Português: Eugene O'Neill
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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Análise de Desejo sobre os Ulmeiros, de Eugene O'Neill

I. Biografia de Euene O'Neill


II. Relação da peça com a tragédia  grega


III. Resumo da peça


IV. Resumo das cenas

        . Cena I

        . Cena II


V. Análise das cenas

        . Didascália inicial

        . Cena I


V. 

Relação de Desejo sob os Ulmeiros com a tragédia grega

1. Introdução: A Ressonância do Mito no Realismo Moderno
    Eugene O'Neill não se limita a dramatizar a vida rural; ele atua como um arquiteto que reconstrói a tragédia grega sobre o solo árido e pedregoso da Nova Inglaterra de 1850. Ao transpor arquétipos milenares para o contexto puritano, O'Neill confere a Desejo sob os Ulmeiros uma dimensão universal e atemporal. A obra transcende o realismo regionalista ao fundir a crueza do cotidiano agrícola com forças míticas avassaladoras, transformando a disputa por uma fazenda em um palco para o eterno conflito entre o determinismo biológico e a vontade humana.
    A premissa central da obra reside na tensão dialética entre o desejo material — a posse obsessiva da terra e do ouro — e o desejo espiritual e sexual. Na dinâmica da família Cabot, a busca pela propriedade torna-se indissociável das pulsões mais profundas da psique. Este guia propõe explorar as camadas de Édipo Rei, Fedra e Medeia que estruturam a narrativa, revelando como a fatalidade antiga se manifesta sob a égide do calvinismo americano. Para compreender o destino dos Cabot, é imperativo observar a peça sob a luz da dualidade nietzschiana entre a ordem e o caos.
2. A Dialética Fundamental: O Apolíneo vs. o Dionisíaco
    A base estrutural de Desejo sob os Ulmeiros repousa sobre a filosofia de Friedrich Nietzsche em O Nascimento da Tragédia. Esta tensão define o clima de opressão e a eventual transfiguração trágica da narrativa. O'Neill estabelece um contraste visual e metafísico rigoroso: o brilho verde dionisíaco dos ulmeiros contra o exterior cinzento e esfarrapado da casa apolínea.
  1. O Impulso Apolíneo: Personificado em Ephraim Cabot, representa a ordem rígida, o trabalho árduo e a disciplina puritana. Sua devoção a um Deus "duro e solitário" manifesta-se fisicamente no muro de pedras que circunda a propriedade. Para Ephraim, a dureza é a única prova de santidade; o muro é a barreira contra o caos dos instintos.
  2. O Impulso Dionisíaco: Esta força é canalizada por Abbie Putnam e pela memória onipresente de "Maw" (a mãe de Eben). Representa a sensualidade, a união irracional com a natureza e o transbordamento emocional. É o desejo que desafia a lógica da posse material.
  3. A Maternidade Sinistra: Os imponentes ulmeiros personificam o lado dionisíaco que "esmaga" e "protege" a casa. Descritos com uma humanidade aterradora, as árvores assemelham-se a mulheres exaustas cujos seios caídos, mãos e cabelos pousam no telhado, transformando a chuva em lágrimas que apodrecem a estrutura apolínea da habitação.
3. O Complexo de Édipo e a Herança de Sófocles
    Eben Cabot emerge como o herdeiro da fatalidade de Édipo Rei. O'Neill utiliza a estrutura sofocleana para alcançar uma dimensão de ativismo biológico e vingança ancestral.
  • O Conflito com o Pai: A hostilidade de Eben para com Ephraim — o "Laios" deste cenário — é absoluta. Eben identifica-se totalmente com a linhagem materna ("Eu sou Maw — cada gota de sangue!"). O desejo de "matar o pai" é a ferramenta para recuperar a propriedade que ele acredita ter sido roubada de sua mãe pelo trabalho escravo imposto por Ephraim.
  • A Cegueira Trágica: Ecoando a ironia de Sófocles, a peça destaca a cegueira de Ephraim. Fisicamente míope (nearsighted), o patriarca é incapaz de enxergar a verdade sobre a paternidade de seu herdeiro, uma verdade que a comunidade — atuando como o Coro — já conhece e ridiculariza.
  • Determinismo Calvinista: O destino de Eben parece traçado por forças que ele não controla. Ele está preso em uma gaiola de desejos herdados, onde sua rebelião acaba por conduzi-lo ao mesmo caminho de destruição do pai, fundindo o determinismo grego com a predestinação puritana.
4. A Sedução e o Incesto: A Presença de Fedra
