Português: Eugene O'Neill
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terça-feira, 29 de setembro de 2026

Metáforas e comparações na cena IV da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

📇 Cartões de Estudo: Metáforas e Comparações em Desejo sob os Ulmeiros

❓ Metáfora: "O cabresto rebentou! A albarda foi ao ar!"
Análise: Sintetiza o momento de rutura e libertação de Simeon e Peter perante a sujeição patriarcal. O "cabresto" simboliza a contenção e a autoridade castradora de Ephraim Cabot; a "albarda" encarna o fardo e o peso do trabalho escravo na herdade. Ao rebentarem os arreios, os irmãos recusam a condição de bestas de carga e afirmam a sua autonomia.
❓ Metáfora: "A ti te há-de ele comer, velhote!"
Análise: Metáfora de voracidade canibalística e destruição édipica. Simeon avisa Ephraim que Eben não apenas reivindicará a quinta, mas consumirá a autoridade e o poder do pai. Apresenta uma forte ironia trágica: antecipa a usurpação do leito conjugal do patriarca através da união secreta de Eben com Abbie.
❓ Metáfora: "Onde diabo a desenterrou?"
Análise: Associa a chegada de Abbie à exumação de um cadáver ou a um pacto com o submundo. Deshumaniza a nova madrasta, retirando-lhe a dignidade humana. Funciona como preságio trágico da atmosfera de morte, profanação e destruição que Abbie trará para a casa.
❓ Metáfora: "Metê-la no chiqueiro com as outras porcas"
Análise: Reificação e deshumanização zoomórfica extrema de Abbie por Peter. Nega-lhe qualquer autoridade ou legitimidade no lar, rebaixando-a à condição de animal suíno. Reflete a linguagem de curral e a misoginia impregnada na vida agrícola dos irmãos.
❓ Metáfora: "Velho coiro!"
Análise: Reduz o corpo e a presença de Ephraim Cabot a pele animal enrijecida e seca. Simboliza a calcificação afetiva do patriarca após 75 anos de lida agrícola dura e marca o topo da desacralização da autoridade paterna pelos filhos.
❓ Metáfora: "Ficam com os ossos num feixe!"
Análise: Ameaça de violência física onde Cabot equipara os esqueletos dos filhos a fardos de lenha ou gravetos secos. Exprime a fúria e o vocabulário bruto da lida rural, embora revele a impotência real do velho tirano perante a partida dos filhos.
❓ Metáfora: "Velha bruxa!"
Análise: Diabolização de Abbie por Eben para racionalizar o desejo incestuoso e a atração física que a madrasta lhe desperta. Sob a tradição puritana, o jovem transfere a culpa para uma suposta feitiçaria, tentando erigir um escudo verbal defensivo.
❓ Metáfora: "Atraindo as suas ovelhas ao pecado!"
Análise: Inversão da alegoria bíblica do Bom Pastor. Eben acusa Cabot de perverter a teologia puritana e atuar como um falso guia que empurra os próprios filhos para a perdição. Antecipa o incesto como armadilha armada pela própria conduta do pai.
❓ Metáfora: "Nunca chegaste a homem inteiro!"
Análise: Metáfora de mutilação e castração psicológica. Cabot ataca a maturidade e a virilidade de Eben, definindo-o como incompleto para desarmar as suas reivindicações patrimoniais e incitar a provação da sua masculinidade.
❓ Comparação: "...comprou-a... como quem compra uma pega!"
Análise: Equipara o casamento de Cabot a uma transação comercial de prostituição. Eben reduz a madrasta a uma mercadoria adquirida por sustento, usando o insulto como defesa contra a sedução e perturbação que ela lhe causa.
❓ Comparação: "...olhar para mim como um par de porcos para a bolota"
Análise: Abbie compara o olhar cobiçoso dos enteados ao apetite do gado suíno pela comida. Inverte a linguagem animalizada da quinta e afirma o seu controlo e soberania fria ao chegar à propriedade.
❓ Comparação: "...sinto-o chegar, como se sente o arrepio das febres..."
Análise: Eben compara a intuição da aproximação do pai ao sintoma de uma infeção febril iminente. A autoridade de Cabot é vivenciada como um contágio e uma ameaça patológica visceral que faz tremer o corpo.
❓ Comparação: "É duro como um marmeleiro!"
Análise: Simeon equipara a obstinação rústica de Eben à madeira rija e resistente do marmeleiro. Evidencia que, apesar do ódio ao patriarca, o filho mais novo reproduz a mesma inflexibilidade hereditária do pai.
❓ Comparação: "O rosto é duro, como se tivesse sido esculpido num seixo..."
Análise: A fisionomia de Cabot é comparada às rochas do solo da herdade. Materializa a petrificação da sua alma, a insensibilidade afetiva e a total imposição da aridez do meio sobre o seu caráter.
❓ Comparação: "As mãos parecem cascos!"
Análise: Peter compara as mãos calejadas dos homens da quinta aos cascos das bestas de carga. Ilustra a deformação anatómica provocada por décadas de trabalho agrícola e a perda da capacidade de afeto e toque humano.
❓ Comparação: "...viver como os lírios do campo"
Análise: Paródia sarcástica da passagem bíblica do Sermão da Montanha. Simeon utiliza a linguagem sagrada para declarar a greve e recusar o trabalho agrícola imposed pelo patriarca antes da partida para a Califórnia.

