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domingo, 4 de agosto de 2024

O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie


 Capítulo I: Enquanto o Dr. Sheppard almoça

    A obra é narrada pelo Dr. James Sheppard, o médico da pequena vila inglesa de King's Abbot.
    A história começa com a apresentação de King's Abbot, um lugarejo onde todos se conhecem e os mexericos são o passatempo e a ocupação preferidos da maioria. O Dr. Sheppard é um dos habitantes e é uma figura bem integrada na comunidade que conhece bem os seus pacientes e vizinhos.
    Uma notícia abala a localidade: a morte de Mrs. Ferrars, uma viúva rica bem conhecida que tinha a reputação de ser reservada, sobretudo depois de ter perdido o marido há cerca de um ano. A sua morte é inicialmente atribuída a uma overdose de soníferos, mas logo surgem especulações sobre se se tratou de um acidente ou de um suicídio.
    A comunidade logo se enche de comentários e rumores, especialmente porque se diz à boca cheia que a mulher estaria num relacionamento com Roger Ackroyd, um dos homens mais influentes e ricos do lugar, graças aos seus negócios, proprietário de uma fábrica que vende rodas para comboios.
    O Dr. Sheppard é chamado para atestar a morte. Quando regressa a casa, tem de enfrentar a sua irmã Caroline, uma personagem curiosa que adora coscuvilhar a vida alheia. De facto, ela é a principal fonte de coscuvilhices na vila, graças essencialmente a uma rede de informantes que a mantém informada sobre tudo o que acontece. Assim, ela interroga o irmão de imediato sobre o que aconteceu e especula que Mrs. Ferrars estaria a ser chantageada por alguém que sabia que a mulher teria envenenado o próprio marido. Caroline acredita que a defunta estaria prestes a confessar o seu crime a Roger Ackroyd na noite que antecedeu a sua morte e que a pressão de ser descoberta levou-a ao suicídio.

Capítulo II: O anuário de King's Abbot

    O capítulo II começa por fazer uma apresentação genérica de King's Abbot, uma pequena localidade rural inglesa cuja principal ocupação são os mexericos. A população jovem sã parte para outras personagens na sua maioria; pelo contrário, a vila é procurada por solteirões e militares aposentados.
    O narrador, de seguida, apresenta Roger Ackroyd, um homem rico, com cerca de 50 anos, íntimo do padre, generoso nas doações à igreja, mas com fama de forreta nos gastos pessoais. Com cerca de 21 anos, apaixonara-se e casara com uma mulher cinco ou seis anos mais velha, chamada Paton. Tratava-se de uma viúva com um filho pequeno, Rudolph, que possuía um lado negro - era alcoólica - e que faleceu quatro anos após o casamento, vitimada pelo álcool. Depois da morte da esposa, Ackroyd criou o enteado como seu filho, no entanto, presentemente, parecia ter-se dedicado à malandragem. O doutor Sheppard dá conta também da proximidade que se foi estabelecendo entre Ackroyd e a Sr.ª Ferrars após a morte do marido desta, há pouco mais de um ano. Ao longo dos tempos, Roger teve várias governantas, pois serviam-no durante pouco tempo. A exceção é a última, que se encontra ao seu serviço há aproximadamente cinco anos, tendo-se criado entre ambos um clima que poderia redundar numa relação amorosa e quiçá em matrimónio, não fosse a chegada súbita de uma cunhada viúva de Roger Ackroyd, juntamente com o seu filho, diretamente do Canadá, que termina com as veleidades da governanta.
    Na véspera, o narrador vira Mrs. Ferrars a caminhar com Rudolph, quando o padrasto, segundo o Dr. Sheppard, o julgava em Londres. A finalizar o capítulo, Roger Ackroyd convida o médico para jantar essa noite em sua casa, pois tem algo para lhe contar.

Capítulo III: O cultivador de abóboras

    Na realidade, Rudolph tinha chegado na véspera a King's Abbot e instalado no hotel Três Javalis. Entretanto, tinha-se encontrado com a prima (na verdade, não existe qualquer grau de parentesco entre ambos, pois Rudolph não era filho de Roger Ackroyd, portanto não era da família), Flora Ackroyd, sua noiva secreta.
    Um forasteiro tinha arrendado a villa dos Lariços, a casa pegada à do Dr. Sheppard. Nessa tarde, o médico quase é atingido por uma abóbora lançada precisamente do jardim do lado. Esse forasteiro conhece Roger Ackroyd e sabe que o enteado deste está noivo da sobrinha do industrial, que tem conhecimento do facto e aprova a relação e o casamento. Aliás, o homem até terá feito pressão para que o matrimónio se concretize. Uma nota dissonante chega-nos pela boca do próprio Randolph: os seus negócios não correm bem e ele enfrenta dificuldades financeiras.

Capítulo IV: A villa Farnley

    O Dr. Sheppard vai jantar à villa Fernley, a residência de Roger Ackroyd. Pelo meio, encontra Flora Ackroyd, que anuncia para breve o seu casamento com Rudolph. Pouco depois, faz a sua aparição Mrs. Ackroyd, que é retratada como uma mulher antipática de olhos azuis duros e olhar frio e calculista. Segue-se a entrada de Roger Ackroyd e do seu amigo, o major Blunt, um notável viajante e caçador, alguns anos mais velho do que o dono da casa e de temperamento oposto.
    O jantar não é agradável, pois o anfitrião está preocupado e abatido e quase não come. Pouco depois, fica a sós com o médico, usando dores estomacais como desculpa para fazer sair o criado. O diálogo que ambos travam esclarece o motivo do convite para jantar. Roger Ackroyd declara que Mrs. Ferrars lhe confessou no dia anterior ter envenenado o próprio marido. No entanto, havia alguém que conhecia esse segredo e que a chantageou por isso, mas a mulher não revelou a sua identidade. Ao ver o impacto que a revelação teve em Roger, a mulher pediu-lhe que não fizesse nada, não contactasse as autoridades durante vinte e quatro horas. O anfitrião acrescenta que, após o falecimento do marido da defunta, foi despertando uma relação afetiva entre ambos, que levou Roger a pedi-la em casamento havia três meses, tendo ela recusado. Passado algum tempo, reiterou o pedido e, desta vez, foi aceite, porém os dois mantiveram segredo do facto.
    Seguidamente, o criado Parker entra na sala com o correio da tarde. No meio dos vários papéis, Roger avista um sobrescrito azul que o deixa petrificado, pois reconhece nele a letra de Mrs. Ferrars. O industrial abre-o e começa a ler a carta, onde a defunta promete revelar o nome da pessoa que a tem chantageado, contudo para a meio a leitura, afirmando que pretende ler o resto quando estiver sozinho, por isso repõe a missiva no sobescrito para concluir a leitura mais tarde. O médico ainda insiste que leia o que falta, mas Roger, bastante teimoso, não o faz. Pelas 21 horas, o Dr. Sheppard abandona a residência, apercebendo-se que Parker tinha estado a escutar a conversa entre ambos. À saía cruza-se com um desconhecido que procura o dono da casa.
    Às 22 horas e 15 minutos, quando se prepara para dormir, o Dr. Sheppard recebe um telefonema de Parker a anunciar que Roger Ackroyd acaba de ser assassinado.

Capítulo V: O crime

    O Dr. Sheppard desloca-se, de imediato, para a residência de Roger Ackroyd e é recebido por Parker, o criado, que, espantado, lhe diz que não foi ele quem telefonou ao médico e que tudo não deve passar de uma brincadeira, pois o patrão ainda está no escritório, portanto vivo. Os dois homens dirigem-se, então, para os aposentos do industrial, batem à porta repetidamente, porém não obtêm resposta. Tentam abri-la, todavia não conseguem, por isso espreitam pelo buraco da fechadura e verificam que aquela se encontra fechada por dentro. Arrombam-na e descobrem Roger Ackroyd sentado numa poltrona perto da chaminé, com punhal cravado nas costas. Ao observar o quarto, o médico constata que nada está remexido ou fora do lugar. A única coisa que, segundo o criado, falta é o sobescrito azul que continha a carta escrita por Mrs. Ferrars. Além disso, nada de valor foi levado, portanto não se tratou de um roubo. O criado revela que o secretário, Raymond, ouvir Roger a falar com alguém por volta das 21 horas e 30 minutos. A conversa versava dinheiro, nomeadamente pedidos de dinheiro feitos ao falecido, que declarara nessa conversa com pessoas desconhecida que não poderia continuar a satisfazer esses pedidos. Fica-se também a saber pelo mordomo que, nessa noite, ninguém entrou pela porta principal da villa, pelo que terá sido o próprio Roger a dar entrada ao assassino em sua casa. Parker acrescenta que Miss Flora, a sobrinha, viu o tio depois das nove e meia, isto é, após a conversa com o desconhecido. O inspetor interroga Flora, que confirma que foi a última pessoa a ver o tio, mas nada mais de significativo acrescenta sobre o caso.

Capítulo VI: O punhal

    O inspetor questiona o médico a propósito da extorsão e este narra-lhe tudo o que sabe, incluindo a questão da carta.
    Ao examinar o corpo, o Dr. Sheppard conclui que o punhal foi manobrado com a mão direita do assassino, que estava situado atrás de Roger Ackroyd, tendo a morte sido instantânea. Por outro lado, a expressão da vítima mostra surpresa. O inspetor aponta as suas baterias para Parker enquanto suspeito do crime. No cabo do punhal, são visíveis impressões digitais, desconhecendo-se a quem pertencem. O objeto tinha sido oferecido à vítima pelo major Blunt, que o trouxe de Marrocos, e estava guardado numa mesinha, concretamente aquela que o médico tinha ouvido abrir e fechar quando estivera previamente na residência. Depois de interrogarem a criadagem, recolhem as impressões digitais de Parker, do Dr. Sheppard e do major Blunt.
    De regresso a casa, o médico confidencia à irmã que a polícia considera Parker o suspeito número um do crime, mas Caroline considera que se trata de um disparate.

    Capítulo VII: A profissão do meu vizinho

    Na manhã seguinte, Flora pede ao Dr. Sheppard que a acompanhe à villa dos Lariços para pedir ao seu ocupante, Hercule Poirot, um detetive reformado há cerca de um ano, que investigue a morte do tio. A jovem justifica o pedido, alegando que o médico esteve na cena do crime, observou o tio, portanto conhece todos os pormenores acerca do assassinato. Por outro lado, tem conhecimento de que, nessa manhã, chegou à localidade o inspetor Raglan, de Crunchester, que suspeita que o assassino seja Rudolph, o filho adotivo de Roger, tendo-se já deslocado até o hotel onde se havia hospedado, no entanto o hóspede tinha desaparecido sem deixar rasto.
    Flora e o Dr. Shappard deslocam-se, pois, até à villa dos Lariços. Poirot, inicialmente, aconselha-a a confiar na polícia, porém acaba por aceitar a empreitada: investigar o caso. De seguida, o detetive e o médico deslocam-se até o posto da polícia local, onde são recebidos pelo inspetor Davis, pelo intendente - o coronel Melrose - e o inspetor Raglan. À exceção de Davis, os demais polícias recebem mal Poirot, por causa da inveja indisfarçável da fama que possui enquanto investigador com sucesso de diversos casos criminais. No entanto, a disposição muda um pouco após Poirot assegurar que todo o sucesso que resultar da sua investigação será creditado à polícia. Os agentes policiais contam então que as impressões digitais recolhidos não correspondem a nenhuma das pessoas testadas. De seguidas, deslocam-se até casa de Roger Ackroyd para verificar as pegadas detetadas na área exterior da casa e as comparar com dois pares de sapatos pertencentes a Rudolph. Por sua vez, Poirot analisa o gabinete onde foi cometido o crime e conclui que o morto deixou entrar o seu assassino pela janela do compartimento, pelo que seria alguém seu conhecido.
    Entretanto, fica a saber-se que o telefonema que o Dr. Sheppard recebeu na noite anterior a anunciar o crime foi feito às 22 e 15 da estação de King's Abbot, tendo o comboio direto para Liverpool partido às 22 e 23.

Capítulo VIII: O inspetor Ragglan sabe o que faz

    A polícia quer saber se alguém visitou Roger Ackroyd e Parker informa que, na quarta-feira, tinha vindo alguém representante de uma empresa de ditafones, pois a vítima queria adquirir um aparelho.
    Entretanto, chega Mr. Hammond, um advogado. Raglan considera que foi Rudolph quem cometeu o crime, visto que as pegadas encontradas em volta da casa correspondem às salas dos seus sapatos de borracha, embora também sejam visíveis marcas de sapatos femininos. Além disso, a porteira, Mary Black, afirma ter visto passar Rudolph, quinze minutos depois, terá ouvido alguém no escritório a pedir dinheiro a Roger Ackroyd, que nega o pedido. De seguida, terá saído pela janela, entrado pela janela aberta da sala às 21 e 5, apoderado do punhal que estava na mesinha da sala, voltado ao escritório e cometido o crime. Depois, terá trepado o peitoril e fugido. No regresso ao hotel, terá ido pela estação de caminho de ferro e feito o famoso telefonema a anunciar o crime.
    Quanto às outras personagens, à hora do crime, o major Blunt estava na sala de bilhar com Mr. Raymond; Mrs. Ackroyd, às 21 e 45, assistia à partida de bilhar e, dez minutos depois, foi dormir; Flora Ackroyd subiu do escritório do tio diretamente para o quarto; Parker foi para a despensa às 21 e 47, o que é confirmado pela governanta, Mrs. Russel, a governanta, que, por sua vez, falou com a criada Elsa Dale às 21 e 45, a qual se encontrava no andar superior, onde foi vista pela primeira e Flora; a criada Ursula Bourne ficou no seu quarto até às 21 e 5 e depois encaminhou-se para as dependências de serviços; Emma Cooper, a cozinheira, esteve sempre nas dependências de serviços, tal como outra criada, Mary Tripp. A cozinheira está ao serviço de Roger Ackroyd há seis anos, a primeira criada há dezoito meses, Parker há pouco mais de um ano e os demais há pouco tempo.
    Poirot e o Dr. Sheppard caminham pelo local. O detetive mostra ao companheiro um pedaço de tecido e, pouco depois, apanha do chão um tubo de uma pena de pato.