    A entrada de Abbie Putnam reencena o mito de Fedra, transpondo a relação entre madrasta e enteado para a claustrofobia da Nova Inglaterra. O desejo proibido serve como catalisador para a destruição da estrutura patriarcal.
  • Abbie como Fedra: Inicialmente movida pela avareza material, Abbie evolui para uma amante desesperada que seduz o enteado (Hipólito/Eben). Ela utiliza a fixação materna de Eben como manobra psicológica, oferecendo-se para substituir a mãe falecida e quebrar a resistência do jovem.
  • O Espaço do Sagrado Profano: A cena na "sala de visitas" (parlor) é o ápice desta fusão. O local, uma tumba onde a família enterra seus mortos, torna-se o palco de uma luxúria e um amor maternal horrivelmente francos. Ali, o incesto simbólico é selado, unindo o desejo carnal ao espírito da mãe em um pacto sombrio.
  • A Mentira Estratégica: Assim como no mito clássico, Abbie utiliza a manipulação ao incitar Ephraim contra Eben, alegando falsamente uma tentativa de sedução para proteger seus interesses na fazenda, precipitando o confronto violento entre as gerações.
5. O Sacrifício Supremo: A Sombra de Medeia
    O infanticídio cometido por Abbie deve ser interpretado não como um crime comum, mas sob a ótica da tragédia de Eurípides, elevando-o ao status de prova trágica de iconoclastia.
  • A Inversão da Utilidade Materialista: No sistema de valores de Ephraim, o bebê é a "moeda" que garante a posse da terra. Ao matar o filho, Abbie realiza um ato supremo de rejeição à lógica da herança. O bebê deixa de ser um "herdeiro útil" para se tornar o obstáculo entre os amantes; sua eliminação prova a Eben que o amor dela transcende a avareza.
  • Infanticídio como Prova: Diferente de Medeia, que mata por ódio puro contra Jasão, Abbie sacrifica o fruto de seu ventre para restaurar a pureza de seu vínculo com Eben, destruindo o único laço que a prendia ao plano de sucessão material da fazenda.
  • Redenção e Culpa: A aceitação conjunta da culpa transforma o crime em uma libertação espiritual. Ao se entregarem à justiça, Eben e Abbie alcançam uma exaltação que os coloca acima da moralidade puritana, encontrando a paz no momento em que renunciam à posse da terra.
6. Simbolismo e Estrutura: A Arquitetura da Tragédia
    A cenografia da peça, concebida por O'Neill e Robert Edmond Jones, é um agente ativo na narrativa, funcionando como uma extensão física da psique dos personagens.
  • O Coração da Casa: As divisões internas da fazenda foram projetadas para replicar a sístole e a diástole das quatro câmaras do coração humano. Esta arquitetura orgânica enfatiza que o drama não ocorre apenas entre quatro paredes, mas dentro da própria pulsação vital e emocional dos Cabot.
  • O Muro de Pedras: Símbolo do isolamento de Ephraim e da dureza de seu Deus. As pedras representam o esforço de uma vida inteira para "cercar" e "conter" a natureza, um monumento à solidão inquebrável do patriarca.
  • A Festa como Coro Grego: A celebração do nascimento do bebê funciona como uma adaptação moderna do coro antigo. Enquanto Ephraim dança freneticamente, exibindo sua vitalidade aos 76 anos, os vizinhos comentam e zombam de sua cegueira, criando uma poderosa ironia dramática que sublinha o isolamento do herdeiro traído.
7. Conclusão: Solidão, Culpa e Exaltação
    A conclusão de Desejo sob os Ulmeiros reafirma a visão de O'Neill de que a tragédia é um processo de descoberta da verdade através do sofrimento.
  • O Destino de Ephraim: O'Neill identificava-se com Ephraim, elevando-o ao status de herói trágico resiliente. Embora permaneça com a posse da terra, Ephraim é condenado à solidão absoluta, reafirmando seu Deus "duro e lonesome". Ele não é um vilão, mas uma figura de força inabalável que escolhe o caminho mais difícil como prova de existência.
  • A Vitória do Amor: Eben e Abbie, ao caminharem para a punição, representam a vitória do espírito sobre a matéria. Eles admiram o amanhecer juntos, libertos da obsessão pela terra que os escravizava.
  • A Circularidade do Desejo: A ironia final reside na fala do Sheriff: "É uma fazenda de primeira... quem me dera que fosse minha!". Esta frase encerra a peça demonstrando que, enquanto os indivíduos são destruídos, o ciclo da avareza e do desejo de posse recomeça, tornando a tragédia circular e reafirmando o legado de O'Neill como o criador da primeira grande tragédia genuinamente americana.

