O Ghetto de Veneza desempenhou um papel histórico fundamental na segregação, na sobrevivência económica e na preservação da identidade da comunidade judaica, servindo também como a origem histórica do próprio termo "gueto".
A palavra "ghetto" tem origem veneziana e remete a uma área de antigas fundições de canhões conhecida como "campo gheto". No século XV, devido à atividade militar de produção de armamento, esta zona já se encontrava isolada por muros e possuía apenas duas portas de acesso. Em 1516, perante o crescimento da população judaica, motivado pela chegada de refugiados que fugiam das perseguições em Espanha e Portugal desde 1492, o Cardeal Zaccaria Delfino assinou um decreto que forçou a recolocação de todos os judeus de Veneza neste espaço, batizado de Ghetto Nuovo. As portas do gueto eram rigidamente controladas, permanecendo abertas apenas entre o nascer e o pôr do sol. Em 1541, o contínuo crescimento populacional obrigou à expansão da área residencial para o Ghetto Vecchio.
Apesar de Veneza ser uma das cidades-estado mais ricas da Europa, atraindo muitos homens de negócios judeus, as leis venezianas impunham severas restrições à minoria hebraica. Os judeus estavam proibidos de adquirir terras agrícolas, de se associarem a corporações de ofícios (guildas) e de vender bens a gentios. Como consequência destas proibições, a atividade económica da comunidade ficou quase inteiramente circunscrita ao empréstimo de dinheiro (atribuição que está na base do enredo de O Mercador de Veneza). Adicionalmente, a segregação estendia-se à indumentária: no século XVII, os judeus eram obrigados a usar um chapéu vermelho sempre que circulavam fora do gueto, sendo a desobediência punida com a pena de morte.
Mesmo confinado a um espaço geográfico reduzido, o gueto veneziano tornou-se um polo de diversidade, integrando cinco identidades étnicas diferentes, cada uma das quais fundou a sua própria sinagoga. Este isolamento forçado durou até 1797, ano em que as tropas de Napoleão conquistaram a cidade, destruíram as portas do gueto e declararam a liberdade de residência para todos os cidadãos. Contudo, a igualdade plena de direitos de cidadania para os judeus em Veneza só foi alcançada vinte e um anos mais tarde.