Português: 29/09/26

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Questionário - Cena IV

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📝 Questionário de Avaliação: Cena IV de Desejo sob os Ulmeiros (25 Questões)

Clique em cada pergunta para revelar a opção correta e a fundamentação do texto.

1. Quem são os dois irmãos mais velhos que decidem abandonar a herdade para procurar ouro na Califórnia?
Resposta Correta: Simeon (39 anos) e Peter (37 anos).
Explicação: Filhos do primeiro casamento de Ephraim Cabot, ambos abandonam o trabalho escravo na quinta da Nova Inglaterra assim que recebem o dinheiro pelas suas partes.
2. Qual é o valor exato que Eben paga a Simeon e Peter em troca do papel em que abdicam dos seus direitos sobre a quinta?
Resposta Correta: 600 dólares no total (300 dólares a cada um), pagos em moedas de ouro de 20 dólares.
Explicação: Eben entrega o montante em moedas de ouro para que os irmãos possam financiar a viagem de barco para a Califórnia.
3. Onde estava escondido o saco com o dinheiro utilizado por Eben para comprar as partes dos irmãos?
Resposta Correta: Escondido debaixo do soalho/sobrado da cozinha, sob o fogão.
Explicação: O dinheiro fora escondido por Ephraim Cabot, mas a mãe falecida de Eben descobriu o esconderijo e revelou-o ao filho antes de morrer.
4. A quem pertencia legitimamente o dinheiro escondido, segundo a convicção de Eben?
Resposta Correta: À sua mãe falecida ("Maw").
Explicação: Eben considera que o dinheiro acumulado pelo pai pertencia de direito à sua mãe, que trabalhou até à morte sem recompensa, sendo ele o seu único herdeiro.
5. Quantos anos tem Ephraim Cabot quando regressa à quinta com a nova esposa na quarta cena?
Resposta Correta: 75 anos.
Explicação: Apesar da idade avançada, o patriarca mantém uma grande força física enrijecida pelo trabalho braçal.
6. Qual é a idade de Abbie Putnam, a nova e terceira esposa de Ephraim Cabot?
Resposta Correta: 35 anos.
Explicação: Abbie é 40 anos mais jovem do que o marido e procura na herdade a estabilidade de um lar próprio.
7. Como é descrito o rosto de Ephraim Cabot na didascália de apresentação da quarta cena?
Resposta Correta: "O rosto é duro, como se tivesse sido esculpido num seixo..."
Explicação: A comparação associa a fisionomia do patriarca à aridez e dureza das pedras do solo da quinta.
8. Que insulto zoomórfico e degradante lança Peter a Abbie quando a vê chegar?
Resposta Correta: "Metê-la no chiqueiro com as outras porcas."
Explicação: A metáfora expressa a rejeição absoluta da nova madrasta, rebaixando-a à condição de animal doméstico.
9. Que metáfora profana utiliza Simeon para questionar onde o pai encontrou a nova esposa?
Resposta Correta: "Onde diabo a desenterrou?"
Explicação: A imagem associa a descoberta de Abbie a uma exumação macabra ou pacto diabólico, antecipando a tragédia que ela trará ao lar.
10. Como reagem Simeon e Peter para provocarem e ridicularizarem o pai no momento da despedida junto ao portão?
Resposta Correta: Realizam uma dança de guerra ritualística e atiram pedras contra as janelas da casa.
Explicação: Executam uma dança grotesca ao redor de Cabot, partindo os vidros da sala com pedradas antes de fugirem a cantar.
11. Qual é a canção dos garimpeiros que Simeon e Peter cantam alegremente enquanto se afastam pela estrada?
Resposta Correta: "Oh, Susannah!" ("Saltei pra bordo do Liza...").
Explicação: A canção popular dos garimpeiros simboliza o entusiasmo e a ilusão da corrida ao ouro na Califórnia.
12. O que faz Simeon à cancela do muro de pedra antes de abandonar definitivamente a propriedade?
Resposta Correta: Arranca a cancela dos gonzos e coloca-a debaixo do braço para a atirar a um rio.
Explicação: O ato simboliza o fim do confinamento e a abolição de todas as barreiras impostas pela tirania do pai.
