No plano físico, as fontes não fornecem descrições diretas de Salarino e Salânio, mas a sua linguagem e comportamento sugerem a postura elegante, expressiva e refinada típica dos jovens cavalheiros da República de Veneza.
A nível social, ambos pertencem ao círculo de confidentes e companheiros de António e Bassânio. Movem-se com total naturalidade no meio mercantil e aristocrático de Veneza, demonstrando uma profunda familiaridade com os meandros do comércio marítimo global, com as rotas comerciais, com os mapas e com as mercadorias de luxo, como sedas e especiarias orientais. Revelam também uma fina educação e cortesia social, sabendo reconhecer o momento exato em que devem retirar-se para dar espaço aos amigos mais íntimos de António.
No plano psicológico-moral, revelam-se observadores atentos, empáticos e dotados de uma imaginação viva e altamente dramática. Salarino destaca-se pela sua sensibilidade poética e teatral, sendo capaz de projetar grandes catástrofes marítimas a partir de pequenos gestos do quotidiano, como o soprar da sopa quente (que o faz pensar em ventos tempestuosos) ou o correr da areia numa ampulheta (que lhe evoca o naufrágio do navio Santo André nos baixios). Salânio demonstra um espírito ligeiramente mais pragmático e bem-humorado, tentando decifrar a melancolia de António através de hipóteses lógicas, como o amor ou um simples capricho do temperamento. Ambos mostram um carinho sincero por António, empenhando-se genuinamente em devolver-lhe a alegria.
Eles funcionam como os apoios logísticos e pragmáticos da mascarada (II, cena IV), representando a cumplicidade e a camaradagem típica da juventude veneziana. Salarino demonstra preocupação com os detalhes práticos da festa ao assinalar a falta de porta-archotes para iluminar o caminho do grupo. Salânio, por seu lado, revela um gosto estético apurado e uma certa aversão à banalidade, rejeitando a ideia de levar archotes a menos que seja feito de uma forma original e criativa, sugerindo que o melhor seria dispensá-los. Ambos mostram-se expeditos e leais, despedindo-se prontamente para preparar os seus disfarces e assegurando a sua presença pontual no local de encontro combinado em casa de Graciano.
Na cena VI do ato II, Salarino demonstra alguma impaciência com a passagem das horas e o atraso de Lourenço. O seu espírito revela-se reflexivo e ligeiramente cético no que toca à constância das paixões humanas, defendendo que a pressa do desejo inicial é muito superior à fidelidade no amor consolidado. Ele recorre à imagem mitológica das pombas de Vénus para ilustrar que estas voam dez vezes mais velozes quando o objetivo é selar novos laços de amor do que quando se trata de manter intacta e firme uma promessa de fidelidade já jurada.
Na cena VIII, funcionam como observadores atentos da vida de Veneza e relatores dos acontecimentos que correm fora do palco, destacando-se pela sua profunda lealdade e preocupação protetora em relação a António. Eles partilham uma cumplicidade estreita e um conhecimento detalhado da dinâmica social da cidade, desde as movimentações amorosas até aos rumores mercantis internacionais. No entanto, as suas personalidades revelam nuances e funções dramáticas distintas na forma como filtram e reagem a estes acontecimentos.
Salânio demonstra ser um observador perspicaz, com uma inclinação para a dramatização expressiva e uma visão muito clara das consequências práticas das ações alheias. É ele quem descreve com vivacidade a fúria caótica, violenta e absurda de Shylock, retratando o desespero do credor ao mimetizar os seus gritos confusos pela perda simultânea da filha e do ouro. Por trás deste tom satírico, contudo, reside uma mente pragmática e precavida: Salânio é o primeiro a alertar para o perigo que António corre, percebendo que a fúria do credor se voltará inevitavelmente contra ele e advertindo que o mercador deve ser escrupulosamente pontual no vencimento da fiança. Mostra-se também extremamente cauteloso ao sugerir que as más notícias sobre o naufrágio sejam transmitidas a António com muita delicadeza para não o afligir, evidenciando uma sensibilidade aguçada para o estado psicológico do amigo, de quem diagnostica uma profunda melancolia e uma dependência afetiva em relação a Bassânio.
Salarino, por sua vez, caracteriza-se por um temperamento mais lírico, emotivo e profundamente empático. Ele é uma testemunha atenta dos factos concretos — sabendo com precisão quem embarcou e quem ficou em terra —, mas o seu verdadeiro foco é a dimensão emocional das relações humanas. Quando recorda a conversa com o francês sobre o naufrágio no canal da Mancha, a sua reação imediata é de preocupação genuína e de uma prece silenciosa pela salvaguarda das naus de António. Salarino distingue-se especialmente pela sua sensibilidade poética ao descrever a despedida lacrimosa entre António e Bassânio, exaltando a generosidade e a nobreza de caráter do mercador que abdica do seu próprio bem-estar pelo sucesso do amigo. A sua prontidão em agir no final da cena, anuindo de imediato ao convite de Salânio para irem consolar António, reforça o seu papel como uma figura de grande calor humano e afeição desinteressada.