Capítulo IX: O lado dos peixes dourados

    Poirot e o médico passeiam pela propriedade de Roger Ackroyd. Em determinado ponto da passeata, avistam uma jovem alegre e bem-disposta: Flora. Pouco depois, surge o major Blunt e os dois conversam: a rapariga fala com ele de forma zombeteira, mas, quando o ex-militar lhe anuncia que tenciona regressar em breve a África, perde o ar feliz e trocista. Gera-se um silêncio entre ambos e, para o quebrar, Flora manifesta a sua preocupação pelo facto de o suspeito principal do assassinato do tio ser o seu noivo e ter desaparecido. O major procura tranquilizá-la, dizendo-lhe que tal suposição é absurda. De seguida, a jovem informa-o que de Roger lhe deixou vinte mil libras de herança, o que lhe garantirá a liberdade de que nunca dispôs até ao presente e a desobriga da necessidade de um casamento forçado e por interesse, acrescenta Blunt. Subitamente, este corta o fio da conversa, porque lhe parece ter avistado algo no fundo do lago de que estão próximos. De imediato, Poirot sai do seu esconderijo e dirige-se ao par, questionando o major sobre a última vez que esteve com Roger Ackroyd. Blunt responde que o último encontro entre ambos ocorreu ao jantar, mas acrescenta que o ouviu a falar mais tarde com alguém enquanto passeava no exterior e que, pouco depois, viu passar entre os arbustos um vulto branco. Acrescenta ainda que é possível que a pessoa com quem a vítima conversava era Raymond, pois tinha-os ouvido combinar um encontro por causa de uns papéis, mas clarifica que ouviu apenas a voz de Roger. De seguida, o detetive pergunta a Flora se, no dia anterior, tinha visto o punhal dentro da mesinha onde era habitual estar guardado e ela responde negativamente. Então, Poirot enfia a mão dentro do lado para apanhar o objeto que o major vislumbrara, mas, quando retira a mão, esta vem vazia. De seguida, Flora convida-os para almoçarem na villa.
    Quando o detetive e o médico ficam sós, o detetive belga mostra-lhe uma aliança de mulher com a seguinte inscrição no seu interior: R - 13 de março. Sorrateiramente, quando retirara a mão da água, tinha trocado o objeto para o outro, de modo que Flora e o major não se apercebessem de que tinha encontrado algo.

Capítulo X: A criada

    No vestíbulo, encontram Mrs. Acroyd e Mr. Hammond, o seu advogado. A cunhada do falecido afirma que não se tratou de um crime, mas, sim, de um mero acidente, pois Roger Ackroyd era bastante desastrado com os objetos, portanto, ao manejar o punhal, deverá ter-lhe escorregado da mão e cravado no corpo. O advogado pronuncia-se sobre Rudolph, dizendo que era um dissipador de dinheiro e que o pedia constantemente ao padrinho, Roger. Interrogado por Poirot acerca de como obteve essas informações, o advogado responde que foi Mrs. Ackroyd quem o informou acidentalmente. O detetiva questiona-o também acerca das disposições do testamento: Roger deixou mil libras para a governanta, 50 para a cozinheira, 500 para Raymond e vários donativos a hospitais. Além disso, Mrs. Ackroyd ficará com o ususfruto de dez mil libras em ações enquanto for viva; Flora receberá a quantia de 25 mil libras e o remanescente, incluindo a propriedade e as ações da firma Ackroyd & Filho, será para o filho adotivo e sobrinho, Rudolph Paton.
    Novamente a sós, Poirot faz um estranho pedido ao Dr. Sheppard: o médico deverá perguntar-lhe, quando estiverem de novo juntos, se o major Blunt se encontrava em King's Abbot quando o marido de Mrs. Ferrars faleceu, e observar a reação do homem nesse instante. Quando questionado, o major responde que tinha ido visitar a mulher na terça-feira anterior e que a considerara fascinante, bela, mas misteriosa, sendo muito difícil adivinhar o que ela estaria a pensar. Acrescenta que conhecia os Ferrars desde o tempo em que o casal se instalara naquele local, coincidente com a época em que ele, Blunt, estivera ali pela última vez. O major, falando sobre si, afirma que perdera bastante dinheiro obtido por meio de herança na bolsa, todavia possui ainda o suficiente para viver desafogadamente. Por sua vez, Mrs. Ackroyd manifesta o seu descontentamento pelo facto de o cunhado ter deixado 25 mil libras a Flora em vez de a si.
    Continuando-se a falar em dinheiro, a propósito do pagamento das despesas da casa, Raymond confirma que Roger tinha levantado, na manhã do dia anterior, 100 libras para pagar salários e outros encargos financeiros. De imediato, encaminham-se todos para o escritório para verificar se o dinheiro se encontra aí. Quando abrem a bolsa onde o defunto tinha guardado a quantia, constatam que faltam quarenta libras. Poirot questiona se o pessoal da casa é de confiança e asseveram-lhe que sim. No entanto, dá-se o caso de uma criada, Elsa Dale, se ter despedido no dia anterior. A governanta, quando questionada, afirma nada saber sobre esse assunto, acrescentando que se devem estar a referir a Ursula Bourne, que foi despedida por ter mexido e desarrumado uns papéis de Roger Ackroyd. A própria criada confirma o seu despedimento por ter alterado a ordem dos papéis que o patrão tinha sobre a secretária quando efetuou a limpeza do local. Inquirida sobre se esteve no local onde foi guardado o dinheiro, mostra-se perturbada, embora afirme que não sabe nada sobre a pecúnia. Acerca do despedimento, declara que ocorreu na tarde do dia anterior e que demorou entre vinte minutos a meia hora. De seguida, vão falar com Elsa Dale, uma rapariga loura, algo apatetada, que se mostra aflita quando lhe mencionam o desaparecimento do dinheiro.
    Mais tarde, Poirot pergunta ao clínico o que pensa de Ursula Bourne e acrescenta que lhe parece estar na presença de uma criada demasiadamente bem educada, que fala corretamente inglês e aparenta uma elegância e um aspeto físico assinaláveis, o que significa que a considera alguém que deveria possuir uma posição bem distinta de uma mera criada. Poirot acrescenta que Ursula é a única criada cujo alibi não foi confirmado.
    O detetive convida o médico a visitar Marby, no dia seguinte, domingo, e falar com Ada Folliot acerca de Ursula, pois esta teria trabalhado anteriormente na sua casa.

Capítulo XI: Uma visita de Poirot

    Cumprindo o pedido de Poirot, o médico fala com a Sr.ª Folliot, mas estas mostra-se hostil e reticente em responder às perguntas que aquele lhe dirige, por isso nada de relevante se fica a saber sobre a criada Ursula.
    De regresso a casa, fica a saber pela irmã que Poirot esteve em sua casa e lhe falou de um príncipe da Mauritânia que casara com uma bailarina, que supostamente estaria a fugir de assassinos bolcheviques. Além disso, trocaram impressões sobre o assassinato de Roger Ackroyd, tendo-a o detetive questionado a propósito de doentes do irmão. Ela enumera os que o consultaram no dia do crime e, dentre a lista, focam-se sobretudo em Mrs. Russel, na qual o protagonista vislumbra algo equívoco.

Capítulo XII: Uma reunião íntima

    Na segunda-feira seguinte, realizou-se o inquérito público. O inspetor Raglan continua a suspeitar de Rudolph, que parece ter parece ter-se evaporado da face da Terra, pois ninguém o consegue encontrar sem sítio nenhum. No que diz respeito às impressões digitais presentes no punhal, o detetive belga desvaloriza-as, dizendo que até podem pertencer ao próprio Roger, ou seja, é possível que o assassino, consumado o crime, tenha limpado o cabo da arma e, de seguida, impresso os dedos da vítima no mesmo. Para sustentar a sua ideia, acrescenta que essas mesmas impressões mostram que quem empunhou a adaga o fez como quem pega num talher e não como quem pretende cravá-lo nas costas de alguém.
    Pouco depois, reunem-se na alsa de jantar da villa Fernley Poirot, Mrs. Ackroyd, Flora, o major Blunt, Raymond e o Dr. Sheppard. O detetive solicita aos presentes que lhe indiquem onde se encontra o capitão Paton, mas recebe como resposta apenas silêncio. Flora diz que, no dia seguinte, anunciará publicamente o seu casamento. O capítulo termina com a acusação de Poirot de que todos lhe estão a esconder algo.

Capítulo XIII: A pena de pato

    Nessa noite, após o jantar, o médico desloca-se à residência do detetive, correspondendo ao seu convite, e os dois conservam sobre a misteriosa personagem que o Dr. Sheppard vira na noite do crime. Poirot informa-o de que esse homem pediu informações sobre o caminho a seguir para a villa Fernley a uma criada, Mrs. Ganett, o que significa que desconhecia a área e, por outro lado, não procurava ocultar a sua figura nem a sua visita. Acrescenta que o indivíduo esteve hospedado no hotel Três Javalis, que possuía sotaque norte-americano e que afirmava ter chegado dos Estados Unidos.
    Poirot puxa da pena de pato e, subitamente, o médico recorda que os cocainómanosse serviam usualmente de uma pena de pato para cheirarem cocaína, algo comum nos EUA e no Canadá. Outra questão prende-se com a pessoa com quem o desconhecido se terá vindo encontrar. Convém não esquecer que Mrs. Ackroyd e Flora vieram precisamente do Canadá antes de se instalarem em King's Abbot. Além disso, há o pormenor do tempo referente ao despedimento da criada: meia hora é um período excesso para proceder a uma dispensa. Por outro lado, Poirot considera que a razão apontada para o despedimento - a arrunação de uns papéis importantes - é pouco verosímil. Relativamente à pessoa que estaria a extorquir Mrs. Ferrars, é possível tratar-se de Rudolph, já que, de acordo com o advogado Hammond, havia algum tempo que não recorria aos pedidos de dinheiro a Roger Ackroyd, o que indicia que teria outra fonte de angariação monetária. No entanto, Poirot não acredita na sua culpabilidade.

Capítulo XIV: Mrs. Ackroyd

    Mrs. Ackroyd solicita a presença do Dr. Sheppard a pretexto de se encontrar doente, na sequência da conversa do dia anterior com o investigador belga. A velha senhora conta que, na sexta-feira, à tarde, fora ao escritório de Roger e dera por si a procurar o testamento do dono da casa, mas acabara surpreendida pela criada Ursula Bourne. Pouco depois, aparecera Roger e ela abandonara o espaço, deixando patrão e empregada a sós, Na sequência, Mrs.Ackroyd comenta com o clínico que a criada possui algo que a distingue das demais (por exemplo, é muito instruída), e confessa que foi ela quem deixou a mesinha da sala aberta,que abrira para retirar uma peça de prata que pretendia levar a um leilão em Londres. Porém, ao aperceber-sedo ruído de passos no terraço, precipitou-se a sair dali, deixando o móvel aberto. Em suma, estas confissão da mulher comprovam que o estratagema de Poirot (acusar várias personagens de estar a ocultar algo) começa a resultar.

Capítulo XV: Godofred Raymond

    Raymond procura Poirot para lhe confessar que possuía dívidas, por isso a herança de 500 libras recebida de Roger o tinha tirado de apertos financeiros.
    O detetive revela desconfiar que o extorsionista seja Parker, mas foi ele quem assassinou Ackroyd, porém provavelmente será o responsável pelo desaparecimento da carta de Mrs. Ferrars.
    De seguida, desloca-se até à villa Fernley, para falar com Flora e, a seu pedido, recriam uma cena ocorrida na noite do crime e que envolvia Parker e a jovem.

Capítulo XVI: Uma partida em família

    Nessa noite, um casal amigo junta-se ao Dr. Sheppard e a Caroline para jogarem Mah Jong. Inevitavelmente, enquanto jogam, conversam sobre o assassinato de Roger Ackroyd, trocando diversas informações: a criada da villa Fernly que foi despedida chora muito à noite; os talentos de Poirot; o local onde poderá estar Rudolph (talvez em Cranchester, de onde viram regressar o detetive de automóvel).

Capítulo XVII: Parker

    No dia seguinte, têm lugar as exéquias de Mrs. Ferrars e Mr. Ackroyd. Enquanto isso, Poirot confessa ao Dr. Sheppard que tem de interrogar e infundir terror em Parker.
    Já na villa dos Lariços, o detetive diz-lhe que é uma extorsionista, pois a última pessoa para quem tinha trabalhado, o major Ellerby, havia estado envolvido no assassinato de um homem nas Bermudas. O criado estava ao corrente do envolvimento do seu patrão, que se vira forçado a pagar o seu silêncio. Parker confirma as palavras de Poirot, mas jura nada ter a ver com o assassinato de Roger Ackroyd. De seguida, explica que, quando o defunto se reunira com o Dr. Sheppard, lhe chegara aos ouvidos a palavra «extorsão», por isso tinha escutado à porta do escritório na esperança de ficara  saber algo que lhe rendesse proveitos em termos financeiros, isto é, que lhe permitisse extorquir alguém, provavelmente o próprio patrão atual.
    A seguir, vão visitar o advogado Hammond, que revela que Mrs. Ferrars gastou, no último ano, 20 000 libras, sendo que a herança que o major Blunt proclama ter recebido equivale sensivelmente a essa quantia, o que o torna suspeito de chantagear a velha senhora.
    Poirot explica, então, a sua teoria: um homem comum, sem ideias criminosas, mas com algum defeito moral, vê-se certo dia em dificuldades económicas. Nesse ponto, fica a conhecer o segredo de alguém e acaba por, necessitado de dinheiro, chantagear essa pessoa. A passagem do tempo faz crescer a avidez por pecúnia e, inebriado, quer mais e mais, até ultrapassar os limites. Receando o escândalo de se ficar a saber do seu crime, caso a vítima se canse de ser explorada e ameace expô-lo publicamente, mata-a. O telefone toca em casa do Dr. Sheppard: a polícia prendeu um indivíduo em Liverpool, chamado Charles Kent,que se crê ser o desconhecido que foi avistado em Fernly na sexta-feita à noite, e quer o médico na cidade para o identificar.

