Português: 13/08/26

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O Ghetto de Veneza e O Mercador de Veneza

    O Ghetto de Veneza desempenhou um papel histórico fundamental na segregação, na sobrevivência económica e na preservação da identidade da comunidade judaica, servindo também como a origem histórica do próprio termo "gueto".
    A palavra "ghetto" tem origem veneziana e remete a uma área de antigas fundições de canhões conhecida como "campo gheto". No século XV, devido à atividade militar de produção de armamento, esta zona já se encontrava isolada por muros e possuía apenas duas portas de acesso. Em 1516, perante o crescimento da população judaica, motivado pela chegada de refugiados que fugiam das perseguições em Espanha e Portugal desde 1492, o Cardeal Zaccaria Delfino assinou um decreto que forçou a recolocação de todos os judeus de Veneza neste espaço, batizado de Ghetto Nuovo. As portas do gueto eram rigidamente controladas, permanecendo abertas apenas entre o nascer e o pôr do sol. Em 1541, o contínuo crescimento populacional obrigou à expansão da área residencial para o Ghetto Vecchio.
    Apesar de Veneza ser uma das cidades-estado mais ricas da Europa, atraindo muitos homens de negócios judeus, as leis venezianas impunham severas restrições à minoria hebraica. Os judeus estavam proibidos de adquirir terras agrícolas, de se associarem a corporações de ofícios (guildas) e de vender bens a gentios. Como consequência destas proibições, a atividade económica da comunidade ficou quase inteiramente circunscrita ao empréstimo de dinheiro (atribuição que está na base do enredo de O Mercador de Veneza). Adicionalmente, a segregação estendia-se à indumentária: no século XVII, os judeus eram obrigados a usar um chapéu vermelho sempre que circulavam fora do gueto, sendo a desobediência punida com a pena de morte.
    Mesmo confinado a um espaço geográfico reduzido, o gueto veneziano tornou-se um polo de diversidade, integrando cinco identidades étnicas diferentes, cada uma das quais fundou a sua própria sinagoga. Este isolamento forçado durou até 1797, ano em que as tropas de Napoleão conquistaram a cidade, destruíram as portas do gueto e declararam a liberdade de residência para todos os cidadãos. Contudo, a igualdade plena de direitos de cidadania para os judeus em Veneza só foi alcançada vinte e um anos mais tarde.

Relação entre Shylock e Tubal

    Em primeiro lugar, a relação entre ambos reflete uma forte rede de apoio mútuo e solidariedade prática no exílio. Numa Veneza que marginaliza os judeus e os rotula coletivamente como demónios, a sobrevivência individual depende da coesão comunitária. Tubal assume voluntariamente a difícil tarefa de viajar até Génova para procurar a filha fugitiva de Shylock, Jéssica, consumindo recursos e esforços nesta busca. Ao recolher informações através de contactos com marinheiros sobreviventes do naufrágio e com outros credores locais, Tubal demonstra que a comunidade judaica opera através de uma rede de comunicação e proteção eficaz que ultrapassa as fronteiras de Veneza.
    Em segundo lugar, a partilha de dores entre Shylock e Tubal evidencia uma profunda consciência de um destino coletivo e de uma identidade partilhada. Perante a perda da filha e do seu património, O agiota não encara a sua desgraça apenas como uma tragédia pessoal, mas sim como um fardo coletivo, exclamando que a "maldição divina assenta irrecusavelmente sobre a nossa nação", algo que ele "nunca havia sentido até este dia". A dor de um judeu é indissociável do sofrimento histórico da sua comunidade, e Tubal, ao escutar com paciência os lamentos e as oscilações emocionais de Shylock, age como uma testemunha silenciosa do sofrimento dessa mesma "nação" perseguida.
    Em terceiro lugar, a sinagoga surge como o símbolo máximo do espaço comunitário seguro e do refúgio espiritual. No final do diálogo, Shylock instrui Tubal a encontrá-lo "na sinagoga". Longe das ruas públicas de Veneza e do Rialto, onde são constantemente expostos ao escárnio dos cristãos, a sinagoga representa o único local onde podem retirar-se para debater os seus assuntos privados, restabelecer laços de pertença e coordenar as suas ações de autodefesa e comércio sem interferências externas.
    Por fim, a relação entre ambos é também contrastada com a perceção estereotipada e desumanizadora que a sociedade cristã tem deles. Ao ver chegar Tubal, Salânio comenta desdenhosamente que ele e Shylock "foram talhados pelo mesmo molde", ironizando que apenas o próprio demónio poderia transformar-se de "diabo para judeu". Esta visão externa redutora nega qualquer individualidade aos membros da comunidade judaica, tratando-os como uma massa homogénea de perversidade. No entanto, a interação real entre os dois desmente este preconceito, revelando um diálogo complexo, eivado de vulnerabilidades íntimas — como a dor de Shylock ao recordar o anel de turquesa oferecido por Lea — e de um pragmatismo comunitário que constitui a sua verdadeira e indispensável armadura contra a opressão.

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