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sábado, 10 de fevereiro de 2024

Análise da cena 1 do ato II de Hamlet


    Esta cena, que abre o segundo ato, pode dividir-se em duas partes. Na primeira, encontra os o diálogo entre Polónio e Reinaldo sobre Laertes e, na segunda, o diálogo entre aquele e Ofélia sobre Hamlet. Do conjunto, ressalta o desenvolvimento da personagem Polónio, que é apresentado como um manipulador astuto e um homem sem escrúpulos que quer espiolhar a vida de Laertes. Se é verdade que, frente a frente, Polónio o trata como alguém em quem se pode confiar, quando o jovem parte para França, desconfia do seu comportamento e chega ao extremo de ordenar ao seu espião que lance boatos desabonatórios sobre o filho, usando o engano e a artimanha falsa para o testar, não parecendo nada preocupado que a reputação do rapaz seja manchada e, indiretamente, a sua própria. Por outro lado, o modo como instrói Reinaldo é semelhante à forma coimo Cláudio, na cena 2 do ato I, procurou manipular a corte. Deste jeito, o discurso e as palavras tornam-se peça fulcral na tentativa de manipular os outros e controlar a sua visão dos factos e da verdade. Neste contexto, Shakespeare estabelece uma analogia transparente: se Cláudio assassinou o rei Hamlet derramando veneno no seu ouvido, também as palavras pode constituir um veneno para determinados ouvidos. Assim, as referências aos ouvidos e á audição constituem uma metáfora do poder das palavras na manipulação da verdade.

    O segundo diálogo – entre Polónio e Ofélia – também assenta nesta oposição entre a verdade e o engano, a aparência e a realidade. A relação entre Hamlet e Ofélia é caracterizada por mal-entendidos e suposições sem fundamento. Apesar de a rapariga ter prometido – e cumprido – que se afastaria do príncipe, tal não significa que ela pensasse que seria maltratada por ele. Apenas o faz, porque é uma irmã e uma filha obediente e dócil. Porém, após a mais recente atitude de Hamlet, a jovem fica mais convencida do que nunca que Hamlet sente alfo profundo por si, pois comporta-se como se estivesse terrivelmente apaixonado por ela. Na realidade, todavia, essa postura inscreve-se no plano de Hamlet para vingar a morte do pai, pois ele disse a Marcelo e a Horácio, após o diálogo com o fantasma, que poderia agir de forma estranha nos dias seguintes. Sucede, contudo, que Ofélia não sabe isso, pelo que se estará a iludir com algo que não corresponde à realidade: o príncipe está a comportar-se como um louco. Além disso, será que o casamento da sua mãe com o tio não alterou negativamente a sua opinião sobre as mulheres? Seja como for, por mais estranho que possa parecer. Há uma semelhança entre as duas personagens: Hamlet, de forma astuta, finge ser louco; Ofélia, por sua vez, ainda que forçada, finge desinteresse por ele.

    À semelhança do que sucede noutros momentos da peça, esta cena, articulada com as anteriores, mostra com toda a clareza que a sociedade em que as personagens se movimentam é uma sociedade patriarcal: Ofélia “tem de” obedecer ao pai e ao irmão, que possuem autoridade sobre ela. Apesar disso, tendo em conta o desenrolar dos acontecimentos, os conselhos que lhe dão parecem sensatos. De facto, sendo verdade que Hamlet está a usá-la para um fim que só ele conhece e sendo possível que sinta genuinamente afeto por ela, tudo parece indicar que a rapariga se tornou um peão no seu plano para se vingar de Cláudio.

Resumo da cena 1 do ato II de Hamlet

    De regresso ao castelo, Polónio envia Reinaldo, seu servo, a França, com dinheiro e instruções para seu filho Laertes. Antes de partir, instrui-o no sentido de investigar discretamente o comportamento e a vida pessoal de Laertes, misturando-se no círculo social do jovem. Para tal, deve fazer-se passar por um conhecido casual e espalhar alguns rumores negativos sobre o filho, nomeadamente sobre jogo, bebida, esgrima e linguagem. De seguida, o enviado deverá observar as reações dos amigos de Laertes para determinar se esses rumores correspondem ou não à realidade.
    Quando Reinaldo sai, Ofélia entra em cena, pálida e perturbada. Interrogada por Polónio acerca do seu estado, a rapariga conta que Hamlet foi ao seu quarto desgrenhado e confuso, a agarrou, segurou e olhou intensamente, sem, no entanto, lhe dirigir a palavra. Acreditando que Hamlet está louco de amor por Ofélia, sobretudo por a jovem o ter rejeitado e distanciado dele desde que o próprio Polónio ordenou que ela assim fizesse, pergunta-lhe se disse algo que o tivesse perturbado. A jovem responde negativamente, apenas lhe devolveu as suas cartas e negou-lhe qualquer tipo de contacto, seguindo as instruções de Polónio. De seguida, corre a contar ao rei o que está a acontecer.

Análise da cena 5 do ato I de Hamlet


    A revelação do fantasma de que o velho rei Hamlet foi assassinado pelo próprio irmão, Cláudio, mostra como a ambição pelo poder pode levar algumas pessoas a cometer os crimes mais hediondos. Por outro lado, revela que a corte e a nobreza dinamarquesas estão corruptas e degradadas, pois parece que a ascensão de Cláudio ao trono com base no crime foi bastante fácil e não obteve grande oposição ou objeto de questionamento. Tal como ainda hoje sucede, com os casos de compadrio, corrupção (ou da chamada cunha), que se acumulam por todo o lado, o sistema político e de governo da Dinamarca parecem ser particularmente vulneráveis a este tipo de atos criminosos. Assim sendo, Marcelo parece ter acertado no alvo quando afirmou, na cena anterior, que algo estava podre no reino da Dinamarca. De facto, algo está: o sistema político, a governação, o caráter e a integridade da monarquia.

    O pedido de vingança que o fantasma dirige ao jovem príncipe – justiça retributiva – levanta questões relevantes. De facto, tal pedido seria considerado, hoje em dia, um crime e um ato condenável a todos os títulos. Tal não era o caso na época em que a ação decorre, visto que o gesto de matar o assassino do próprio pai seria não só aceite, como até esperado, e estaria intimamente ligado às ideias de família, honra e dever. Deste modo, é evidente que o jovem Hamlet sentirá, a partir desta cena e do encontro com o espectro, a pressão de concretizar o seu pedido. Não o fazer mancharia a sua reputação e deixaria o nome da família por vingar.

    Juntamente com essa pressão, ou fazendo parte integrante dela, estão outras questões, como, por exemplo, quando e como executar a vingança. De facto, assassinar um rei não é uma tarefa simples e fácil de executar. Além disso, a revelação do fantasma vem confirmar as suspeitas do jovem príncipe, que sempre desconfiou da postura do tio. Teria ele pressentido desde sempre o seu caráter e a sua participação no crime? Seja como for, agora que ouviu da boca do fantasma do próprio pai a verdade, não lhe restará outra alternativa se não executar a vingança.

    Por último, as novas informações permitem estabelecer um paralelo entre Hamlet e Fortinbras, dado que ambos viram os seus pais morrer recentemente e, embora em circunstâncias diferentes, ambos se sentem pressionados a vingá-los.

    Como fica a rainha Gertrudes no meio deste imbróglio? Determinadas referências, ao longo da cena, ao incesto permitem concluir que, na ótica do fantasma do seu ex-marido, a monarca se está a comportar de forma imoral, desde logo pelo facto de ser casado com o irmão do próprio marido, portanto seu cunhado até ficar viúva. Além disso, há a considerar a questão de Gertrudes não ter esperado muito tempo desde a morte do primeiro esposo para voltar a casar. Podemos interrogar-nos: porquê? Desconfiaria ela do até então cunhado e recearia ser a próxima vítima se se opusesse aos seus intentos? Ou tratar-se-ia apenas do caso de uma mulher que vive no seio de uma sociedade governada por homens, que, portanto, não possui uma voz livre e independente e que é pressionada (ou, pelo menos, se espera tal) a casar novamente? Tendo tudo isto em conta, a fúria do fantasma dirigida a ela (que o leva a dizer ao filho que não estenda a vingança à mãe, para que seja ele próprio a exercê-la no Céu) ou é justificada porque o espírito sabe algo que mais ninguém conhece, ou não tem em consideração as pressões que uma mulher na sua situação e posição social sofreria e às quais seria difícil resistir.

    Por último, a finalizar a cena, Hamlet diz a Marcelo e Horácio que não estranhem o seu comportamento nos próximos dias, o que se justifica pela conversa que manteve com o fantasma e tudo o que dela resultou ou resultará. Quem agiria da mesma forma que dantes depois de ter recebido tais notícia?