Capítulo XVIII: Charles Kent

    Meia hora depois, Poirot, o inspetor Raglan e o Dr. Sheppard apanham o comboio para Liverpool. De acordo com o inspetor, o indivíduo é um cadastrado e consumidor de estupefacientes. Além disso, confirma que o detetive está certo relativamente às impressões digitais encontradas no punhal: efetivamente, pertencem a Roger Ackroyd.
    Charles Kent tem cerca de 22 ou 23 anos. O médico, ao escutar a sua voz, confirma que se trata da pessoa que efetivamente encontrou perto do portão da villa Fernly.O detetive confronta-o com a pena de pato encontrada no quiosque do jardim, que lhe pertencia e que ele perdeu no dia em que se deslocou até à propriedade. O rapaz indaga sobre o motivo da sua prisão e, ao ser esclarecido, afirma-se inocente, pois à hora en que se deu o crime, entre as 21 e 45 e as 22 horas, encontrava-se na taverna Coroa Larga,que dista cerca de dois quilómetros de Fernly.Questionado sobre a razão da sua presença na villa, responde que se foi encontrar com alguém, mas não o identifica.

Capítulo XIX: Flora Ackroyd

    Na manhã seguinte, o inspetor Raglan encontra o D. Sheppard quando este regressa das suas consultas e informa-o de que o alibi de Charles Kent foi confirmado por uma criada da Coroa Larga, chamada Salvina Jones,que estabelece que eram precisamente 21 horas e 45 minutos quando o suspeito entrou na taberna, acrescentando que estava bem provido de dinheiro.
    O ponto de paragem seguinte é a villa dos Lariços, onde Poirot toma conhecimento das novidades. A encenação promovida pelo detetive teve como finalidade provar que Parker viu Flora no exterior do escritório do tio. De facto, ele viu-a com a mão na maçaneta da porta e não no interior do cómodo. Provavelmente, a rapariga não estava a sair de dentro do escritório, mas da escada, proveniente do quarto do tio, ao qual se terá deslocado para lhe roubar dinheiro que nele houvesse, em virtude das dificuldades que passava, juntamente com a mãe. Assim, em desespero, terá entrado no quarto de Mr. Ackroyd, descido as escadas e, surpreendida pelo tilintar de copos no vestíbulo (era Parker dirigindo-se ao escritório), precipita-se para a sua porta, agarra a maçaneta e finge que vem a sair do compartimento, exatamente no momento em que o criado surge na soleira do corredor. De seguida, diz o que lhe ocorre à cabeça e sobe para o seu quarto. Posteriormente, quando toma conhecimento de que houve um furto e que a polícia chegou para investigar, Flora conclui que o descobriram o seu roubo e decide sustentar a história que engendrou para proteger o seu crime.
    De seguida, na villa Fernly, entrevistam a jovem, na sala de bilhar. Ela está acompanhada do major Blunt e o inspetor Raglan narra-lhe as deduções de Poirot: Flora não entrou no escritório do tio, pelo que não pode ter visto o tio para lhe desejar boa noite. Quando ouviu Parker a atravessar o vestíbulo, encontrava-se na escada que conduzia ao quarto do tio.
    Flora, confrontada desta forma, confirma o seu furto e mostra-se aliviada por ter sido descoberta. O major intervém, dizendo que o dinheiro em questão lhe tinha sido dado por Roger para deterninado fim e que a rapariga nunca lhe mexeu, tendo inventado aquela mentira para proteger o namorado, o capitão Paton. Na verdade, o major está apenas a tentar defender Flora por amor. Poirot diz-lhe que sabe que ele está apaixonado pela jovem e que lhe deve manifestar os seus sentimentos, pois ela não está enamorada de Rudolph Paton, tendo-o aceitado unicamente para agradar ao tio e para, através do casamentio, abandonar uma situação insustentável.

Capítulo XX: Mrs. Russel

    Poirot marca um encontro com Mrs. Russel no consultório do Dr. Sheppard. Num breve diálogo que trava com o médico, observa que esteve atento à sua fisionomia aquando da revelação da autoria do furto, acrescentando que notou que Sheppard não ficou surpreendido com a novidade, ao contrário do inspetor. De seguida, dá nota da publicação, no dia seguinte, de uma notícia que rezaria o seguinte: "Há dias que a polícia procura o capitão Paton, residente na villa Fernly, em King's Abbot, sobrinho de Mr. Ackroyd, morto, como se sabe, na sexta-feira,em trágicas circunstâncias. O capitão foi visto em Liverpool, onde estava para embarcar com destino à América.". O detetive não clarifica o que espera alcançar com a publicção de semelhante notícia falsa.
    O detetive observa a paixão que o médico possui pela mecânica, quando a governanta chega. Poirot começapor a informar que prenderam Charles Kent em Liverpool, mas a mulher fica impassível perante a informação. O detetive acrescenta que Roger Ackroyd foi assassinado entre as 20 e 50, quando o Dr. Shppard o deixou, e as 21 e 45, o que causa nervosismo e palidez em Mrs. Russel. Declara ainda que Kent é o indivíduo que procuram, visto que esteve em Fernly na altura do assassinato e não apresenta qualquer justificação para a sua presença. A governanta, em pânico, declara que o rapaz se foi encontrar com ela no quiosque, onde lhe deixou previamente uma nota escrita a avisá-lo da hora do encontro: 21 e 10. No regresso do quiosque, encontrou o médico. Poirot, para maior surpresa da governanta, diz-lhe que ela é mãe de Charles Kent e a mulher confirma. Quando o deu à luz, era solteira, por isso deu-lhe o nome da província em que nasceu. Mrs. Russel acrescenta outros dados ao pronunciamento do detetive, nomeadamente que nunca lhe disse que era mãe dele e que o filho cresceu vicioso e mau, tendo-se entregado ao álcool e à toxicodependência, apesar de ter feito tudo o que pôde pelo rapaz, inclusivamente enviá-lo para o Canadá. Durante cerca de dois anos, não teve qualquer notícia de Charles, que, entretanto, descobriu onde a mãe se encontrava a trabalhar e escrever-lhe a pedir dinheiro. Posteriormente, a mulher deslocara-se a casa do Dr. Sheppard para saber se era possível fazer algo pelo filho, nomeadamente no que dizia respeito aos seus vícios. Mãe e filho encontram-se: ele tratou-a muito mal, tendo recorrido inclusive ao insulto, e levou todo o dinheiro que ela possuía. Por último, estabelece que a partida do rapaz terá ocorrido entre as 21 e 20 e as 21 e 25. Deste modo, o invidíduo que, pelas 21 e 30, foi ouvido a dialogar com Roger Ackroyd não poderia ser Charles Kent.

Capítulo XXI: A notícia do jornal

    No dia seguinte, o jornal local publica a notícia inspirada por Poirot. Caroline observa que chegou alguém à residência do detetive. Por seu turno, este comunica ao Dr. Sheppard que, nessa noite, pelas 21 horas, terá lugar uma pequena reunião em sua casa, onde deseja que marquem presença o próprio médico, Mrs. Ackroyd, Flora, o major Blunt e Mr. Raymond.
    Entretanto, fica a saber-se pela mãe que Flora Ackroyd estánoiva de Hector Blunt. Além disso, a velha senhora dá nota de que a polícia de Liverpool, quando contactada por Raymond, desmentiu a prisão de Rudolph.
    Ursula Bourne desloca-se a casa do médico para falar com Poirot. Quando entram na sala onde ela os espera, o detetive diz que estão na presença de Ursula Paton, a legítima esposa de Rudolph Paton.

Capítulo XXII: As vicissitudes de Ursula

    Ursula era uma das muitas filhas de uma família nobre irlandesa arruinada de nome Folliot que, após o falecimento do pai, teve de encontrar uma forma de subsistência, empregando-se como criada, dando como referência o nome da irmã. Nesse interém, conheceu Rudolph, com quem casou secretamente, porque ele lhe dissera que o seu padrinho era contrário a que desposasse uma mulher pobre. O rapaz prometeu-lhe pagar todas as suas dívidas e, quando fosse independente de Roger Ackroyd, assumir publicamente o casamento entre ambos. Para que tal fosse possível, confiava que o industrial lhe acudisse e saldasse as suas dívidas, porém, quando tomou conhecimento da quantia avultasda que o afilhado devia, ficou tão furioso que lhe recusou qualquer auxílio financeiro. Passados alguns meses, chamou-o a Fernly e propos-lhe que desposasse Flora Ackroyd. Os futuros noivos concordam com a proposta e combinam manter o noivado secreto, todavia Mr. Ackroyd resolve torná-lo público, mas comunica a sua intenção somente a Flora, que se mostra indiferente perante tal resolução. Já Ursula ficou absolutamente estupefacta e chamou Rudolph da cidade. Os dois encontraram-se no bosque e o rapaz pediu à esposa que mantivesse secreto o casamento de ambos por mais algum tempo, mas a esposa procura Roger Ackroyd e conta-lhe a verdade. O homem fica furioso com os dois,considerando que Ursula está a dar o golpe do baú, procurando desposar alguém com acesso a riqueza. Ambos trocam palavras violentas entre si e tudo termina com o despedimento dela. Ursula encontra-se novamente com o marido, porém o encontro é tumultuoso: Rudolph censura-a por ter ido falar com o padrinho e ela censura-o pela sua falta desinceridade. Meia hora depois de terminado o encontro, um pouco antes das 21 e 45, é descoberto o cadáver de Roger Ackroyd. Além disso, desde essa noite, a jovem não voltou a ter notícias do esposo.
    Ursula decidiu fazer esta confissão depois de ter lido a notícia falsa publicada por Poirot, considerando que já nada tinha a perder; pelo contrário, talvez pudesse contribuir para a salvação do marido.

Capítulo XXIII: Uma reunião em casa de Poirot

    O Dr. Sheppard tem vindo a fazer um registo do caso, dividido em 20 capítulos e culminando com a visita de Mrs. Russel, que forneceu a Poirot para este o ler.
    A reunião inicia-se às 21 horas na casa de Poirot e nela marcam presença Mrs. Ackroyd, Flora Ackroyd, o major Blunt, Mr. Godofred Raymond, Mrs.Ursula Paton, John Parker e Elisabeth Russel, além do Dr. Sheppard. Poirot começa por revelar que Ursula e Rudolph são casados. Flora reage muito bem à notícia e as duas mulheres apoiam-se mutuamente.
    De seguida, o detetive informa que, na noite do crime, tiveram lugar dois encontros perto do quiosque: entre Mrs. Russel e o filho e entre Rudolph e Ursula. Sabendo-se que os dois últimos são um casal, está encontrada a explicação para a aliança encontrada no local com os dizeres gravados: um R e uma data, a do casamento entre ambos. Este encontro foi motivado, como sabemos, por Ursula ter ficado a saber nesse mesmo dia do noivado entre o seu marido e Flora Ackroyd. Ora, assim sendo, o assassino não poderia ser o capitão Paton, pois às 21 e 30, quando se deu o crime, estava a falar com a esposa. Por outro lado, também não poderia ser Charles Kent, uma vez que já se havia afastado do local.
    As palavras ouvidas a Roger Ackroyd pouco antes de ser assassinado são muito semelhantes às que usava por vezes em cartas ditadas, o que leba Poirot a deduzir que, efetivamente, o homem não estava a falar com ninguém, mas talvez a ler uma carta em voz alta. O detetive recorda que, na quarta-feira anterior, tinha estado na villa um representante da firma Ditaphone Company,o qual vendeu ao industrial um ditafone. Às 21 e 30, Roger ainda estava vivo, visto que falava ao dito aparelho, enquanto Rudolph e Ursula conversavam no exterior e Charles Kent já se encontrava bem distante do local.
    O capítulo encerra com Poirot a fazer um gesto teatral, apontando para o umbral da porta, onde se encontra Rudolph Paton, de mão dada à esposa.

Capítulo XXIV: A narrativa de Rudolph Paton

    Hercule Poirot recoda a sessão, semelhante àquela que fizera anteriormente, na qual acusara os cinco presentes de lhe ocultarem algo: quatro revelaram o seu segredo entretanto, mas o Dr. Sheppard não. O médico explica-se: naquele dia, fora visitar Rudolph, de quem se diz amigo, e este contara-lhe do seu casamento e da embrulhada em que se envolvera. Após a descoberta do crime, Paton tornara-se suspeito e o Dr. Sheppard escondera-o numa casa de saúde para alienados. O detetive, entretanto, através de Caroline, obteve o nome de dois sanatórios próximos de Cranchester para onde o irmão costumava enviar alguns pacientes. Num deles, no sábado de manhã, Poirot descobriu que o clínico tinha internado um doente sob um nome falso, porém rapidamente descobriu que se tratava de Rudolph, por isso trouxe-o para a villa dos Lariços no dia anterior. Está assim explicado quem era o indivíduo que Caroline dissera ter visto em casa de Poirot.
    De seguida, o detetive declara que o assassino se encontra entre eles e que, para salvar Rudolph, terá de confessar o crime. Ora, quem é que estaria disposto a salvá-lo, incriminando-se? A esposa ou um amigo, dirá o leitor. De imediato, entra a criada com um cabograma para Poirot, proveniente de um transatlântico que se dirige para os Estados Unidos. Ele lê-o e diz que, a partir desse momento, tem a certeza de quem é o assassino. A seguir, dá por encerrada a reunião e anuncia que, no dia seguinte, comunicará a verdade ao inspetor Raglan.

