Contagem até Zero destaca-se na obra de Agatha Christie pela sua estrutura narrativa inovadora e pela profunda exploração psicológica das personagens. A obra subverte a fórmula tradicional do romance policial ao propor, através da sabedoria do idoso advogado Mr. Treves, que o assassinato não é o ponto de partida da história, mas sim o seu culminar, a "hora zero" para onde convergem diversas circunstâncias, pequenas escolhas e indivíduos guiados pelo destino.
O aspeto mais brilhante da trama é a desconstrução do próprio motivo do crime. A autora surpreende ao revelar que o brutal homicídio de Lady Tressilian é, na verdade, um crime secundário e meramente instrumental. O verdadeiro e maquiavélico objetivo de todo o plano é forjar provas de forma meticulosa para que Audrey Strange seja condenada à forca, num ato de vingança sádica por parte do seu ex-marido, Nevile.
A caracterização joga constantemente com as perceções do leitor. Nevile Strange utiliza a sua imagem de desportista perfeito, calmo e carismático como uma máscara que oculta uma mente doentia e psicopata. Em contraste, Audrey é inicialmente vista como uma figura etérea, pálida e passiva, cuja apatia esconde afinal um terror profundo provocado por anos a viver sob a ameaça velada da loucura do ex-marido. A autora cria um excelente jogo de espelhos com as pistas do crime: o assassino planta indícios demasiado óbvios contra si mesmo para ser facilmente ilibado pela polícia, tornando assim as provas subsequentes contra Audrey muito mais credíveis e infalíveis.
A obra ganha ainda uma camada filosófica invulgar através do arco de Angus MacWhirter. A jornada deste personagem, que começa num hospital após uma tentativa de suicídio por considerar a sua vida inútil, ilustra perfeitamente a tese central do livro de que todos têm um papel a desempenhar no grande xadrez da vida. A sua sobrevivência prova ter um propósito imprevisto, acabando por ser o acaso da sua presença no local exato a ditar a salvação de Audrey, utilizando o raciocínio lógico e a ousadia para enganar o próprio assassino.
Em suma, trata-se de um brilhante exercício de suspense onde o elemento principal não é o "quem matou", mas sim a anatomia do ódio e a inexorabilidade do destino. O caso é desvendado confiando na análise da psicologia humana e orquestrando um clímax de tremenda pressão psicológica que destrói por completo a fachada de sanidade do antagonista.
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