Análise da cena IV da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

a) Ação 

    A quarta cena abre no interior da cozinha, onde Eben medita carrancudamente diante do prato intacto, enquanto Simeon e Peter terminam a refeição e o provocam sobre a sua noitada com Min. O caçula revela estar dominado por uma premonição febril sobre o regresso iminente do pai. Subitamente, os dois irmãos mais velhos recusam-se a continuar o trabalho agrícola, declarando a sua intenção de viver como os lírios do campo. Tomado por uma excitação quase mística, Eben proclama que a quinta pertence de novo à sua falecida mãe e sai para o exterior, contemplando a propriedade com um desejo obsessivo de posse. No exterior, Simeon e Peter bebem uísque, acendem os cachimbos e observam a alvorada, avistando ao longe a carroça em que Ephraim Cabot regressa acompanhado pela nova noiva. Eben corre ansioso ao encontro dos irmãos para anunciar a chegada da velha mula e da noiva. Antes da chegada do pai, os dois mais velhos recolhem as trouxas e exigem o pagamento prometido; o mais jovem retira debaixo do soalho da cozinha, junto ao fogão, o saco de lona com as moedas de ouro de vinte dólares deixadas pela progenitora. Após a contagem cuidadosa dos seiscentos dólares e a assinatura da renúncia aos direitos da herdade, Eben guarda o documento como um troféu de restauração moral. 
    No portão da quinta, desenrola-se o confronto de despedida: Simeon arranca a cancela dos gonzos, declarando abolidos todos os portões e barreiras, enquanto Ephraim e Abbie Putnam chegam à propriedade. Ao verem a nova madrasta, acolhem a chegada com sarcasmo e escárnio, lançando provocações diretas ao progenitor, executando uma absurda dança de guerra ao redor do velho petrificado e atirando pedras que partem os vidros da janela da sala. Os dois irmãos partem jubilosos pela estrada fora, cantando a canção da Califórnia. 
    Entretanto, Abbie entra na cozinha e depara-se com Eben. A nova esposa observa o jovem com uma avaliação calculista da sua força e com uma atração física incontestável, tentando seduzi-lo sob o pretexto de quererem ser amigos e partilhando o seu passado de privações e servidão. O rapaz debate-se numa violenta luta interna entre o ódio visceral e a atração física irresistível, acabando por precipitar-se para fora da casa após Abbie afirmar o seu domínio absoluto sobre o lar e o quarto superior. No exterior, Ephraim invoca o Deus dos Exércitos para amaldiçoar os filhos, sendo desafiado por Eben num aceso combate verbal de acusações e blasfémias. A cena encerra com a partida de pai e filho em direção ao estábulo para o trabalho diário, enquanto a voz distante dos irmãos se apaga na estrada e Abbie começa triunfalmente a lavar a louça na sua nova cozinha.

b) Espaço 

O espaço físico articula-se entre o interior da cozinha — centrado na mesa de refeições, no fogão e no soalho que escondia o ouro — e o exterior imediato da casa, dominado pelo portão com o muro de pedra e pela estrada que conduz ao Oeste. No plano social, a quinta representa o microssistema agrário e patriarcal da Nova Inglaterra do século XIX, fundamentado na servidão familiar, no isolamento geográfico e na exploração do trabalho. No plano psicológico, o espaço transforma-se num território de conquista e profanação. A cozinha, antigo santuário da mãe de Eben, converte-se no palco onde Abbie afirma a sua soberania e onde a tensão erótica entre madrasta e enteado é selada. O portão de pedra deixa de ser uma mera divisória de propriedade para encarnar a barreira da escravidão; o seu desmantelamento físico por Simeon simboliza o romper da prisão doméstica, abrindo passagem para a estrada como espaço psicológico de utopia, evasão e liberdade.

c) Tempo (da Ação, do Discurso, Histórico e Psicológico) O tempo da ação decorre durante o nascer do sol e o início da manhã, marcando a transição da luz cinzenta da alvorada para a luminosidade plena do dia. O tempo do discurso é extremamente dinâmico e polifónico, alternando entre a celebração ruidosa e carnavalesca dos irmãos mais velhos, o ritmo pausado, denso e sedutor do diálogo entre Abbie e Eben na cozinha, e a violência verbal cortante da disputa final exterior. No plano histórico, a ação fixa-se rigorosamente no ano de 1850, em plena febre do ouro na Califórnia, ambiente evocado pela canção popular e pela ilusão de enriquecimento rápido. No plano psicológico, o tempo adquire uma dupla dimensão: para Simeon e Peter, o tempo estagnado de décadas de servidão explode numa vertigem de libertação onde o futuro é conquistado em instantes; para Eben e Abbie, o tempo condensa-se num presente suspenso e ameaçador, onde o passado de trauma e a urgência do desejo futuro se chocam inevitavelmente.

d) Caracterização Aprofundada (Física, Psicológica e Social) das Personagens Eben Cabot surge como um jovem de 25 anos dotado de uma beleza rústica e de uma força física notável, mas profundamente dividido no seu foro íntimo. Psicologicamente, é dominado por uma obsessão patrimonial e por uma devoção quase religiosa à memória da mãe falecida, acreditando ter cumprido a sua missão ao recuperar o ouro e os papéis da quinta. Contudo, ao ser confrontado com Abbie, revela a sua extrema vulnerabilidade, lutando desesperadamente entre a repulsa moral pela usurpadora e uma atração erótica incontrolável. Socialmente, passa de servo explorado a suposto proprietário legítimo da herdade. Abbie Putnam, com 35 anos, é caracterizada por um ar alegre, cara cheia e bonita, impregnada de uma sensualidade vigorosa e um olhar determinado e duro. Tendo sofrido um passado miserável de orfandade, servidão e perdas pessoais, é movida por um instinto de sobrevivência e por uma necessidade visceral de possuir um lar. Revela-se calculista, sedutora e dominadora, consciente do seu poder sobre o velho Ephraim e capaz de reconhecer em Eben uma alma gémea em termos de energia e obstinação. Ephraim Cabot, aos 75 anos, mantém um corpo alto, seco e de costas curvadas pelo trabalho contínuo, apresentando um rosto duro como xisto e olhos miopes. Representa a rigidez do patriarca puritano, cuja autoridade se fundamenta numa teologia severa e num orgulho inflexível; apesar de traído pela debandada dos filhos e ridicularizado, tenta manter a postura de tirano inabalável. Simeon e Peter, libertados da sujeição agrícola, encarnam a transformação do embrutecimento animal na euforia infantil da alforria, entregando-se a um comportamento subversivo, sarcástico e festivo antes da partida definitiva.