Capítulo XXV: Toda a verdade

    Terminado o encontro, saem todos, à exceção de Poirot e do Dr. Sheppard, que questiona o motivo pelo qual o detetive não expõe de imediato a verdade ao inspetor Raglan. Poirot expõe-lhe as suas deduções. Primeira: o telefonema feito para casa do clínico significa que o assassino pretendia que o crime fosse descoberto nessa mesma noite e não apenas no dia seguinte, ou seja, desejava que a descoberta ocorresse a uma hora em que o criminoso estivesse presente quando a porta do escritório fosse aberta. Segunda: a poltrona desencostada da parede relaciona-se com a mesinha com livros e revistos que se encontrava junto à janela do escritório, a qual ficava oculta pelo espaldar da cadeira. O detetive supõe que houvesse nela algo que o assassino desejava ocultar que não tinha podido levar consigo após o crime, mas que deveria desaparecer antes que alguém o encontrasse. Ora, antes da chegada da polícia só haviam entrado no gabinete de Roger Ackroyd o médico, Parker, o major Blunt e Raymond. O criado, com o seu olhar treinado, foi quem assinalou a deslocação da poltrona, pelo que foi eliminado como suspeito. Terceira: que objetos eria o que a mudança de lugar da poltroba pretendia ocultar? O ditafone, algo que não poderia ser transportado numa algibeira, por exemplo. As pessoas creem que a voz ouvida antes de ocorrer o crime era a de Roger Ackroyd a ditar para o gravador de voz, mas também poderia dar-se o caso de a máquina estar a fazer o oposto, ou seja, a reproduzir a voz do homem. Poirot coloca ainda outra hipótese: a adaptação de um instrumento de relojoaria ao ditafone, de maneira a pô-lo a funcionar após a saída do assassino. Quem tem interesse por mecanismos? Quarta: as marcas de sapatos no peitoril da janela. Alguém retirou do hotel Três Javalis um par de sapatos de Rudolph Paton. Quem o foi procurar à hospedaria?
    Finalizando o seu discurso, Hercule Poirot recapitula os factos: o assassino é alguém que conhecia bem Roger Ackroyd; sabia que adquirira um ditafone; tinha certa prática com engenhos mecânicos; tirara o punhal da mesinha antes de Flora chegar; levara consigo uma maleta para transportar o ditafone; pôde permanecer sozinho uns minutos no gabinete, após a descoberta do crime, enquanto Parker telefonava à polícia. Quem poderia ser essa pessoa? O Dr. Sheppard.

Capítulo XXVI: ... E nada mais do que a verdade

    O médico ri-se do detetive e chama-o louco, mas este não se detém. Para percorrer a distância entre a estarada e a villa gastavam-se no máximo cinco minutos. Ora, o Dr. James Sheppard partira da moradia às 20 e 50 e atingira o portão da estrada às 21 horas, ou seja, tinha gasto o dobro do tempo no trajeto. Nesses dez minutos, teve tempo de correr em volta da casa, mudar de sapatos, entrar no gabinete através da janela, matar Roger Ackroyd e sair pelo portão. Esta tese apresenta, no entanto, uma dificuldade: o industrial tê-lo-ia ouvido galgar o peitoril, por isso Poirot coloca outra hipótese, isto é, o médico cometeu o crime antes de sair do escritório, tirou da sua maleta de médico os sapatos de Rudolph, calçou-os, passou-os sobre a lama e reentrou no gabinete saltando pela janela, na qual deixou as marcas do calçado enlameado. A seguir, fechou a porta do cómodo pelo lado de dentro, saiu pela janela, deslocou-se até ao quiosque, descalçou os sapatos furtados, colocou os seus e saiu pelo portão. De seguida, foi para casa descansado, pois ajustara o ditafone para as 21 e 30. O detetive esclarece que já tinha feito a reconstituição da cena que acabara de narrar e demorara exatamente dez minutos.
    O que teria o médico a ganhar com o crime? Impunidade, pois fora ele quem chantageara Mrs. Ferrars. De facto, o Dr. Sheppard tinha tratado do marido da senhora, pelo que era a única pessoa que poderia saber a verdade sobre a sua mpprte, daí ter começado a extorqui-la, porém, quando a extorsão se tornou asfixiante, Mrs. Ferrars resolveru contar a Mr. Ackroyd. Se este tomasse conhecimento dos factos, o médico ficaria arruinado para sempre.
    Falta, porém, esclarecer ainda uma questão: o telefonema feito para casa do médico na noite do crime. Um dos seus pacientes era criado num transatlântico americano que estava fundeado em Liverpool na altura do assassinato. Ora, o Dr. Sheppard pedira-lhe que telefonasse da estação para sua casa. Foi isso que o cabograma recebido por Poirot confirmou. A ideia era genial: o médico recebia o telefonema na sua residência, na presença da irmã, mas, quanto ao conteúdo, só se teria a versão do clínico.
    Finda a exposição, Hercule Poirot sugere ao Dr. Sheppard que finalize o seu manuscrito e, depois, recorra ao suicídio, caso não deseje ser preso.

Capítulo XXVII: Apologia

    Cinco horas da manhã: o médico concluiu o manuscrito, que, no início, tencionava publicar como anarrativa de um desaire de Poirot.
    Nele, o clínicp acrescenta alguns dados: quando viu Rudolph Paton e Mrs. Ferrars a conversar, receou que a viúva lhe tivesse confiado o seu segredo. Na noite do crime, Roger Ackroyd tinha contado ao Dr. Sheppard o que conhecia do caso referente a Mrs. Ferrars, isto é, da chantagem a que esta estava sujeita, ignorando ainda, no entantom a identidade do extorsionista. O ditafone tinha avariado e o médico induzira-o a confiar-lho para o compor. O médico adaptou-lhe um mecanismo que o fizesse funcionar às 21 e 30. A poltrona tinha sido deslocada para o ocultar por completo.
    O Dr. Sheppard confia que Poirot conseguirá «compor as coisas» junto do inspetor Raglan, de modo a poupar a irmã, Caroline, à vergonha da verdade, de ter um irmão assassino.

    Concluído o manuscrito, veronal.

domingo, 28 de julho de 2024

Análise da cena 3 do ato IV de Hamlet

    Esta cena volta a enfatizar uma diferença comportamental entre Cláudio e Hamlet: o primeiro age rapidamente, aproveitando de imediato a oportunidade fornecida pelo assassinato de Polónio para não só enviar o príncipe para Inglaterra, mas também o executar; o segundo passou a peça toda a hesitar e a protelar a concretização da vingança sobre o tio.
    Por outro lado, o leitor / espectador está plenamente consciente de que o assassinato impulsivo de Polónio veio dificultar a vingança da morte do velho rei Hamlet, o que é exclusivamente da responsabilidade do jovem príncipe. De facto, foi ele quem matou Polónio de forma precipitada e impulsiva e, por outro lado, hesitou constantemente se deveria ou não assassinar Cláudio. Curiosamente, quando decide agir, fá-lo sem pensar e acaba por matar a pessoa errada.
    Todos estes acontecimentos colocam o monarca numa posição vantajosa. Por um lado, ninguém, exceto Hamlet, suspeita que Cláudio tenha assassinado o anterior rei. Em segundo lugar, ele é o rei da Dinamarca, por isso encontra-se numa posição privilegiada e de grande poder. Em terceiro lugar, ao declarar que vai enviar o sobrinho para Inglaterra porque está preocupado com o seu bem-estar, o que lhe granjeia simpatia por se mostrar um homem atencioso, empático e preocupado com a família. Na verdade, tudo não passa de uma construção astuta e dissimulada, visto que se trata de mera encenação destinada a executar Hamlet. Porém, como ninguém tem conhecimento dos seus planos maquiavélicos, a imagem de Cláudio é a de um rei atencioso, afetuoso e benevolente, extremamente preocupado com o sobrinho e que só quer o seu bem.
    Apesar de agir como um louco há algum tempo já, Hamlet continua a ser amado pela população, o que indicia que é percecionado como uma pessoa íntegra e honrada. Porém, para o leitor, essa imagem pode estar a mudar, visto que ele acabou de assassinar uma pessoa sem culpa e não parece preocupado quer com o crime que acabara de cometer, quer com o destino que deu ao corpo, troçando de tudo com jogos de palavras.
    Outra curiosidade relativa à questão do corpo de Polónio prende-se com os comentários feitos pelo príncipe. De facto, este declara que o cadáver está a ser comido, ou seja, está a deteriorar-se e a ser consumido por vermes. Isto recorda-nos a afirmação de Marcelo na cena do ato I: algo está podre no reino da Dinamarca. Nesse instante, a personagem está a falar figurativa e metaforicamente, no entanto, presentemente, a frase adquire literalidade: o corpo de Polónio está a apodrecer em Elsinore.
    Por último, convém atentar num pormenor: Cláudio pede aos ingleses que executem eles mesmos Hamlet. Ora, por um lado, isto mostra o quanto receia o sobrinho, por isso necessita dele morto. Por outro lado, Hamlet era amado na Dinamarca, por isso teria de morrer fora do território local. Em suma, todos estes dados caracterizam Cláudio como um rei astuto, falso e extremamente ambicioso, preocupado unicamente com o fortalecimento do seu próprio poder, eliminando as ameaças ao seu poder e manipulando os que o rodeiam para daí retirar vantagens.

Resumo da cena 3 do ato IV de Hamlet

    Cláudio está ciente de que, embora represente uma ameaça para si e para os seus propósitos, Hamlet é adorado pela população, pelo que o rei não poderá tomar qualquer ação contra o príncipe que irrite o povo, daí que pretenda que o seu envio para Inglaterra seja visto como um plano de longa data.
    Rosencrantz informa Cláudio que Hamlet não dirá onde está o corpo de Polónio, e o soberano ordena-lhe que traga o príncipe à sua presença. Pouco depois, Rosencrantz e Guildenstern surgem acompanhados de Hamlet. Pressionado pelo tio no sentido de revelar a localização do corpo, o príncipe responde-lhe de forma enigmática e desafiadora. Por exemplo, diz-lhe que o cadáver está a servir de jantar aos vermes e, mais tarde, que o soberano poderia enviar um mensageiro para encontrar Polónio no céu ou poderá procura-lo ele mesmo no inferno. Por fim, Hamlet revela que o corpo se encontra debaixo das escadas, junto ao saguão do castelo. De seguida, o rei diz-lhe que está preocupado com o seu bem-estar e, por isso, vai enviá-lo para Inglaterra, algo com que Hamlet parece concordar entusiasticamente. O príncipe sai e Cláudio instrui os seus assistentes a assegurar-se de que Hamlet entra no navio nessa mesma noite.
    Só, o monarca da Dinamarca expressa a sua esperança de que o rei de Inglaterra obedeça às ordens que ele enviou, numa carta selada, ou seja, que Hamlet seja executado.

Análise da cena 2 do ato IV de Hamlet

    Esta cena é, tal como a anterior, curta e a ação célere, o que permite manter a atenção do leitor / espectador, não criando momentos aborrecidos de arrastamento.
    As máscaras usadas pelas personagens começam a cair. Rosencrantz e Guildenstern fingiram até aqui estar ao lado de Hamlet, porém agora deixam claro que estão integralmente ao serviço de Cláudio, o que leva o príncipe a criticá-los por isso. De facto, não custa compreender o sentir de Hamlet, ao constatar que os seus antigos amigos, afinal, não o eram e o traíram, colaborando com o assassino do seu pai em seu desfavor. Não custa igualmente imaginar a deceção que sente ao tomar consciência do facto.

Resumo da cena 2 do ato IV de Hamlet

    Quando Hamlet acaba de se desfazer do corpo de Polónio, surgem Rosencrantz e Guildenstern, que o questionam acerca do destino do cadáver, para que o possam transportar para a capela. No entanto, o príncipe recusa dar-lhes uma resposta direta, optando antes por os provocar e chega inclusive a acusá-los de serem espiões ao serviço de Cláudio. Além disso, chama «esponja» a Rosencrantz, pois tanto este como Guildenstern absorvem o favor do rei, acatando e executando as suas ordens e deixando que ele os esprema até secar. Após nova recusa em esclarecer onde esconder o corpo de Polónio, concorda em acompanhar os velhos amigos até à presença de Cláudio, todavia desata a correr, desafiando-os a apanhá-lo.

Análise da cena 1 do ato IV de Hamlet

    A cena inicial do quarto ato é breve e foca-se numa espécie de traição que Gertrudes comete relativamente ao seu filho, concretamente por ter contado a Cláudio o encontro que tivera com Hamlet, quando lhe havia prometido não o fazer. A rainha mostra-se, pois, desleal para com o filho, ao contar ao atual marido que aquele assassinara Polónio, embora não lhe dê conta que o jovem príncipe estava a fingir ser louco. O que significa esta atitude da rainha? Acredita que Hamlet está efetivamente louco, ou, astutamente, reflete e reconhece que o seu interesse reside em se aliar ao marido? Por outro lado, não nos podemos esquecer que Gertrudes é a rainha da Dinamarca, o que implica um conjunto de deveres. Assim sendo, tendo em conta que Polónio era um nobre conhecido e, até certo ponto, respeitado, pelo que esconder a notícia da sua morte poderia ser considerado um ato de traição relativamente aos seus deveres enquanto soberana.
    Por seu turno, Cláudio esforça-se por aparentar calma enquanto ouve o relato da esposa, mas claramente reconhece que os últimos acontecimentos constituem a oportunidade perfeita para exilar Hamlet para Inglaterra. Cláudio é um rei oportunista, ambicioso e egoísta, preocupado apenas em conservar o seu poder a todo o cisto, evitando tudo o que possa constituir uma ameaça a essa ambição. Afinal, ele não hesitou em assassinar o próprio irmão para conquistar a coroa e o poder que lhe está inerente. Deste modo, mais do que nunca, Hamlet deve ser enviado para Inglaterra, não para o punir por ter assassinado Polónio, mas porque a sua presença na Dinamarca representa um perigo para o próprio Cláudio.
    O leitor / espectador facilmente se apercebe que o rei se está a aproveitar da situação para dar andamento aos seus planos sinistros relativamente ao sobrinho, mas também apreende uma diferença comportamental entre ambos: Cláudio age rapidamente, enquanto Hamlet é uma figura hesitante. No entanto, apesar de não perder tempo em pôr em marcha o seu plano, o rei não descura o modo como o concretizar, preocupando-se em controlar os danos. É por isso que, após a saída do Rosencrantz e Guildenstern, sugere que ele e Gertrudes procurem os seus mais próximos para lhes narrar o que aconteceu. De facto, no seu pensamento, ao divulgar os acontecimentos segundo a sua visão e interesses, evitará que o crime de Hamlet o manche a si e justificará a premência da partida do sobrinho. O seu caráter fingido e dissimulado acentua-se quando não tem pejo em afirmar que não mandou Hamlet embora mais cedo por razões sentimentais, procurando transmitir, desta forma, a imagem de alguém atencioso e generoso. Dada disto, obviamente, corresponde à verdade.
    No que diz respeito a Hamlet, o assassinato de Polónio constitui um momento de viragem no seu percurso e na sua caracterização. De facto, antes de ter matado um homem inocente, era possível olhá-lo com olhar benévolo, compreensivo e até solidário, pois estávamos na presença de alguém profundamente marcado pela morte do pai e pelo confronto e as exigências do seu fantasma. Contudo, após o assassinato de Polónio, essa imagem é fortemente afetada. A sua natureza sensível e reflexiva – os traços de caráter que interferem, fazendo-o hesitar, na capacidade de se vingar de Cláudio – dá lugar a uma atitude exatamente oposta, concretizada num ato precipitado e extremamente violento. É verdade que Hamlet age dessa forma por estar convencido de que é Cláudio quem se encontra atrás da cortina, porém, seja como for, o seu gesto põe em xeque a sua superioridade moral sobre o tio. Ambas as personagens assassinaram outras pessoas; a única diferença reside no facto de o crime do príncipe não ter sido premeditado, ao contrário do do tio, que foi planeado e motivado pela ambição. Todavia, as consequências dos dois atos são semelhantes: Laertes e Ofélia perderam o seu pai, tal como tinha sucedido com Hamlet.
    Por outro lado, toda esta sucessão de acontecimentos suscita a abordagem de questões como a violência e o assassinato. Inicialmente, esses aspetos foram abordados de forma algo abstrata, visto que a única violência que teve lugar – o assassinato do velho rei Hamlet – é anterior ao início da peça. Porém, no momento em que o seu filho assassina Polónio, a violência estrema e o assassínio concretizam-se, presentificam-se aos olhos do leitor / espectador. Por outro lado, não podemos esquecer que a morte de Polónio decorre do assassinato de Hamlet pai, o que permite concluir que a violência e o crime só geram mais violência e mais sangue.
    Por último, não se pode deixar de dar uma palavra ao comportamento de Rosencrantz e Guildenstern. Os dois são amigos de Hamlet, porém não revelam qualquer prurido em se voltar contra ele, o que mostra, no mínimo, falta de lealdade e de uma amizade verdadeira e autêntica. Se tivermos em consideração, porém, que a sua obediência é devida a Cláudio, o rei, independentemente das suas crenças e afetos, é natural que tenham de fazer aquilo que o monarca lhes ordenar, mesmo que tal signifique trair um amigo de longa data. Regra geral, o ser humano tem sempre uma opção e é da sua responsabilidade fazer essa escolha.

