Quando entramos
no universo de Jorge de Sena, e em particular no seu poema "Em Creta, com
o Minotauro" (escrito em 5 de julho de 1965, no auge do seu exílio, e
constituído por cinco secções), deparamo-nos com uma poesia que não tem medo de
se sujar. É uma poesia que diz palavrões, que trata os heróis clássicos por
"filhos da puta", que chama "pobre diabo" a Luís de Camões
e que propõe que a única forma de sermos verdadeiramente livres é sentarmo-nos
num café grego a falar uma língua inventada com um monstro metade homem e
metade boi.
O que é a
"Peregrinação Infecta"?
Antes de
abrirmos o poema, precisamos de compreender a mala de viagem de Jorge de Sena.
Em 1959, asfixiado pela ditadura salazarista em Portugal, onde a censura
impedia a livre expressão e a polícia política (PIDE) vigiava os intelectuais,
Sena toma uma decisão drástica: parte para o exílio. Primeiro, vai para o
Brasil, onde ensina literatura na Universidade de Assis e em Araraquara. Mas a
instabilidade política brasileira e o golpe militar de 1964 empurram-no
novamente para outra paragem: os Estados Unidos da América, onde passará o
resto da sua vida como professor catedrático.
O
livro onde este poema está inserido chama-se Peregrinatio ad Loca Infecta
(1969), que se traduz do latim como "Peregrinação a Lugares Infectos"
(ou sujos, contaminados). Ao contrário dos peregrinos medievais que viajavam em
busca de santidade e pureza, o poeta exilado peregrina por um mundo que ele vê
como degradado, injusto e politicamente corrompido. Contudo, em vez de se
isolar numa torre de marfim ou de chorar nostalgicamente pela pátria perdida
(como faziam os poetas românticos), Jorge de Sena decide enfrentar a realidade
de frente. É neste contexto de trânsito entre o Brasil e os EUA que ele
escreve, durante uma viagem à Europa e à ilha de Creta, o seu grande
"poema-rio". Convém começar por esclarecer que um poema-rio é uma
composição de grande fôlego mo qual correm, misturados, todos os grandes rios
temáticos de um autor: a identidade, o exílio, a liberdade, a rejeição do
nacionalismo e a busca pela dignidade humana.
A
primeira parte do poema abre com uma declaração de identidade que choca
qualquer leitor habituado ao patriotismo tradicional. De facto, afirma que,
tendo nascido em Portugal, de pais portugueses, e sendo pai de brasileiros no
Brasil, será talvez norte-americano quando lá estiver. Logo nestes três
primeiros versos, Sena apresenta-nos a sua árvore genealógica marcada pelo
desterro. Ele nasceu em Portugal, mas os seus filhos nasceram no Brasil e, em
breve, ele próprio poderá adquirir a nacionalidade norte-americana. Repara no
uso do advérbio de dúvida "talvez" conjugado com o futuro do
indicativo ("serei"): a identidade nacional deixa de ser um destino
absoluto, sagrado e imutável para se tornar uma contingência geográfica, algo
que depende de "estar lá".
Para
explicar esta visão revolucionária, Sena utiliza uma das imagens mais marcantes
do poema: “Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem, / se usam e se
deitam fora, com todo o respeito / necessário à roupa que se veste e que
prestou serviço.” Esta comparação é de uma audácia extrema. A nacionalidade,
que, para os regimes ditatoriais e nacionalistas, é o valor supremo pelo qual
os homens devem morrer no campo de batalha, é aqui comparada a uma peça de
vestuário quotidiano: uma camisa. A camisa usa-se, serve o seu propósito
(proteger o corpo, apresentar-nos socialmente) e, quando fica gasta ou deixa de
servir, deita-se fora ou troca-se. O sujeito poético não rejeita a utilidade da
nacionalidade (ele diz que se deve ter o "respeito necessário à roupa que
prestou serviço"), mas retira-lhe toda a carga mística. A pátria deixa de
ser um altar e passa a ser um armário de roupa.
Em seguida, o «eu» lírico define o seu verdadeiro centro de gravidade: “Eu sou eu mesmo a minha pátria. / A pátria de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações / nasci.” Estes versos são um grito de independência existencial. Ao afirmar "Eu sou eu mesmo a minha pátria", Sena desloca o conceito de pertença do território geográfico para o espaço interior da consciência. A sua pátria não é delimitada por fronteiras vigiadas por soldados, mas sim pelo seu próprio ser. E a pátria da sua escrita? É a língua portuguesa, mas...
Referências bibliográficas
- SENA, Jorge de. Poesia 1. Edição de
Jorge Fazenda Lourenço. Lisboa: Guimarães Editores, 2013 [75, 490].
- SENA, Jorge de. Peregrinatio ad Loca
Infecta. In: Poesia 1. Lisboa: Guimarães Editores, 2013
[76].
- SANTOS, Alessandro Barnabé Ferreira. Jorge
de Sena e a Peregrinação Infecta: das paisagens poéticas que se (não) dão
a ver. Dissertação de Mestrado. São Paulo: Universidade de São Paulo,
2017 [1].
- COLLOT, Michel. Poética e filosofia da
paisagem. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2013 [514].
- FAGUNDES, Francisco Cota. "Ser-se emigrante e
exilado e como: 'Em Creta, com o Minotauro'". In: Jorge de
Sena Vinte Anos Depois. Lisboa: Cosmos, 2001 [498].
- SALLES, Luciana dos Santos. Poesia e o
diabo a quatro: Jorge de Sena e a escrita do diálogo. Tese de
Doutoramento. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2009
[508].
A análise completa do poema pode ser encontrada aqui: análise-de-em-creta-com-o-minotauro.