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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Análise do poema "Em Creta, com o Minotauro", de Jorge de Sena

Quando entramos no universo de Jorge de Sena, e em particular no seu poema "Em Creta, com o Minotauro" (escrito em 5 de julho de 1965, no auge do seu exílio, e constituído por cinco secções), deparamo-nos com uma poesia que não tem medo de se sujar. É uma poesia que diz palavrões, que trata os heróis clássicos por "filhos da puta", que chama "pobre diabo" a Luís de Camões e que propõe que a única forma de sermos verdadeiramente livres é sentarmo-nos num café grego a falar uma língua inventada com um monstro metade homem e metade boi.

O que é a "Peregrinação Infecta"?

Antes de abrirmos o poema, precisamos de compreender a mala de viagem de Jorge de Sena. Em 1959, asfixiado pela ditadura salazarista em Portugal, onde a censura impedia a livre expressão e a polícia política (PIDE) vigiava os intelectuais, Sena toma uma decisão drástica: parte para o exílio. Primeiro, vai para o Brasil, onde ensina literatura na Universidade de Assis e em Araraquara. Mas a instabilidade política brasileira e o golpe militar de 1964 empurram-no novamente para outra paragem: os Estados Unidos da América, onde passará o resto da sua vida como professor catedrático.

                O livro onde este poema está inserido chama-se Peregrinatio ad Loca Infecta (1969), que se traduz do latim como "Peregrinação a Lugares Infectos" (ou sujos, contaminados). Ao contrário dos peregrinos medievais que viajavam em busca de santidade e pureza, o poeta exilado peregrina por um mundo que ele vê como degradado, injusto e politicamente corrompido. Contudo, em vez de se isolar numa torre de marfim ou de chorar nostalgicamente pela pátria perdida (como faziam os poetas românticos), Jorge de Sena decide enfrentar a realidade de frente. É neste contexto de trânsito entre o Brasil e os EUA que ele escreve, durante uma viagem à Europa e à ilha de Creta, o seu grande "poema-rio". Convém começar por esclarecer que um poema-rio é uma composição de grande fôlego mo qual correm, misturados, todos os grandes rios temáticos de um autor: a identidade, o exílio, a liberdade, a rejeição do nacionalismo e a busca pela dignidade humana.

                A primeira parte do poema abre com uma declaração de identidade que choca qualquer leitor habituado ao patriotismo tradicional. De facto, afirma que, tendo nascido em Portugal, de pais portugueses, e sendo pai de brasileiros no Brasil, será talvez norte-americano quando lá estiver. Logo nestes três primeiros versos, Sena apresenta-nos a sua árvore genealógica marcada pelo desterro. Ele nasceu em Portugal, mas os seus filhos nasceram no Brasil e, em breve, ele próprio poderá adquirir a nacionalidade norte-americana. Repara no uso do advérbio de dúvida "talvez" conjugado com o futuro do indicativo ("serei"): a identidade nacional deixa de ser um destino absoluto, sagrado e imutável para se tornar uma contingência geográfica, algo que depende de "estar lá".

                Para explicar esta visão revolucionária, Sena utiliza uma das imagens mais marcantes do poema: “Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem, / se usam e se deitam fora, com todo o respeito / necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.” Esta comparação é de uma audácia extrema. A nacionalidade, que, para os regimes ditatoriais e nacionalistas, é o valor supremo pelo qual os homens devem morrer no campo de batalha, é aqui comparada a uma peça de vestuário quotidiano: uma camisa. A camisa usa-se, serve o seu propósito (proteger o corpo, apresentar-nos socialmente) e, quando fica gasta ou deixa de servir, deita-se fora ou troca-se. O sujeito poético não rejeita a utilidade da nacionalidade (ele diz que se deve ter o "respeito necessário à roupa que prestou serviço"), mas retira-lhe toda a carga mística. A pátria deixa de ser um altar e passa a ser um armário de roupa.

                Em seguida, o «eu» lírico define o seu verdadeiro centro de gravidade: “Eu sou eu mesmo a minha pátria. / A pátria de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações / nasci.”  Estes versos são um grito de independência existencial. Ao afirmar "Eu sou eu mesmo a minha pátria", Sena desloca o conceito de pertença do território geográfico para o espaço interior da consciência. A sua pátria não é delimitada por fronteiras vigiadas por soldados, mas sim pelo seu próprio ser. E a pátria da sua escrita? É a língua portuguesa, mas...

Referências bibliográficas

  • SENA, Jorge de. Poesia 1. Edição de Jorge Fazenda Lourenço. Lisboa: Guimarães Editores, 2013 [75, 490].
  • SENA, Jorge de. Peregrinatio ad Loca Infecta. In: Poesia 1. Lisboa: Guimarães Editores, 2013 [76].
  • SANTOS, Alessandro Barnabé Ferreira. Jorge de Sena e a Peregrinação Infecta: das paisagens poéticas que se (não) dão a ver. Dissertação de Mestrado. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017 [1].
  • COLLOT, Michel. Poética e filosofia da paisagem. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2013 [514].
  • FAGUNDES, Francisco Cota. "Ser-se emigrante e exilado e como: 'Em Creta, com o Minotauro'". In: Jorge de Sena Vinte Anos Depois. Lisboa: Cosmos, 2001 [498].
  • SALLES, Luciana dos Santos. Poesia e o diabo a quatro: Jorge de Sena e a escrita do diálogo. Tese de Doutoramento. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2009 [508].

  

A análise completa do poema pode ser encontrada aqui: análise-de-em-creta-com-o-minotauro.

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