Resumo da cena 1 do ato IV de Hamlet

    Após o diálogo com o filho, Gertrudes corre ao encontro de Cláudio. Encontra-o acompanhado de Rosencrantz e Guildenstern e pede-lhe para falarem a sós. A rainha narra, então, ao marido o encontro que acabara de ter com Hamlet, detalhando a sua insanidade e o assassinato de Polónio. Horrorizado, Cláudio observa que, se fosse ele a estar escondido atrás da tapeçaria, teria sido morto pelo sobrinho, e conclui que este é um perigo para todos, pelo que deverão enviá-lo, de imediato, para Inglaterra. Em simultâneo, terão de encontrar uma explicação credível de explicar à corte e ao povo as ações de Hamlet.
    De seguida, convoca Guildenstern e Rosencrantz, conta-lhes acerca do assassinato de Polónio e instrui-os a localizar Hamlet e levar o corpo do falecido para a capela. Posteriormente, diz à esposa que é necessário revelar publicamente a verdade sobre o jovem príncipe e encontrar uma forma de lidar com ele.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Correção do Exame Nacional de Português 12.º ano 2024 - 2.ª fase

Exame Nacional de Português - 12.º ano - 2024 - 2.ª fase

Decreto-Lei n.º 48-B/2024, de 25 de julho


    O decreto que estabelece os princípios da recuperação do tempo de serviço docente.

    Em 2018, a fraude que dá pelo nome de António Costa e que andou quase uma década a fazer de contas que era primeiro-ministro afirmou que nem daí a dez anos haveria condições para devolver o tempo que foi surripiado aos professores. Estamos em 2024, passaram, portanto, seis anos.

Questionário sobre o conto "A chama obstinada da sorte" - 1.ª parte

 1.ª parte (do início até “… e de que podiam, por isso, apagar o candeeiro.”)
 
1. Qual é a origem do conto e o significado da epígrafe (Para o senhor Aladino Sepúlveda, primeiro “ocupa” da patagónia)?
 
2. O conto inicia-se com a situação inicial, isto é, com a apresentação da personagem principal e da sua família.
 
2.1. Indica os principais aspetos da vida do velho e dos seus familiares a partir das informações presentes no primeiro parágrafo.
 
2.2. Transcreve as expressões textuais que evidenciam a dimensão da família.
 
2.3. Identifica os recursos estilísticos presentes nas expressões seguintes e refere o seu valor expressivo.
a. “erráticos como o vento da estepe”.
b. “quando os ventos (…) faziam soar as tripas”.
 
3. Além do velho e da sua família, o narrador apresenta-nos outra personagem.
 
3.1. Identifica-a e procede à sua caracterização.
 
3.2. Menciona a função principal que, neste início de texto, lhe era atribuída.
 
4. Explica o sentido da expressão “quando as vacas magras se tornavam realidade”.
 
5. O velho tinha uma intenção ao ordenar a Cachupín que expulsasse toda a gente de casa. Apresenta-a.
 
5.1. Descreve os acontecimentos que se seguiam.
 
5.2. Aponta o valor do diminutivo “familória”.
 
5.3. Procura explicar o sentido da expressão “esperava pela chegada das sombras, atendendo ao valor polissémico da palavra sublinhada.
 
6. Refere o tipo textual predominante nos sete primeiros parágrafos do texto e justifica a tua resposta recorrendo a expressões textuais que o comprovem.
 
6.1. Indica o tipo textual da sequência que se inicia no oitavo parágrafo e transcreve três expressões que fundamentem a tua opção.
 
7. Sintetiza os acontecimentos apresentados até ao final do excerto.
 
8. Localiza a ação do excerto no tempo e no espaço, recorrendo a expressões comprovativas.


Correção do questionário: correção.

terça-feira, 16 de julho de 2024

Análise da cena 4 do ato III de Hamlet

    A conversa entre mãe e filho é muito interessante, pois permite levantar várias suposições relativamente à atitude e ao pensamento de Hamlet. Por exemplo, terá a rainha conhecimento do crime do seu atual marido? Poderá ela fornecer informações que confirmem o assassinato? Terá sido a monarca cúmplice da barbárie? Seja qual seja o seu intuito, Hamlet «apenas» incita a progenitora a afastar-se de Cláudio, num discurso sexualmente bastante gráfico. Sigmund Freud afirmou que Hamlet possuía o desejo inconsciente de desfrutar sexualmente da sua mãe, algo que seria comum à generalidade dos homens e que designou como Complexo de Édipo, em homenagem à figura da mitologia grega homónima de uma peça de Sófocles que, involuntariamente, cumprindo uma profecia, assassinou o seu pai, Laio, e posteriormente desposou a própria mãe, sem saber de quem se tratava, gerando com ela vários filhos. Freud prossegue, esclarecendo que, enquanto Édipo concretizou essa fantasia, Hamlet apenas possui o desejo inconsciente de o fazer, o que o torna uma figura moderna, dado que reprimiu esse desejo.
    Ao longo da cena, Gertrudes limita-se a reagir aos ataques e às denúncias do filho sobre si, mostrando diferentes reações e emoções ao longo da mesma. Assim, de início revela alguma arrogância e dirige algumas acusações a Hamlet; mais à frente, mostra receio de que o príncipe a magoe fisicamente; quando Polónio é morto, fica chocada; o medo e o pânico dominam-na no momento em que o filho se lhe dirige agressivamente; posteriormente, revela-se espantada e crente de que Hamlet está louco, quando o vê falar com o vazio, já que ela não consegue ver nem ouvir o fantasma do anterior marido; por fim, parece arrependida relativamente ao príncipe e disposta a ajudá-lo. Ou seja, ao longo da cena, Gertrudes vai sendo submetida a sucessivos choques (as acusações de Hamlet, a morte de Polónio), os quais a vão fragilizando e enfrentando a sua capacidade de resistência às acusações do filho e à condenação do seu comportamento e suas atitudes. O modo como a insistência e os sentimentos do príncipe a vergam enfatiza a ideia de que a monarca é uma figura com tendência para se submeter e se deixar dominar por homens poderosos e uma necessidade de que aqueles lhe mostrem o que pensar e sentir.
    Ora, estes traços psicológicos explicarão o facto de Gertrudes se ter entregado tão rapidamente a Cláudio, isto é, pouco depois da morte do velho rei Hamlet. Por outro lado, quando promete guardar segredo da conversa que estão a ter, é possível que a rainha finja apoiar o filho apenas para o acalmar, visto que, como veremos posteriormente, ela relata o que se passou a Cláudio, quebrando a promessa que lhe fizera. Uma outra explicação para este comportamento pode prender-se com um eventual instinto de sobrevivência e autopreservação que a leva a confiar nos homens, ou, pelo menos, em determinados homens.
        Gertrudes é rainha, ocupa uma posição de poder, porém convém nunca esquecer que vive numa sociedade dominada por homens. O filho não se poupa a esforços no sentido de fazer com que ela se sinta culpada por ter traído o primeiro marido, procurando retratá-lo como uma esposa desleal, o que certamente a magoa. Tanto é assim que implora que o príncipe pare com as acusações, nomeadamente a de ter trocado um irmão pelo outro como seu marido. Ou seja, a sociedade parece esperar que uma mulher que enviúva deve pausar a sua morte após o falecimento do marido. Existem ainda hoje mulheres que nunca mais voltaram a casar ou a manter novos relacionamentos amorosos quando ficam viúvas. Algumas, inclusive, carregam luto pesado pelo resto das suas existências. Todavia e, por outro lado, esta análise vai ao encontro da pressão de que Gertrudes certamente foi alvo para voltar a contrair matrimónio, algo comum entre a realeza medieval. Como Eça de Queirós escreveu no sento conto “A Aia”, em que uma rainha se vê subitamente viúva, com um filho de tenra idade nos braços, uma roca não governa como uma espada, não se escusando a salientar como a ausência do rei deixava o reino e a própria família desamparada e frágeis. Além disso, terá Gertrudes pressentido que Cláudio era um homem perigoso, pelo que, caso se recusasse a casar com ele, poderia correr perigo de vida.
    Voltando a Hamlet, a sua ação nesta cena é movida tanto pela raiva quanto por uma certa curiosidade, daí que tenha confrontado a mãe para esclarecer o que pensava sobre o assassinato do seu pai e também para questionar o papel da rainha em toda a situação. É neste cenário que Hamlet assassina Polónio, pensando tratar-se do «rato» Cláudio, um ato impulsivo e não planeado. Este é um dado curioso e particularmente interessante, visto que a ação mais ousada, decisiva e impactante tomada pelo príncipe, que sempre se mostrou hesitante em agir, resulta exatamente de um impulso. Isto é comprovado pelo facto de mesmo agora, quando Hamlet está certo de que Cláudio assassinou efetivamente o seu pai, continuar a adiar a sua vingança. Deste modo, é perfeitamente lícito concluir que o príncipe só consegue agir sem premeditação.
    De facto, Hamlet é alguém caracterizado pela reflexão, mais do que pela ação, sendo perseguido por questões morais e hesitações e incertezas quando se trata de vingar a morte do pai, assassinando o ator do crime, o seu tio Cláudio, mesmo quando se lhe depara a oportunidade perfeita. No momento em que decide agir, fá-lo cega e quase instintivamente, atingindo alguém que ele pensava ser o tio através de uma cortina. É como se o príncipe soubesse intimamente que era incapaz de agir racionalmente e apenas fosse capaz de agir e concretizar a sua vingança de forma acidental, instintiva, e não planeada e premeditada. Quando constata que, afinal, matou Polónio, interpreta o seu ato no contexto do esquema retribuição, punição e vingança. O assassinato, para Hamlet, significa que Deus o usou como instrumento de vingança para punir os pecados de Polónios e os seus próprios, manchando a sua alma com o crime que acabara de cometer.
    O diálogo intempestivo entre mãe e filho faz reaparecer o fantasma do velho rei, que lhe recorda que não deve magoar a mãe. Como esta não consegue ver nem ouvir o espectro, ela é levada a acreditar que Hamlet enlouqueceu realmente. Mas será ele realmente louco? Por outro lado, será o único capaz de ver e interagir com o fantasma? A resposta é obviamente negativa, pois, como vimos nas cenas iniciais da peça, ele foi visto também pelos guardas que percorriam as muralhas de Elsinore. Além disso, o público que assiste à representação também vê o espectro, o que significa que William Shakespeare quer que os espectadores acreditem que o que Hamlet vê é real. Por outro lado, é interessante observar que, quando Gertrudes afirma que o filho perdeu o juízo, o plano inicial do príncipe de se fingir louco se volta contra ele. De facto, agora parece genuinamente louco, o que faz com que seja pouco provável que a mãe se coloque do seu lado.
    Ao assassinar Polónio, Hamlet comete, involuntariamente, um crime para o qual não tem justificação. Curiosamente, inicialmente, o príncipe protela o assassinado de Cláudio por não ter a certeza se o tio era ou não culpado e, portanto, merecedor da punição da vingança. Todavia, nesta cena, matou um homem inocente, pelo que terá de passar a haver-se com o sentimento de culpa. Interessantemente, não se mostra arrependido do que acabou de fazer, o que permite pôr em causa os princípios morais que norteiam a sua vida. De facto, apesar de se debater, ao longo da peça, até aqui, com a dúvida se seria correto assassinar Cláudio, neste momento a morte de um homem inocente, ou aparentemente inocente, não pesa particularmente na sua consciência. Tudo isto confere complexidade à peça, desde logo porque o seu protagonista é uma figura particularmente complexa e difícil de ler. Por vezes, ele parece querer fazer o que é moralmente correto, porém, noutros momentos, parece pôr de lado os seus princípios e valores.
    Outra questão significativa refere-se a uma presumível decadência moral que atinge Hamlet. Inicialmente, adiou a morte de Cláudio por uma questão ética e nobre, ou seja, por querer certificar-se que o tio é efetivamente o assassino, porém, nesta cena, torna-se ele mesmo um criminoso. A procura de vingança leva o indivíduo a trilhar caminhos sombrios.

