Português: Resumo da cena III do ato I de O Mercador de Veneza

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Resumo da cena III do ato I de O Mercador de Veneza

    A cena III do ato I decorre numa praça pública em Veneza, onde se inicia uma negociação financeira de alta tensão entre Bassânio e o agiota judeu Shylock. O primeiro tenta obter um empréstimo de três mil ducados por um prazo de três meses, oferecendo o seu amigo, o rico mercador António, como fiador da dívida. Shylock avalia minuciosamente a solvabilidade de António, observando que, embora a sua fortuna esteja dispersa em navios mercantes a caminho de destinos distantes como Trípoli, Índia, México e Inglaterra, o risco dos mares, dos piratas e dos rochedos torna os seus haveres incertos. Apesar disso, o agiota conclui que António é um garante viável e aceita a fiança.
    O conflito ideológico e religioso estala de imediato quando Bassânio convida Shylock para jantar. Este recusa terminantemente, invocando as suas convicções religiosas sobre a carne de porco e afirmando que, embora esteja disposto a comprar, vender e conversar com os cristãos, nunca comerá, beberá ou rezará com eles. Com a chegada física de António, Shylock revela num aparte o seu profundo ressentimento. Ele confessa aborrecer o mercador não só por ser cristão, mas principalmente porque António empresta dinheiro sem juros, depreciando a taxa de usura em Veneza. O judeu recorda também o ódio antigo que nutre por António devido às constantes humilhações públicas que este lhe infligiu no Rialto, onde frequentemente escarneceu dos seus negócios e o insultou.
    No confronto direto, o mercador esclarece que vai abrir uma exceção à sua regra rígida de nunca pedir nem emprestar com juros para acudir à necessidade urgente do seu amigo. Segue-se uma discussão teológica sobre a legitimidade do lucro financeiro: Shylock recorre à história bíblica de Jacob e dos rebanhos de Labão para justificar que a multiplicação de bens através da astúcia é abençoada. António descarta este argumento, afirmando que a prosperidade de Jacob foi obra da vontade divina e não da usura, alertando Bassânio, em voz baixa, de que até o demónio é capaz de citar as Sagradas Escrituras para justificar as suas más ações.
    A tensão atinge o clímax quando Shylock confronta diretamente António com o seu comportamento passado, lembrando-lhe de como este o chamou de cão, cuspiu na sua capa hebraica e o pontapeou, questionando agora com que direito lhe vem pedir dinheiro. António, longe de se retratar, responde com arrogância que voltará a cuspir-lhe e a pontapeá-lo, exigindo que o dinheiro lhe seja emprestado não como a um amigo, mas sim como a um inimigo, para que Shylock possa aplicar a lei com toda a severidade em caso de incumprimento.
    Para surpresa de todos, o agiota simula uma atitude de reconciliação e generosidade, propondo um pacto de amizade sem cobrança de juros. Em vez disso, sugere uma "escritura de brincadeira" a ser assinada perante um tabelião: se António não devolver a soma exata no dia estipulado, Shylock terá o direito a uma libra de carne humana, a ser cortada de qualquer parte do corpo do mercador que o agiota escolher. Apesar dos veementes protestos e suspeitas de Bassânio, que implora ao amigo para não assinar tal contrato, António aceita o acordo com confiança absoluta, assegurando que os seus navios regressarão com valores muito superiores um mês antes do prazo de vencimento. Shylock retira-se para recolher os ducados e preparar o documento, deixando António convencido da súbita benevolência do judeu, enquanto Bassânio permanece profundamente desconfiado das reais intenções por trás de tanta condescendência.

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