Português

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase: Pergunta 4

Pergunta: "Refira duas situações observadas pelo sujeito poético ‒ uma relativa à cidade de Lisboa e outra relativa aos seus tipos sociais ‒ nas quais sejam evidentes os contrastes no modo como são representados estes elementos da paisagem física e humana."

Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado
  1. O Limite de Pesquisa (Onde?): As cinco estrofes de O Sentimento dum Ocidental apresentadas na Parte B da prova.
  2. O Verbo de Comando (O que fazer?): "Refira" Regra: Identificar, mostrar e apresentar claramente aquilo que foi pedido.
  3. O Assunto e a Quantidade (O quê e Quantas?): "duas situações (...) nas quais sejam evidentes os contrastes" Regra: A palavra de ouro aqui é contrastes. O aluno não pode apenas descrever coisas; tem obrigatoriamente de mostrar uma oposição (o lado A contra o lado B).
  4. A Condição Obrigatória (Como dividir?): "uma relativa à cidade de Lisboa e outra relativa aos seus tipos sociais" Regra: A resposta tem de ser cortada ao meio. Metade tem de falar exclusivamente da paisagem física (a cidade/os espaços) e a outra metade tem de focar-se na paisagem humana (as pessoas/classes sociais).
Passo 2: A Recolha de Dados
Sabendo que precisa de procurar oposições no texto, o aluno faz duas recolhas distintas:
  • Recolha 1 (Contraste na Cidade de Lisboa): O aluno lê a primeira e a última estrofe e nota uma oposição no espaço.
    • O lado positivo: O luxo e a riqueza da Lisboa burguesa e cosmopolita (onde os «hotéis da moda» «Flamejam» ao jantar).
    • O lado negativo: A degradação, a miséria e a insalubridade dos bairros pobres (onde «o peixe podre gera os focos de infeção»).
  • Recolha 2 (Contraste nos Tipos Sociais): O aluno olha para as pessoas descritas e percebe um choque de realidades.
    • O lado confortável: A vida fácil, burguesa e aborrecida de algumas figuras, como os «dois dentistas» que andam confortavelmente «Num trem de praça» ou os lojistas que se enfadam à porta.
    • O lado sofredor: A vida de sofrimento e de sacrifício extremo do povo trabalhador, representado pelas varinas que andam «Descalças!» a carregar carvão «Desde manhã à noite».
Passo 3: A Construção da Resposta
Agora, aplicamos a estrutura de preenchimento, separando meticulosamente a "cidade" dos "tipos sociais" e garantindo que o verbo "contraste" fica visível:
  • [Introdução Direta] No poema apresentado, o sujeito poético constrói a sua visão da realidade assente em evidentes contrastes, tanto ao nível do espaço urbano como da paisagem humana.
  • [Conetor 1 + Cidade + Contraste + Fundamentação] Por um lado, no que diz respeito à cidade de Lisboa, observa-se o contraste entre os espaços de luxo e de riqueza, ilustrados pelos «hotéis da moda» que «Flamejam» (v. 4), e a miséria e falta de condições sanitárias dos bairros mais pobres, onde «o peixe podre gera os focos de infeção» (vv. 19-20).
  • [Conetor 2 + Tipos Sociais + Contraste + Fundamentação] Por outro lado, relativamente aos tipos sociais, é notória a oposição entre a vida confortável e passiva da burguesia e das profissões liberais — como os «dois dentistas» que se deslocam «Num trem de praça» (v. 5) e os lojistas (v. 8) — e a extrema dureza do quotidiano das classes trabalhadoras, representadas pelas varinas que andam «Descalças» e trabalham de forma árdua «Nas descargas de carvão, / Desde manhã à noite» (vv. 17-18).

Resposta:

    No poema apresentado, o sujeito poético constrói a sua visão da realidade assente em evidentes contrastes, tanto ao nível do espaço urbano como da paisagem humana.

    Por um lado, no que diz respeito à cidade de Lisboa, observa-se o contraste entre os espaços de luxo e de riqueza, ilustrados pelos «hotéis da moda» que «Flamejam» (v. 4), e a miséria e falta de condições sanitárias dos bairros mais pobres, onde «o peixe podre gera os focos de infeção» (vv. 19-20).

    Por outro lado, relativamente aos tipos sociais, é notória a oposição entre a vida confortável e passiva da burguesia e das profissões liberais — como os «dois dentistas» que se deslocam «Num trem de praça» (v. 5) e os lojistas (v. 8) — e a extrema dureza do quotidiano das classes trabalhadoras, representadas pelas varinas que andam «Descalças!» e trabalham de forma árdua «Nas descargas de carvão, / Desde manhã à noite» (vv. 17-18).