Resumo da cena 4 do ato III de Hamlet

    Nos aposentos de Gertrudes, a rainha e Polónio aguardam a chegada de Hamlet e o homem explica à soberana o seu plano, que ela aceita. Quando o príncipe chega, Polónio esconde-se atrás de uma tapeçaria. Hamlet entra no compartimento e pergunta à mãe o motivo por que o chamou. A mulher responde que o filho insultou a memória do pai ao ofender Cláudio, mas o jovem responde-lhe que foi Gertrudes quem ofendeu o velho rei Hamlet ao desposar o seu irmão. A rainha questiona as palavras duras do filho e pergunta-lhe se esqueceu quem ela é, ao que ele responde que sabe perfeitamente a sua identidade: a esposa do irmão do seu pai e, lamentavelmente, sua mãe.
    O comportamento de Hamlet assusta Gertrudes, que grita por ajuda. De trás da tapeçaria, Polónio, alarmado, grita também. O jovem príncipe, percebendo que alguém se esconde atrás das cortinas e suspeitando que pode ser Cláudio, desembainha a sua espada, enfia-a através da tapeçaria e mata Polónio. A monarca condena o ato do filho, no entanto este afirma que o seu gesto não é tão mau quanto o de assassinar um rei e casar-se com o seu irmão, afirmações que a deixam incrédula. O filho prossegue, questionando os motivos da progenitora para ter desposado o cunhado, especulando que era louca ou tinha sido enganada pelo diabo, e repreendendo o facto de dividir o leito com um vilão assassino.
    Subitamente, o fantasma do velho rei aparece, e Hamlet pergunta-lhe o que terá que fazer. Gertrudes não consegue ver o espectro, por isso afirma que o filho perdeu o juízo ao vê-lo conversar com o vazio. O fantasma afirma que veio para recordar Hamlet do seu propósito, que ainda não o vingou, matando Cláudio. Percebendo que Gertrudes não o consegue ver nem ouvir, o espectro pede ao jovem príncipe que interceda por si junto da mãe. Hamlet descreve o fantasma, mas a rainha nada vê e ele desaparece. Tenta, de seguida, desesperadamente, convencer a soberana que não está louco, mas apenas fingiu loucura, e insta-a a abandonar Cláudio e a recuperar a sua honra. Além disso, pede-lhe também que não revele ao atual marido aquela conversa entre ambos. Gertrudes, abalada pelas palavras duras do filho, concorda em manter segredo.
    Antes de sair, Hamlet lembra à mãe que, em breve, partirá para Inglaterra com Rosencrantz e Guildenstern, mas acrescenta que a mensagem que levará não será diplomática, antes uma ordem de execução assinada por Cláudio. Acrescenta ainda que tem um plano para enganar o tio e, de seguida, sai, arrastando o corpo de Polónio.

Análise da cena 3 do ato III de Hamlet

    Nesta cena, Hamlet parece disposto a, finalmente, concretizar o seu desejo de vingança. O jovem mostra-se satisfeito por a peça e o excerto que nela enxertou terem provado a culpabilidade do tio. Quando este reza, fica-se com a certeza de que Cláudio assassinou o irmão. De facto, trata-se uma confissão absoluta e espontânea, mesmo que ninguém mais a ouça.
    Cláudio e Polónio urdiram um plano para espiar Hamlet e desvendar o que está a acontecer exatamente com o príncipe, o que significa que o seu comportamento errático os confundiu. Por outro lado, ironicamente é o próprio Hamlet quem acaba por observar secretamente o tio, embora não tenha ouvido o solilóquio de Cláudio, pois somente o vê ajoelhado a rezar. Convém ter presente que o solilóquio é um recurso muito importante na peça, dado que muitas personagens escondem frequentemente os seus pensamentos, sentimentos e motivações, agindo de forma enganosa, de forma a tentar enganar os demais. Esses momentos de confissão constituem os únicos momentos em que o público tem a oportunidade de conhecer as verdadeiras intenções das personagens.
    Podemos considerar que o momento fundamental da cena é a reação de Cláudio à encenação que reproduz o assassinato do rei Hamlet, que confirma, de facto, a sua culpabilidade. Se dúvidas ainda houvesse, porém, o solilóquio posterior acaba com as mesmas: Cláudio assassinou o seu irmão. Está, pois, aberto o caminho para o príncipe concretizar a sua vingança, contudo ele coloca o seu ato na perspetiva da moralidade. Por um lado, o seu intuito ultrapassa os limites da moralidade cristã, pois deseja matar o tio e, ao mesmo tempo, condenar a sua alma. Com efeito, a sua decisão de não consumar o assassinato quando o tio está ajoelhado a rezar prende-se com o seu medo de que esse ato enviasse a alma de Cláudio para o céu, em vez do inferno, o que confirma que as motivações de Hamlet giram em torno do sentimento de vingança. Por outro lado, pode encarar-se esta atitude como mais uma desculpa para adiar a morte do tio, apesar de ter a certeza da sua culpabilidade. No fundo, estamos perante uma questão de justiça: o velho rei fora assassinado sem ter tido a oportunidade de purificar a sua alma através de orações ou confissões, por isso o seu assassino deveria padecer a mesma condenação.
    Noutra perspetiva, podemos observar que, quando Hamlet decide não assassinar Cláudio enquanto este reza, está a desejar comportar-se e atuar de modo honrado. Simultaneamente, demonstra grande respeito pelos valores religiosos, considerando um assassinato um pecado mortal, enquanto a vítima se encontra a orar. Ao deixar passar esta oportunidade privilegiada de consumar a sua vingança, Hamlet torna claro que os seus valores morais e religiosos têm influência nos seus comportamentos e atos, tanto ou mais que o desejo de vingar o pai. É possível que a noção de que executar alguém a sangue frio é um ato desumano que ele não consegue concretizar.
    No que diz respeito a Cláudio, a sua tentativa de rezar é muito interessante. Aparentemente, deseja ser perdoado pela morte do irmão, no entanto não está disposto a abdicar dos benefícios que o crime lhe trouxe: a coroa e a rainha. Esta postura escancara a sua corrupção e decadência moral, a sua falta de integridade, traços que, nas palavras ditas anteriormente por Marcelo, quando afirmou que algo estava podre no reino da Dinamarca, se estendeu à sociedade. Assim sendo, podemos concluir que Cláudio é a personificação dessa decadência moral, pois ele reconhece que cometeu um crime, porém decide conscientemente que não irá retificar o seu comportamento pecaminoso, arrependendo-se genuinamente.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Resumo da cena 3 do ato III de Hamlet

    A ação desta cena tem lugar na mesma noite da representação da peça. Depois de todos deixarem o local onde a produção ocorrera, Rosencrantz e Guildenstern falam com Cláudio, que se encontra muito abalado com o conteúdo da peça e com a aparente loucura de Hamlet, que considera perigosa, daí que peça à dupla que escolte o jovem príncipe até Inglaterra, para segurança de todos. Os dois homens, leais ao rei, acatam e vão-se preparar de imediato para a viagem.
    Entretanto, chega Polónio e informa Cláudio que Hamlet está a caminho dos aposentos de Gertrudes, lembrando ao rei o seu plano de se esconder no quarto da rainha para observar o encontro entre mãe e filha e, posteriormente, lhe relatar o que ficar a saber. De seguida, sai, para dar andamento ao seu plano.
    Sozinho, Cláudio, num solilóquio, reconhece o seu crime hediondo, a sua culpa e a noção de que cometeu um pecado indesculpável: o fratricídio é uma das piores ofensas que se pode fazer, é o crime mais antigo, que acarreta a maldição mais antiga. Assim, implora pelo perdão e pela misericórdia de Deus, porém receia não ser perdoado, exceto se renunciar ao trono da Dinamarca e à rainha. Porém, em simultâneo, afirma que não está preparado para desistir daquilo que conquistou por meio do crime. Tomado pela culpa, ajoelha-se em oração.
    Hamlet, a caminho dos aposentos da mãe, depara-se com Cláudio a rezar e vê a situação como uma oportunidade para se vingar dele e o matar. No entanto, de repente ocorre-lhe que, se assassinar Cláudio enquanto esta está a orar, de acordo com as crenças da época, inadvertidamente enviá-lo-á para o céu, exatamente o oposto daquilo que Hamlet e o seu pai pretendem, visto que o tio, ao matar o defunto monarca antes que este tivesse tido oportunidade de fazer a sua última oração, garantiu que o irmão não iria para o céu.
    Deste modo, Hamlet decide esperar, até que o tio cometa um ato pecaminoso, como, por exemplo, quando estiver bêbedo, dominado pela ira ou lascivo. O jovem príncipe sai, a caminho do encontro com a mãe, enquanto Cláudio se ergue, desesperado com a ineficácia das suas orações, duvidando da sua salvação.

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Análise do poema "Angular", de Bruna Beber

    Comecemos a análise do poema pelo título. O nome “angular” deriva de “ângulo”, portanto pode referir algo que possui ângulos ou cantos agudos. No caso do poema, podemos estar a falar da adoção de uma determinada perspetiva sobre as memórias e experiências do «eu» poético, o que remete para uma visão distinta ou incomum das suas relações com os seus entes queridos. Por outro lado, pode constituir uma metáfora que traduz algo que possui uma qualidade distinta ou marcante. Assim sendo, o título Angular pode ser interpretado como uma metáfora das várias facetas da memória e da experiência do ser humano, à semelhança do que sucede com os ângulos, que formam pontos distintos e definidos num objeto. As memórias e as experiências passadas assumem contornos definidos na vida de uma pessoa, moldando o seu ser.
    Os mortos estão mortos, pelo que não podem conhecer ou saber novas coisas. Neste caso, os mortos do sujeito lírico nunca irão saber, nunca irão tomar conhecimento de que ele ainda está de pé, ainda está ativo, ainda resiste, e sorri, ou seja, continua a viver apesar da perda dos “seus mortos”. Apesar de “não vivos”, os entes que partiram continuam presentes na vida do «eu», nomeadamente em momentos passados que compartilham com eles: “(…) ainda estou de pé e sorrindo em uma cena perdida / no passado de suas vidas”. É evidente a importância e o papel da memória na recuperação desse passado e do efeito positivo que tem no sujeito. São lembranças vivas, multifacetadas, de diferentes cores e tons: “cores-sombras, vivos, sorrindo / dentro da minha vida”.
    De seguida, o «eu» lírico rememora pequenos gestos ou atos desse passado. O primeiro é o derramar de café e o som da máquina de escrever da tia, evocadas de forma sensorial: “ainda sou criança e ouço o tlectlectlec / da máquina de escrever da minha tia.”. Estas memórias transportam-no de volta ao passado, concretamente à infância, pejada de figuras familiares e amadas, figuras femininas sempre: a tia e a avó. É como se os entes masculinos não existissem ou tivessem sido apagados por não terem marcada tão profundamente o «eu». São figuras e presenças arrancadas à passagem do tempo, nas suas atividades quotidianas domésticas, como, por exemplo, a avó, movimentando-se entre a copa e a cozinha apressadamente por causa da carne que está a assar e, talvez, em risco de se queimar. É o universo feminino, quotidiano e doméstico, a triunfar no poema. Não é necessário muito para imaginar a nostalgia que invade o sujeito poético enquanto rememora uma época em que os seus entes queridos ainda estavam vivos. A alusão às suas ações, embora simples, carregam uma carga emocional profunda que se prolonga ao longo do tempo até ao presente.
    A segunda estrofe abre com a referência a outro momento marcante do passado, caracterizado novamente através das sensações auditivas: a porta do quarto bate, o que assusta o «eu», que dá um salto, um quadro cai da parede sobre a escrivaninha, a geladeira esguicha. Atente-se na expressividade da forma verbal «esguicha», que sugere um jato repentino de algo que é libertado com grande força da peça de cozinha. São “Ondas. Calor e energia.” que tanto se podem referir à imagem da geladeira a esguichar, como à forma emotiva, viva e intensa como a memória atinge o sujeito lírico. O momento da recordação é um momento intenso, poderoso, que envolve o «eu» numa onda, numa torrente de emoções.
    As memórias e as palavras do passado têm um poder duradouro e energizante. Os entes mortos não têm consciência do impacto que as suas palavras, as suas memórias, têm sobre o sujeito poético. Com efeito, eles não sabem, não desejam ativamente influenciar o sujeito lírico, porém a verdade reside no facto de as lembranças das suas pessoas e dos seus gestos simples e quotidianos impactarem fortemente a sua existência. Posteriormente, ele qualifica essas memórias: são fugazes, ténues, simples (“um sopro”), ecoam no presente (“um eco”), são subtis (“um traço”) e involuntárias (“um tique”), ou seja, as palavras e as memórias persistem na sua mente de forma ligeira, mas constante, como um eco distante, mas persistente. Por outro lado, os versos “da estada / permanente das palavras que disseram um dia” indiciam que essas palavras ditas no passado por pessoas como a tia e a avó constituem uma presença constante e marcante na existência do sujeito poético. Por sua vez, os versos “e eu / rastejo na eletricidade” configuram a reação do «eu» à presença vívida dessas palavras e memórias, que têm um poder duradouro e eletrizante, intenso e vivo. O ato de rastejar na eletricidade pode constituir a evocação de uma sensação (tátil) intensa de ser envolvido ou consumido pela energia das lembranças.
    A última estrofe configura um retorno ao presente do sujeito poético, que desfruta do seu café (“Ainda não terminei o café”), enquanto afirma não sentir saudades do passado que acabou de recordar. A justificação para essa ausência de tristeza e nostalgia é apresentada logo de seguida: “pois sei que assim que me levantar desta mesa / vou reviver o mundo em altura e graça”. O «eu» sente-se perfeitamente capaz de reviver as memórias compartilhadas, no passado, com os seus entes queridos falecidos, tudo envolto numa imagem de elevação e leveza (“em altura e graça”). É como se o sujeito poético não sentisse saudades em razão de as memórias do passado estarem tão integradas na sua existência que ele pode “reviver o mundo” através delas, o que indicia, por outro lado, que aceitou a perda dos familiares e que reconhece que as lembranças são uma parte essencial da sua vida.
    O poema termina com uma nota de afeto e intimidade, no preciso momento em que o universo, até agora, exclusivamente feminino, ganha um elemento masculino – o tio –, na cacunda (a parte superior das costas) do qual se senta. É uma imagem reconfortante, de proximidade física e emocional.
    Em suma, o poema explora a interseção entre o passado e o presente, a importância das memórias familiares e o modo como estas continuam a ter impacto e a moldar a vida dos que lhes sobreviveram.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Análise do poema "As avós e as tias", de Bruna Beber