Na cena I do ato III, são caraterizados como representantes típicos da elite social e comercial cristã de Veneza, combinando uma lealdade incondicional aos seus pares com uma hostilidade cruel e preconceituosa face aos que consideram marginais. A sua faceta mais nobre reside na profunda amizade e preocupação que nutrem por António. Ao debaterem os rumores sobre o naufrágio de uma das caravelas no perigoso estreito de Goodwin, ambos revelam uma angústia genuína diante da perspetiva de ruína do mercador. Salânio expressa um carinho quase fraternal ao referir-se a ele repetidamente como o pobre e honrado António, confessando que nenhum elogio lhe parece suficientemente elevado para lhe fazer justiça. Por sua vez, Salarino partilha desta aflição, pedindo a Deus que as desgraças do amigo terminem com aquela perda, o que demonstra a forte coesão e o espírito protetor que une a comunidade cristã veneziana.
Contudo, esta empatia desaparece por completo quando confrontados com Shylock, revelando o lado mais sombrio e intolerante de ambos. Ao depararem-se com a dor do judeu pela fuga de Jéssica, Salânio e Salarino adotam uma postura de escárnio público e cumplicidade provocadora. Este último assume sem hesitar que conhece quem ajudou a planear a fuga, ridicularizando o sofrimento do judeu através de piadas sobre aves prontas a voar do teto paterno. Ele chega mesmo a desumanizar a ligação biológica entre pai e filha, afirmando que a carne do agiota é tão diferente da de Jéssica como o azeviche do marfim, e o seu sangue tão distinto como o vinho tinto do Reno. Salânio junta-se à humilhação, acusando-o de falta de vergonha por expor os seus sentimentos de dor e raiva. Esta rejeição e preconceito tornam-se ainda mais explícitos quando, ao avistarem Tubal, Salânio graceja que Shylock e o recém-chegado são farinha do mesmo saco, comparando-os a moldes criados pelo próprio demónio.
Por fim, o par desempenha a função crucial de catalisadores da ação dramática. Eles funcionam como o elo de ligação entre a esfera económica do Rialto e o conflito pessoal dos protagonistas. É a curiosidade fria e quase desdenhosa de Salarino, ao questionar para que servirá afinal uma libra de carne humana se António falhar o pagamento, que serve de detonador para Shylock libertar todo o seu rancor acumulado. Ao forçarem o judeu a responder às suas provocações, os dois tornam-se os agentes que, involuntariamente, aceleram a transição da narrativa rumo ao trágico embate jurídico em Veneza.
Na cena II do ato III, Salério desempenha nesta cena um papel essencial como o mensageiro da realidade e o veículo do choque dramático, sendo a figura que rompe a atmosfera idílica e festiva de Belmonte para introduzir a crueza do trágico destino de António em Veneza. A sua caracterização é marcada pela gravidade, pela sobriedade e por um realismo desprovido de rodeios, qualidades indispensáveis para relatar uma crise de tamanha magnitude. Desde a sua entrada, manifesta uma postura solene e ponderada. Ao ser questionado por Bassânio sobre a saúde do seu benfeitor, ele evita respostas fáceis ou falsos consolos, revelando uma subtileza psicológica aguçada ao sugerir que o estado de António não é bom nem mau, a menos que se considere a sua saúde sob uma perspetiva puramente moral ou anímica. Esta observação mostra um homem perspicaz, ciente de que as maiores dores de António não são de ordem física, mas sim existenciais, decorrentes da iminência da sua ruína e do terrível contrato que assinou. Salério demonstra ainda um forte sentido de camaradagem ao ter tomado a iniciativa de convidar Lourenço e Jéssica para o acompanharem na viagem, procurando cercar-se de aliados e amigos antes de entregar a devastadora missiva.
Além disso, revela-se um observador atento e um cronista pormenorizado da obsessão vingativa de Shylock. É através do seu relato vívido e alarmado que a corte de Belmonte toma consciência da dimensão assustadora do perigo que espreita em Veneza. Com uma linguagem forte, ele caracteriza o credor como uma força implacável e obcecada em destruir António, relatando como este importuna diariamente o doge e os senadores, clamando que a própria credibilidade e a justiça do Estado estarão em causa se a sua fiança de sangue for negada. A narrativa dele transmite uma profunda indignação moral e uma genuína aflição pelo amigo comum, evidenciando a solidariedade orgânica que une o grupo de venezianos contra a ameaça do credor.
Salério destaca-se também pela sua franqueza absoluta e desarmante. Quando Bassânio, num misto de desespero e negação, o interroga sobre a veracidade do naufrágio e se nenhuma das caravelas enviadas aos quatro cantos do mundo conseguiu escapar aos escolhos, responde de forma curta e devastadora, confirmando que nem uma única embarcação sobreviveu. Ao recusar dourar a pílula ou dar espaço a falsas esperanças, a sua crueza informativa atua como o catalisador que empurra Bassânio a confessar a sua real situação a Pórcia e obriga os recém-casados a uma tomada de ação imediata. Salério assume-se, em suma, como a voz da verdade inflexível, o mensageiro que arranca as personagens da fantasia lírica e as convoca para a dura realidade jurídica e humana da arena veneziana.