Resumo da cena 5 do ato I de Hamlet

    Hamlet segue o fantasma até outra parte da muralha do castelo, mas eventualmente cansa-se e exige que lhe diga o que pretende. O espectro concorda e confirma que é o espírito do seu pai e que retornará, em breve, para o purgatório, mas tem algo importante para dizer ao filho. Assim, informa-o que foi assassinado de forma hedionda e antinatural, o que deixa o jovem príncipe horrorizado. O espectro prossegue a sua narrativa: afirma que a morte do rei Hamlet, supostamente causada pela picada de uma serpente, foi, na verdade, causada por Cláudio, que derramou veneno no seu ouvido enquanto dormia no jardim. Esta informação confirma os piores temores do príncipe relativamente ao tio. De seguida, o fantasma pede a Hamlet que o vingue, dizendo-lhe que o tio corrompeu a Dinamarca e Gertrudes, a rainha, tendo-a arrancado do amor puro que vivi no seu primeiro casamento, para a mergulhar na luxúria ignominiosa da sua união incestuosa. Porém, embora insista na exigência da vingança, o espectro diz ao príncipe para não agir contra a sua mãe, devendo “deixá-la para o céu” e para as dores com que a sua própria consciência a atormentará.
    Quando a manhã irrompe, o fantasma desaparece, deixando o príncipe simultaneamente triste, enraivecido e confuso com o que ouviu. É nesse estado que Marcelo e Horácio o encontram e o questionam, ansiosos, acerca do que aconteceu entre ambos. No entanto, abalado e muito agitado, hesita em revelar os detalhas da conversa, temendo uma traição. Assim, pede-lhes que não lhe façam mais perguntas e que mantenham em segredo os últimos acontecimentos, fazendo-os jurar pela sua espada. Além disso, Hamlet avisa-os que poderá agir de forma estranha e fingir-se de louco, mas que não poderão revelar qualquer conhecimento do fantasma ou do seu encontro. A voz do fantasma ecoa três vezes debaixo do solo, gritando-lhes que jurem. Marcelo e Horácio prestam juramento sobre a espada de Hamlet e os três regressam ao castelo. Ao partirem, o príncipe lamenta a responsabilidade que agora carrega nos seus ombros: vingar a morte do pai.

Análise da cena 4 do ato I de Hamlet


    Esta cena curta e de transição permite o primeiro encontro de Hamlet com o fantasma que se supõe ser do seu pai. Além disso, possibilita a mistura de elementos de diferentes cenários, contrariando a tendência verificada até então de se apresentarem cenários diversos separados e individualizados. Hamlet, por exemplo, tinha estado associado aos espaços interiores de Elsinore, porém agora surge enquadrado na escuridão do seu exterior. De modo semelhante, o ambiente de terror ficara circunscrito ao seu exterior e separado do que se passa no interior do castelo, porém, nesta cena, o som da festa de Cláudio rompe as paredes e chega ao exterior, aos ouvidos de Hamlet e dos seus companheiros durante a noite. Note-se que essa folia serve essencialmente para manchar o caráter de Cláudio, dado que está mais interessado em celebrar a sua ascensão ao trono do que em honrar a memória do irmão recém-falecido. Hamlet considera que este tipo de coisas prejudica a imagem da Dinamarca perante as outras nações e considera estas celebrações como um sinal da corrupção do Estado, acrescentando que o álcool leva a que os defeitos de caráter de algumas pessoas se sobreponham às suas qualidades. Apesar de Cláudio não ser o primeiro governante dinamarquês a entregar-se a tal folia, parece ser opinião do jovem príncipe que esta é excessiva.

    A cena muda drasticamente com o aparecimento do fantasma, que também é associado a uma imagem de decadência da nação, nomeadamente quando Marcelo faz a sua famosa afirmação, segundo a qual algo está podre no reino da Dinamarca. Por outro lado, a aparição do espectro permite estabelecer um contraste entre o relacionamento de Hamlet com o seu pai e com o seu tio, de quem está distante e tem uma visão muito negativa.

    Além disso, o episódio permite destacar a tristeza do jovem príncipe e o pouco valor que atribui à sua vida. Convém também ter presente que, como Hamlet não sabe o que existe para além da morte, não consegue ter a certeza se o fantasma é realmente o espírito do seu pai ou se é um demónio vindo do Inferno para o destruir. Essa incerteza condu-lo a tecer considerações dolorosas sobre a moral, já abordadas igualmente na cena inicial, quando se alude ao seu desejo de se matar.

    Por sua vez, o tema da loucura também está presente e é suscitado por Horácio quando procura demover Hamlet de seguir o fantasma e sugere que isso poderá privá-lo da razão e mergulhá-lo na loucura. Assim sendo, esta temática assume um papel relevante na peça, nomeadamente no que toca ao príncipe.

Resumo da cena 4 do ato I de Hamlet

    A cena desenrola-se à noite. Hamlet, Horácio e Marcelo esperam nas muralhas de Elsinore que o fantasma apareça. Do interior do castelo, pouco depois da meia-noite, chegam sons de folia: é o novo rei e os seus cortesãos que festejam e bebem, de acordo com os costumes dinamarqueses. Incomodado, o jovem príncipe mostra-se favorável ao fim desse costume, argumentando que tal celebração mancha a reputação da Dinamarca, tornando-a motivo de chacota junto das outras nações e diminuindo o valor e a importância das suas conquistas. E prossegue a sua fala, aludindo ao modo como as falhas de um indivíduo podem ofuscar as suas qualidades.
    O fantasma aparece e Hamlet questiona-o, perguntando-lhe se ele é o espírito do seu pai e quais são as razões que o levaram a deixar o túmulo e vir para Elsinore. O fantasma faz-lhe sinal para que o siga e, apesar dos avisos dos seus amigos para que não o faça, advertindo-o de que o espírito o pode conduzir ao perigo, Hamlet decide segui-lo alegando que nada teme, pois não valoriza a sua vida. Horácio e Marcelo tentam contê-lo, mas ele exige que o soltem e até desembainha a espada quando os amigos não obedecem e afirma-lhes que os transformará em fantasmas se não o deixarem seguir o espectro. Marcelo e Horácio cedem, Hamlet segue a aparição e desaparece na escuridão, enquanto os dois primeiros veem no acontecimento um mau presságio para a nação. Volvidos alguns momentos, os dois amigos seguem Hamlet e o fantasma. Marcelo comenta, então, que algo está podre no reino da Dinamarca.

Análise da cena 3 do ato I de Hamlet


    A cena é constituída por diálogos entre os dois irmãos e depois entre o pai e os seus filhos. Se a cena II serviu para anunciar o contraste entre Hamlet e Laertes, esta acentua-o e clarifica-o. De facto, na cena anterior, o leitor fica a conhecer a profunda divisão existente no seio da família de Hamlet, em confronto com a normalidade que se faz sentir na casa de Polónio. Ao longo da peça, por outro lado, ficará bem patente a diferença entre Laertes e Hamlet, pois, enquanto este hesita em levar a cabo a vingança do seu pai, Laertes não hesita e mostra-se determinado em vingar a morte do seu. De um lado, temos um jovem príncipe contemplativo e hesitante e, do outro, um ativo, determinado, obstinado e afetuoso Laertes.

    Por outro lado, a cena permite que o leitor fique a conhecer as personagens da família de Polónio. Assim, Laertes, quando questiona a irmã acerca do seu relacionamento com Hamlet e a aconselha, mostra ser o irmão mais velho atento, carinhoso e preocupado com a sua jovem irmã. Além disso, mostra-se confiante e prático, possuidor de um raciocínio direto e uma forma de ser e agir gentil. Sendo mais velho e na qualidade de homem que já esteve para lá dos portões de Elsinore e das fronteiras da Dinamarca, é alguém mais experiente do que a irmã e que tem consciência das questões que a atenção de Hamlet pode causar à reputação de Ofélia.

    Por seu turno, esta última deixa clara a sua juventude e inexperiência, mas também sincera e transparente no que diz respeito ao seu amor pelo príncipe. De facto, quando questionada pelo irmão e pelo pai, Ofélia poderia mentir, porém ela revela o que está a acontecer e é sincera no seu amor por ele, acreditando igualmente na sinceridade do afeto do príncipe. Em contrapartida, esta postura revela uma certa ingenuidade e desconhecimento do lado mais sombrio que pode residir nas intenções de um jovem relativamente a uma mulher igualmente jovem.

    Já Polónio apresenta-se, no diálogo com o filho, como um pai conselheiro, atento, preocupado e paternalista, tendo a forma como o aconselha acerca do modo de se comportar em França. Este discurso permite também estabelecer um contraste entre o amor paternal de que Laertes desfruta e o sentimento de perda e estranhamento de Hamlet, em virtude sobretudo do falecimento de seu pai. Além disso, se os filhos parecem ser sinceros e diretos, Polónio parece ser um homem algo egocêntrico e com uma visão eminentemente político das coisas e da vida, mesmo em situações que envolvem Laertes e Ofélia.

    Por último, a cena releva o contraste entre a realidade e as aparências, a propósito das verdadeiras intenções de Hamlet relativamente a Ofélia. O que quer ele dela? Será sincero ou estará a enganá-la? Neste contexto, a postura e o pensamento de Polónio são muito interessantes. De facto, está mais preocupado com as repercussões que as ações da filha podem ter na reputação dele do que com a sorte dela. Motivações semelhantes parecem estar subjacentes aos conselhos que dá a Laertes: a preocupação essencial centra-se nas aparências exteriores e não no interior de cada personagem.