    O poema, constituído por versos curtos que lhe imprimem um ritmo vivíssimo, abre com uma metáfora clássica (“Durante toda a minha caminhada / pela bola”), que representa a vida enquanto viagem pelo planeta e sugere uma perspetiva sobre as coisas decorrente da experiência e aprendizagem feita. A referência à Terra reflete a diversidade de perspetivas sobre as coisas: uns chamam-na “terra” e outros “água” (neste caso, por a superfície do planeta ser constituída maioritariamente precisamente por água), o que parece indiciar a noção de que a realidade pode ser interpretada de formas diversas, dependentes da perspetiva de cada pessoa.
    De seguida, associa a forma redonda da Terra a uma memória da juventude: a de um amigo do colégio que apelidaram “balofo”, certamente por causa do seu excesso de gordura corporal. Atente-se no uso irónico do advérbio de modo “carinhosamente”, pois estamos na presença de um epíteto que nada tem de carinhoso nem para o alvo nem para os autores. Por outro lado, estamos perante uma espécie de tradição escolar juvenil: a atribuição a colegas de escola de epítetos, alcunhas, umas vezes traduzindo, de facto, relações de amizade e carinho, outras enquanto forma de humilhação, ou, como se dirá hoje, “bullying”. É da natureza humana distribuir apelidos pelos seus semelhantes. Seja como for, quer interpretemos o “balofo” como apelido carinhoso, quer como depreciativo, estes versos indiciam a importância das relações interpessoais e das memórias afetivas ao longo da vida.
    Do seu percurso de vida, resulta um processo de aprendizagem do «eu» poético: a vida é feita de incertezas, porém há uma certeza que tem e que gostaria de partilhar com os outros, nomeadamente com as gerações futuras diretas – “os seus filhos”. Deste modo, os versos parecem traduzir a ideia de que a transmissão do conhecimento e da experiência aos vindouros é um legado, uma herança extremamente valiosa(o).
    Mas, afinal, que certeza é essa? Todo o ser humano possui ou já possuiu uma toalha bordada. É evidente que esta referência configura uma metáfora que traduz a importância das pequenas coisas, ou gestos, que possuem pouco valor material, mas enorme valor sentimental e cultural. Estamos, pois, no campo da tradição e da herança familiar. Note-se que, numa entrevista concedida em 2022, a poeta afirmou que desconhece o conceito económico de herança, ou seja, bens, imóveis, fortunas materiais, e que nunca herdou nada. No entanto, acrescenta, na sua família existe aquilo que chama “a mística dos objetos de carinho”: “Fui criada recebendo, não sem controle e num intervalo de tempo que não prevê facilidades, um rádio de pilha de um avô aqui, um reloginho de uma avó acolá, um cinzeiro que meu pai já me repassou em vida (…) Enfim, desde que nasci recebo objetos que têm ou tiveram importância para alguém que ajudou a me criar. Amigos e amigas também fazem isso comigo, namoradas já fizeram. Parece que as pessoas ficam à vontade para confiar em mim suas memórias e elas podem ficar tranquilas porque nunca vou jogar fora aquela toalhinha que ganhei quando tinha sete anos ou aquela lâmpada de pisca-pisca de Natal de 92. Assim, herança para mim é confiança.” As palavras da própria escritora dispensam mais considerandos.
    Voltando ao poema, atente-se na referência “pela bola – há quem /a diga achatada”, uma alusão evidente àqueles que acreditam no terraplanismo, uma nova indireta às diferentes crenças e perceções que as pessoas têm do mundo e da realidade. Por outro lado, os versos “É importante / que seus filhos / passem pros deles / essa verdade” enfatizam a importância de transmitir e preservar a cultura e as tradições familiares, passando-as às futuras gerações. Mesmo aqueles que não possuem filhos aos quais possam passar a “toalha bordada” continuarão a tê-la, isto é, continuarão a possuir as suas tradições e legados familiares e culturais. O facto de alguém não possuir filhos a quem legar a sua “toalha bordada” não invalida a importância ou o significado da herança cultural, pois existirão sempre objetos que testemunharão uma experiência e identidade compartilhadas. O legado transcende a procriação e as conexões familiares, pois há elementos compartilhados que nos unem como seres humanos.
    Deste modo, podemos concluir que a toalha bordada constitui uma metáfora para a herança cultural, por mais singela que seja, que é passada de geração em geração. A toalha é um elemento tangível e concreto, alfo concreto, um objeto que pode ser tocado e visto e que incorpora em si histórias, memórias e significados que transcendem a materialidade. Desta forma, o «eu» poético enfatiza a importância de o ser humano preservar e compartilhar as suas tradições e cultura, algo que já é indiciado pelo título – “As avós e as tias” –, que aponta desde logo para o conceito de família e ancestralidade, sugerindo que as tradições culturais são transmitidas por figuras maternas. Afinal, as “toalhas bordadas”, os trapos, são tipicamente associados ao universo feminino, estando o masculino totalmente ausente.

Análise da cena 2 do ato III de Hamlet

    O início do terceiro ato é constituído pelas tentativas dos antagonistas descobrirem os segredos um do outro: o rei espia o sobrinho para averiguar a sua proclamada loucura, enquanto Hamlet engendra um estratagema para estabelecer a culpa do tio. A peça dentro da peça conta a história de Gonzago, duque de Viena, e de sua esposa, que acaba por se casar com Luciano, o sobrinho assassino do rei. Hamlet, ao acrescentar à representação o excerto escrito por si que imita os detalhes da morte do pai, acredita que a peça é uma oportunidade mais fiável de estabelecer a culpa de Cláudio do que as afirmações do fantasma. Ele espera que, recorrendo ao processo de imitação da realidade pela arte, Cláudia se traia e indicie a sua culpa. Podemos, pois, concluir que Hamlet, ao socorrer-se deste estratagema, está a manipular a realidade e o ambiente circundante, controlando o desenrolar dos acontecimentos.
    A reação intempestiva de Cláudio à representação que reconstitui o assassinado do rei Hamlet revela a sua culpa e permite a Hamlet concluir que o tio é efetivamente responsável pelo crime. Este facto é muito importante, pois o jovem príncipe não tinha qualquer prova que sustentasse a denúncia do fantasma e é precisamente esta ausência de provas que alimenta a indecisão de Hamlet e que o leva a adiar a execução da vingança solicitada pelo espectro, pois não quer cometer um assassinato sem ter a certeza da culpa do rei. Agora, desaparece o motivo do protelar do príncipe. Em simultâneo, confirma-se que há mesmo algo podre no reino da Dinamarca: o atual rei ascendeu ao trono após cometer fratricídio.
    Tudo isto reacende o tema da aparência versus a realidade: as artimanhas de Hamlet, a pressão sobre Rosencrantz e Guildenstern para enganar o príncipe, a reencenação da morte do rei Hamlet no jardim. Intimamente ligado a esta temática temos o tema da loucura, desde logo por causa da loucura fingida de Hamlet, que não passa de mais um embuste. Além disso, a saída de Cláudio da sala onde a peça está a ser representada pode considerar-se uma saída louca, dando início a uma espiral de decadência do rei.
    As figuras femininas da peça são sempre relevantes por diversos motivos. A cena de abertura da peça, por exemplo, constitui um ataque a Gertrudes, visto que põe em xeque a sua lealdade ao rei Hamlet, nomeadamente quando a rainha-personagem afirma veementemente que não se voltará a casar caso o marido morra, ao contrário do que fez a monarca da Dinamarca, que casou de novo pouco tempo depois de ter ficado viúva. Convém, no entanto, ter presente que o comportamento de Gertrudes está em consonância com a sociedade da época, visto que era comum então que as mulheres viúvas se casassem de novo, contudo apenas após um período de luto considerável pelo marido falecido. Assim sendo, a forma célere como Gertrudes se casa novamente contraria certas expectativas da sociedade da época, porém há que ter em atenção que estamos a falar de uma monarca, com outras responsabilidades que uma mulher plebeia não tinha. Deste modo, a acusação implícita de Hamlet relativamente à decisão da mãe pode conter o seu quê de injusta, pois não tem em conta as pressões sociais a que Gertrudes estava sujeita e que a levaram ao segundo casamento.
    Por outro lado, o modo como Hamlet trata Ofélia mostra-o como alguém injusto e insensível, pois parece não refletir nos sentimentos de ambas as mulheres ou nas consequências que as suas atitudes e decisões possam ter sobre elas. Anteriormente, o príncipe já afirmara que não sentia nada por ela e, durante esta cena, senta-se intencionalmente ao seu lado e faz comentários obscenos para a deixar incomodada e desconfortável. Mas porquê tratar assim Ofélia, se já atingiu o objetivo de convencer todos de que está louco? Será um reflexo da sua eventual misoginia?
    No final de cena, Hamlet reflete brevemente sobre o seu comportamento e como este afetou a sua mãe, mas será que o prometido encontro posterior com Gertrudes confirmará este breve instante ou, pelo contrário, acentuará a sua raiva e grosseria dirigidas às mulheres?

Resumo da cena 2 do ato III de Hamlet

    Nessa noite, Hamlet junta-se ao grupo de atores e instrui-os sobre como representar os papéis que escreveu para eles, lamentando os atores que exageram as suas representações ou procuram suscitar o riso fácil, em vez de representarem de forma genuína.
    Entretanto, chegam Polónio, Rosencrantz e Guildenstern. Hamlet dirige-se-lhes e questiona Polónio se o rei e a rainha assistirão à peça. Após resposta afirmativa, diz àquele que passe a informação aos atores e manda Rosencrantz e Guildenstern apressarem os atores.
    Horácio entra em cena e o príncipe, satisfeito por o ver, elogia-o calorosamente, destacando as suas qualidades de espírito, a capacidade de autocontrole e reserva, bem como a sua lealdade e racionalidade. Depois de lhe contar o que o fantasma lhe disse, isto é, que Cláudio assassinou o seu pai, informa-o do seu plano de usar a cena que escreveu e que será adicionada à peça, a qual recria o que o espírito lhe revelou. Assim, pede a Horácio que observe cuidadosamente a reação de Cláudio durante aquela cena específica para avaliar a sua culpa. Se o rei parecer inocente, tal quererá dizer que o espectro será, afinal, um demónio. Horácio concorda, dizendo que, se o monarca, evidenciar algum sinal de culpa, ele irá identifica-lo.
    As trombetas tocam uma marcha dinamarquesa enquanto os membros da corte e o casal real entram no compartimento. O rei dirige-se a Hamlet e pergunta-lhe se está bem, ao que o príncipe responde de forma indireta e intrigante, antes de questionar Polónio sobre a sua experiência enquanto ator nos tempos de faculdade. Ele confirma que participou em peças e que chegou mesmo a desempenhar o papel de Júlio César, o que leva Hamlet a refletir sobre o assassinato do imperador romano e a ação impiedosa do seu filho Brutus no crime.
    Rosencrantz informa que os atores estão preparados. Gertrudes convida, então, o filho a sentar-se ao seu lado, mas ele opta por o fazer junto a Ofélia, provocando-a com uma série de trocadilhos eróticos, que a rapariga desvia, aludindo ao bom humor do companheiro.
    A pantomina pré-peça inicia-se e os atores representam uma cena em que um rei e uma rainha trocam afeto carinhosamente. Depois, a monarca sai e deixa o marido a dormir. Enquanto dorme, um homem rouba a sua coroa, derrama veneno no seu ouvido e foge. A rainha retorna, descobre o rei morto e chora o sucedido. Entrementes, o assassino regressa e começa a cortejar e a seduzir a viúva com presentes até ela ceder. Ofélia mostra-se perturbada com aquilo a que assistiu. A representação prossegue, entrando agora na peça propriamente dita: um rei e uma rainha discutem a duração do seu casamento e o amor que sentem mutuamente. O monarca reflete sobre a sua idade avançada e a morte que se aproxima e sugere que a esposa se deveria casar novamente após a sua partida. A rainha responde que um novo casamento seria como uma maldição e que cada beijo do outro marido seria semelhante a matar repetidamente o primeiro. O rei incentiva-a a manter a sua mente aberta e a não excluir hipóteses, visto que os seus sentimentos podem mudar após a sua morte, mas a esposa recusa terminantemente um novo matrimónio. A rainha sai, deixando o marido dormindo. Hamlet aproveita e pergunta à mãe se está a gostar da peça, ao que ela responde afirmativamente, acrescentando, porém, que a soberana refilava em demasia. Cláudio faz-se ouvir também e questiona se a peça não pode ser considerada muito inquietante e ofensiva, todavia Hamlet afirma que não passa de uma representação teatral que não incomodará ninguém cuja consciência esteja tranquila.
    Nesse ínterim, entra no palco um novo ator, representando uma personagem chamada Luciano, que é sobrinho do rei e que derrama veneno no ouvido do tio, matando-o. Nesse momento, Cláudio levanta-se e sai. A representação da peça é interrompida por ordem de Polónio e todos abandonam a sala, exceto Hamlet e Horácio. Os dois dialogam e concordam que a reação de Cláudio é reveladora de culpa.
    Rosencrantz e Guildenstern regressam e informam Hamlet que o rei está muito aborrecido e que a rainha ficou bastante irritada e solicita a sua presença nos seus aposentos. Polónio chega e informa Hamlet que a mãe deseja vê-lo imediatamente. O príncipe responde que irá ter com ela em breve e pede-lhe um momento a sós. Sozinho em cena, Hamlet decide ser absolutamente honesto com a mãe quando falar com ela, sem, no entanto, perder o controle e agir violentamente. 

domingo, 7 de julho de 2024

Fenómenos sportinguistas

    Sempre o jornalismo a proporcionar momentos de elevação!
    Neste caso, num jogo de hóquei em patins, o Sporting esteve a vencer por dois golos a zero, ambos marcados na segunda parte, porém o adversário conseguiu reduzir para 2 a 1 ainda na primeira parte do desafio.
    Há os fenómenos do Entroncamento e, depois, os do jornaleirismo deste jardim à beira-mar... plantado.