13. Que sensação física e patológica sente Eben antes mesmo de avistar a chegada da carroça de Ephraim?
Resposta Correta: "O arrepio das febres, antes de elas começarem."
Explicação: Eben compara a premonição do regresso do pai a um sintoma patológico visceral que lhe contagia o corpo.
14. Que metáfora aplica Simeon a Eben para descrever a sua obstinação e semelhança com a natureza do pai?
Resposta Correta: "É duro como um marmeleiro!"
Explicação: Equipara o caráter de Eben à madeira rija e torcida do marmeleiro, sublinhando que ele herdou a rigidez do próprio pai.
15. Que comparação faz Abbie sobre a forma como Simeon e Peter a olhavam fixamente ao portão?
Resposta Correta: "Como um par de porcos para a bolota."
Explicação: Abbie devolve aos enteados a linguagem animalizada, comparando o olhar de cobiça dos dois à fome do gado suíno.
16. Qual é a atitude inicial de Abbie ao contemplar a casa de lavoura pela primeira vez ao lado de Ephraim?
Resposta Correta: Assume uma postura de conquistadora e declara: "É lindo... custa-me a crer que seja meu!"
Explicação: Abbie saboreia a posse da casa, demonstrando a sua ambição de dominar a propriedade e a herdade.
17. Que comparação insultuosa lança Eben a Abbie no primeiro encontro a sós na cozinha?
Resposta Correta: "E comprou-a... como quem compra uma pega!"
Explicação: Eben reduz o casamento de Ephraim e Abbie a uma mera transação comercial de prostituição por teto e comida.
18. Que insulto utiliza Eben para tentar repelir a aproximação sedutora e o toque físico de Abbie?
Resposta Correta: "Velha bruxa!"
Explicação: Eben diaboliza Abbie para tentar erguer uma defesa verbal contra a atração e o fascínio que a madrasta lhe provoca.
19. Qual foi o passado de sofrimento relatado por Abbie para tentar comover Eben e conquistar a sua simpatia?
Resposta Correta: Ficou órfã em criança, serviu em casas alheias, casou com um beberranas e perdeu o filho e o marido.
Explicação: Abbie justifica a sua obsessão por um lar explicando que trabalhou toda a vida para os outros sem ter um teto próprio.
20. Que acusação lança Eben ao pai no confronto verbal sobre a religiosidade puritana do patriarca?
Resposta Correta: Acusa-o de perverter a figura do Bom Pastor: "Atraindo as suas ovelhas ao pecado!"
Explicação: Eben inverte a alegoria bíblica, afirmando que a religião dura e opressiva do pai conduz os próprios filhos à perdição.
21. Como qualifica Ephraim Cabot a maturidade e a autonomia de Eben durante o bate-boca final da quarta cena?
Resposta Correta: "Nunca chegaste a homem inteiro!"
Explicação: O pai recorre a uma metáfora de mutilação psicológica para desqualificar a virilidade e a capacidade de liderança do filho.
22. Que metáfora insultuosa dirige Peter a Ephraim Cabot no momento da despedida no portão?
Resposta Correta: "Velho coiro!"
Explicação: Reduz o corpo do patriarca a pele animal enrijecida e gasta, desfazendo o respeito sagrado pela autoridade paterna.
23. Qual é a ameaça física e violenta que Ephraim lança aos filhos que lhe partem os vidros da janela?
Resposta Correta: "Ficam com os ossos num feixe!"
Explicação: O patriarca utiliza uma imagem da lida rural, ameaçando esmagar o esqueleto dos filhos como um fardo de lenha seca.
24. O que faz Abbie no fecho da Cena IV enquanto Ephraim e Eben se retiram para o estábulo?
Resposta Correta: Fica na cozinha a lavar a louça.
Explicação: Ao lavar a louça, Abbie instala-se no espaço doméstico da casa, assumindo o papel que pertencera à falecida mãe de Eben.
25. O que faz Eben depois de ser chamado de "homem incompleto" e ver a madrasta tomar conta da cozinha?
Resposta Correta: Segue para o exterior e fica a fitar o pai com um olhar de ódio e desafio.
Explicação: Eben aceita o desafio do pai e da madrasta, preparando a batalha pela posse da herdade e pela afirmação da sua masculinidade.