Resumo da cena 3 do ato I de Hamlet


    Em casa de Polónio, Laertes prepara-se para partir para França. Ao despedir-se da irmã, Ofélia, alerta-a para os perigos de se apaixonar por Hamlet, que, segundo ele, é temperamental e comprometido com as necessidades da Dinamarca. De facto, uma pessoa na posição do jovem príncipe não tem a liberdade de escolher a companheira que entender e o bem-estar de um país pode depender dessa escolha. Retribuir o afeto de Hamlet poderia comprometer a sua reputação, por isso aconselha-a a protege-la, preservar a sua virgindade e evitá-lo e ao perigo, que o desejo configura. Ofélia promete levar a sério o conselho do irmão, mas, atrevida, pede que não lhe dê conselhos que ele mesmo não adota, ao que Laertes retorque que saberá cuidar de si.

    A entrada de Polónio para se despedir do filho interrompe a conversa dos dois irmãos. O pai adverte-o para se apressar e correr para o seu navio, pois já está atrasado, nas acaba por o atrasar ainda mais, dando-lhe inúmeros conselhos sobre como se comportar com integridade e patriotismo. Assim, diz-lhe que deve conservar os seus pensamentos para si; que deve evitar agir de forma precipitada; que deve fazer amigos, mas confiar apenas naqueles que provarem a sua lealdade; que deve evitar envolver-se em disputas, mas lutar corajosamente se for necessário; que deve ouvir mais do que falar; que deve vestir-se bem, mas não de forma espalhafatosa; que deve abster-se de pedir emprestado ou emprestar dinheiro; e, finalmente, que deve manter-se fiel a si mesmo e aos seus princípios.

    Laertes despede-se novamente de Ofélia e do pai e parte, recordando a irmã dos seus conselhos. A sós com a filha, Polónio pergunta-lhe o que conversou com o irmão e ela responde-lhe que tinha a ver com Hamlet. O pai diz-lhe que, de facto, tem notado que Hamlet e Ofélia têm passado muito tempo juntos ultimamente e pede-lhe que lhe revele a natureza do seu relacionamento. A jovem responde-lhe que Hamlet lhe diz amá-la, o que leva Polónio a ecoar os conselhos de Laertes, mostrando-se muito cético relativamente às reais intenções do príncipe. Ofélia insiste na sinceridade de Hamlet, contudo o pai adverte-a de que aquele é muito jovem e a enganou no seu amor por ela e, por isso, deveria rejeitar o seu afeto. Ofélia promete obedecer ao pai e afastar-se do príncipe.

Análise da cena 2 do ato I de Hamlet


    Esta cena começa por nos fornecer uma primeira visão do novo casal real e do seu relacionamento tenso com o príncipe Hamlet. O novo monarca parece procurar vencer a atmosfera sombria que o falecimento do anterior rei instalou no seio da corte. No entanto, a alegria parece superficial, o que é perfeitamente compreensível, dado que Cláudio está a tentar harmonizar um clima de tristeza e dor pela morte do irmão com a felicidade de ter desposado a esposa dele.

    A impressão com que o leitor fica de Cláudio é negativa. Como explicar o conselho que dá a Hamlet no sentido de parar de lamentar a morte do pai e de se adaptar a uma nova vida. Sucede que o príncipe desconfia do tio e não quer os seus conselhos. Mais do que isso, ele olha com estranheza para a morte do pai, o que é acentuado quando fica a saber da aparição repetida do fantasma, pois há a crença de que os espíritos aparecem frequentemente em busca de vingança para as suas mortes. Por outro lado, a sua atitude e comentário hostis durante a conversa com Cláudio parecem indiciar o seu ressentimento e desconfiança relativamente ao tio.

    Outro aspeto interessante desta cena é a relação entre mãe e filho. Assim, por um lado, quando Gertrudes pede ao filho que não regresse à universidade e permaneça em Elsinore mostra que ela gosta de Hamlet e o quer perto de si. O facto de o príncipe acatar o pedido é revelador também da obediência e dedicação à mãe. No entanto, no seu solilóquio, Hamlet revela a deceção com a progenitora por se ter casado tão rapidamente após a morte do primeiro marido, ainda por cima com o homem que era seu cunhado e a imagem que tinha do matrimónio dos seus pais era marcado pelo amor e compromisso entre ambos. Deste modo, o príncipe não consegue compreender que ela possa ter consentido num relacionamento com Cláudio, que Hamlet considera não estar à altura do seu pai.

    Não obstante, Hamlet parece ignorar as circunstâncias que rodeiam a existência da mãe. De facto, Gertrudes, enquanto mulher, não tem nem de perto nem de longe o mesmo poder que o filho ou outros membros da corte. Apesar de ser a rainha da Dinamarca, vive numa sociedade dominada por homens, uma sociedade que esperava que ela casasse de novo. Isto significa que o olhar crítico que o príncipe dirige à mãe é injusto e precipitado, pois não tem em conta as pressões externas a que está sujeita. Estamos ainda bem distantes de um tempo de uma rainha Vitória ou Isabel II. 

    Seja como for, parece claro que Hamlet sente que é desonroso para a mãe ter casado com o ex-cunhado, o que é visível, por exemplo, quando associa esse matrimónio ao incesto, o que significa que viola um certo código de ética, visto que, em termos práticos, não há incesto, dado Gertrudes e Cláudio não serem parentes. Assim sendo, Hamlet critica, sobretudo, aquilo que considera uma falta de respeito para com o seu pai.

    Uma outra questão suscitada pela cena é a imagem da Dinamarca como nação. Tudo o que é exposto aponta para um clima de corrupção, fraqueza e decadência que se instalou na corte, não só a história em torno de Cláudio, mas também o facto de Fortinbras pensar guerrear a Dinamarca por considerar que esta se encontra vulnerável. Outro exemplo que contribui para a construção desta imagem é o facto de Hamlet pôr a hipótese de o fantasma ter algo sujo a revelar. Será por tudo isto que não se mostra disponível para participar na tentativa do tio de construir uma imagem saudável e feliz da corte.

    Por último, há um momento em que Hamlet parece contemplar o suicídio, porém tal não se coaduna com a ideologia cristã que caracteriza a peça. De facto, de acordo com a religião de índole cristã, o suicídio constitui um pecado mortal, logo condena o suicida ao sofrimento terno no Inferno.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Resumo da cena 2 do ato I de Hamlet


    Na manhã seguinte, Cláudio, o novo rei da Dinamarca, faz um discurso aos seus cortesãos, explicando o seu recente casamento com Gertrudes, viúva do seu irmão e mãe do príncipe Hamlet. Assim, afirma o seu luto pelo irmão, as esclarece que é necessário refletir e prevenir o futuro e acrescenta que foi por isso que desposou Gertrudes, sua ex-cunhada e se tornou rei, e que está a celebrar o seu matrimónio, estabelecendo um equilíbrio entre o luto e o ambiente de festa. De seguida, alude a Fortinbras, informando que este lhe escreveu, exigindo a devolução das terras que o rei Hamlet conquistara ao seu pai, e envia uma mensagem de resposta, através de Cornélio e Voltimand, dois cortesãos noruegueses, dirigida ao rei da Noruega, tio de Fortinbras, um homem idoso e doente que desconhece por completo os planos do sobrinho, pedindo-lhe que trave as intenções deste último.

    Concluído o discurso, Cláudio volta a sua atenção para Laertes, que deseja regressar a França, onde vivia antes de ter regressado à Dinamarca, para a coroação do novo rei. Polónio dá o seu assentimento ao desejo do filho e Cláudio faz o mesmo. Dirige-se, antão, a Hamlet, questionando o seu luto persistente e a sua dor. Gertrudes exorta-o a pôr de parte as vestes negras que persiste em usar, mas o filho responde de forma sarcástica. Cláudio intervém, afirmando que a morte é um facto inevitável e «comum», pelo que todos os pais eventualmente morrem. Assim sendo, quando um filho perde o seu pai, deve chorar a sua perda, mas prolongar o estado de sofrimento e dor por muito tempo é inapropriado sinal de fraqueza de caráter. Além disso, exorta-o a pensar nele como um pai, recordando-lhe que é o próximo na linha de sucessão após a sua morte, e incentiva-o a permanecer na Dinamarca, em vez de regressar a Wittenberg, onde estudava antes da morte do pai, como o jovem príncipe tinha pedido. Gertrudes ecoa as palavras do marido, exprimindo o desejo que o filho permaneça perto de si. Hamlet acaba por concordar. Cláudio fica encantado e convida a esposa a celebrar com ele, através de uma festa e tiros de canhão, um antigo costume dinamarquês chamado “despertar do rei”. Todos saem de cena, excerto Hamlet.

    Sozinho, Hamlet inicia um monólogo e expressa o seu descontentamento com o rumo da sua vida após a morte do pai, dois meses antes, bem como a sua indignação com o casamento célere e precipitado da mãe com o seu tio, que ele considera incestuoso. E recorda o modo como os pais pareciam apaixonados um pelo outro. A sua dor é tanta que chega a aflorar o desejo de morrer, de desaparecer e deixar de existir.

