No aspeto físico, Lourenço partilha da mesma aura de juventude e elegância aristocrática dos seus companheiros, sem que lhe sejam atribuídos traços físicos particulares nesta exposição inicial.
No plano social, é um jovem nobre veneziano que se move no mesmo círculo de Bassânio e Graciano, participando ativamente nos planos de socialização e convívio, como o jantar que fica combinado entre o grupo para o final do dia.
A nível psicológico-moral, Lourenço revela-se um homem discreto, polido e de temperamento muito mais contido e ponderado do que Graciano. Demonstra um apurado sentido de conveniência e respeito pelas relações alheias, sendo o primeiro a sugerir que se retirem para deixar António e Bassânio conversarem a sós sobre os seus assuntos privados. Mostra também um fino sentido de humor e autocrítica ao comentar que a presença constante de Graciano o obriga a resignar-se ao papel de um "sábio mudo", uma vez que é praticamente impossível conseguir falar quando ele está presente. É um amigo fiável, calmo e que preza a harmonia social.
Na cena III do ato II, é retratado como um amante clandestino e co-conspirador numa relação proibida, sendo o destinatário de uma carta que Jéssica lhe envia secretamente através do lacaio, com a exigência expressa de que a entrega ocorra de forma absolutamente oculta para contornar a vigilância de Shylock. O traço mais marcante da sua caracterização reside na sua promessa e compromisso pessoal. Lourenço é apresentado como alguém que empenhou a sua palavra perante Jéssica, cujo cumprimento representa para ela a única via de salvação e de resolução para o seu devastador conflito de identidade. O seu compromisso é o eixo sobre o qual gira a decisão definitiva de Jéssica: caso ele honre o que acordaram, ela encontrará a força necessária para abandonar o lar paterno, renunciar à sua herança familiar e religiosa, converter-se ao cristianismo e tornar-se sua esposa. Lourenço simboliza, assim, a esperança de libertação e o porto de abrigo romântico que legitima a rutura de Jéssica com o seu passado.
Na cena IV do ato II, assume o papel de líder e coordenador do grupo nesta cena, revelando-se uma figura pragmática, otimista e profundamente apaixonada. É ele quem propõe e organiza o plano de evasão e disfarce durante a ceia, demonstrando uma atitude confiante e descontraída em relação à gestão do tempo ao assegurar aos amigos que duas horas são suficientes para preparar tudo. No entanto, a sua faceta mais marcante é a de um amante romântico, lírico e devoto. Ao receber a missiva de Jéssica, ele exalta a beleza física e a delicadeza da amada através de um elogio poético à sua caligrafia e à brancura da sua mão, que considera superior à do próprio papel. Revela também uma generosidade prática ao recompensar Lanceloto com uma bolsa de dinheiro, garantindo com firmeza a sua pontualidade no encontro combinado. A sua paixão cega-o para qualquer julgamento negativo sobre Jéssica, cuja ousadia e apropriação dos valores familiares ele justifica moralmente, elevando as virtudes da jovem ao ponto de afirmar que ela é a única salvação espiritual para o próprio pai e que o seu único pecado reside na sua herança familiar judaica.
Lourenço apresenta-se como um amante apaixonado e focado, embora algo desorganizado, justificando o seu atraso com as suas múltiplas ocupações e prometendo, por brincadeira, ter igual paciência quando chegar a vez de os seus amigos raptarem as suas respetivas esposas. Ele demonstra uma devoção romântica absoluta, afirmando que o Céu e o próprio coração de Jéssica são testemunhas da imensidão do seu afeto. Apesar do pragmatismo de se referir a Shylock como "o judeu, meu futuro sogro", Lourenço concentra-se na exaltação de Jéssica, a quem jura um amor sincero por considerá-la uma mulher prudente, séria, bela e sincera. Ele é também o elemento prático que insta a amada a apressar-se, lembrando-a de que a noite misteriosa está prestes a dar lugar ao dia e que ambos devem ainda comparecer ao banquete de Bassânio.
Na cena II do ato III, Lourenço revela-se nesta cena como a personificação da discrição, da cortesia e da lealdade silenciosa, funcionando como um elo de ligação harmonioso entre a turbulência de Veneza e o acolhimento de Belmonte. Embora a sua participação direta nos diálogos seja muito breve, a sua postura e as suas poucas palavras são extremamente reveladoras de um caráter nobre, comedido e respeitador. Logo à chegada, Lourenço demonstra uma profunda sensibilidade social e respeito pelo espaço e momento alheios. Ele faz questão de clarificar com modéstia que a sua intenção inicial não era intrometer-se ou visitar Belmonte numa ocasião tão íntima para os noivos, tendo viajado apenas porque encontrou Salério no caminho e este lhe pediu encarecidamente que o acompanhasse, um apelo que ele, movido pela solidariedade, não soube recusar. Esta atitude revela um homem avesso à inconveniência, que não procura tirar proveito da súbita ascensão financeira e social do seu amigo Bassânio. Ao ser acolhido com generosidade, a sua reação é de uma fina educação e gratidão sincera, retribuindo com fidalguia as boas-vindas de Pórcia. Adicionalmente, a presença constante de Lourenço ao lado de Jéssica nesta transição dramática simboliza o seu papel de protetor e companheiro devoto. Ao trazê-la consigo para o seio deste círculo aristocrático, ele assume a responsabilidade de integrar a jovem fugitiva e recém-convertida num ambiente seguro, agindo como a ponte que a afasta em definitivo da sombra hostil do gueto e do pai. Mesmo quando a trágica notícia da ruína de António quebra a harmonia festiva do castelo, Lourenço permanece como um suporte firme, calmo e solidário, cuja presença discreta mas constante reforça a união e a fidelidade incondicional do grupo de amigos diante da adversidade que se avizinha.