Esta
cantiga de maestria, da autoria de João Baveca, composta por três sétimas de
versos decassílabos e rima emparelhada e interpolada, de acordo com o esquema
ABBACCA, aborda o tema da sodomia, associado a mouros. De facto, nela, dirigida
provavelmente ao sodomita Bernal de Bonaval (o segrel cuja vida particular deu
origem a várias sátiras por parte dos seus colegas trovadores), o autor brinca
com os termos de guerra, relacionando-os com a lida sexual entre Bernal e os
mouros que, no final, "morrerán enx vosso poder".
No
contexto da poesia trovadoresca, são cerca de 30 as cantigas que tratam da
sodomia entre homens, a maioria produzida entre 1240 e 1350, o que coincide com
o reinado de um dos grandes trovadores-mecenas daquele período (Afonso X) e com
o acolhimento das cantigas provençais por parte de D. Afonso III, bem como com
um ambiente de riso e festa — cuja principal manifestação é o Carnaval — que
atravessa todo o tempo que vai de fins do século XII até meados do XIV. De
acordo com a professora Graça Videira Lopes, a sodomia pode ser dividida em
grupos de visados: altos funcionários, mouros, personagens vários e trovadores
e jograis. Normalmente, usa-se o termo "sodomita" em vez de
homossexual (séc. XIX) ou homoerótico (séc. XX) para designar estas práticas
sexuais, porque é a palavra conhecida na época e registada em Las Siete
Partidas, de Afonso X: "Sodomitico dizen al pecado en que caen los omes
yaziendo unos con otros contra natura e costubre natural. E porque de tal
pecado nacen muchos males en la tierra, do se faze, e es cosa q pesa mucho a
Dios comel." Convém notar que a sodomia implicava um "deseo puramente
anatomico", uma "transgressión de ordem físico", um
"sujeito jurídico" que só a partir do século XIX passa a ser
"uma personagem: um passado, uma história, uma infância, um caráter, uma
forma de vida".
Novamente
segundo a professora Graça Videira Lopes, "muitos destes temas
erótico-satíricos vão, aliás, desaparecer completamente da literatura
'oficial', pelo menos até ao séc. XIX, o que torna ainda mais notável este
conjunto de poemas medievais. O caso da homossexualidade masculina é, nesta
matéria, sintomático. Se [...] não encontramos nenhuma referência
autobiográfica, sendo mesmo, em geral, a atitude condenatória, de notar-se, que
esta condenação se processa, nos Cancioneiros, com uma boa dose de humor [...].
A homossexualidade não nos surge assim aqui como aquele «crime nefando»
passível de pena de morte, que vemos referido nos documentos oficiais da igreja
e mesmo das instituições civis."
A
maioria das cantigas satíricas sobre sodomitas está ligada ao funcionalismo da
corte (21 cantigas), sendo aqueles "acusados" de manterem relações
com subordinados, de se obstinarem sexualmente, de inverterem os papéis (de
passivo para ativo), de serem cruéis nas relações, de agirem com hipocrisia, de
desejarem casar-se com homens ou de contraírem doenças. Cada um destes motivos
encerraria uma sátira ao desempenho e não à natureza da sexualidade. Convém
notar que, apenas nos séculos XII e XIII, se olha para a homossexualidade como
fenómeno contrário à natureza. Em contraste com certa gravidade e melancolia de
cantigas sobre traições de vassalos, sobre a avareza e sobre o mundo às
avessas, à maneira de sirventeses morais, nas cantigas sobre sodomitas predomina
o humor brincalhão e obsceno (tal como sucede nas cantigas dedicadas a
soldadeiras e clérigos), frequentemente equívoco (26 cantigas). Estas cantigas
exploram também as questões da moral privada, mostrando a que ponto os tabus
sexuais são violados, sem que se saiba o partido dos trovadores.