    Entretanto, Horácio, Marcelo e Bernardo entram no aposento e cumprimentam Hamlet. O segundo era amigo íntimo do príncipe na universidade de Wittenberg e Hamlet, feliz por o reencontra, questiona-o sobre a razão de ter saído da escola e se encontrar em Elsionre. O amigo responde-lhe que veio ao funeral do rei Hamlet, ao que o príncipe responde, sarcasticamente, que veio assistir ao casamento da sua mãe. Horácio concorda que se tratou de um matrimónio rápido e revela-lhe que, juntamente com Marcelo e Bernardo, viram o fantasma do seu pai. Chocado e atordoado, o príncipe quer mais informações sobre o espírito. Os três homens descrevem o fantasma, a sua armadura, a viseira levantada e aparência pálida. Hamlet afirma que se lhes juntará nessa noite, na esperança de que haja nova aparição e que possa falar com ela, e pede-lhes que não contem a mais ninguém o que viram.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Análise da cena 1 do ato I de Hamlet


    A peça Hamlet foi escrita por volta de 1600, na fase final do reinado da rainha Isabel I, que governou a Inglaterra durante mais de quarenta anos e estava, então, a caminho dos sessenta anos. Neste contexto, facilmente se percebe que as questões em torno da morte da monarca e da sua sucessão eram assuntos candentes e objeto de grande discussão, visto que Isabel não tinha filhos e a única figura que, legitimamente, tinha pretensões ao trono era Jaime da Escócia, filho de Maria, rainha dos escoceses e, assim sendo, representante de uma fação política contrária à da monarca inglesa. De facto, quando Isabel faleceu, em 1603, James herdou o trono, tornando-se Jaime I.

    Não será coincidência que várias peças de William Shakespeare desta época aludam a transferências de poder entre reis. Essas obras centram-se particularmente nas incertezas, traições e convulsões que acompanham esses tempos e essas mudanças de poder e no ambiente geral, caracterizado pela ansiedade e pelo receio do que esteja para vir. Ora, a situação que encontramos no início de Hamlet é a de um rei forte e muito amado, recentemente falecido, cujo trono foi herdado não pelo seu filho, como seria natural e expectável, mas pelo seu irmão. O povo, ainda de luto pelo bem-amado velho monarca, não sabe o que o futuro lhe reserva, ambiente que é espelhado pelos guardas do castelo, que se encontram desconfiados e com medo.

    Esta abertura da peça com uma cena intrigante atrai inevitavelmente o público para a sua ação, muito próxima da que vivia a Inglaterra na realidade: um rei recentemente falecido (a hora da morte de Isabel I aproximava-se) aparece sob a forma de um fantasma; há tensões militares no ar e a Dinamarca vive um clima de agitação geral, fruto do passamento do monarca e da tensão com a Noruega. Esse aparecimento parece implicar que o futuro da Dinamarca é sombrio e assustador. É isso que Horácio lê no aparecimento do espírito do velho monarca: um mau presságio de violência e turbulência, associando-o aos presságios que indiciaram o assassinato de Júlio César. Como se verão no desenvolvimento da peça, Horácio tem razão: o surgimento do fantasma pressagia as tragédias que terão lugar futuramente.

    Esta cena inicial serve também para apresentar uma das personagens centrais da obra, Horácio, um homem bem-humorado e educado, inteligente e cético relativamente a eventos sobrenaturais. Porém, esta personagem não é um racionalista cego e inflexível e, quando vê o fantasma, não nega o que vê; pelo contrário, fica aterrorizado. Esta sua reação ao aparecimento do fantasma permite que a descrença do público face a estes fenómenos seja superada. Com efeito, o facto de um homem racional, cético, inteligente e confiável como Horácio acreditar e temer o fantasma é muito mais convincente para o público do que o testemunho de um par de vigias supersticiosos.

Resumo da cena 1 do ato I de Hamlet

    Numa noite escura de inverno, no castelo de Elsinore, na Dinamarca, Bernardo apresta-se para substituir Francisco na tarefa de vigia. Na penumbra, os dois homens não se conseguem ver, por isso Bernardo, ao ouvir passos próximos de si, grita: “Quem está aí?” Ao ouvir a voz do colega, relaxa. Com frio e cansado pelas muitas horas de vigia, Francisco agradece a Bernardo e dirige-se para casa, para dormir.

    Pouco depois, chegam outro soldado, Marcelo, e um nobre chamado Horácio, amigo do príncipe Hamlet. Os dois vigias discutem acaloradamente a aparição, nas últimas duas noites, de um fantasma durante a sua vigília nas muralhas, que lembra o falecido rei Hamlet, pai do príncipe homónimo. Horácio mostra-se cético e desconfia do relato, crendo que tudo não passa de imaginação dos guardas, porém de repente o espírito surge subitamente diante dos três homens, vestido com as roupas e a armadura do falecido monarca. A pedido dos outros homens, Horácio pede ao fantasma que fale, no entanto este recusa e desaparece.

    Horácio fica aterrorizado e sugere que a aparição do espírito, que envergava a mesma armadura que usava quando lutou contra o velho Fortinbras, rei norueguês, conquistando-lhe terras que, anteriormente, pertenciam à Noruega, significa algo terrível para a Dinamarca. Horácio acrescenta que Fortinbras, neste caso o jovem príncipe norueguês, deseja agora reconquistar essas terras anteriormente perdidas.

    No final da cena, o fantasma faz nova aparição e Horácio tenta falar com ele, mas desaparece mais uma vez no momento em que o galo canta aos primeiros sinais do amanhecer. Horácio sugere que contem ao jovem príncipe Hamlet o que viram, pois acredita que, embora o espírito não tenha falado consigo, se for realmente o fantasma do rei Hamlet, não se recusará a falar com o filho.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Análise das 8.ª e 9.ª partes da crónica 1 de Assassinos da Lua das Flores


    Tom White, a figura mais heroica do livro, é o protagonista da sua seção intermediária. O seu talento como detetive e o sentido de moral conduzem a investigação e permitem compreender como é que o Departamento de Justiça dos EUA ficou conhecido como o Departamento da Virtude Fácil. De acordo com White, uma cultura de corrupção compromete até os bons espíritos: qualidades pessoais admiráveis, levadas ao extremo, podem transformar-se em falhas, uma mutação que a corrupção acelera. Por outro lado, a escolha de William Burns, um detetive privado conhecido por ignorar a lei, para diretor do Bureau em 1921 levou a que o Departamento de Justiça ficasse intimamente conectado com a injustiça e um ethos que dava prioridade aos fins em detrimento dos meios.

    Tal como sucede no romance policial tradicional, os agentes da lei sabem que há um criminoso (ou criminosos), mas desconhecem a sua identidade e a sua tarefa consiste precisamente na descoberta da mesma, uma tarefa extremamente complexa, visto que que os crimes não seguem um padrão inequívoco, além de terem como alvos membros da tribo osage ou homens brancos que procuram ajudá-los. A preocupação de White passa por distinguir os factos das suposições, mesmo que o processo se revele demorado, em detrimento da obtenção de resultados rápidos. A finalidade primeira e última é chegar à verdade e fazer justiça. Nada mais importa. Mesmo que White esteja disposto a violar uma norma do Bureau – a proibição de os seus agentes portarem armas –, incute neles a noção de quão importante é manter os mais elevados padrões de investigação possíveis. Num contexto marcado pela ilegalidade e pelo crime, a hesitação de White em recorrer à violência, ainda que queira que os seus agentes sejam capazes de se proteger, é uma parte vital da sua estratégia de criar condições para resolver o caso.

    É curioso notar que a equipa reunida por White não corresponde àquilo que J. Edgar Hoover visionou como fundamental para a modernização do Bureau of Investigation e recuperação da sua reputação. De facto, o recém-nomeado diretor preferia ter a trabalhar para si investigadores profissionais com formação universitária, mas White opta por homens experientes nos assuntos da antiga fronteira e que, por isso mesmo, poderão operar disfarçados tanto junto das comunidades brancas como das nativas americanas, além de outros que o ajudarão publicamente. É uma espécie de conspiração para expor a conspiração criminosa. Sucede, porém, que este modo de agir não é isento de problemas. De facto, White corre o risco de levar os homens bons da sua equipa a deixar-se seduzir pela face do crime. De facto, é o que sucede com um dos informantes recrutados, que acaba por fornecer informações à conspiração criminosa. Não obstante, nenhum dos agentes incorporados por White se deixa corromper no condado, mas existe sempre a possibilidade de tal suceder a qualquer momento.

Resumo da 9.ª parte - 2.ª crónica: Os cowboys disfarçados

    White assume, pois, a direção do escritório do Bureau de Oklahoma City em julho de 1925 e começa por analisar todos os ficheiros e arquivos relativos aos assassinatos ocorridos em Osage. O seu choque é enorme quando descobre que os agentes que anteriormente investigaram o caso numa entrevistaram Mollie. Por outro lado, apercebe-se de que os assassínios não seguem um único padrão, o que o leva a pôr a hipótese de o cabecilha ter a trabalhar para si pessoas que executavam os crimes. O seu esforço princial centra-se, antes de mais, em separar os factos da boataria e das suposições. De seguida, organiza a sua equipa de agentes, selecionando, em exclusivo, homens com experiência nas questões do Oeste americano, incluindo um ex-xerife e guarda florestal, um agente secreto, John Burger, Frank Smith e John Wren. Dentre estes, alguns trabalham disfarçados, enquanto outros, como, por exemplo, Burger e Smith, fazem parte da equipa que trabalha diretamente consigo.

