Português: O espaço do capítulo I (1.ª parte) de O Meu Pé de Laranja Lima

segunda-feira, 20 de julho de 2026

O espaço do capítulo I (1.ª parte) de O Meu Pé de Laranja Lima

 
a) Espaço físico
 
i) O bairro e a rua
 
● A ação decorre num bairro pobre do Rio de Janeiro, concretamente o bairro de Bangu.
 
● Um dos espaços geográficos ocupado pelas personagens é a rua, um espaço aberto que possibilita alguma liberdade física a Zezé: nela, anda de mãos dadas com Totoca, aprende a atravessar a estrada Rio-São Paulo, observa o que o rodeia, faz perguntas.
 
● A rua é um espaço real, concreto, quotidiano, que ganha uma dimensão simbólica, visto que é nela que Zezé aprende a vida fora de casa.
 
● Outro espaço focado é a estrada Rio-São Paulo, caracterizada por um trânsito intenso que representa grande período, por isso Zezé tem que aprender a atravessá-la.
 
● Há ainda referência ao quintal da casa do Tio Edmundo e ao cesto de roupa suja, espaços domésticos concretos, mas são apenas produto da evocação por meio da memória, não cenário de ação.
 
ii) A casa da família
 
● O espaço doméstico surge, no primeiro capítulo, em retrospetiva, através da memória de Zezé, nomeadamente o tanque onde a mãe lava roupa para ganhar dinheiro, o quintal onde se apanha goiaba, o cesto de roupa onde a criança escondeu os óculos do Tio Edmundo.
 
● Esses espaços interiores estão associados à rotina dura, à disciplina (sovas), mas também à música (a canção da mãe).
 
● A casa é um espaço de regras e de repressão.
 
● Em suma, trata-se de um espaço humilde, suburbano, pobre, caracterizado por um quotidiano onde natureza e cidade se misturam.
 
b) Espaço psicológico
 
i) O interior de Zezé
 
● O capítulo dá-nos conta do universo interior do narrador: é nele que existe o passarinho que canta por dentro, quando não pode cantar em voz alta.
 
● É um espaço de imaginação viva: Zezé inventa um cavalinho de pau chamado Raio de Luar, sonha ser um poeta com gravata de laço, recorda as canções da mãe como se fossem um refúgio.
 
● O espaço psicológico vai para além da rua, projetando-se no passado (a mãe a lavar a roupa) e no futuro (o sonho de ser poeta).
 
ii) O refúgio contra a dura realidade
 
● Zezé sofre violência física, por isso encontra refúgio e proteção dentro do mundo que cria, um refúgio contra a violência e a repressão doméstica.
 
● O próprio evento de aprender a ler sozinho é mais psicológico do que físico, visto que constitui uma proeza do imaginário infantil, um «milagre» que ninguém explica.
 
iii) Conflito interno
 
● Zezé oscila entre a curiosidade e o medo, a alegria e a tristeza, o orgulho e a vergonha.
 
● Quando recorda a canção da mãe, sente uma tristeza profunda, mas não sabe explicar a razão desse sentimento.
 
● No momento em que Totoca o ameaça, sente vergonha.
 
c) Espaço social
 
i) A pobreza
 
● Zezé vive num bairro pobre e faz parte de uma família igualmente pobre: a família deve oito meses de renda, a luz foi cortada por falta de pagamento.
 
● A mãe trabalha como lavadeira para casas de família (neste caso, a do Dr. Faulhaber), Totoca ajuda na missa para conseguir uns trocos.
 
● O pai está desempregado, o que constitui um peso que recai sobre todo o resto da família.
 
● A pobreza extrema leva a família a mudar de casa, para evitar ser despejada.
 
ii) Estrutura familiar
 
● A família de Zezé é numerosa e pobre, com um pai ausente (ou impotente) e uma mãe sobrecarregada de trabalho.
 
● Sobre Zezé recai uma autoridade rígida: palmadas, repreensões, vigilância por parte das irmãs.
 
● Totoca assume a função de tutor: a ausência de estruturas formais (família, escola) faz com que os irmãos mais velhos eduquem os mais novos.
 
iii) Desigualdade familiar
 
● Personagens como o Dr. Faulhaber ou Mister Scottfield, o «patrão», representam a elite, classes social e economicamente privilegiadas.
 
● O tio Edmundo, agora aposentado, simboliza alguém que trabalhou a vida inteira e, atualmente, vive de um pequeno rendimento atribuído pelo Estado, contrastando com o pai de Zezé, que está desempregado e incapaz de contribuir para o sustento da família.
 
● A rua é um espaço de desigualdade: na estrada Rio-São Paulo, passa todo o tipo de veículo (camiões, automóveis, carroças), no entanto a família de Zezé mal tem como se deslocar.
 

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