Metáforas e comparações na cena IV da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

📇 Cartões de Estudo: Metáforas e Comparações em Desejo sob os Ulmeiros

❓ Metáfora: "O cabresto rebentou! A albarda foi ao ar!"
Análise: Sintetiza o momento de rutura e libertação de Simeon e Peter perante a sujeição patriarcal. O "cabresto" simboliza a contenção e a autoridade castradora de Ephraim Cabot; a "albarda" encarna o fardo e o peso do trabalho escravo na herdade. Ao rebentarem os arreios, os irmãos recusam a condição de bestas de carga e afirmam a sua autonomia.
❓ Metáfora: "A ti te há-de ele comer, velhote!"
Análise: Metáfora de voracidade canibalística e destruição édipica. Simeon avisa Ephraim que Eben não apenas reivindicará a quinta, mas consumirá a autoridade e o poder do pai. Apresenta uma forte ironia trágica: antecipa a usurpação do leito conjugal do patriarca através da união secreta de Eben com Abbie.
❓ Metáfora: "Onde diabo a desenterrou?"
Análise: Associa a chegada de Abbie à exumação de um cadáver ou a um pacto com o submundo. Deshumaniza a nova madrasta, retirando-lhe a dignidade humana. Funciona como preságio trágico da atmosfera de morte, profanação e destruição que Abbie trará para a casa.
❓ Metáfora: "Metê-la no chiqueiro com as outras porcas"
Análise: Reificação e deshumanização zoomórfica extrema de Abbie por Peter. Nega-lhe qualquer autoridade ou legitimidade no lar, rebaixando-a à condição de animal suíno. Reflete a linguagem de curral e a misoginia impregnada na vida agrícola dos irmãos.
❓ Metáfora: "Velho coiro!"
Análise: Reduz o corpo e a presença de Ephraim Cabot a pele animal enrijecida e seca. Simboliza a calcificação afetiva do patriarca após 75 anos de lida agrícola dura e marca o topo da desacralização da autoridade paterna pelos filhos.
❓ Metáfora: "Ficam com os ossos num feixe!"
Análise: Ameaça de violência física onde Cabot equipara os esqueletos dos filhos a fardos de lenha ou gravetos secos. Exprime a fúria e o vocabulário bruto da lida rural, embora revele a impotência real do velho tirano perante a partida dos filhos.
❓ Metáfora: "Velha bruxa!"
Análise: Diabolização de Abbie por Eben para racionalizar o desejo incestuoso e a atração física que a madrasta lhe desperta. Sob a tradição puritana, o jovem transfere a culpa para uma suposta feitiçaria, tentando erigir um escudo verbal defensivo.
❓ Metáfora: "Atraindo as suas ovelhas ao pecado!"
Análise: Inversão da alegoria bíblica do Bom Pastor. Eben acusa Cabot de perverter a teologia puritana e atuar como um falso guia que empurra os próprios filhos para a perdição. Antecipa o incesto como armadilha armada pela própria conduta do pai.
❓ Metáfora: "Nunca chegaste a homem inteiro!"
Análise: Metáfora de mutilação e castração psicológica. Cabot ataca a maturidade e a virilidade de Eben, definindo-o como incompleto para desarmar as suas reivindicações patrimoniais e incitar a provação da sua masculinidade.
❓ Comparação: "...comprou-a... como quem compra uma pega!"
Análise: Equipara o casamento de Cabot a uma transação comercial de prostituição. Eben reduz a madrasta a uma mercadoria adquirida por sustento, usando o insulto como defesa contra a sedução e perturbação que ela lhe causa.
❓ Comparação: "...olhar para mim como um par de porcos para a bolota"
Análise: Abbie compara o olhar cobiçoso dos enteados ao apetite do gado suíno pela comida. Inverte a linguagem animalizada da quinta e afirma o seu controlo e soberania fria ao chegar à propriedade.
❓ Comparação: "...sinto-o chegar, como se sente o arrepio das febres..."
Análise: Eben compara a intuição da aproximação do pai ao sintoma de uma infeção febril iminente. A autoridade de Cabot é vivenciada como um contágio e uma ameaça patológica visceral que faz tremer o corpo.
❓ Comparação: "É duro como um marmeleiro!"
Análise: Simeon equipara a obstinação rústica de Eben à madeira rija e resistente do marmeleiro. Evidencia que, apesar do ódio ao patriarca, o filho mais novo reproduz a mesma inflexibilidade hereditária do pai.
❓ Comparação: "O rosto é duro, como se tivesse sido esculpido num seixo..."
Análise: A fisionomia de Cabot é comparada às rochas do solo da herdade. Materializa a petrificação da sua alma, a insensibilidade afetiva e a total imposição da aridez do meio sobre o seu caráter.
❓ Comparação: "As mãos parecem cascos!"
Análise: Peter compara as mãos calejadas dos homens da quinta aos cascos das bestas de carga. Ilustra a deformação anatómica provocada por décadas de trabalho agrícola e a perda da capacidade de afeto e toque humano.
❓ Comparação: "...viver como os lírios do campo"
Análise: Paródia sarcástica da passagem bíblica do Sermão da Montanha. Simeon utiliza a linguagem sagrada para declarar a greve e recusar o trabalho agrícola imposed pelo patriarca antes da partida para a Califórnia.