Análise da didascália inicial Desejo sobre os Ulmeiros

1. A atmosfera de decadência material e isolamento rural
    A descrição localiza geograficamente o drama e introduz uma tensão imediata entre a preservação física da propriedade e o seu visível desgaste estético, refletindo a dureza e a falta de harmonia no quotidiano daquela família. A ação decorre na "Nova Inglaterra, em 1850", tendo como cenário a "casa de lavoura dos Cabots". O texto indica que "a casa está em bom estado, mas precisada de pintura", sugerindo um espaço onde o trabalho utilitário se sobrepõe ao cuidado e ao bem-estar.
    Esta aspereza é cromática e texturalmente reforçada através de pormenores como as paredes de um "pardo-sujo" e o "verde das persianas [que] está desbotado". Para além disso, o isolamento e o fechamento do núcleo doméstico em relação à sociedade são demarcados pela presença de "um muro de pedra com um portão ao centro", que cria uma barreira física e simbólica rígida entre o lar e o exterior, representado pelo "caminho rural".
2. A personificação gótica e a "maternidade sinistra" dos ulmeiros
    O aspeto mais expressivo das direções de cena é a humanização dos dois enormes ulmeiros situados de cada lado da habitação. A natureza deixa de ser um fundo passivo para se tornar numa força psicológica ativa, quase monstruosa, que vigia e oprime os habitantes. O texto explicita esta ambivalência ao afirmar que as árvores "parecem proteger e ao mesmo tempo dominar".
    Através de uma personificação visceral e sombria, o autor atribui-lhes uma maternidade possessiva, ciumenta e sufocante, decorrente da sua ligação íntima com os dramas humanos da casa:
"Há, no aspecto deles, uma maternidade sinistra, uma absorção ciosa e esmagadora. Desenvolveram, no contacto íntimo com a vida humana na casa, uma humanidade aterradora."
    Esta presença vegetal é descrita como um peso físico e mental constante. As árvores "meditam opressivamente sobre a casa" e são comparadas a "mulheres exaustas que pousam no telhado os seios pendentes, as mãos e os cabelos". Numa imagem de profunda melancolia, a própria água da chuva é transfigurada num choro fúnebre e destrutivo, em que "as suas lágrimas escorrem monotonamente e apodrecem no telhado de madeira". Esta simbiose entre as árvores e o sofrimento das mulheres que ali viveram sugere um passado assombrado que se recusa a desaparecer.
3. A estrutura arquitetónica e a divisão psicológica do espaço
    A disposição física da habitação serve como um mapa visual das divisões e tensões psicológicas que caracterizam a família. O espectador depara-se com uma fachada desenhada de forma a expor a partilha forçada e a falta de privacidade entre as personagens masculinas no piso superior. A parede voltada para o público revela "duas janelas no andar de cima" correspondentes a "a do quarto do pai e a do dos irmãos", estabelecendo de imediato um paralelismo visual e de confronto entre as duas gerações.
    No andar inferior, o espaço divide-se entre a área funcional de sobrevivência e a área de repressão emocional. Enquanto "à esquerda, no piso térreo, é a cozinha", o espaço de trabalho diário, à direita situa-se a sala. Esta última é caracterizada pelo ocultamento e pela ausência de vida, sendo descrita como uma "sala, cujas persianas estão sempre fechadas". Este pormenor das persianas permanentemente cerradas antecipa a existência de segredos e de uma rigidez quase tumular dentro do seio familiar, onde a luz do mundo exterior não é autorizada a penetrar.