e) Linguagem e Enumeração das Figuras de Estilo A linguagem da cena é caracterizada por um registo coloquial e rústico, rico em termos do vocabulário agrícola, interjeições de desafio e celebração, expressões de tom bíblico e imprecações inflamadas. A oralidade é intensificada pela presença de cânticos populares e por diálogos rápidos e sobrepostos. Enumeram-se, exclusivamente, as seguintes figuras de estilo presentes na cena:

Metáfora

Comparação

Personificação (Prosopopeia)

Antítese

Hipérbole

Animalização (Zoomorfismo)

Ironia (e Sarcasmo)

Metonímia

Gradação

Apóstrofe (e Imprecação)

f) Características da Tragédia Clássica Grega A quarta cena acolhe elementos estruturantes do drama trágico clássico. A húbris (insolência e desmedida) manifesta-se tanto no fanatismo religioso e orgulho cego de Ephraim, como no desejo possessivo e absoluto de Abbie e Eben pela conquista da casa. A anagnórise e a peripécia ocorrem com a chegada da nova esposa e a partida dos irmãos, alterando radicalmente a estrutura de poder da quinta. A atração imediata e perturbadora entre Eben e a sua madrasta reencarna o mito trágico de Fedra e Hipólito, insinuando a inevitabilidade de um incesto trágico imposto pelo Fado (Moira). A maldição paterna lançada ao céu por Ephraim retoma a tradição das pragas familiares e das teias de culpa hereditária. Além disso, o comportamento ritualístico de Simeon e Peter ao arrancarem o portão, executarem uma dança de guerra e partirem os vidros mimetiza um ato de profanação e rutura com a ordem sagrada do lar doméstico.

g) Elementos Simbólicos Os elementos cénicos e materiais da quarta cena possuem uma elevada carga simbólica. O portão e a cancela de pedra representam a opressão, a demarcação da propriedade e a escravidão secular dos filhos; o ato de arrancar a cancela dos gonzos e levá-la sob o braço simboliza a destruição física das cadeias do patriarcado e a conquista da liberdade. As moedas de ouro de vinte dólares, retiradas do esconderijo sob o soalho junto ao fogão, simbolizam o sangue e a herança espiritual da mãe falecida de Eben, funcionando como a moeda de alforria dos irmãos e o instrumento de reparação histórica. A janela da sala quebrada pelas pedras representa a destruição da fachada de respeitabilidade e puritanismo da casa. A cozinha e o fogão funcionam como o centro sagrado da memória materna, que é profanado e tomado por Abbie quando esta começa a lavar a sua louça. Finalmente, a canção da Califórnia atua como o hino de evasão e símbolo da promessa dionisíaca de utopia e prosperidade no Oeste.

h) Análise Ideológica da Cena Sob a perspetiva ideológica, a cena apresenta uma crítica devastadora ao materialismo possessivo e à falência moral da sociedade puritana e patriarcal. O'Neill expõe como a obsessão pela propriedade privada e pelo domínio da terra reduz todas as relações humanas a meros vínculos de troca, exploração e poder. A retórica religiosa de Ephraim Cabot é desmascarada como uma ideologia de auto-justificação que utiliza o nome de Deus para sancionar a tirania doméstica, a ganância e a opressão dos filhos. Paralelamente, o relato autobiográfico de Abbie introduz uma contundente crítica social à condição da mulher no século XIX, mostrando que a sua conduta implacável resulta da miséria, da exploração do trabalho feminino e da urgência de obter a posse de um lar para garantir a sobrevivência. Por fim, a partida de Simeon e Peter para a Califórnia estabelece o contraste entre o Feudalismo Agrário sufocante da Nova Inglaterra e o Mito da Fronteira do Capitalismo nascente, onde a busca do ouro surge como a única via de libertação individual face ao jugo da autoridade paterna. 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Análise de Desejo sobre os Ulmeiros, de Eugene O'Neill

I. Biografia de Eugene O'Neill


II. Relação da peça com a tragédia  grega


III. Resumo da peça


IV. Resumo das cenas

    . 1.ª parte:

        . Cena I

        . Cena II

        . Cena III


V. Análise das cenas

    . 1.ª parte:

        . Didascália inicial

        . Cena I

        . Cena II

        . Cena III


V. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Análise da cena III da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