Resumo da 8.ª parte - 2.ª crónica: Departamento de virtude fácil


    A segunda crónica leva-nos até o verão de 1925, quando o agente especial Tom White é convocado por J. Edgar Hoover para ir ao seu encontro em Washington DC. O agente, antes de fazer parte dos quadros do Bureau of Investigation, tinha estado ao serviço dos caminhos de ferro como detetive e ranger do Texas, pelo que o seu comportamento e postura diferiam daquilo que Hoover desejava para os agentes sob o seu comando. Além disso, White desobedecia com alguma frequência a outra das regras a que os agentes do Bureau estavam sujeitos: a proibição de transportar armas de fogo consigo.

    Na época em que os acontecimentos descritos na obra tiveram lugar, a reputação do Bureau estava em cacos face às acusações de clientelismo e corrupção que recaíam sobre ele. O caos tinha-se acentuado após a designação de William Burns, em 1921, para seu diretor, cujas práticas tinham fomentado a corrupção no departamento. Um comité do Congresso norte-americano tinha exposto a podridão reinante no departamento de Justiça a partir de um inquérito ao escândalo conhecido do Teapot Dome. A história conta-se brevemente: no dia 14 de abril de 1922, o Wall Street Journal noticiara um acordo secreto sem precedentes em que o Secretário do Interior tinha arrendado, sem concurso, a reserva naval de petróleo dos EUA no Teapot Dome, no Wyoming, a uma empresa petrolífera privada. No dia seguinte à notícia, o senador democrata do Wyoming, John Kendrick, apresentou uma resolução que deu início a uma investigação do caso. Em simultâneo, o seu congénere republicano Robert La Follette providenciou no sentido de o Comité de Terras Públicas do Senado investigar igualmente o assunto. As suas suspeitas acentuaram-se a partir do momento em que alguém saqueou os seus aposentos privados no edifício do Senado. No final, a investigação revelou que o Secretário do Interior, Albert Fall, tinha enriquecido rapidamente de forma ilícita, graças às negociatas em que se tinha envolvido e que o levaram à prisão. Na sequência do escândalo, no verão de 1924, foi designado um novo Procurador-Geral, de seu nome Harlan Fiske Stone, que contratou J. Edgar Hoover para diretor interino. Hoover reformou o Bureau e, em dezembro desse mesmo ano, foi promovido a diretor. O seu mandato estender-se-ia por quase cinco décadas.

    Anteriormente, Hoover já havia confiado a White uma missão importante, uma missão secreta numa penitenciária federal em Atlanta, pelo que não hesita em o destacar para Osage. Por outro lado, convém ter presente que esta não era a primeira vez que o Bureau estava envolvida nos crimes ocorridos no condado. De facto, em 1923, William Burns tinha enviado agentes para Oklahoma, uma investigação financiada parcialmente por Osage, mas a investigação redundou num rotundo fracasso que implicou inclusive a perda de um informante, Blackie Thompson, que tinha sido libertado da prisão especificamente para os auxiliar. Deste modo, Hoover deixa claro para White que é imperativo que a sua investigação tenha sucesso, caso contrário o departamento ficará definitivamente manchado pelo insucesso das duas passagens por Osage.

Análise das 6.ª e 7.ª partes da crónica 1 de Assassinos da Lua das Flores


    Este capítulo contrapõe a riqueza e o poder dos homens brancos ao terror instalado entre a tribo osage, tudo derivado da descoberta de petróleo na região, que se transformou numa autêntica certidão de morte para os seus membros. Os jornais da época retratam-nos como indivíduos perdulários e inconsciente que não merecem a riqueza que lhes caiu no colo, sendo evidente os traços de racismo e discriminação que pautam esses relatos, não obstante também estar em causa o valor que a sociedade americana atribuía ao trabalho e ao seu papel na obtenção de riqueza. Fica claro que o objetivo passa por pintar os Osage como uma tribo que teve apenas a sorte em se mudar para terras prenhes de petróleo, pelo que a riqueza não foi fruto do seu trabalho denodado, antes de um mero golpe de fortuna, logo a tribo não é digna dessa mesma riqueza. Os media pareceram esquecer, no entanto, o facto de os Osage terem chegado àquele território somente por terem sido expulsos pelos colonos brancos da vasta região onde viviam anteriormente. Assim sendo, estamos perante mais um caso em que os mitos culturais optam frequentemente por escolher o lado da ficção aos factos puros e duros (quem não se lembra, noutro contexto, de O Homem que Matou Liberty Valance?). Por outro lado, a correlação entre o mérito de obter algo e o trabalho e esforço necessários para atingir tal desiderato constituem uma trave-mestra do princípio do self-made man, representado por William Hale. Por contraste, os Osage eram retratados como selvagens preguiçosos e afortunados que não mereciam a riqueza de que dispunham, mas, em simultâneo, também como aristocratas perdulários que não pertenciam aos Estados Unidos. Deste modo, fosse qual fosse o ângulo de análise da situação, os nativos jamais poderiam triunfar.

    Ao socorrer-se da expressão Reinado do Terror para designar o período que é analisado na obra, David Graan baseia-se na Revolução Francesa, nomeadamente no período entre 1793 e 1794, em que mais de dezasseis mil pessoas foram executadas, sem julgamento ou prisão, ocorrendo cerca de duas mil seiscentas e trinta e nove apenas em Paris, embora os investigadores desta época admitam que o número de vítimas terá sido superior. Ora, essa fase ficou exatamente conhecida como Reinado de Terror, uma expressão que pretende traduzir a violência brutal e aparentemente arbitrária a que os Osage foram sujeitos.

    Com a morte do seu último irmão na explosão da casa, Mollie vê-se sozinha e, sabendo que também ela é um alvo a abater, questiona-se quanto tempo de vida lhe restará. A única relação de proximidade que lhe resta é a sua família nuclear, Ernest e os seus três filhos. Acossada pelo medo do que lhe possa suceder e aos familiares, envia a filha mais nova, Anna, embora, para a proteger do perigo e da dor que se instalou. Quando era mais nova, foi casada durante um breve período de tempo com Henry Roan e, presentemente, após a morte deste, receia que o atual marido fique a saber desse anterior relacionamento e matrimónio, que sempre escondeu dele. Por outro lado, o assassinato de Roan reveste-se de especial importância por trazer a figura de William Hale para a ribalta: os dois eram tão próximos que este último carrega o caixão daquele durante o funeral. Os crimes podem ocorrer em qualquer lugar e a qualquer momento, contudo os laços que unem os diversos protagonistas constituem uma teia tão intrincada que parece tê-las capturado por completo.

sábado, 3 de fevereiro de 2024

Resumo da 7.ª parte da 1.ª crónica: Esta coisa das trevas


    Fevereiro de 1923: o corpo de Henry Roan, um osage, é encontrado no interior do seu Buick baleado na cabeça. O falecido não era estranho a Hale. Pelo contrário, tinha-o contactado apenas umas semanas antes do seu passamento porque descobrira que a sua esposa o andava a trair. O rico proprietário emprestou-lhe dinheiro e, em troca, Roan nomeou-o beneficiário único de uma apólice de seguro de vida que tinha feito.

    Esta mais recente morte desperta o terror que jazia semiadormecido no seio da comunidade e leva muitos a adotarem novas medidas de segurança para se protegerem da onda de crime, nomeadamente instalando luzes nas suas casas ou comprando um cão de guarda. Por seu turno, a família de Anna continua a procurar o assassino da mulher. William Smith afirma que está a fazer progressos na sua investigação, mas ele e Rita decidem mudar-se para o centro da cidade e comprar um cão, tudo medidas visando a sua segurança. Contudo, no mês seguinte, março, os  cães dos vizinhos começam a morrer, suspeitando-se que vítimas de envenenamento. Bill confessa a um amigo que desconfia que será morto em breve e, de facto, na noite de 9 de março, pouco depois de se ter ido deitar, a sua casa é vítima de uma enorme explosão. Rita e Nettie Brookshire, a empregada, são encontradas mortas, ao contrário de Bill, que ainda é encontrado com vida, acabando, no entanto, por falecer passadas duas semanas.

    Confrontado com esta nova onda de mortes, o governador do estado de Oklahoma envia Herman Fox Davis, um investigador, para o condado de Osage em abril desse mesmo ano, porém, em junho, declara-se culpado do recebimento de subornos. A onda de corrupção e violência acentua-se quando W. W. Vaughan, um conhecido advogado caucasiano, é morto. De facto, Vaughan estava a auxiliar as investigações dos detetives privados; além disso, tinha sido convocado por um indivíduo moribundo, George Bigheart, ao seu leito de morte, onde compartilhara consigo informações cruciais acerca dos assassinatos. No entanto, antes que o advogasse tivesse tido oportunidade de as divulgar, desaparece e o seu corpo é encontrado pouco depois, porém os papéis que Bigheart lhe fornecera, bem como os fundos que deixara à sua esposa, haviam desaparecido.

    Por sua vez, os Osage instam o governo federal a agir de forma a pôr cobro ao Reinado de Terror, que já fizera pelo menos vinte e quatro vítimas entre os nativos. No final deste capítulo, o autor volta a focar a atenção da sua pena em Mollie, imaginando como todas as mortes ocorridas a terão feito sentir. Por outro lado, dá notícia de que a mulher, em 1925, confidenciará a um padre local que crê ter a sua vida em perigo.