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase: Pergunta 3

Análise da alínea (a)
O texto questiona qual é a ideia destacada quando se privilegia o ponto de vista de Ricardo Reis (linhas 27 a 34).
  • A resposta certa é a (2) - Monotonia: O texto descreve as "frontarias de cinza parda", as "fileiras de janelas à mesma altura", as "monótonas cantarias" e um prédio "igual de cor, de janelas e de grades". Estas expressões comprovam inequivocamente a monotonia, a uniformidade e a repetição visual da arquitetura da Baixa lisboeta.
  • Porque é que a (1) está errada (Monumentalidade)? Embora o excerto refira "altas frontarias" e que se "levanta um prédio", o foco de Ricardo Reis não é a grandeza ou o esplendor (monumentalidade) dos edifícios, mas sim o seu aspeto sombrio, repetitivo e igual ("cinza parda", "mesmo risco").
  • Porque é que a (3) está errada (Abertura)? É exatamente o oposto do que é descrito. O texto refere que a rua dá a sensação de fecho e aprisionamento, com as faixas verticais "cada vez mais estreitas" e um prédio ao fundo "aparentemente cortando o caminho.

Análise da alínea (b)
O texto questiona sobre o que reflete a visão subjetiva do narrador nas linhas finais do excerto (linhas 35 a 38).
  • A resposta certa é a (1) - A vivência psicológica do tempo e o efeito do ambiente citadino no estado físico e anímico de quem o habita: Nas linhas finais, o narrador reflete sobre as "faces pálidas" dos caixeiros (estado físico influenciado pela sombra e humidade dos prédios) e sobre o seu "ar enfadado de ser hoje segunda-feira e não ter o domingo valido a pena" (vivência psicológica do tempo e estado anímico).
  • Porque é que a (2) está errada (Efeito no estado de espírito da personagem Ricardo Reis)? Este é um erro comum de interpretação. Nesta passagem final, a reflexão do narrador não incide sobre o estado de espírito de Ricardo Reis, mas sim sobre os habitantes da cidade (os "caixeiros" que vêm à porta das lojas).
  • Porque é que a (3) está errada (A oposição entre o espaço social e o físico)? O narrador não está a fazer uma oposição entre o espaço físico e social. Pelo contrário, está a estabelecer uma relação de causa e efeito (um alinhamento): é exatamente porque o espaço físico é escuro, húmido e tem "baforadas de gás" que o espaço social (os trabalhadores) apresenta faces pálidas e enfadadas.

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 1.ª fase: Pergunta 2

 Pergunta 2: "Na descrição dos ambientes representados nos dois excertos, ganham relevo os estímulos sensoriais. Compare o ambiente do mercado do peixe em Memorial do Convento (linhas 11 a 16) com o ambiente do mercado da Praça da Figueira em O Ano da Morte de Ricardo Reis (linhas 23 a 27), com base em duas sensações distintas captadas pelos sentidos, relativamente a cada um desses ambientes."

Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado

  1. O Limite de Pesquisa (Onde?): A instrução delimita exatamente as fronteiras da pesquisa: o aluno deve procurar apenas nas linhas 11 a 16 do primeiro excerto e nas linhas 23 a 27 do segundo. Tudo o que estiver fora destas linhas deve ser ignorado.
  2. O Verbo de Comando (O que fazer?): "Compare" Regra: O aluno não pode apenas descrever o mercado A e depois o mercado B em parágrafos separados. Tem obrigatoriamente de estabelecer pontes e mostrar as semelhanças ou diferenças entre os dois.
  3. O Assunto (O quê?): O foco da comparação é o "ambiente [...] com base em estímulos sensoriais" Regra: O aluno tem de colocar a sua atenção exclusiva naquilo que as personagens veem, ouvem ou cheiram naqueles locais.
  4. A Quantidade (Quantas?): "duas sensações distintas" Regra: O aluno tem de escolher duas categorias precisas (por exemplo: sensações auditivas e sensações olfativas) e aplicá-las a ambos os mercados para que a comparação seja válida
Passo 2: A Recolha de Dados

  • Recolha 1 (Sensações Auditivas): O aluno nota que ambos os mercados são bastante ruidosos.
    • No mercado do peixe, o barulho vem da agitação humana, pois as vendedeiras «gritavam desbocadamente aos compradores».
    • Na Praça da Figueira, o barulho vem das limpezas, ouvindo-se os sons de lavar «com baldes e agulheta, e ásperos piaçabas», além de um «arrastar metálico» e um «estrondo».
  • Recolha 2 (Sensações Olfativas): O aluno apercebe-se de que ambos os locais apresentam cheiros muito intensos.
    • No mercado do peixe, sente-se, naturalmente, o «cheiro do peixe».
    • Na Praça da Figueira, sente-se uma mistura desagradável de «couve esmagada e murcha», «excrementos de coelho», «penas de galinha escaldadas» e «sangue».
(O aluno também poderia ter optado pelas sensações visuais, comparando o ambiente agitado e a dicotomia sujidade/asseio, mas focaremos nas auditivas e olfativas para a redação).