No
"incipit", encontramos um nome próprio (Bernal) e um apelido
(Fendudo), o qual, por meio da "interpretatio nominis", nos coloca no
campo da atividade homossexual, entendendo esse apelido como significando
"fendido", "fissurado". “Fendudo” faz referência a estar
separado em dois, facto que pode resultar das práticas sexuais que Bernal
realiza com outros homens. O sujeito poético parece querer aconselhar essa
figura sobre como agir perante o desejo de lhe darem armas e chama, "dona
selvage". Esta expressão deverá constituir uma alusão aos "cavaleiros
selvagens", personagens bravias e hirsutas, habituais nas novelas de
cavalaria, aqui usada para feminizar o visado pela cantiga. O conselho surge
nos quatro versos finais da cobla: Bernal Fendudo deverá resistir para se
defender num hipotético combate armado contra os mouros. Note-se que, na fase
mais profícua da poesia trovadoresca, grande parte dos textos assumem
ironicamente quer as formas do género judicial (simula-se a defesa), quer as do
género deliberativo (aconselham-se ou desaconselham-se enormidades), quer as
formas do género epidíctico (simula-se, geralmente, o louvor). No caso desta
cantiga, o autor usa o género deliberativo, pois é aconselhado a adotar um
determinado comportamento: sofrer os mouros, pois todos o atacarão
("sofiede-os, ca / todos vos ferran"), todos lhe baterão até se
cansarem e ele, então, vencê-los-á. Ora, subtilmente, o trovador está a
referir-se, sob a capa de uma grande capacidade de resistência aos ataques, a
uma desaforada capacidade sexual, isto é, sob a forma do equívoco - conselhos a
um combate com os mouros - o trovador alude aos alegados gostos homossexuais de
Bernal Fendudo.
Em
suma, a sátira ao sodomita inicia-se logo no verso inicial com a referência ao
apelido "Fendudo", que pode ser interpretado como uma referência
sexual, remetendo para a ideia de uma pessoa fendida ou aberta, o que indicia
que o visado desempenha o papel passivo na relação homoerótica. A sátira
prossegue com a referência ao facto de lhe quererem dar armas (símbolo
tradicional de poder e masculinidade, símbolo fálico) e, por isso, o chamarem
"dona", numa clara feminilização. A ideia de sofrer os mouros, que o
"ferram", pode ser lida como ser penetrado por todos os mouros,
reforçando-se, assim, a sua passividade nessas relações. Por seu turno, o
vocábulo "todos" indicia a intensa capacidade e atividade sexual de
Bernal. O cansaço dos atacantes ("cansaram"), sugere a intensidade da
atividade sexual, que deixa os "atacantes" num estado de quase
exaustão. O derradeiro verso da estrofe assenta na ironia e no duplo sentido do
verbo "vencer", que pode ser entendido como uma referência ao prazer
obtido por Bernal dessas relações sexuais: ao "sofrer", não perde,
mas "vence", transformando o ato numa fonte de prazer.
A
segunda estrofe remete novamente para um ambiente de combate ("E ali log',
u s' ha lide a volver"), que, num contexto homoerótico, pode ser
interpretado como uma metáfora para uma atividade sexual intensa. Nesse
contexto, o nome "lide" (luta) evocaria o esforço, a troca ou
confronto, sugerindo uma relação física carregada de tensão e intensidade. No
local da luta, vários mouros virão golpeá-lo ("colpar"). Ora, o ato
de golpear implica uma ação rigorosa e repetitiva que, num contexto
homossexual, aludirá ao ato sexual. Os versos 10 e 11 são bastante irónicos, ao
sugerir que, outros "inimigos" o "cometerão", isto é, o
penetrarão, por outro lado, ou seja, por detrás, numa clara alusão ao ato
sexual homossexual. Neste cenário, o trovador repete o conselho, no sentido de
Bernal suportar as investidas, venham elas de onde vierem — ataquem os mouros
por trás ou pela frente. Os dois versos finais da segunda estrofe repetem os
equivalentes da primeira, nomeadamente a ideia de que, se Bernal suportar/aguentar
os ataques dos inimigos, vencê-los-á pelo cansaço. Note-se a referência a
"bem fazer", característico da cantiga de amor, aqui claramente
carnalizado, porque associado às armas, metáfora do órgão sexual masculino:
"se vos deus em armas bem fazer, / ferindo em vós, hiam eles de
can.". Os inimigos, depois de o "ferirem" repetidamente (alusão
à penetração) sucumbirão ao cansaço e ao clímax e ele triunfará.