Análise da cena IV da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

a) Ação 

    A quarta cena abre no interior da cozinha, onde Eben medita carrancudamente diante do prato intacto, enquanto Simeon e Peter terminam a refeição e o provocam sobre a sua noitada com Min. O caçula revela estar dominado por uma premonição febril sobre o regresso iminente do pai. Subitamente, os dois irmãos mais velhos recusam-se a continuar o trabalho agrícola, declarando a sua intenção de viver como os lírios do campo. Tomado por uma excitação quase mística, Eben proclama que a quinta pertence de novo à sua falecida mãe e sai para o exterior, contemplando a propriedade com um desejo obsessivo de posse. No exterior, Simeon e Peter bebem uísque, acendem os cachimbos e observam a alvorada, avistando ao longe a carroça em que Ephraim Cabot regressa acompanhado pela nova noiva. Eben corre ansioso ao encontro dos irmãos para anunciar a chegada da velha mula e da noiva. Antes da chegada do pai, os dois mais velhos recolhem as trouxas e exigem o pagamento prometido; o mais jovem retira debaixo do soalho da cozinha, junto ao fogão, o saco de lona com as moedas de ouro de vinte dólares deixadas pela progenitora. Após a contagem cuidadosa dos seiscentos dólares e a assinatura da renúncia aos direitos da herdade, Eben guarda o documento como um troféu de restauração moral. 
    No portão da quinta, desenrola-se o confronto de despedida: Simeon arranca a cancela dos gonzos, declarando abolidos todos os portões e barreiras, enquanto Ephraim e Abbie Putnam chegam à propriedade. Ao verem a nova madrasta, acolhem a chegada com sarcasmo e escárnio, lançando provocações diretas ao progenitor, executando uma absurda dança de guerra ao redor do velho petrificado e atirando pedras que partem os vidros da janela da sala. Os dois irmãos partem jubilosos pela estrada fora, cantando a canção da Califórnia. 
    Entretanto, Abbie entra na cozinha e depara-se com Eben. A nova esposa observa o jovem com uma avaliação calculista da sua força e com uma atração física incontestável, tentando seduzi-lo sob o pretexto de quererem ser amigos e partilhando o seu passado de privações e servidão. O rapaz debate-se numa violenta luta interna entre o ódio visceral e a atração física irresistível, acabando por precipitar-se para fora da casa após Abbie afirmar o seu domínio absoluto sobre o lar e o quarto superior. No exterior, Ephraim invoca o Deus dos Exércitos para amaldiçoar os filhos, sendo desafiado por Eben num aceso combate verbal de acusações e blasfémias. A cena encerra com a partida de pai e filho em direção ao estábulo para o trabalho diário, enquanto a voz distante dos irmãos se apaga na estrada e Abbie começa triunfalmente a lavar a louça na sua nova cozinha.