Passo 3: A Construção da Resposta

Agora, aplicamos a nossa estrutura de preenchimento, usando conectores de comparação para não fugir ao comando do enunciado:

  • [Introdução Direta] A descrição dos ambientes do mercado do peixe e da Praça da Figueira apresenta claras semelhanças, que são evidenciadas através da exploração de diferentes sensações captadas pelos sentidos.
  • [Conetor 1 + 1.ª Sensação + Comparação e Fundamentação] Por um lado, no que diz respeito às sensações auditivas, percebe-se que ambos os locais são ruidosos. Em Memorial do Convento, esse ruído é provocado pela agitação das vendedeiras que «gritavam desbocadamente» (ll. 11-12). De forma semelhante, em O Ano da Morte de Ricardo Reis, o barulho é também intenso, originado pela limpeza do espaço, ouvindo-se a lavagem «com baldes e agulheta, e ásperos piaçabas» (ll. 25-26), além de um «arrastar metálico» e um «estrondo» (ll. 26-27).
  • [Conetor 2 + 2.ª Sensação + Comparação e Fundamentação] Por outro lado, recorrendo a sensações olfativas, constata-se que ambos os ambientes são dominados por cheiros muito intensos e desagradáveis. No mercado do peixe, sobressai o óbvio e forte «cheiro do peixe» (l. 16); na mesma linha, na Praça da Figueira, respira-se uma atmosfera marcada pelos odores a «couve esmagada e murcha», «excrementos de coelho», e «sangue» (ll. 24-25).


Resposta: 
    A descrição dos ambientes do mercado do peixe e da Praça da Figueira apresenta claras semelhanças, que são evidenciadas através da exploração de diferentes sensações captadas pelos sentidos.
    Por um lado, no que diz respeito às sensações auditivas, percebe-se que ambos os locais são ruidosos. Em Memorial do Convento, esse ruído é provocado pela agitação das vendedeiras que «gritavam desbocadamente aos compradores» (ll. 11-12). De forma semelhante, em O Ano da Morte de Ricardo Reis, o barulho é também intenso, originado pelas limpezas do espaço, ouvindo-se a lavagem «com baldes e agulheta, e ásperos piaçabas» (ll. 25-26), além de um «arrastar metálico» e um «estrondo» (ll. 26-27).
    Por outro lado, recorrendo a sensações olfativas, constata-se que ambos os ambientes são dominados por cheiros muito intensos e desagradáveis. No mercado do peixe, sobressai o óbvio e forte «cheiro do peixe» (l. 16). Na mesma linha, na Praça da Figueira, respira-se uma atmosfera marcada pelos odores a «couve esmagada e murcha», a «excrementos de coelho», e a «sangue» (ll. 24-25).

Na aula (LXVIII): medidas de peso ou falta medida

     O miligrama é uma unidade de peso que representa a milésima parte do metro.

Marta

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A literatura popular e a língua portuguesa