A
terceira estrofe retoma a ideia da intensidade e da frequência com que Bernal
pratica o ato sexual, quase uma atividade coletiva, tantos são os participantes
que o desejam (“Pero, com’há mui gram gente a seer”) e que o derrubarão “Muitas
vezes”, repetidamente. Porém, ele sempre irá recuperar forças, enquanto os “inimigos”
«ham mais a enfranquecer». Observe-se esta antítese, que sugere o frenesim sexual
em que o satirizado se envolve, incansável e sempre disponível e disposto para o
ato sexual, bem como a oposição entre o cansaço e o desgaste dos outros em
contraste com a sua vitalidade e o prazer contínuo. Metaforicamente, o trovador
afirma que Bernal continuará a relacionar-se sexualmente de forma repetida e
intensa: “Pero nom quedarán de vos ferir de todas partes”. A conjunção
coordenativa “Mais” introduz a nota dissonante que já encontrámos nas estrofes
anteriores: “Mais, ao fiir, todos morrerám em vosso poder”. “Fiir”, ou fim,
pode ser interpretado como o clímax dos atos sexuais descritos, e a alusão a
que “todos morrerám "em vosso poder" inverte por completo as reações
tradicionais de submissão e derrota. A "morte" pode ser interpretada
simbolicamente como o clímax sexual, em que Bernal, apesar de passivo ou
submisso durante o ato sexual, é quem sai vitorioso, pois os outros sucumbem ao
desejo e ao cansaço, enquanto ele permanece triunfante.
Em
suma, esta cantiga compreende uma sátira a um certo Bernal Fendudo
(provavelmente o trovador Bernal de Bonaval), que é satirizado pela
homossexualidade e relações sexuais com múltiplos homens, nas quais
desempenhava um papel passivo. A conselho do trovador, deve lutar contra os
muitos mouros e deixar-se atacar por todos os lados para os deixar exaustos e
moribundos. Ou seja, do princípio ao fim, estamos perante uma óbvia sátira
sexual, dirigida a uma figura masculina que é feminizada.
Por
outro lado, toda a composição poética está impregnada de um vocabulário
pertencente ao registo bélico e que pode ser interpretado com um segundo
sentido obsceno. Num primeiro momento, o trovador não deixa dúvidas sobre o
alcance da sua sátira ao afirmar que querem dar armas ao visado no verso 3, ou
seja, penetrar. Além disso, o escarnecido é apelidado "dona selvage",
alcunha que faz alusão à passividade da personagem no momento do coito. De
seguida, o trovador adverte-o de que estas práticas terão consequências, pois
será "ferido", mais, à base de "receber golpes", isto é, de
que será penetrado, todavia vencerá, por os adversários caírem vítimas do
cansaço produzido pelo culminar do ato sexual, da expulsão do sémen, que é o
que perdem. Na luta, entendida, de acordo com esta leitura, como um combate
sexual, no momento mais intenso da refrega ("u s'a lide a volver"),
uns tentarão "golpeá-lo" pela frente (v. 9) e outros por detrás
("alhur" - v. 11), ferindo-o metaforicamente (v. 12), mas os
adversários, ao penetrá-lo, perderão (vv. 13-14).
Durante
os encontros sexuais, Bernal será derrubado (v. 16), ou seja, será vítima do
cansaço sexual, porém será vencedor no final do ato homoerótico, pois, apesar
de sair ferido (entendido no sentido de ter sido penetrado – vv. 19-21), todos
os oponentes morrerão às suas mãos, já que ele sempre recupera, enquanto os
adversários enfraquecem ("mais sempre vos avedes a cobrar / e eles an mais
a enfraquecer" - vv. 17-18). Estes dois versos podem ser interpretados da seguinte
forma: os mouros ficam debilitados ao realizar o ato sexual, já que uma vez que
este se consuma, eles ejaculam, ficando sem forças, e é aqui que Bernal sai
vencedor, pois desempenhou um papel passivo durante o sexo e, além de receber o
sémen dos oponentes, não tem o mesmo desgaste físico que aqueles.