a) Ação
    A ação dramática da terceira cena desenvolve-se na penumbra do quarto dos irmãos, no piso superior da casa de lavoura, estruturando-se através de uma sucessão de revelações e negociações de forte intensidade emocional e pragmática. A cena inicia-se com a irrupção eufórica de Eben, que acorda bruscamente Simeon e Peter na calada da noite para lhes comunicar uma notícia avassaladora: o regresso iminente do patriarca Ephraim Cabot, de 75 anos, casado com uma mulher de 35. Esta revelação destrói instantaneamente as expetativas dos dois irmãos mais velhos de virem a herdar a propriedade, desencadeando neles a decisão súbita e irreversível de abandonarem a quinta e partirem para a Califórnia. Aproveitando este momento de crise, Eben executa um plano friamente calculado: apresenta um documento de renúncia dos direitos à herdade, oferecendo em troca trezentos dólares a cada um dos irmãos, quantia proveniente do dinheiro da falecida mãe que o pai mantivera escondido. A ação progride com a confissão de Eben sobre a sua noite com a prostituta Min, revelando que a tomou fisicamente num misto de choro, fúria e vingança contra o pai e os irmãos. A cena encerra com as provocações irónicas dos irmãos mais velhos sobre a possibilidade de Eben tentar possuir também a nova esposa de Ephraim — o que o jovem repele com nojo — e com a decisão cautelosa e vingativa de Simeon e Peter de aceitarem a proposta assim que virem o dinheiro vivo e a chegada da noiva.
b) Espaço
    O espaço físico é o quarto dos irmãos, localizado na água-furtada ou sótão da casa de lavoura, cujo teto inclinado acompanha a água do telhado. Trata-se de um compartimento exíguo, tétrico e claustrofóbico, onde os homens apenas se conseguem pôr de pé junto à parede divisória, estando ocupado por uma cama de casal para Simeon e Peter e pela cama de Eben ao fundo.
    No plano social, este espaço expõe a indigência, a promiscuidade forçada e a subalternidade da vida camponesa puritana da Nova Inglaterra de meados do século XIX, onde os filhos adultos continuam confinados a uma divisão miserável enquanto trabalham como servos na terra do pai.
    No plano psicológico, o quarto funciona como um verdadeiro recinto de conspiração e acerto de contas. Iluminado pela chama trémula de uma vela trazida por Eben e mais tarde pela luz fria da alvorada, o espaço transfigura-se num tribunal doméstico onde a autoridade do pai é profanada, os laços de sangue são convertidos em transações financeiras e o fantasma da mãe falecida atua como o elo invisível que guia a distribuição do dinheiro oculto.
c) Tempo
    O tempo da ação situa-se na calada da noite, na transição crítica que precede o raiar do sol e o alvorecer. Esta passagem da escuridão para a luz matutina acompanha ritmicamente a revelação dos segredos e a tomada de decisões definitivas.
    O tempo do discurso é rápido, tenso e entrecortado por interjeições e rubricas expressivas de fúria, surpresa e ironia.
    O tempo histórico está rigidamente marcado pelo ano de 1850 e pelo impacto da corrida ao ouro na Califórnia, que surge no horizonte das personagens como a promessa de enriquecimento rápido e alforria frente ao modelo agrário e puritano da Nova Inglaterra.
    No plano psicológico, o tempo é vivido com uma urgência sufocante. Para Simeon e Peter, o tempo de esperar pela morte do pai esgotou-se subitamente com o novo casamento; para Eben, o tempo da passividade terminou, acelerando-se a concretização do seu plano de apropriação e vingança em nome da mãe.
d) Caracterização das Personagens
    Eben Cabot surge caracterizado como um jovem de 25 anos em forte turbulência emocional, cujo rosto reflete uma mistura inquietante de riso malicioso, fúria e vulnerabilidade infantil. Psicologicamente, revela-se astuto, vingativo e obsessivo; a sua visita a Min expõe a sua imaturidade afetiva ao chorar como um vitelo antes de a possuir como um ato de apropriação e desforra contra o pai. Eben rejeita o afeto genuíno e encara o sexo e a propriedade como troféus de poder no conflito com Ephraim, demonstrando ao mesmo tempo um calculismo frio ao trazer já preparado no bolso o contrato de renúncia para os irmãos. Socialmente, posiciona-se como o legítimo herdeiro e vingador da mãe.
    Simeon e Peter são caracterizados como homens maduros, cansados e embrutecidos pelo trabalho contínuo. Psicologicamente, oscilam entre a incredulidade inicial e um pragmatismo cínico; quando perdem a expetativa da herança, decidem imediatamente vender os seus direitos e emigrar, revelando uma desconfiança astuta ao recusarem assinar qualquer documento sem verem o dinheiro e a noiva. Socialmente, são servos explorados que aproveitam a crise familiar para obterem a sua alforria financeira.
    Ephraim Cabot, embora ausente, é caracterizado através das acusações dos filhos como um velho de 75 anos hipócrita e libidinoso, que utilizou o pretexto de escutar a mensagem de Deus na primavera para casar com uma mulher jovem e esconder o dinheiro ganho com a herdade da falecida esposa.
e) Linguagem
    A cena é dominada por metáforas, as quais refletem o ressentimento, a ganância, a desumanização e a ironia trágica que caracterizam a dinâmica da família Cabot. Ao dar notícia do novo casamento do pai, Eben declara que aquele se "atrelou a uma fêmea de trinta e cinco anos", uma metáfora que despoja o matrimónio de qualquer dimensão afetiva. De facto, a forma verbal "atrelou-se" reduz o casamento a um acoplamento utilitário de gado de tração agrícola, ao passo que o nome "fêmea" desumaniza a noiva, convertendo-a num espécime reprodutivo. Esta animalização amplia-se mais à frente quando Eben caracteriza a nova madrasta como a "vaca a que o velho se atrelou" e quando afasta qualquer hipótese de paixão por Min, declarando que não se perde "com gado daquele". A expressividade destas metáforas zoomórficas é devastadora, pois revelam como o ambiente bruto e mercantilizado da quinta moldou a mente dos homens, levando-os a encarar as mulheres não como sujeitos, mas como bens pecuários, posses materiais ou objetos de disputa e dominação masculina.