b) Espaço 

O espaço físico articula-se entre o interior da cozinha — centrado na mesa de refeições, no fogão e no soalho que escondia o ouro — e o exterior imediato da casa, dominado pelo portão com o muro de pedra e pela estrada que conduz ao Oeste. No plano social, a quinta representa o microssistema agrário e patriarcal da Nova Inglaterra do século XIX, fundamentado na servidão familiar, no isolamento geográfico e na exploração do trabalho. No plano psicológico, o espaço transforma-se num território de conquista e profanação. A cozinha, antigo santuário da mãe de Eben, converte-se no palco onde Abbie afirma a sua soberania e onde a tensão erótica entre madrasta e enteado é selada. O portão de pedra deixa de ser uma mera divisória de propriedade para encarnar a barreira da escravidão; o seu desmantelamento físico por Simeon simboliza o romper da prisão doméstica, abrindo passagem para a estrada como espaço psicológico de utopia, evasão e liberdade.

c) Tempo (da Ação, do Discurso, Histórico e Psicológico) O tempo da ação decorre durante o nascer do sol e o início da manhã, marcando a transição da luz cinzenta da alvorada para a luminosidade plena do dia. O tempo do discurso é extremamente dinâmico e polifónico, alternando entre a celebração ruidosa e carnavalesca dos irmãos mais velhos, o ritmo pausado, denso e sedutor do diálogo entre Abbie e Eben na cozinha, e a violência verbal cortante da disputa final exterior. No plano histórico, a ação fixa-se rigorosamente no ano de 1850, em plena febre do ouro na Califórnia, ambiente evocado pela canção popular e pela ilusão de enriquecimento rápido. No plano psicológico, o tempo adquire uma dupla dimensão: para Simeon e Peter, o tempo estagnado de décadas de servidão explode numa vertigem de libertação onde o futuro é conquistado em instantes; para Eben e Abbie, o tempo condensa-se num presente suspenso e ameaçador, onde o passado de trauma e a urgência do desejo futuro se chocam inevitavelmente.

d) Caracterização Aprofundada (Física, Psicológica e Social) das Personagens Eben Cabot surge como um jovem de 25 anos dotado de uma beleza rústica e de uma força física notável, mas profundamente dividido no seu foro íntimo. Psicologicamente, é dominado por uma obsessão patrimonial e por uma devoção quase religiosa à memória da mãe falecida, acreditando ter cumprido a sua missão ao recuperar o ouro e os papéis da quinta. Contudo, ao ser confrontado com Abbie, revela a sua extrema vulnerabilidade, lutando desesperadamente entre a repulsa moral pela usurpadora e uma atração erótica incontrolável. Socialmente, passa de servo explorado a suposto proprietário legítimo da herdade. Abbie Putnam, com 35 anos, é caracterizada por um ar alegre, cara cheia e bonita, impregnada de uma sensualidade vigorosa e um olhar determinado e duro. Tendo sofrido um passado miserável de orfandade, servidão e perdas pessoais, é movida por um instinto de sobrevivência e por uma necessidade visceral de possuir um lar. Revela-se calculista, sedutora e dominadora, consciente do seu poder sobre o velho Ephraim e capaz de reconhecer em Eben uma alma gémea em termos de energia e obstinação. Ephraim Cabot, aos 75 anos, mantém um corpo alto, seco e de costas curvadas pelo trabalho contínuo, apresentando um rosto duro como xisto e olhos miopes. Representa a rigidez do patriarca puritano, cuja autoridade se fundamenta numa teologia severa e num orgulho inflexível; apesar de traído pela debandada dos filhos e ridicularizado, tenta manter a postura de tirano inabalável. Simeon e Peter, libertados da sujeição agrícola, encarnam a transformação do embrutecimento animal na euforia infantil da alforria, entregando-se a um comportamento subversivo, sarcástico e festivo antes da partida definitiva.