4. Contraste entre os ulmeiros e o muro de pedra

    O contraste entre os ulmeiros e o muro de pedra é um dos elementos cénicos e simbólicos mais importantes de Desejo sob os Ulmeiros, estruturando visualmente os grandes conflitos psicológicos, teológicos e geracionais da peça. Esta oposição pode ser dividida em três dimensões fundamentais:
    A. O muro de pedra: o impulso apolíneo, a lei do pai e o aprisionamento
    O muro de pedra que circunda a casa representa a presença austera do patriarca Ephraim Cabot e a rigidez do seu Deus puritano.
  • O deus duro de Ephraim: O muro simboliza a mundividência de Ephraim, que passou décadas a arrancar pedras do solo da Nova Inglaterra para erguer a sua quinta com as próprias mãos. Para ele, o esforço bruto contra a pedra é sinónimo de salvação, pois acredita num Deus "duro e solitário" que não tolera a facilidade.
  • A prisão dos filhos: Para os irmãos mais velhos, Simeon e Peter, as pedras não representam comunhão espiritual, mas sim escravatura e confinamento. Peter descreve o muro como uma barreira opressora: "são pedras sobre as pedras... fazendo muros de pedra para nos vedar". A conquista da liberdade de ambos é simbolizada precisamente quando retiram o portão de madeira desse muro antes de partirem para a Califórnia.
  • O útero de Eben: Ironicamente, para o filho mais novo, Eben, o muro também assume uma dupla função, funcionando por vezes como uma divisória quase uterina que o protege e isola do mundo exterior.
  • O impulso apolíneo: Simbolicamente, o muro alinha-se com o conceito nietzschiano de Apolíneo: representa a ordem, a razão, a disciplina pelo trabalho implacável e o egoísmo possessivo da herança da terra.
    B. Os ulmeiros: o impulso dionisíaco, o espírito da Mãe e a paixão fértil
    Em contraste absoluto com a aridez mineral do muro, os dois gigantescos ulmeiros que abraçam a casa de lavoura trazem a força pulsante da natureza e do desejo carnal.
  • A presença da mãe falecida: Os ulmeiros funcionam como a manifestação física e psicológica de "Maw", a falecida mãe de Eben, cujo espírito continua a pairar sobre a casa e a guiar a sede de vingança do filho contra o pai.
  • A "maternidade sinistra": Nas direções de cena, as árvores são personificadas de forma quase gótica como "mulheres exaustas que pousam no telhado os seios pendentes, as mãos e os cabelos", exercendo uma "maternidade sinistra, uma absorção ciosa e esmagadora" sobre o lar dos Cabots.
  • As forças vegetativas e a sensualidade: Enquanto a casa é cinzenta e estéril, os ulmeiros emitem um brilho verde que simboliza as forças geradoras da vida, do rejuvenescimento, da atração carnal e da união com a natureza. Abbie compara o calor sufocante e o desejo que arde dentro de si à força que faz crescer as árvores, "como aqueles ulmeiros".
  • O impulso dionisíaco: As árvores encarnam o Dionisíaco - o irracional, o fluxo da emoção desimpedida, o misticismo natural e a união sexual que desafia as convenções sociais e puritanas.
    C. A colisão das duas forças no protagonista
    O drama da peça desenvolve-se através do choque inevitável entre estes dois polos. Eben Cabot encontra-se tragicamente dividido no meio deste contraste. Por um lado, herda o lado "duro" do pai (apolíneo), agindo inicialmente com ganância, calculismo e vendo a sua relação com as mulheres como uma forma de "posse" da propriedade. Por outro lado, herda o lado "suave" da mãe (dionisíaco), revelando uma sensibilidade aguçada para a beleza da terra e uma profunda necessidade de afeto.
    A trajetória trágica de Eben e Abbie culmina na vitória do impulso dionisíaco (os ulmeiros) sobre o apolíneo (o muro), quando ambos abandonam a obsessão pela herança material da quinta e aceitam o castigo da prisão em nome do amor espiritual que partilham.
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