    Paralelamente a esta animalização de caráter pecuário, surgem metáforas de repulsa visceral carregadas de simbolismo faunístico e bíblico. Quando é confrontado com a insinuação sarcástica dos irmãos de que poderá vir a desejar a nova madrasta, Eben reage com nojo, declarando que "mais valia amansar uma doninha malcheirosa ou beijar uma serpente". A metáfora da "doninha malcheirosa" traduz a repulsa física e a contaminação moral que o jovem associa à mulher que vem usurpar a herança da sua falecida mãe. Por sua vez, a metáfora da "serpente" ressoa com uma intensa carga teológica e bíblica, evocando a tentação demoníaca, o veneno e o perigo mortal. A expressividade disto reside na sua profunda dimensão premonitória: ao comparar a nova esposa a uma serpente, Eben expressa um repúdio absoluto que, de forma tragicamente irónica, antecipa a natureza perigosa, tentadora e mortal da paixão que virá a consumi-lo e a destruição no relacionamento com Abbie.
    Por outro lado, Eben e Simeon referem-se ao pai como "um diabo saído do Inferno" e desejam que a sua nova esposa seja "uma diaba que o faça desejar a morte e viver nas profundas do Inferno". Este vocabulário evocativo do demoníaco remete para a cosmovisão calvinista e maniqueísta em que as personagens foram criadas, onde o mal moral é personificado pela figura do Diabo e do Inferno. Ao metaforizarem o pai e a madrasta como seres diabólicos oriundos do abismo, os filhos elevam o conflito doméstico em torno da herança a uma guerra de contornos cósmicos e espirituais, usando a linguagem da religião para santificar o seu próprio ódio e justificar a vingança. A própria terra da quinta é envolvida nesta linguagem quando Simeon proclama que "a herdade que vá para o diabo", metaforizando a propriedade como um território amaldiçoado que deve ser entregue à perda e à destruição espiritual.
    No plano da questão económica e da luta pela sobrevivência, encontramos outras metáforas que apontam para as ideias de ruína financeira, libertação e falsa soberania. Quando Peter toma consciência de que o novo casamento do pai anula as suas expetativas de herança, conclui sombriamente que o patriarca os "liquidou". A metáfora financeira da "liquidação" traduz a perceção de que a própria existência dos filhos foi anulada e executada comercialmente pelo pai, reduzindo o valor das suas vidas ao valor da propriedade. Perante esta falência, a urgência de fugir daquele ambiente é traduzida por Simeon através da metáfora aviária "se nos desses asas, íamos a voar", que contrasta expressivamente com a condição pesada e bovina que mantinham na quinta, afirmando que vão "fazer de ricos, para variar", uma metáfora que ironiza a sua condição de servos e expressa a ilusão temporária de poder e o gozo cínico de quem decide usufruir da comida e da bebida da casa antes de a abandonar em definitivo.
    A finalizar a cena, O'Neill desconstrói metaforicamente a hipocrisia religiosa do patriarca. Assim, Simeon parodia o discurso do pai ao recordar a frase em que este justificava a sua partida na primavera para "escutar a mensagem que Deus me manda na Primavera, como os profetas faziam". A metáfora da vocação profética e do chamado divino é desmascarada pela observação sarcástica de que Ephraim ia, na verdade, andar metido com mulheres de má vida. Este contraste expõe a fratura ideológica do puritanismo, visto que a retórica piedosa e mística dos profetas bíblicos é revelada como uma máscara verbal que encobre a luxúria e o egoísmo do velho patriarca, consolidando a denúncia da falência moral e espiritual que domina todo o universo da peça.
    Outro recurso relevante é a comparação. Quando Eben confessa o seu encontro noturno com a prostituta Min, admite ter começado a "chorar como um vitelo" antes de a possuir. A escolha da imagem do "vitelo" — um bezerro jovem, indefeso, recém-nascido e historicamente associado ao sacrifício — desmascara a fachada de masculinidade bruta e calculista que o rapaz tenta ostentar perante os irmãos mais velhos. Face à memória da mãe falecida e à sombra castradora do pai, a arrogância do jovem desmorona perante a sua reação infantil; o homem que mostra ódio e busca vingança revela-se, afinal, uma espécie de criança assustada e desamparada, entregue a um choro animal e instintivo. A comparação traduz a sua grande vulnerabilidade, mostrando que as suas palavras ameaçadoras constituem uma mera carcaça defensiva para proteger a ferida aberta da perda da mãe.
    Por seu turno, Simeon parodia o discurso moral do pai quando, ao relembrar a justificação dada por ele para a sua partida durante a primavera (a alegação de que partia para "escutar a mensagem que Deus me manda na Primavera, como os profetas faziam"), denuncia dessa forma a hipocrisia puritana do pai. Ao aproximar a caminhada do velho latifundiário à jornada espiritual dos patriarcas e visionários bíblicos, a comparação e a linguagem expõem o espaço que separa a hybris religiosa de Ephraim, que se autoproclama um eleito divino, da crueza dos seus atos reais, movidos pela procura de consolo da carne junto de uma mulher muito mais jovem do que ele. Deste modo, o filho desmascara a suposta autoridade moral do progenitor, reduzindo-a a um mero disfarce destinado a encobrir o egoísmo e o desejo sexual.
    Eben sente repulsa ao tomar conhecimento do novo matrimónio do pai e ao consciencializar-se de que teria de passar a conviver com alguém que considera vir usurpar a herança materna. Por outro lado, essa repulsa estende-se às insinuações dos irmãos, às quais reage exclamando que "mais valia amansar uma doninha malcheirosa ou beijar uma serpente" do que aceitar a presença na casa da família da nova madrasta. Note-se a expressividade desta comparação: ela traduz a analogia entre o medo instintivo suscitado por animais considerados repugnantes ou venenosos e a aversão absoluta que Eben dedica à mulher que vem usurpar o lugar e a herança da mãe. Ao declarar que prefere contactar fisicamente com uma doninha pestilenta ou beijar mortalmente um réptil venenoso, Eben não deixa qualquer dúvida acerca do grau de rejeição que sente pela nova esposa do pai. Por outro lado, ao associá-la à figura da serpente — símbolo bíblico da tentação, do pecado e da catástrofe, evidenciado pelo episódio vivido nos jardins do Éden com Eva e Adão —, a personagem presagia o perigo mortal que a chegada de Abbie trará para a sua vida, antecipando a paixão proibida e trágica que o enredará.