    A Península Ibérica é um território habitado desde sempre, facto atestado pelos vestígios das mais antigas indústrias, do paleolítico inferior à idade dos metais, nela encontrados, os quais não deixam dúvidas de que foi ocupada por toda a espécie de seres humanos, desde os pitecantropídeos ao "homo sapiens".
    Depois desses seres primitivos, aqui chegaram há mais de 3000 anos muitos outros povos: lígures, celtas, iberos, fenícios, gregos, cartagineses. Posteriormente, no final do século III a.C., os romanos invadiram a P.I., o mesmo sucedendo, no séc. V d.C., povos germânicos (vândalos, alanos, suevos e visigodos). Em 711, foi a vez dos árabes a ocuparem, refugiando-se nas Astúrias os godos, que não quiseram submeter-se ao domínio muçulmano. Aí, constituíram um reino cristão, a partir do qual se organizou a Reconquista cristã, uma guerra longa, porfiada e tormentosa que durou mais de sete séculos, vindo a terminar com a conquista de Granada, em 1492, pelos reis católicos Fernando e Isabel.
    Os reinos e estados peninsulares, entre os quais Portugal, resultam da mestiçagem de todos estes povos e estas culturas.
    Que língua ou línguas falavam esses povos? Cada um deles teria a sua, mas a dominante, após a conquista romana, foi o latim vulgar ("sermo vulgaris"). Desses antigos idiomas, restam poucos vestígios. Um caso especial é o da escrita ibérica, não totalmente decifrada, copiosamente representada em inscrições tumulares de cemitérios da Idade do Ferro, situadas predominantemente a sul da península.
    O latim vulgar, trazido pelos soldados e pelos colonos romanos foi-se transformando, pouco a pouco, na boca dos falantes peninsulares, em contacto com as línguas dos povos pré-existentes e dos invasores, até se converter num falar românico, o romance, que, consoante regiões e povos, se individualizou em vários dialetos.
    No território que viria a ser Portugal, distinguiam-se dois tipos de romance: o situado a Norte do rio Douro, incluindo a Galiza, e o do Sul. Aquando da dominação sarracena, que apenas episodicamente atingiu o noroeste da P.I., as diferenças entre as duas linguagens acentuaram-se. A do Norte ficou conhecida por galego-português, enquanto a do Sul por romance moçarábico ou lusitano-moçárabe, por ser a dos cristãos que viviam sob domínio árabe. Do contacto dos dois dialetos, estabelecido após a Reconquista ter descido abaixo do Mondego e do Tejo, nasceu o português.
    Até meados do século XII, falou-se uma língua e escreviam-se duas. Os clérigos possuidores de instrução escreviam em latim menos apurado que o clássico, daí a denominação de baixo ou medieval; os documentos oficiais, como, por exemplo, testamentos, contratos ou doações, eram redigidos num latim estropiado, a que se dá o nome de bárbaro ou tabeliónico. Ora, é da mistura com este latim que aparecem, desde o século IX, as primeiras palavras portuguesas. No entanto, textos inteiros em português chegaram até nós apenas do século XII em diante.
    A linguagem escrita implica uma disciplina e uma obediência a regras de que a popular está livre, daí a progressiva separação entre um português literário, influenciado pelos modelos latinos, e o português popular que mal conhecemos.
    O galego-português, a língua comum de portugueses e galegos que, durante séculos, foi uma só, foi-se dividindo em duas com a separação política, evolução consumada no século XVI, não obstante existir uma parte nuclear comum.
    José Leite de Vasconcelos fala em dois períodos na evolução do português: o arcaico e o moderno. O primeiro situa-se entre o século IX e meados do século XVI e nele se inclui o português proto-histórico, que está presente em documentos escritos no chamado latim bárbaro, do século IX ao XII, e o segundo daquela data em diante.

Fonte: José Leite de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, Rio de Janeiro, Livros de Portugal, 1959, p. 16.

Na aula (LXVII): o amor virtual de Simão Botelho e Mariana

    Em Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco inovou e construiu dois triângulos amorosos: Simão - Teresa - Mariana e Simão - Teresa - Baltasar Coutinho.

    Em determinada aula, fala-se sobre o amor de Mariana por Simão, e o professor clarifica que não há contacto físico no sentido conjugal entre ambos:

    - Um amor sem contacto físico... Como é que se chama?

    - Virtual - responde, toda lampeira, a Maria Luís.

    São os novos tempos e os novos amores.

Na aula (LXVI): o naufrágio que vitimou Romeu e Julieta

    A propósito da Conclusão de Amor de Perdição, fala-se em Romeu e Julieta, de Shakespeare, e o seu final. Para os menos versados nestas coisas da Literatura, talvez seja adequado relembrar que Romeu encontra a amada aparentemente sem vida no túmulo da  família e que, desesperado, ingere veneno e morre ao seu lado. Na realidade, a jovem tinha tomado uma poção que a fazia parecer morta temporariamente. Quando desperta e vê o noivo morto, mata-se com um punhal.

    Pois bem, mal o professor recorda este desfecho, solta-se a voz tonitruante da Maria Luís:

    - Mas eles não tinham morrido num barco?

    - Isso era o Titanic - esclareceu a Maria Eduarda Coimbra.


    Ficámos esclarecidos.

Na aula (LXV): o dia em que o verbo mudou de classe

     - Qual é o adjetivo presente na frase?

    - O adjetivo é «soluçando».


    A nova especialista em gramática da língua portuguesa chama-se Diana Gonçalves.

Na aula (LXIV): pensamentos ilegítimos

    Lê-se o terceiro ato de Frei Luís de Sousa. Nesta fase, Telmo mostra-se arrependido. O professor questiona a razão do arrependimento.

    A resposta surge pela voz da Diana Gonçalves:

    - Telmo sente-se arrependido por dizer que Madalena é filha ilegítima.

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