Resumo da 6.ª parte da 1.ª crónica: One Million Dollar Elm

    Novo recuo no tempo: a partir de 1912, os barões do petróleo reuniram-se no condado de Osage para licitar arrendamentos petrolíferos. Por vezes, juntavam-se ao ar livre, nomeadamente sob os ramos de uma árvore conhecida por Million Dollar Elm em virtude das quantias de dinheiro envolvidas nas negociatas que decorriam nesse espaço. Esta febre foi objeto da cobertura da imprensa da época, que dava conta de todos os desenvolvimentos, expressando também uma crescente preocupação com a crescente riqueza dos indígenas, nomeadamente a partir das referências a gastos excessivos e a desperdícios de diversa ordem.

    Embora a questão da tutoria, abordada nos capítulos anteriores, tivesse como justificação oficial a proteção de quem dela necessitava, na realidade a sua base era racial: os mestiços raramente tinham tutores, todavia os nativos americanos sem ancestrais ou cônjuges brancos regra geral possuíam um. Em 1921, o governo alterou novamente os pressupostos dos acordos feitos, insistindo que os membros osage que possuíssem um tutor fossem «restritos», o que, na prática, significava que «só» lhes era permitido gastar alguns milhares de dólares por ano, independentemente da riqueza que possuíssem. Na verdade, o sistema de tutoria caracterizava-se por abusos desenfreados, em paralelo com uma outra série de ataques dirigidos aos indígenas, vítimas de tudo e de todos. Por exemplo, os mercadores brancos inflacionavam constantemente os preços dos produtos que comercializavam, enquanto os caçadores de fortunas, quer do género masculino quer do feminino, procuravam atrair membros da tribo para o casamento.

Análise das 4.ª e 5.ª partes da crónica 1 de Assassinos da Lua das Flores


    A relação entre os Osage e os homens brancos é, como não poderia deixar de ser, complexa, oscilando entre a procura de acordo e amizade e a traição. Rapidamente, os indígenas, ao contrário de outras tribos nativas, aprendem que é crucial manter o máximo de poder possível para si durante as negociações com o governo central. É assim que decidem comprar o território para onde irão viver quando são forçados a mudar pela terceira vez, possivelmente porque compreenderam que a propriedade privada poderia trazer-lhes um nível de proteção, mesmo que insipiente ou modesta, contra a ambição da jovem nação por terra. Quando conseguem adiar a distribuição de terras como o governo pretendia inicialmente e, em vez disso, impõem cláusulas específicas aos acordos, a sua decisão anterior revela-se acertada e a tribo consegue ficar com todos os direitos sobre aquilo que existe debaixo do solo, que é o mesmo que dizer sobre as jazidas de petróleo que sob ele aguardam em silêncio quem as explore. Não obstante, a opinião sobre o crude entre a tribo não é consensual, visto que há quem o considere de forma negativa, embora ele traga riqueza e conforto para todos. Por outro lado, estamos na presença de um grande passo que a tribo dá em direção à cultura norte-americana, visto que até então a sua existência se organizava em torno da caça anual ao búfalo e não de grandes mansões e carros modernos e luxuosos.

    É neste contexto que indígenas e exploradores começam a construir uma nova relação, caracterizada pelo desejo mútuo de enriquecer, tendo-se espoletado uma situação análoga à que ocorreu com a Corrida do Ouro da Califórnia, que teve início em 24 de janeiro de 1848, quando foi descoberto ouro em Sutter’s Mill, e durou até 1855, levando mais de 300 000 pessoas, oriundas dos Estados Unidos e do exterior, a deslocarem-se para aquele estado. De facto, a descoberta de ouro negro atraiu uma grande variedade de pessoas para a região dos Osage, uma parte delas de má índole. Por seu turno, o governo dos EUA impôs algumas condições à tribo, supostamente destinadas a proteger os seus membros de atos fraudulentos por parte dos exploradores, que passavam por colocar um indivíduo branco a gerir as questões financeiras dos nativos. Como é evidente, este sistema de tutela implicava a existência de um grau elevado de confiança nas pessoas responsáveis pelos trusts, o qual foi claramente negado pelo chamado Reino do Terror, um período de cerca de uma década durante o qual diversos membros osage foram assassinados por indivíduos que ambicionavam o seu dinheiro. Este clima de terror e desconfiança generalizada foi exponenciado pelo facto de também pessoas brancas fazerem parte do rol de vítimas, de que é exemplo o assassinato de Barney McBride, um proeminente empresário branco que estava disposto a defender os nativos em Washington DC. Se um homem branco, poderoso e rico não estava a salvo, muito menos o estariam os indígenas.

    Os capítulos IV e V da primeira parte da obra destacam as extremas dificuldades de negociação existentes entre os Osage e o governo norte-americano, marcada por promessas quebradas, assimilação e submissão forçadas, mudanças de cláusulas e princípios contratualizados e pressão constante para proceder à renegociação de acordos que, entretanto, se tornavam menos favoráveis para o Estado. Assim sendo, os nativos viam-se constantemente forçados a acomodar a voracidade e a ambição desmedida dos colonos brancos.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Resumo da 5.ª parte da 1.ª crónica: Os discípulos do Diabo


    Finda a analepse operada no capítulo anterior, a narrativa regressa ao presente da ação e ao convívio com a família de Mollie, que oferece uma recompensa em trica de informações que possam ajudar a esclarecer as mortes de Anna e Lizzie. Seguindo o conselho de Hale, os Burkharts contratam um detetive particular chamado Pike, enquanto Mollie e Ernest incentivam os guardiões da propriedade de Anna a procederem de modo semelhante. Convém esclarecer que um dos princípios do acordo estabelecido entre o governo norte-americano e os Osage passava ser atribuído um tutor pelo Office de Assuntos Indígenas a todo aquele que fosse considerado incapaz ou incompetente para administrar os seus negócios. Esses tutores eram, regra geral, homens brancos que tinham o poder de controlar todas as questões relativas a finanças do tutoriado. O tutor de Anna e Lizzie eram um indivíduo chamado Scott Mathis e também este decidiu contratar detetives privados, que investigam os últimos dias de vida de Anna, nomeadamente entrevistando testemunhas e verificando os seus registos telefónicos. Deste modo, conseguem estabelecer que, na noite em que desapareceu, se encontrava em casa às 20 horas e 30 minutos, mas também chegam à conclusão que alguém pagou para o registo de chamadas da mulher ser alterado. No entanto, entre teorias e boatos que correm, os investigadores particulares nada mais descobrem de relevante e, assim, nove meses volvidos sobre os crimes, as investigações estão paradas e tudo aponta para que não sejam desvendados.

    Está a situação neste ponto quando chega o mês de fevereiro de 1922, que marca a ocorrência de nova morte, a de William Stepson, envenenado, seguida de duas outras de membros da tribo Osage. Em desespero, esta roga o auxílio de Barney McBride, um negociante de petróleo branco que havia casado com uma mulher Creek. O sujeito desloca-se a Washington DC no sentido de solicitar o auxílio das autoridades federais, porém o contacto com estas acaba por nunca se concretizar, visto que o seu corpo é encontrado em Maryland na manhã subsequente à sua chegada.

Resumo da 4.ª parte da 1.ª crónica: Reserva subterrânea


    Este capítulo assenta num recuo no tempo – analepse – para clarificar como os Osage se tornaram uma tribo rica e como vieram a habitar naquela zona do estado do Oklahoma. A narrativa recua até à época que assistiu à chegada dos colonos europeus à América do Norte, quando os Osage ocupavam um território que compreendia a área que se estendia entre o Missouri e o Kansas, incluindo as famosas Montanhas Rochosas. Quando os Estados Unidos adquiriram grande parte desse território aquando da compra do estado do Louisiana (31 de outubro de 1803) à França, os Osage foram forçados a renunciar às suas terras situadas entre os rios Arkansas e Missouri. Deste modo, quando Mollie nasceu, a tribo estava limitada a uma pequena parcela de terra localizada a sudeste do Kansas. Duas vezes por ano, os Osage mudavam de território para caçar búfalos, uma atividade que consideravam sagrada: cada parte do animal era reverenciada e cuidadosamente utilizada. Entretanto, o chamado homem branco norte-americano continuava a conquista do Oeste, invadindo terras de diversas tribos índias, incluindo a dos Osage. Alguns desses homens, mais cruéis e oportunistas, não se limitavam a invadir esses terrenos e a usurpá-los, pois também assassinavam as famílias que neles viviam, mesmo nos casos em que os nativos concordavam com a sua venda.

    Os Osage decidiram, então, comprar terras aos Cherokees, concretamente uma área aparentemente imprópria para cultivo, pensado que, assim, demoveriam os colonos brancos de a ambicionarem e ocuparem. Foi nessa área que Lizzie e Ne-kah-e-se-y se estabeleceram em 1974, após se terem casado, juntamente com outros membros da tribo, que assistia a um decréscimo dos seus membros a cada ano que passava. As suas circunstâncias de vida eram cada vez mais precárias, por um lado, porque a população de búfalos eram cada vez menor e, por outro, porque o governo norte-americano lhes pagava em rações, em vez de em espécie, o que levava a que passassem fome e outras privações. Vendo-se cada vez mais em situação insustentável, decidiram enviar uma delegação ao governo, que lhes fez algumas concessões, as quais, porém, não melhorou grandemente o estado de coisas. Nesse tempo, os Osage foram forçados também a enviar os seus filhos para a escola, onde aprenderam a língua e a cultura inglesa e norte-americana. Foi o caso de Mollie. Além disso, a esperança que os Osage depositavam no desinteresse dos brancos por aquele pedaço de terra intratável caiu também. Nada parecia parar os colonos.