    Reagindo às palavras dos irmãos, Eben procura afastar a ideia de que se apaixonou por Min e, para tal, compara a prostituta à nova esposa do pai, afirmando que a primeira "não é tão má como isso" e que a noiva de Ephraim será uma "vaca" que "bate a Minnie". Esta comparação é profundamente depreciativa para as figuras femininas e traduz a rudeza que caracteriza os três irmãos. As mulheres são constantemente aferidas e comparadas num plano de ameaça ou utilidade: Min acaba por ser tolerada por representar uma mulher que foi uma conquista do pai, ao passo que a nova madrasta é antecipadamente percecionada como uma ameaça maior à integridade da herdade.
    Outro recurso estilístico relevante na cena é a hipérbole. Quando o casamento de Ephraim é anunciado, Eben sente-se humilhado e, ao afirmar que "toda a aldeia sabe" do matrimónio do progenitor antes dos próprios filhos, ele enfatiza o contraste entre o segredo guardado do núcleo familiar e a exposição pública do evento. Ter consciência de que a notícia circula por toda a aldeia transforma a opressão doméstica num espetáculo em que os três filhos são vítimas de chacota coletiva, o que aprofunda a ferida do orgulho dos três homens, que antecipam a perda da herança à vista de todos.
    A revelação desencadeia no protagonista um estado emocional de exacerbação absoluta, que é expresso quando Eben confessa ter ficado "doido de fúria" a ponto de agir "de doido que estava". Ao hiperbolizar a raiva como forma de alienação mental ou loucura temporária, está a justificar a conduta errática do filho mais novo, explicando como o choque o conduziu a uma oscilação extrema entre o choro convulsivo infantil e a posse violenta de Min. A fúria não é descrita como uma simples irritação, mas como uma tempestade mental devastadora que anula a razão e força a saída imediata dos impulsos reprimidos.
    Simeon também reage de forma hiperbólica à notícia e fá-lo de forma agressiva, rogando pragas sobre o futuro do velho patriarca com a nova esposa. Ao manifestar o desejo de que a noiva, que ainda não conhece, seja "uma diaba que o faça desejar a morte e viver nas profundas do Inferno", no fundo, está a dizer que não é suficiente que o pai seja enganado, mas que o seu sofrimento seja de tal ordem intenso que a própria vida se torne tão insuportável que o leve a implorar pela morte. Esta hipérbole, em suma, revela o ressentimento dos filhos.
    Posteriormente, Eben projeta a nova madrasta como uma ameaça sem precedentes, garantindo que "há, no mundo, muito pior" e que ela "bate a Minnie", mostrando que não constitui apenas uma rival, mas a corporização da pior desgraça possível. No fundo, ele está a antecipar o terror que a chegada da mulher representa para a memória da mãe falecida, elevando a intrusa à condição de um monstro moral que supera qualquer transgressão anterior.
    Por sua vez, Peter exclama "a herdade que vá para o diabo!". A propriedade, até então, tinha sido o objeto de todo o foco, de todo o sacrifício, da disputa familiar; agora, perante a possibilidade de a perderem, os irmãos preferem a sua destruição total a continuarem acorrentados ao seu cultivo.
    Já a hipérbole que brota dos lábios de Eben, que aconselha os outros dois a alimentarem-se com "comida que até se agarre às costelas", traduz o esforço físico brutal que a viagem para a Califórnia vai requerer. O alimento deixa de ser mero sustento para se transformar numa massa de força que tem de fundir-se hiperbolicamente com a própria estrutura óssea para lhes dar resistência durante a travessia.
    Por fim, a transição para a liberdade dos irmãos mais velhos é assinalada por uma indolência que reflete falsa opulência, quando Simeon e Peter declaram que vão "fazer de ricos, para variar" e recusam levantar-se da cama enquanto o almoço não estiver pronto e servido à mesa. Dois homens que sempre viveram como bestas de carga decidem, durante algum tempo, caricaturar a preguiça e o luxo das pessoas abastadas, usando-os como uma espécie de desforra celebratória antes do abandono definitivo da quinta.
    Por outro lado, a herdade e a própria terra da quinta são percecionadas através de personificações como entes rurais dotados de vida, suscetíveis de serem roubados, escravizados ou condenados. Quando Eben expressa a sua repulsa pela madrasta, acusa-a de vir "roubar a herdade da minha mãe", atribuindo à propriedade a condição de um corpo vulnerável que foi usurpado e que necessita de proteção. Mais tarde, perante o desespero de perderem a herança, Peter declara "a herdade que vá para o diabo!", humanizando a terra: ela não é uma extensão neutra de solo, mas uma entidade amaldiçoada e moralmente arruinada pela tirania de Ephraim. Ao mandá-la para o Diabo, ele trata a quinta como uma pessoa cuja condenação eterna é desejada para que ceda finalmente o seu domínio sobre as vidas dos filhos.
    Outro contraste presente nesta cena centra-se na oposição entre dois espaços físicos: a Califórnia e o contexto familiar ("Há ouro nos campos da Califórnia, sim. Já não vale a pena ficarmos cá."; "Vamos fazer de ricos, para variar. Não me levanto da cama enquanto o almoço não estiver pronto."). Os extratos citados expõem a realidade da escravidão agrícola na terra estéril do pai com o mito da riqueza fácil no Oeste. O contraste atinge o seu auge quando dois homens habituados a trabalhar como animais decidem passar o dia a "fazer de ricos", opondo a opressão secular a uma caricatura de indolência que ironiza a ética puritana do trabalho.
    O ouro dos campos da Califórnia e o apelo da viagem surgem personificados como forças sedutoras vivas que acenam e dialogam com a imaginação dos irmãos mais velhos. A miragem do Oeste não é descrita como um destino geográfico passivo, como um ente dinâmico que oferece "asas para voar" e promete libertá-los da opressão da quinta. Esta personificação contrapõe a vitalidade radiante do ouro distante à esterilidade morta das pedras do patriarca, atuando como um estímulo psicológico poderoso que devolve aos dois homens embrutecidos a capacidade de desejar e de agir.
    A antítese entre noite e dia, escuridão e claridade ("É noite escura, logo antes do raiar do dia."), representa o contraste entre a estagnação e o confinamento claustrofóbico dos filhos no contexto da quinta e o caminho para a revelação. A chama trémula da vela trazida por Eben e o céu que gradualmente "aclara" pela janela representam a luz da verdade que desfaz as ilusões de herança e ilumina a decisão de fuga dos irmãos mais velhos rumo à Califórnia.
