenhar, utilizando a própria engrenagem do direito de Veneza para justificar a sua crueldade. Ele sente-se invulnerável porque acredita que a muralha da lei escrita é cega aos preconceitos religiosos, ignorando que o sistema que o acolhe como credor está preparado para o trair assim que a vida de um dos seus cidadãos de elite estiver em jogo.
    A reviravolta dramática imposta por Pórcia desencadeia um colapso imediato e devastador que reduz esta imponente força oratória a uma carcaça física e moralmente aniquilada. No instante em que a sua estratégia hiperliteral é voltada contra si e a lei do estrangeiro é ativada para confiscar os seus bens e ameaçar a sua vida, a sua altivez desmorona-se sem deixar rasto. Shylock tenta recuar e aceitar tardiamente o ouro que antes rejeitara com desdém, mas descobre que a teia jurídica em que tentou prender António se fechou de forma irremediável sobre si próprio. A imposição da perda do património, combinada com a humilhação do batismo forçado e a obrigação de subscrever um testamento a favor do genro e da filha fugitiva, destrói as últimas fundações da sua identidade. O homem eloquente que desafiava o tribunal com discursos inflamados sobre a humanidade partilhada silencia-se por completo, balbuciando apenas que não se sente bem e suplicando para retirar-se da sala, deixando no tribunal um mutismo trágico que assombra irremediavelmente o triunfo dos cristãos.