e) Linguagem e Enumeração das Figuras de Estilo A linguagem da cena é caracterizada por um registo coloquial e rústico, rico em termos do vocabulário agrícola, interjeições de desafio e celebração, expressões de tom bíblico e imprecações inflamadas. A oralidade é intensificada pela presença de cânticos populares e por diálogos rápidos e sobrepostos. Enumeram-se, exclusivamente, as seguintes figuras de estilo presentes na cena:

Metáfora

Comparação

Personificação (Prosopopeia)

Antítese

Hipérbole

Animalização (Zoomorfismo)

Ironia (e Sarcasmo)

Metonímia

Gradação

Apóstrofe (e Imprecação)

f) Características da Tragédia Clássica Grega A quarta cena acolhe elementos estruturantes do drama trágico clássico. A húbris (insolência e desmedida) manifesta-se tanto no fanatismo religioso e orgulho cego de Ephraim, como no desejo possessivo e absoluto de Abbie e Eben pela conquista da casa. A anagnórise e a peripécia ocorrem com a chegada da nova esposa e a partida dos irmãos, alterando radicalmente a estrutura de poder da quinta. A atração imediata e perturbadora entre Eben e a sua madrasta reencarna o mito trágico de Fedra e Hipólito, insinuando a inevitabilidade de um incesto trágico imposto pelo Fado (Moira). A maldição paterna lançada ao céu por Ephraim retoma a tradição das pragas familiares e das teias de culpa hereditária. Além disso, o comportamento ritualístico de Simeon e Peter ao arrancarem o portão, executarem uma dança de guerra e partirem os vidros mimetiza um ato de profanação e rutura com a ordem sagrada do lar doméstico.

g) Elementos Simbólicos Os elementos cénicos e materiais da quarta cena possuem uma elevada carga simbólica. O portão e a cancela de pedra representam a opressão, a demarcação da propriedade e a escravidão secular dos filhos; o ato de arrancar a cancela dos gonzos e levá-la sob o braço simboliza a destruição física das cadeias do patriarcado e a conquista da liberdade. As moedas de ouro de vinte dólares, retiradas do esconderijo sob o soalho junto ao fogão, simbolizam o sangue e a herança espiritual da mãe falecida de Eben, funcionando como a moeda de alforria dos irmãos e o instrumento de reparação histórica. A janela da sala quebrada pelas pedras representa a destruição da fachada de respeitabilidade e puritanismo da casa. A cozinha e o fogão funcionam como o centro sagrado da memória materna, que é profanado e tomado por Abbie quando esta começa a lavar a sua louça. Finalmente, a canção da Califórnia atua como o hino de evasão e símbolo da promessa dionisíaca de utopia e prosperidade no Oeste.

h) Análise Ideológica da Cena Sob a perspetiva ideológica, a cena apresenta uma crítica devastadora ao materialismo possessivo e à falência moral da sociedade puritana e patriarcal. O'Neill expõe como a obsessão pela propriedade privada e pelo domínio da terra reduz todas as relações humanas a meros vínculos de troca, exploração e poder. A retórica religiosa de Ephraim Cabot é desmascarada como uma ideologia de auto-justificação que utiliza o nome de Deus para sancionar a tirania doméstica, a ganância e a opressão dos filhos. Paralelamente, o relato autobiográfico de Abbie introduz uma contundente crítica social à condição da mulher no século XIX, mostrando que a sua conduta implacável resulta da miséria, da exploração do trabalho feminino e da urgência de obter a posse de um lar para garantir a sobrevivência. Por fim, a partida de Simeon e Peter para a Califórnia estabelece o contraste entre o Feudalismo Agrário sufocante da Nova Inglaterra e o Mito da Fronteira do Capitalismo nascente, onde a busca do ouro surge como a única via de libertação individual face ao jugo da autoridade paterna. 

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