    O contraste entre a velhice de Ephraim Cabot (de 75 anos) e a vitalidade de uma mulher de 35 anos denuncia o desejo carnal e a afirmação do poder do velho patriarca, que tenta desafiar a velhice através da posse de um corpo jovem, ao mesmo tempo que abre um abismo geracional que prefigura a atração e a aliança inevitável entre a nova madrasta e o jovem Eben (25 anos).
    A oposição, no discurso de Eben, entre o "chorar como um vitelo" e o "agarrar e possuir" expõe a fratura da sua mente. Esta antítese revela o conflito interno da personagem: sob a fachada de homem violento e conquistador que deseja vingar-se do pai, "esconde-se" uma criança traumatizada e vulnerável que desaba em lágrimas infantis antes de recorrer à posse física como mecanismo de afirmação moral e sexual: "quando a vi, não lhe bati... nem a beijei... comecei a chorar como um vitelo e a praguejar ao mesmo tempo."
    Por fim, no plano da animalização (ou zoomorfismo), a fala "Atrelou-se a uma fêmea de trinta e cinco anos... e bonita, dizem.", por meio da combinação da forma verbal "atrelou-se" com o nome "fêmea", rebaixa a união matrimonial a um mero acoplamento de uma junta de animais (bois ou cavalos). O termo "fêmea" reduz a nova esposa a uma espécie reprodutiva biológica. Por sua vez, a forma verbal evoca a ideia de que o matrimónio, para o patriarca, não passa de mais uma parelha ajustada às exigências da quinta.
    Ao descrever o seu colapso emocional diante de Min ("comecei a chorar como um vitelo e a praguejar ao mesmo tempo, de doido que estava..."), Eben animaliza-se a si próprio ao comparar o seu choro ao berro indefeso de um vitelo. Sob a capa de um homem ríspido e vingativo, a dor do trauma materno redu-lo a um animalzinho recém-nascido e assustado, entregue ao sacrifício e ao desamparo. O contraste entre este choro bovino/infantil e o ato posterior de "agarrar e possuir" expõe a fratura interior de quem recorre à força física somente para estancar a sua profunda desolação interior.
    Ao rejeitar, com indignação, a ideia de que está apaixonado por Min ("Paixão! Eu não me perco com gado daquele!"), Eben classifica a prostituta sob a categoria genérica de "gado". Esta metáfora zoomórfica revela a mentalidade patrimonialista da quinta: as mulheres que satisfazem a sexualidade masculina são agrupadas como manada ou pecuária, destituídas de valor sentimental e apreciadas apenas como mercadoria de uso temporário. Ao apelidar Min de "gado", ele tenta afastar a acusação de fraqueza afetiva, racionalizando a sua visita como a tomada de um bem de consumo que pertencia ao pai.
    Por último, a nova madrasta é apresentada como um animal de produção: "Esperem para ver a vaca a que o velhote se atrelou! Está-me a parecer que bate a Minnie!". A linguagem de Eben revela uma agressividade manifesta ("vaca"): se a prostituta é catalogada como "gado", a nova esposa de Ephraim é diretamente associada ao animal leiteiro e produtivo da herdade, associado novamente à forma verbal "atrelou-se". Este insulto reflete a repulsa de Eben perante a intrusa que vem usurpar a herança materna, transformando a disputa legal e familiar numa lida entre animais de grande porte no estábulo doméstico. Perante a hipótese de vir a aproximar-se da nova esposa do pai, Eben recorre a duas animalizações degradantes: "Mais valia amansar uma doninha malcheirosa ou beijar uma serpente!". Ao associar a madrasta a uma "doninha malcheirosa", a personagem conecta-a com um mamífero carnívoro considerado uma praga agrícola, famoso pelo seu odor pestilento e caráter traiçoeiro, traduzindo assim o nojo que ela lhe provoca. Por outro lado, ao relacioná-la a uma serpente, profetiza, sem saber, a tentação perigosa e o veneno da paixão incestuosa que acabará por enredá-lo e destruí-lo.
f) Características da tragédia clássica grega
    A cena acolhe os pilares fundamentais da tragédia grega clássica. A revelação do casamento de Ephraim atua como uma anagnórise (reconhecimento ou revelação de uma verdade oculta) que desencadeia a peripécia, isto é, a súbita alteração do destino de Simeon e Peter. A figura de Eben reencarna o mito de Édipo e de Orestes: movido pela memória da mãe falecida — que funciona como uma Erínia ou força de vingança —, ele busca punir a húbris e a tirania do pai através da usurpação dos seus bens e do seu território simbólico. A provocação final de Simeon sobre a possibilidade de Eben vir a possuir a nova esposa do pai constitui uma ironia trágica de grande valor premonitório, antecipando com precisão absoluta o incesto e a catástrofe afetiva que se consumarão nas cenas subsequentes.
g) Elementos simbólicos
    Os elementos cénicos da terceira cena estão impregnados de uma forte densidade simbólica. A vela acesa trazida por Eben para a escuridão do quarto representa a luz da revelação que destrói as ilusões dos irmãos, mas simboliza também o fogo da discórdia e da paixão destrutiva. O teto inclinado da água-furtada encarna a opressão física e a pequenez a que os filhos foram submetidos. O dinheiro escondido na casa deixa de ser um mero recurso económico para se converter no sangue e no suor roubados à mãe de Eben, funcionando como o instrumento mágico de libertação e reparação histórica. O documento amarrotado com o contrato de venda simboliza a degradação dos laços familiares, transformando o afeto de irmãos num frio pacto comercial. Finalmente, a alvorada que desponta pela janela simboliza a rutura definitiva com a noite da estagnação e o início do êxodo dos irmãos mais velhos rumo ao Oeste.
h) Análise Ideológica da Cena
    No plano ideológico, a cena oferece uma crítica feroz ao materialismo mercantil e à hipocrisia da moral puritana. O'Neill demonstra como, numa sociedade regida pela obsessão da propriedade privada, as relações humanas e familiares são completamente reificadas e convertidas em relações de troca e valor monetário. A própria figura feminina é desumanizada: tanto Min como a nova noiva são tratadas como meros objetos de posse, "gado" ou troféus no conflito de poder masculino entre o pai e os filhos. Paralelamente, a cena desmascara a religiosidade puritana de Ephraim Cabot, revelando o abismo entre o discurso espiritualista e a conduta terrena motivada pelo egoísmo e pela luxúria. Por fim, a miragem da Califórnia representa o mito da fronteira americana, expondo a tentativa desesperada dos indivíduos de escaparem à opressão feudal da terra através da ilusão do enriquecimento rápido do capitalismo nascente.

