A cena final de O Mercador de Veneza, que se passa no jardim do castelo de Belmonte sob o luar, inicia-se com um diálogo lírico e romântico entre Lourenço e Jéssica, no qual ambos trocam evocações poéticas de célebres amores da antiguidade clássica. O momento intimista é interrompido pela chegada sucessiva de dois mensageiros: Estéfano, que anuncia o regresso de Pórcia antes do amanhecer, e Lanceloto, que traz a notícia da aproximação de Bassânio. A pedido de Lourenço, os músicos do castelo tocam no jardim, proporcionando uma reflexão profunda sobre a harmonia cósmica e o poder transformador da música nas almas humanas e até nos animais selvagens. Pórcia e Nerissa surgem logo a seguir na penumbra, comentando de forma filosófica como o valor das coisas é relativo e realçado pela ocasião e pelo silêncio.
Após um breve reencontro com Lourenço, Pórcia ordena que a sua ausência não seja revelada aos maridos, que chegam no instante seguinte acompanhados por António e pelo seu séquito. Bassânio apresenta o seu amigo e salvador António a Pórcia, que o acolhe com enorme generosidade. Contudo, a atmosfera festiva desvanece-se quando se inicia uma discussão acesa entre Graciano e Nerissa por causa de um anel. Graciano defende-se vigorosamente, jurando que não deu a joia a nenhuma mulher, mas sim ao jovem escrivão do juiz que os tinha ajudado em Veneza. Pórcia intervém na disputa para repreender Graciano pela perda do primeiro presente da esposa, asseverando com altivez que o seu próprio marido, Bassânio, jamais faria tal coisa por tesouro algum do mundo.
Perante esta pressão, Graciano acaba por revelar que Bassânio também entregou o seu anel de casamento ao próprio juiz que salvara a vida de António. Confrontado por Pórcia, Bassânio confessa a perda da aliança, tentando justificar-se com o valor inestimável do serviço prestado pelo jurista, que recusara qualquer pagamento monetário e suplicara especificamente por aquela joia. Pórcia e Nerissa simulam indignação absoluta, acusando falsamente os maridos de traição e jurando que apenas concederão os seus favores aos supostos homens que agora possuem os anéis. Perante o desespero de Bassânio e a intercessão direta de António, que oferece novamente a sua alma como penhor da lealdade do amigo, Pórcia finge ceder e entrega um anel a António para que este o coloque no dedo do amigo.
A revelação final desencadeia-se quando Bassânio e Graciano descobrem que os anéis que agora têm nas mãos são exatamente as mesmas alianças que tinham entregado em Veneza. Pórcia desfaz o mistério ao revelar que ela própria era o jovem doutor Baltasar e que Nerissa era o seu escrivão, apresentando uma carta de confirmação do prestigiado jurista Belário de Pádua. Para consolidar a reconciliação e a harmonia geral, Pórcia entrega ainda uma carta a António com a feliz notícia de que três dos seus navios cargueiros regressaram inesperadamente a salvo e repletos de riquezas a Veneza. Nerissa entrega também a Lourenço e Jéssica o documento assinado por Shylock que lhes garante a herança de todos os seus bens. A cena e a peça terminam sob um clima de grande humor e leveza, com Graciano a fazer uma última piada sobre a sua preocupação em manter o anel de Nerissa devidamente guardado e protegido.
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