    E assim chegamos à década de 1890, quando o governo dos EUA pressionou a tribo no sentido de aceitar a divisão das suas terras até então partilhadas em parcelas de propriedade individual, que seriam concedidas a cada membro da tribo. Os Osage não se fizeram rogados e compraram-nas, o que permitiu ao chefe multilingue da tribo, James Bigheart, bem como ao advogado John Palmer, um homem de ascendência simultaneamente Sioux e caucasiana, casado com uma mulher osage, adiar a distribuição e, deste modo, negociar termos mais favoráveis para o seu povo. Com efeito, conseguiram chegar a um acordo que lhes proporcionava direitos duradouros sobre tudo o que existe debaixo da terra, o que constitui um golpe de génio, até porque os negociadores do governo desconheciam que nela tinha sido descoberto petróleo. O referido acordo estipulava, entre outras coisas, que cada membro da tribo teria direitos de cabeça que não poderiam ser vendidos. Os Osage, inteligentemente, passaram a arrendar lotes a uma enchente de exploradores selvagens que se deslocavam para a zona em busca de fortuna rápida e fácil. Alguns deles alcançaram, de facto, a riqueza, mas muitos outros fracassaram. Os únicos que lucraram no seu todo foram os Osage.

Análise da 3.ª parte da crónica 1 de Assassinos da Lua das Flores


    Este capítulo da obra centra-se na figura de William Hale, um self-made man que, na prática, governa o condado de Osage. Graças ao casamento de Mollie Burkhart com o seu sobrinho, Ernest, é familiar de Mollie e promete ajudá-la na demanda de justiça para a irmã. No entanto, parece haver algo sinistro ligado à sua pessoa, como o epíteto por que é conhecido entre a população deixa adivinhar. A sua aparência sugere estarmos na presença de um homem benevolente, preocupado e atencioso com a comunidade, como se pode depreender pela pressão que exerce sobre as autoridades locais e, mais tarde, quando contrata detetives privados para investigar os assassinatos ocorridos. A sua determinação e energia demonstradas na busca e obtenção de sucesso, superando dificuldades e obstáculos, granjeiam-lhe respeito de todos, porém o seu trajeto de vida também mostra que se trata de alguém que não observa e respeita limites, como fica bem patente através da referida pressão exercida sobre diversas pessoas. Embora tal suceda por um bom motivo, não deixa de ser uma postura reveladora de prepotência e abuso de poder.

    Por outro lado, a figura de Mollie continua a merecer grande centralidade na narrativa. Neste capítulo, o leitor pode observá-la pela primeira vez em discurso direto quando responde no contexto do inquérito sobre a morte de Anna. Grann reproduz as palavras da personagem, constituindo a transcrição do inquérito um documento inestimável, dado que permite que ela fale por si mesma e revele uma mulher determinada, decidida, de personalidade bem vincada, que se expressa num inglês claro, mesmo que não perfeito. De toda a sua intervenção, ressalta o desejo intenso de obter justiça para a irmã.

    A Décima Oitava Emenda da Constituição norte-americana estabeleceu a chamada Lei Seca, tendo sido ratificado em 16 de janeiro de 1919 e entrado em vigor um ano depois, até à sua revogação em 1933. Os seus efeitos práticos foram frequentemente contraproducentes, se tivermos em conta os objetivos que presidiram à sua publicação. De facto, os contrabandistas responderam à sua entrada em vigor abrindo lojas e comercializando produtos que continham substâncias altamente venenosas. O comércio ilegal de álcool transformou-se num negócio extremamente lucrativo e perigoso, ou até moral, em simultâneo. Ou seja, se quem esteve por trás da Lei Seca cria que a sua publicação iria reduzir a taxa de criminalidade, na realidade sucedeu o oposto. É neste contexto que as colinas que rodeavam Osage adquirem grande importância, visto que constituíam um esconderijo extraordinário para pessoas em fuga à lei.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Resumo da 3.ª parte da 1.ª crónica: Rei das colinas Osage


    Os corpos de Anna e Charlie, baleados com uma arma de calibre .32, são descobertos quase em simultâneo, o que gera um grande sururu e uma enorme especulação. Mollie assume, de novo, alguma preponderância na história, dado que, como sabe falar inglês e é casada com um homem de pele branca, é ela quem dialoga com as autoridades em nome da sua família, as quais se mostram particularmente renitentes em investigar as mortes. Esta ausência de ação leva a família Burkhart a solicitar a William Hale, tio de Ernest, que se envolva, no sentido de levar as autoridades a agir. De facto, Hale é uma figura com grande preponderância no condado de Osage, por se tratar de um homem abastado e com grande influência na região, bem como um defensor do Estado de Direito. Chegara àquela região dos EUA há bastantes anos, sem passado conhecido, e trabalhara como vaqueiro conduzindo gado destinado a abate através das planícies, conseguindo poupar dinheiro suficiente para comprar um rebanho de gado, para, no entanto, tudo perder pouco depois. No entanto, este fracasso, em vez de o desanimar e abater, tornou-se o combustível da sua grande ambição em busca de sucesso e riqueza. De facto, logo recomeça a sua demanda de riqueza e acaba por fazer fortuna dedicando-se à indústria pecuária. A conquista de riqueza faz com que ponha de lado a asua tradicional imagem de homem rude: muda a sua forma de vestir, começando a envergar roupa mais adequado ao seu novo estatuto socioeconómico, casa-se com uma professora e é pai de uma rapariga. A narrativa não deixa dúvidas: Hale mudou a sua vida graças ao facto de trabalhar mais e melhor do que os outros e sendo mais inteligente e astuto do que os rivais. Assim, acumula riqueza e, em simultâneo, poder e influência, não só apenas graças ao seu dinheiro, mas também a gestos em prol da comunidade, como por exemplo, a construção de um hospital e de escolas, que lhe granjeiam a imagem de um benfeitor excecional e amigo especial junto da tribo osage. Tudo isto faz com que seja reverenciado como um rei, homenageado com a nomeação honorária como vice-rei e assuma o título de reverendo. Deste modo, promete ajudar Mollie a obter justiça para a sua irmã, algo em que esta acredita piamente, graças à relação próxima com Ernest e a sua amizade com Anna.

    É aberto um inquérito formal sobre a sua morte, no qual a irmã Mollie testemunha, ansiosa por fornecer qualquer informação que possa contribuir para identificar o assassino da mana. Após a conclusão da inquirição e por ter sido a última pessoa a ver Anna viva, Bryan Burkhart é detido, juntamente com o seu irmão Ernest, todavia ambos são libertados pouco depois por inexistência de provas suficientes do seu envolvimento que permitissem a manutenção da sua detenção. Em Osage, muitos acreditam que os assassinos serão pessoas de fora, visto que a Lei Seca, que fora imposta no início de 1920, tinha criado um ambiente de desrespeito pela lei na região, enquanto outros apontam para o ex-marido de Anna, Oda Brown, que procura, sem sucesso, anular o testamento da defunta por esta não lhe ter deixado nada. Um falsificador do Kansas entra também em cena e entra em contacto com o xerife Freas para lhe comunicar que Brown lhe pagou para assassinar Anna, porém, como, mais uma vez, não existem quaisquer provas da sua narrativa, tanto ele como Brown são postos em liberdade.

    Perante este quadro, Hale pressiona as autoridades locais, que decidem desenterrar Anna para procurar e analisar a bala que a matou. Todos estes acontecimentos, nomeadamente toda a gama de sentimentos despertada pela morte da filha, levam à morte de Lizzie uns curtos dois meses após a daquela. Bill Smith desconfia, contudo, considera o passamento de Lizzie suspeito e começa a investigar por sua iniciativa, concluindo que foi envenenada. Perante isto, convence-se de que todas as mortes recentes – concretamente as de Anna, Lizzie e Charles Whitehorn – estão interligadas entre si e relacionadas com as vastas reservas de petróleo que a tribo osage controla.

Resumo da 2.ª parte da 1.ª crónica: Um ato de Deus ou do homem?


    A localização remota do condado de Osage significa que a aplicação da lei e as investigações criminais estão entregues a amadores locais, o que está longe de garantir qualquer espécie de fiabilidade ou eficácia. James e David Shoun, médicos brancos locais, realizam a autópsia de Anna. Os Shouns determinam que a mulher morreu entre cinco a sete dias e que a causa da morte é um ferimento de bala que ostenta na cabeça. Um agente da polícia procura a bala calibre 32 desaparecida e, embora não a encontre, descobre uma garrafa de aguardente e algumas marcas de pneus na área onde o corpo foi descoberto.