Resumo da cena III da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

    A terceira cena da 1.ª parte decorre na penumbra do quarto dos irmãos, no piso superior da casa de lavoura, momentos antes do amanhecer. Eben surge tateando na escuridão, rindo amargamente e praguejando entre dentes, até irromper pelo quarto de vela na mão para acordar bruscamente Simeon e Peter. Sob o olhar estremunhado dos meio-irmãos mais velhos, lança uma notícia bombástica que acabou de saber na aldeia: o velho Ephraim Cabot, de 75 anos, voltou a casar-se em New Dover com uma mulher de trinta e cinco anos.
    A revelação provoca um choque inicial de incredulidade em Simeon e Peter, que tentam convencer-se de que se trata de uma mentira. Contudo, ao perceberem a veracidade do rumor trazido pelo padre local, os dois irmãos caem em desespero ao constatar que a nova esposa passará a herdar tudo, anulando qualquer expetativa de virem a obter proveito da quinta. Esta constatação atua como o catalisador definitivo para a decisão de abandonarem a terra e partirem imediatamente para a Califórnia em busca de ouro.
    Aproveitando o desespero e a urgência dos irmãos, Eben revela a sua faceta mais calculista e astuta. Ele tira do bolso um documento previamente preparado e propõe um negócio: se os irmãos assinarem a renúncia aos seus direitos sobre a herdade, ele entregar-lhes-á trezentos dólares a cada um, quantia suficiente para pagarem a viagem de barco para o Oeste. Interrogado com desconfiança sobre a proveniência de tão avultada soma, revela que encontrou o dinheiro que o pai mantivera escondido durante anos, uma quantia que pertencera originalmente à sua falecida mãe e que ele agora reivindica como sua por direito.
    Com o raiar da alvorada a aclarar o céu pela janela, a conversa desvia-se para o paradeiro de Eben durante a noite. O jovem confessa ter ido a casa da prostituta Min. Explica que, a caminho, atormentado pelas revelações sobre a mulher ter pertencido ao pai e aos irmãos, foi tomado por uma fúria descontrolada; ao chegar junto dela, chorou como um vitelo e acabou por se deitar com ela, proclamando com orgulho desafiador que a tomou para si para possuir algo que pertencera ao pai e se vingar dele, tornando-a sua por direito.
    Quando os irmãos troçam do seu envolvimento e sugerem com ironia que Min daria uma esposa fiel, ele repele a ideia com desprezo, afirmando que não se apaixona por "gado" e que a mulher apenas lhe interessou por ser uma posse de Ephraim. A provocação atinge o auge quando Simeon insinua, de forma profética, se Eben não irá tentar possuir também a nova esposa do pai. O rapaz cospe com nojo, declarando que preferia beijar uma serpente a aproximar-se da mulher que vem roubar a herança da sua mãe e sai indignado para a cozinha para acender o lume e preparar o pequeno-almoço.
    Ficando a sós no quarto, Simeon e Peter decidem ser cautelosos: concordam em não assinar qualquer documento até verem o dinheiro vivo e confirmarem a chegada da noiva. Num acesso de cinismo e vindicta, o primeiro conclui que, se o pai realmente casou, estarão a vender a Eben algo que nunca será dele, decidindo aproveitar o dia para descansar, comer e beber à mesa, enquanto deseja asperamente que a nova madrasta seja uma diaba que faça a vida do velho patriarca um verdadeiro inferno.
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