a) Espaço físico
i) O bairro e a rua
● A ação
decorre num bairro pobre do Rio de Janeiro, concretamente o bairro de Bangu.
● Um dos
espaços geográficos ocupado pelas personagens é a rua, um espaço aberto que
possibilita alguma liberdade física a Zezé: nela, anda de mãos dadas com
Totoca, aprende a atravessar a estrada Rio-São Paulo, observa o que o rodeia,
faz perguntas.
● A rua é
um espaço real, concreto, quotidiano, que ganha uma dimensão simbólica, visto
que é nela que Zezé aprende a vida fora de casa.
● Outro
espaço focado é a estrada Rio-São Paulo, caracterizada por um trânsito intenso
que representa grande período, por isso Zezé tem que aprender a atravessá-la.
● Há ainda
referência ao quintal da casa do Tio Edmundo e ao cesto de roupa suja, espaços
domésticos concretos, mas são apenas produto da evocação por meio da memória,
não cenário de ação.
ii) A casa
da família
● O espaço
doméstico surge, no primeiro capítulo, em retrospetiva, através da memória de
Zezé, nomeadamente o tanque onde a mãe lava roupa para ganhar dinheiro, o
quintal onde se apanha goiaba, o cesto de roupa onde a criança escondeu os
óculos do Tio Edmundo.
● Esses
espaços interiores estão associados à rotina dura, à disciplina (sovas), mas
também à música (a canção da mãe).
● A casa é
um espaço de regras e de repressão.
● Em suma,
trata-se de um espaço humilde, suburbano, pobre, caracterizado por um
quotidiano onde natureza e cidade se misturam.
b) Espaço psicológico
i) O interior de Zezé
● O
capítulo dá-nos conta do universo interior do narrador: é nele que existe o
passarinho que canta por dentro, quando não pode cantar em voz alta.
● É um
espaço de imaginação viva: Zezé inventa um cavalinho de pau chamado Raio de
Luar, sonha ser um poeta com gravata de laço, recorda as canções da mãe como se
fossem um refúgio.
● O espaço
psicológico vai para além da rua, projetando-se no passado (a mãe a lavar a
roupa) e no futuro (o sonho de ser poeta).
ii) O
refúgio contra a dura realidade
● Zezé
sofre violência física, por isso encontra refúgio e proteção dentro do mundo
que cria, um refúgio contra a violência e a repressão doméstica.
● O
próprio evento de aprender a ler sozinho é mais psicológico do que físico,
visto que constitui uma proeza do imaginário infantil, um «milagre» que ninguém
explica.
iii)
Conflito interno
● Zezé
oscila entre a curiosidade e o medo, a alegria e a tristeza, o orgulho e a
vergonha.
● Quando
recorda a canção da mãe, sente uma tristeza profunda, mas não sabe explicar a
razão desse sentimento.
● No
momento em que Totoca o ameaça, sente vergonha.
c) Espaço social
i) A pobreza
● Zezé
vive num bairro pobre e faz parte de uma família igualmente pobre: a família
deve oito meses de renda, a luz foi cortada por falta de pagamento.
● A mãe
trabalha como lavadeira para casas de família (neste caso, a do Dr. Faulhaber),
Totoca ajuda na missa para conseguir uns trocos.
● O pai
está desempregado, o que constitui um peso que recai sobre todo o resto da
família.
● A
pobreza extrema leva a família a mudar de casa, para evitar ser despejada.
ii)
Estrutura familiar
● A
família de Zezé é numerosa e pobre, com um pai ausente (ou impotente) e uma mãe
sobrecarregada de trabalho.
● Sobre
Zezé recai uma autoridade rígida: palmadas, repreensões, vigilância por parte
das irmãs.
● Totoca
assume a função de tutor: a ausência de estruturas formais (família, escola)
faz com que os irmãos mais velhos eduquem os mais novos.
iii)
Desigualdade familiar
●
Personagens como o Dr. Faulhaber ou Mister Scottfield, o «patrão», representam
a elite, classes social e economicamente privilegiadas.
● O tio
Edmundo, agora aposentado, simboliza alguém que trabalhou a vida inteira e,
atualmente, vive de um pequeno rendimento atribuído pelo Estado, contrastando
com o pai de Zezé, que está desempregado e incapaz de contribuir para o
sustento da família.
● A rua é
um espaço de desigualdade: na estrada Rio-São Paulo, passa todo o tipo de
veículo (camiões, automóveis, carroças), no entanto a família de Zezé mal tem
como se deslocar.
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