    Lizzie fica arrasada com a morte de Anna e sua saúde piora enquanto ela se pergunta se Wah'Kon-Tah (a força vital que cerca tudo e todos no sistema de crenças Osage) não tem mais o apoio da sua família. Mollie planeia o funeral da irmã, que combina tradições osage e católicas. As exéquias têm um preço exorbitante e claramente inflacionado, nomeadamente o caixão, o embalsamento e as flores. No momento do sepultamento, são entoados hinos e cânticos Osage, embora o estado do corpo de Anna não permita que que alguns rituais Osage possam ser realizados.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Provas De Aferição (2017-2023) – H.G.P. - 5.º Ano

     No domínio "A Península Ibérica"; localização e quadro natural", os alunos que Conseguiram ou Conseguiram, mas, os resultados decresceram de 54, 4% para 5, 7% (ou seja, menos 48, 7 pontos) entre 2017 em 2023; no "Dos primeiros povos à formação de Portugal", de 48, 6% para 13, 7% (menos 34 pontos); no de "Portugal no século XIII ao século XVII", de 20, 7% para 7, 4%) (menos 13, 3 pontos).

    Em suma, o estado da aprendizagem à disciplina tem evoluído fantasticamente. João Costa e sua troupe devem prosseguir o caminho a que deram início (ou talvez seja melhor dizer continuidade), porque a «coisa» está de estalo.

        . Resultados de 2017:


        . Resultados de 2023:



FONTEO Meu Quintal, blogue da autoria de Paulo Guinote

Provas De Aferição (2018-2023) – Português, 5.º Ano

     Entre 2018 e 2023, a queda nos resultados é inequívoca: na Oralidade, entre o Conseguiu e o Conseguiu mas (que terminologia fantástica!), aqueles desceram de 52,6% para 43,6% (isto é, menos 9 pontos); na Leitura e Educação Literária, passou-se de 32,4 % para 24,9% (menos 7, 5 pontos); na Gramática, de 38% para 26,5 % (menos 11, 5 pontos) e, na Escrita, de 67, 4% para 56, 8% (menos 10, 6 pontos).

        . Resultados de 2018:


        . Resultados de 2023:


FONTEO Meu Quintal, blogue da autoria de Paulo Guinote

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Na aula (LI): onde se fala de Bragança e Bruxelas

     Contexto: chega-se ao fim de Os Maias; Carlos da Maia e a sua pandilha vão jantar a um hotel lisboeta que já apareceu antes noutras páginas do romance.

    Começa a falar-se no jantar e pergunta-se pelo nome do hotel, fornecendo-se pistas para a sua identificação. A carroça não anda para trás nem para a frente, pelo que se fornece novo «indício»: o nome do hotel é o nome de uma capital de distrito portuguesa.

    Ato contínuo, o Edu. solta um sonoro «Bruxelas!»

    Vida que segue.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Análise do poema "Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia", de Ricardo Reis

    O poema encontra-se organizado no respeito pelo processo usado em determinadas odes de Horácio; quer dizer, constitui-se como um símile de valor parenético (ou seja, que encerra uma moralidade), tomando por base um exemplum.


    Relativamente à estrutura interna, o poema divide-se (pelo que acima foi referido) em duas partes: o exemplum (vv. 1 a 64) e a moralidade (vv. 65 a 105).


  
         1.ª parte: Exemplum (vv. 1 - 64)

    Embora seja um texto em verso (decassílabos e hexassílabos brancos), por isso com características evidentes do género lírico, é possível também detetar no poema alguns aspetos característicos do género narrativo, concretamente a presença de uma ação, narrador, tempo, espaço e personagens.

    A história (ação) narrada no texto prende-se com factos ocorridos durante a invasão de uma cidade da Pérsia. Tais factos, apesar da sua brutalidade e sanguinolência, foram incapazes de, por mais do que um leve e passageiro instante, desviar a atenção de dois jogadores de xadrez que, indiferentes a tudo o que os rodeava, prosseguiram serenamente o seu jogo.

    O narrador é o próprio...


    A análise completa do poema pode ser encontrada aqui: análise-de-ouvir-contar-que-outrora.

 

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Análise da 1.ª e 2.ª partes da crónica 1 de Assassinos da Lua das Flores


    Grann dá início à sua obra com duas histórias de perda, uma de caráter pessoal e outra de natureza comunitária, o que signifique que a intenção do escritor passar por associar o desaparecimento de Anna Brown com a vida tensa do seu povo, os Osage, uma tribo nativa norte-americana, cujas terras tradicionais incluem as que, atualmente, formam os estados do Missouri, Oklahoma, Arkansas e Kansas. A sensação com que se fica desde o início é que nem Anna nem o seu povo estão onde pertencem. Ao detalhar o contexto da morte de Anna, o registo narrativo muda, indo dos acontecimentos de uma única família até aos julgamentos da nação Osage. Ambas as histórias precisam de ser contadas, sugere o livro, e só podem ser totalmente compreendidas quando narradas em conjunto.

    Convém nunca esquecer que o livro não é uma obra de ficção, mas a primeira secção por vezes lembra a estrutura romanesca. Grann relata eventos históricos e retrata atores, mas dá vida robusta às personagens, imaginando os seus sentimentos e reações, chegando até a recriar os seus supostos diálogos. Quer isto dizer que o autor pede emprestadas à ficção algumas das suas técnicas narrativas características, no sentido de preencher algumas lacunas que se verificam e que se relacionam com o facto de estarmos na presença de um registo histórico que, ocasionalmente, é parcial e com os imperativos típicos de uma narrativa longa. Caso contrário, estaríamos perante um texto árido, uma espécie de relatório descritivo de um acontecimento brutal e trágico.

    Nestas duas primeiras partes, o palco pertence quase por exclusivo a Mollie e são as suas experiências, emoções e ações que dominam o texto. Assim sendo, não é de estranhar que o leitor não veja Anna na vala onde foi entrada, pois tem apenas acesso ao conhecimento de Mollie dos acontecimentos: a organização da festa, o crescer da ansiedade decorrente do desaparecimento da irmã, etc.

    Mollie é uma mulher que vive entre culturas. Criada de acordo com as tradições dos Osage à medida que aumentava a pressão de relocalização e assimilação, Mollie casou-se, no entanto, com um homem branco e vive, graças à grande riqueza da tribo, ao estilo americano. Apesar de ter de suportar o preconceito e o racismo expelidos pela família e conhecidos do marido, a sua existência é, ainda assim, privilegiada, graças à riqueza obtida pela tribo a que pertence após a descoberta de petróleo. O abismo que existe entre os dois «povos» e respetivas culturas fica bem evidente aquando do funeral de Anna: os ritos católicos (a missa na igreja, presidida por um padre, e a lápide com uma frase cristã depositada no seu túmulo) coabitam com as tradições osage (entoar de orações osage dirigidas a Wah’Kon-Tah). O sepultamento ocorre ao meio-dia, para coincidir com o momento de ápice do Sol, no entanto, como referido anteriormente, o estado avançado de decomposição do corpo impediu a realização de todos os rituais osage.

Resumo da 1.ª parte da 1.ª crónica: A mulher desaparecida


    A ação tem início em 24 de maio de 1921, quando Mollie Burkhart, uma mulher da tribo osage, fica cada vez mais preocupada com a ausência prolongada de sua irmã mais velha. A preocupação acentua-se pelo facto de Minnie, a outra irmã, ter morrido quase três anos antes. O capítulo traça um quadro geral da história recente dos Osage. A tribo foi forçada a deixar suas terras tradicionais no Kansas na década de 1870 e reinstalou-se no nordeste do estado de Oklahoma. Este novo território parecia indesejável, mas, quando descobriram petróleo na zona, todos os membros da tribo enriqueceram. No início da década de 1920, os Osage eram as pessoas mais ricas do mundo per capita, o que causou a inveja dos homens brancos.

    Mollie trabalho de essas diferenças culturais serem superadas, desde logo porque ela é um exemplo de uma certa miscigenação cultural, dado que se, por um lado, usa o cabelo tradicional da tribo e se enrola em um cobertor, por outro, é casada com um homem branco, Ernest Burkhart. Este veio do Texas para a região, para fazer fortuna. Quando Mollie se apaixonou por ele, o homem alcançou esse objetivo. Embora Mollie tenha sentido alguma pressão para se casar de acordo com a tradição Osage, seguiu a sua vontade e desposou Ernest em 1917. Desse matrimónio resultaram dois filhos. A mãe de Mollie, Lizzie, morava com os Burkharts. No dia em que Anna desaparece, Mollie prepara-se para dar uma festa. Quando chega a casa, depara com a irmã alcoolizada, o que a irrita, pois os convidados incluem alguns parentes racistas de Ernest que estão sempre à procura de formas de rebaixar Mollie. Mesmo assim, esta entende que Anna está aborrecida com o seu recente divórcio de Oda Brown e, talvez por isso, flerta com o irmão de Ernest, Bryan, tornando-se cada vez mais conflituosa à medida que bebe. Bryan oferece-se para levar Anna a casa e esta é a última vez que Mollie vê a irmã viva.

    Dias depois, Ernest desloca-se a casa de Anna para conferir o seu estado, porém não a encontra na habitação. Pela localidade circulam notícias de que outro osage, Charles Whitehorn, também está desaparecido desde 14 de maio. Cerca de uma semana após o desaparecimento de Anna, um trabalhador do petróleo encontra o corpo de Whitehorn tão decomposto que só alguns papéis que encontram nos seus bolsos permitem o seu reconhecimento. Na mesma época, noutro ponto do território, um homem e o seu filho encontram o corpo de uma mulher à beira de um riacho. Mollie e a sua irmã, Rita, identificam-no como sendo o de Anna, graças ao cobertor enrolado nele.

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