Análise da cena 1 do ato III de Hamlet

    A temática verdade versus engano, presente ao longo da peça, vislumbra-se também nesta cena. Por exemplo, Ronsencrantz e Guildenstern estão tão alinhados com Cláudio que parecem ter esquecido o que os trouxe até ali: a amizade com Hamlet. O engano domina igualmente a participação de Polónio e de Cláudio: nenhum deles age por fidelidade a si próprio ou por um bem maior; a interferência de Polónio na relação entre Hamlet e Ofélia é motivada quase em exclusivo pelo facto de as ações da filha poderem afetar a sua reputação – nunca o homem considerou a dela ou os seus sentimentos pelo príncipe e vice-versa. Por seu turno, nenhuma das ações do novo rei se pauta pela honestidade ou pelo bem comum. A própria Ofélia é coagida a agir falsamente, embora neste caso haja claros atenuantes para o seu comportamento, como a sua juventude e consequente ingenuidade e o facto de viver numa sociedade dominada por homens e onde as mulheres pouca ou nenhuma vez têm.
    A questão da vingança torna-se um fardo cada vez mais pesado à medida que a peça se desenvolve. É neste contexto que surge uma das frases mais conhecidas da literatura universal: “Ser ou não ser…”. O sentido, ainda que indireto, é simples: “Devo matar-me?”, isto é, ele parece pesar se vale a pena ou não permanecer vivo, se deve ou não tirar a sua própria vida. É curioso que isto surja no preciso momento em que se debate com a necessidade de vingar a morte do pai. É uma nova indecisão, que mostra a sua incapacidade para decidir o que fazer com Cláudio que impactasse na sua capacidade de decidir o que quer que seja, mesmo que ele pareça colocar a questão “Ser ou não ser…” como uma questão de debate filosófico.
    O encontro entre Hamlet e Ofélia é muito curioso, desde logo porque é espoletado como um teste, engendrado para determinar se a loucura do príncipe decorre da paixão pela jovem. O leitor / público tem mais conhecimento sobre a matéria, pois sabe que o rapaz age como um louco somente para ter a certeza acerca do papel do tio na morte do seu tio, o que quer dizer que o seu comportamento alterado não tem como justificação o amor por Ofélia.
    Ainda atualmente, muitas pessoas não hesitariam em assassinar o assassino do seu pai, alegando que o tinham feito por vingança e em nome do dever de honra. Porque é que Hamlet não atua de modo semelhante e hesita constantemente? Porque o seu pensamento vai muito para além da questão da vingança, até à reflexão em torno do Bem e do Mal, do certo e do errado, possivelmente considerando que o ato de assassinar Cláudio o tornaria uma pessoa igual ao tio. Tornar-se um assassino contribuiria para acentuar o ambiente corrupto e moralmente decadente que se tem vindo a infiltrar em Elsinore. Além disso, convém nunca esquecer que o príncipe é um cristão e, enquanto tal, as questões do homicídio e do suicídio são muito problemáticas em termos morais.
    Durante o encontro com Ofélia, Hamlet afirma que outrora a amou, mas presentemente não, o que só se compreende se o seu objetivo for magoá-la, visto que a afirmação não afasta as suspeitas de Cláudio sobre si e, por outro lado, o apresentam como alguém emocionalmente inconstante. O seu comportamento relativamente a Ofélia e contra as mulheres em geral é complexo. É de crer que a crença de que as mulheres levam os homens ao pecado reflete a sua preocupação com a decadência moral da sociedade de Elsinore e com a humanidade em geral, pois as pessoas parecem ser facilmente tentadas a praticar o mal e o pecado.
    Ofélia não é inimiga de Hamlet, mas este tem consciência de que ela é filha de Polónio, que, por sua vez, é o principal conselheiro de Cláudio, pelo que manipulá-la é uma forma de, indiretamente, manipular o monarca. O seu comportamento durante o diálogo com ela é tão intenso e instável que se revela exagerado a ponto de colocar em dúvida se é real ou loucura fingida.
    As suas opiniões sobre as mulheres raiam o sexismo, visto que o príncipe as culpa e responsabiliza por levarem os homens ao Mal. No entanto, convém observar que, se é verdade que essa afirmação é dirigida a Ofélia, ele estará a pensar na própria mãe quando fala, pois considera que esta traiu o pai e, ao desposar o tio, o traiu a ele mesmo. Acresce que crê que a progenitora se encontra, de alguma forma, envolvida na desonestidade de Cláudio. Deste modo, a misoginia que vocaliza provém do seu ressentimento para com a própria mãe e não Ofélia.
    As palavras de Hamlet remetem para a Bíblia e para o conceito de pecado original. No Antigo Testamento, Eva come da Árvore do Conhecimento, mesmo depois de Deus ter proibido tal coisa. Isto levou à queda do Homem, que remete para ideia de todos os seres humanos, desde Adão a Eva, são pecadores à nascença. Este conceito cristão do pecado original simboliza as falhas inerentes aos homens, que devem ser expiados.
    As afirmações de Hamlet sobre as mulheres em geral refletem também os valores cultivados na sociedade patriarcal de Elsinore, uma sociedade também profundamente cristã, visto que os pensamentos que o jovem expressa se conectam intimamente com o conceito do pecado original. A estranheza neste episódio reside no facto de estas opiniões terem recaído sobre Ofélia, que ele supostamente amava e que, desta forma, iria magoar. Convém, contudo, não esquecer que tudo se inscreve no plano de se fazer passar por louco, pelo que dizer à jovem que deveria entrar num convento, socorrendo-se de afirmações sexistas e misóginas, se inscreve nessa estratégia de parecer desequilibrado. Contudo, mais importante notar é que, ao fazê-lo, Hamlet está a usar a mulher que supostamente ama como peão na sua estratégia de vingar a morte do seu pai.
    Por último, mais uma vez Cláudio parece preocupado com o estado de Hamlet, porém essa preocupação não é sincera, pelo que a ideia de o afastar de Elsinore, enviando-o para Inglaterra, é exatamente isso: afastá-lo da corte para bem longe. Além disso, é provável que tivesse planos mais escuros para o príncipe.

Resumo da cena 1 do ato III de Hamlet

    Cláudio e Gertrudes discutem o comportamento de Hamlet com Ronsencrantz e Guildenstern, que têm pouco a relatar, exceto o facto de a companhia teatral que, entretanto, tinha chegado ter agradado ao príncipe. O casal real concorda em verem a representação da peça nessa noite. Depois, o monarca envia Rosencrantz e Guildenstern para vigiar o sobrinho. De seguida, pede à esposa que saia também, para que possa observar secretamente um encontro entre Hamlet e Ofélia. Gertrudes sai e Polónio instrui a filha a passear pelo corredor, dando-lhe um livro de orações e dizendo-lhe para se comportar como se o estivesse a ler, enquanto os dois homens se esconderão nas proximidades para observar o encontro.
    Hamlet aparece em cena, perdido nos seus pensamentos e contemplando, aparentemente, o suicídio para acabar com a sua dor: “Ser ou não ser: essa é a questão”. O rapaz parece ponderar sobre os méritos de enfrentar os desafios da vida ou buscar o alívio na morte. O medo do desconhecido faz com que ele se sinta um cobarde. Ao avistar Ofélia, ele interrompe os seus pensamentos. Seguindo as instruções do pai, a rapariga diz-lhe que deseja devolver-lhe os presentes de amor que ele lhe dera, porém, desconfiado das intenções dela e enraivecido, nega que sejam seus. Ofélia insiste que ele lhe deu presentes e cartas de amor, que já não lhe trazem alegria, o que faz com que o príncipe questione a honestidade dela: embora seja linda, tal não significa que seja honesta. Em resposta, a rapariga argumenta que a beleza e a pureza estão intimamente ligadas, o que ele rebate, afirmando que a beleza pode corromper a honestidade, no entanto esta não pode restaurar a pureza de uma mulher pecadora. De seguida, afirma que já a amou, mas, de imediato, declara que nunca a amou de verdade, claramente com o objetivo de a confundir e magoar. Aconselha-a, então, a entrar num convento para não dar à luz mais pecadores e critica as mulheres por fazerem com que os homens se comportem como monstros e por contribuírem para a desonestidade no mundo ao pintarem os seus rostos para parecerem mais belos do que são na realidade e os fazem pecar. Culpa a promiscuidade deles pela sua loucura e deseja o fim de todos os casamentos. Enquanto ele sai furioso, Ofélia lamenta a queda de Hamlet na loucura, de coração partido pelo comprometimento da sua pessoa enquanto soldado e futuro rei da Dinamarca.
    Cláudio e Polónio saem do seu esconderijo, chocados com o que viram e ouviram. Enquanto o segundo continua a acreditar que o amor de Hamlet por Ofélia é a causa da sua loucura, o rei pensa exatamente o oposto e afirma que o seu discurso não parece de o alguém insano. Ele acredita que a situação do príncipe se pode tornar perigosa e decide enviá-lo para o afastar de Elsinore e lhe proporcionar a oportunidade de se recuperar emocionalmente e conhecer o mundo. Polónio concorda com a decisão do monarca, mas sugere que, antes de partir, Gertrudes o confronte na tentativa de descobrir a causa da sua loucura. Assim, Cláudio deverá mandar Hamlet aos aposentos de Gertrudes depois da peça terminar, enquanto o próprio Polónio se esconderá e assistirá ao encontro sem ser visto. Cláudio aceita a sugestão de Polónio e enfatiza a necessidade de continuar a vigiar atentamente o príncipe.

Análise da cena 2 do ato II de Hamlet

    Na cena mais longa da peça, Cláudio e Gertrudes procuram esmiuçar o estado de espírito de Hamlet. Se os objetivos da mãe parecem ser os mais sinceros e honrados, já os do atual marido são bem diferentes. Quando pede a Rosencrantz e Guildenstern que animem Hamlet, está a ser falso e manhoso, pois está a usar os amigos mais próximos do príncipe para o espionar, manipular e, no fundo, neutralizar qualquer ameaça que possa representar para o seu poder. Por outro lado, Cláudio finge também estar preocupado com o Hamlet para agradar e conquistar Gertrudes.
    Outra questão abordada na cena prende-se com o regresso dos embaixadores enviados à Noruega, que traz o jovem príncipe Fortinbras para a ação da peça, para o fazer contrastar com a figura e comportamento de Hamlet: o primeiro é um homem de ação, enquanto o segundo se mostra hesitante, indeciso e até fraco. O contraste torna-se mais evidente se tivermos em conta as similitudes entre ambos: Fortinbras é o filho enlutado de um rei morto, um príncipe cujo tio herdou o trono no seu lugar, tal como Hamlet. Porém, enquanto procura vingar a morte do pai, o outro hesita, inquieta-se, reflete, mas não. Neste contexto, o facto de o tio de Fortinbras o ter proibido de atacar a Dinamarca, mas lhe autorizar o ataque à Polónia, atravessando exatamente o país de Hamlet, pode constituir uma tentativa de enganar Cláudio para que este permita a entrada de um exército inimigo no seu território. Espantosa é a reação de aparente indiferença de Cláudio ao facto de um inimigo poderoso poder penetrar no país que governa com a sua possível autorização. De facto, ele parece muito mais preocupado, para não dizer exclusivamente, com a ameaça que Hamlet pode representar. Deste modo, outro contraste parece desenhar-se aqui: de um lado, o falecido rei Hamlet, um guerreiro poderoso que, ao longo do seu reinado, se preocupou em expandir o poder da Dinamarca no seu exterior; do outro, o seu assassino, um governante apenas preocupado com a conservação do seu poder e as ameaças internas.
    Outro ponto importante da cena é a chegada da companhia de atores, constituindo uma situação de uma peça dentro da peça e apontando para um antiquíssimo tema literário: a vida real enquanto encenação. Por outro lado, a vinda dos atores proporciona a Hamlet a oportunidade de comprovar a culpa do tio. Além disso, a forma como o ator mostra uma emoção tão intensa quando representa a pedido do príncipe, envolvendo-se com a história que está a representar, remete para a forma como o comum das pessoas responde a situações da vida real com emoções e atitudes que não se baseiam em conhecimentos que possuem. É isto que Hamlet se recusa a fazer, isto é, a agir como se soubesse o que estava a fazer, quando, na realidade, não sabe. Em qualquer caso, o plano do príncipe para comprometer o tio rei, através da criação de uma situação que leve a uma resposta emocional, não é nada fiável.
    Até ao momento, o plano de Hamlet para se vingar de Cláudio é claro: fingir-se de louco, tornando-se imprevisível e, assim, mais difícil de ser compreendido pelas outras personagens, como, por exemplo, Polónio, o conselheiro de confiança do rei. Todavia, esse seu plano tarda em surtir efeito, desde logo por causa do caráter indeciso do jovem: assassinar Cláudio é algo com que reluta, daí protelar o ato, o que o deixa envergonhado e em conflito consigo mesmo. A armadilha que decide estender ao tio, usando a companhia teatral, é um sinal inequívoco das suas dúvidas e da sua preocupação com a moralidade de matar Cláudio. Se é verdade que o jovem não quer cometer o assassinato sem estar certo da culpabilidade do tio, não o é menos a evidente relutância que tem em cometer o crime, independentemente das circunstâncias. Neste sentido, o seu estratagema de encenar a peça não passa de mais uma forma de protelar agir. Por outro lado, o plano depende da crença de que emoções intensas vêm à tona quando as pessoas são apanhadas de surpresa, desprevenidas, eliminando o comportamento fingido e fruto do autocontrole.
    A sensação com que se fica é a de que Hamlet agirá apenas por sentir que esse é o que se espera de si, isto é, que vingar a morte do pai é o seu dever, é aquilo que a sociedade exige. Todavia, tal implicar cometer um assassinato. Desta forma, parte da inação e da hesitação do príncipe deve-se ao facto de a sociedade, simultaneamente, apoiar a vingança relacionada com a defesa da honra e tolerar o assassinato em sentido lato. Além disso, convém não esquecer que essa sociedade em que vive Hamlet é uma sociedade cristã, que considera matar alguém um pecado mortal. Assim sendo, o príncipe revela ser um homem com escrúpulos. Certificando-se da culpabilidade do tio, pelo menos Hamlet poderá alegar que a vingança configura uma defesa da honra do pai. Matar o tio sem ter a certeza de que Cláudio é culpado será imoral.
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