Caracterização do Doge

    O Doge de Veneza, na cena do tribunal, personifica a autoridade institucional máxima da República, caracterizando-se por uma profunda tensão entre o poder soberano aparente, a parcialidade ideológica e a paralisia legal perante as exigências do mercado. Desde o início da audiência, o governante assume um papel que dista muito da imparcialidade expectável de um magistrado supremo. O seu alinhamento com António é explícito e imediato, manifestando-se na forma como rotula Shylock de adversário implacável, desprovido de piedade e de humanidade. Esta postura de partidarismo institucional revela que o tribunal veneziano, longe de ser um espaço neutro de aplicação da justiça, funciona como uma estrutura de solidariedade de classe e de credo, onde o chefe de Estado atua como protetor emocional dos seus patrícios cristãos e como porta-voz do preconceito generalizado contra o estrangeiro.
    Apesar de deter a soberania política, o Doge caracteriza-se por uma inesperada impotência jurídica antes da intervenção de Pórcia. Confrontado com a obstinação de Shylock, que exige a execução estrita da fiança, o governante vê-se encurralado pela própria necessidade de preservar a reputação comercial e a segurança jurídica de Veneza. A sua autoridade encontra-se subjugada ao imperativo mercantil: ele não pode simplesmente rasgar o contrato ou anular a promissória por decreto, pois isso abalaria a confiança dos investidores internacionais na estabilidade dos acordos celebrados na República. Esta paralisia dramática do Doge expõe o limite do poder absoluto num Estado capitalista nascente, onde a soberania política se curva perante a necessidade de proteger o fluxo financeiro global, deixando o governante numa posição de perplexidade e expectativa passiva, dependente de ajuda externa para solucionar o impasse.
    Por outro lado, a figura do Doge destaca-se pela sua clemência performativa e de pendor estratégico, que serve para reafirmar a hegemonia e a superioridade moral do poder dominante. No momento em que a argumentação de Pórcia inverte o rumo do julgamento e coloca Shylock à mercê da lei penal, o Doge apressa-se a perdoar-lhe a vida antes mesmo que o credor o solicite. Este gesto, apresentado como uma demonstração da magnanimidade e do espírito generoso da governação veneziana, é, na verdade, um ato de profunda afirmação de poder político. Ao ditar unilateralmente a sobrevivência do réu sob a condição de este abdicar da sua fortuna e submeter-se às exigências subsequentes do tribunal, ele transforma a misericórdia num instrumento de subjugação civil, reduzindo o outrora altivo Shylock a um súbdito espoliado e inteiramente dependente do arbítrio do Estado. O Doge emerge, assim, como o símbolo de uma ordem política que mascara a violência da exclusão sob uma capa de benevolência paternalista.
Na cena do tribunal, o Doge não esconde a sua parcialidade, revelando que a justiça de Veneza não é um princípio universal abstrato, mas um instrumento político e cultural desenhado para perpetuar a hegemonia da classe dominante cristã. Esta inclinação ideológica manifesta-se de forma sistemática através de várias frentes.
    Antes de mais, temos que considerar a desumanização linguística prévia ao julgamento. A parcialidade do Doge não aguarda pela apresentação dos argumentos das partes para se declarar; ela inaugura a própria sessão. Antes mesmo de Shylock entrar na sala, o governante dirige-se a António referindo-se ao credor como um «adversário de pedra», um «infeliz desprovido de humanidade», incapaz de qualquer misericórdia. Ao adotar este tom de condenação moral prévia, a autoridade máxima do Estado destitui imediatamente o réu da sua condição de sujeito de direito e de criatura humana. O tribunal deixa de ser uma arena neutra de arbitragem de um contrato comercial para se transformar num palco de contenção moral, onde o estrangeiro já entra rotulado como um monstro ético.
    Segundamente, ressalta a questão da imposição da moralidade do opressor como norma universal. O Doge discursa esperando que Shylock demonstre clemência, mas faz desta exigência uma imposição unilateral e hipócrita. O governante pressupõe que o judeu deve agir de acordo com os preceitos de caridade cristã — uma caridade que a própria República veneziana e António sistematicamente recusaram dispensar ao agiota ao longo de anos de humilhações e segregação no gueto. Esta é a essência da violência ideológica: exigir do marginalizado uma grandeza moral e um altruísmo que a sociedade dominante nunca praticou com ele, utilizando depois a recusa de Shylock como prova da sua suposta "maldade intrínseca".
    Terceiramente, destaca-se a manipulação casuística da solenidade jurídica. A lealdade ideológica do Doge à elite patrícia e mercantil de Veneza fica evidente na sua tentação de contornar ou suspender a legalidade para salvar António. Embora o Estado dependa da reputação de imparcialidade jurídica para atrair capitais internacionais, o Doge chega a ameaçar dissolver o tribunal se não se encontrar uma solução para libertar o mercador. Esta disposição para estremecer as fundações institucionais da República quando a vítima é um dos seus pares contrasta violentamente com o rigor com que a lei é posteriormente aplicada a Shylock. O direito veneziano revela-se, assim, uma miragem flexível que protege os cidadãos nacionais e esmaga os forasteiros quando estes se tornam uma ameaça real.
    Por último, temos a clemência teatral como instrumento de supremacia cultural. Quando o veredito de Pórcia desarma Shylock, o Doge apressa-se a perdoar-lhe a vida para evidenciar «a diferença do nosso espírito» face ao rigor do judeu. Este perdão imediato não é um ato de compaixão autêntica, mas uma encenação de superioridade civilizacional e teológica. Ao poupar a vida biológica do credor mas consentindo na espoliação total dos seus bens, no seu banimento social e na posterior conversão forçada, o Doge utiliza a "misericórdia" estatal para desarmar, subjugar e assimilar o diferente. A clemência do governante opera como a legitimação final de um etnocídio cultural, demonstrando que, para o poder veneziano, o outro só pode ser tolerado se for totalmente neutralizado e integrado à força na ordem hegemónica.
    O conceito das "razões de Estado" — a primazia da sobrevivência, estabilidade e prosperidade económica da comunidade política sobre a moral individual ou a justiça absoluta — encontra no comportamento do Doge a sua expressão mais pragmática e reveladora. Na Veneza renascentista, o Duque não atua como um juiz metafísico em busca da verdade espiritual; ele é o gestor supremo de um império mercantil que funciona sob a lógica fria da sobrevivência institucional. A primeira grande exigência da razão de Estado para Veneza é a manutenção da sua reputação internacional como um porto seguro para o capital. Como uma potência comercial que depende inteiramente de mercadores estrangeiros de todas as fés e nacionalidades, a República não pode dar-se ao luxo de parecer arbitrária. Se o Doge rasgasse o contrato de Shylock por mera simpatia religiosa ou compaixão pessoal, enviaria um sinal desastroso aos mercados globais: o de que em Veneza os contratos e os direitos de propriedade não são de confiança. A estabilidade económica do Estado exige, portanto, a defesa intransigente da segurança jurídica, mesmo que isso custe a vida de um patrício estimado como António. Contudo, a razão de Estado também impõe uma segunda e contraditória exigência: a preservação da integridade e da coesão da própria elite governante. Permitir que um estrangeiro, confinado ao gueto e destituído de plenos direitos cívicos, executasse legalmente um dos maiores mercadores da cidade significaria uma humilhação intolerável para o prestígio social e religioso da classe dominante cristã. O Doge encontra-se, assim, num impasse tipicamente maquiavélico: salvar o cidadão destruindo a credibilidade da lei, ou salvar a lei permitindo o sacrifício do cidadão.    A resolução trazida pelo disfarce de Pórcia é um triunfo absoluto da razão de Estado, pois consegue conciliar estes dois imperativos aparentemente irreconciliáveis. Ao recorrer à hiperliteralidade (a proibição do sangue) e ao estatuto penal contra o estrangeiro, a corte consegue salvar António e aniquilar Shylock sem nunca parecer violar a autoridade da lei. A aparência de estabilidade e segurança dos tratados comerciais é mantida intacta para o mundo exterior, ao mesmo tempo que a ameaça interna representada pelo credor judeu é neutralizada e os seus bens são confiscados para os cofres do Estado e do cidadão lesado.
    A "razão de Estado" justifica, em última análise, a transição rápida do Doge da impotência para a punição severa. A imposição da conversão forçada e da perda de bens não visa a salvação da alma de Shylock, mas sim a sua assimilação política total: ao deixar de ser judeu e estrangeiro, o corpo estranho é permanentemente desarmado e absorvido pela ordem estatal, garantindo que o equilíbrio de poder em Veneza nunca mais seja desafiado. Note-se que as razões de estado estão igualmente presentes na Literatura Portuguesa. É o caso, por exemplo, do episódio de Inês de Castro n'Os Lusíadas.

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