a) Tempo da ação
● O tempo
cronológico do capítulo é linear, acompanhando um período muito curto – parte
de um dia –, em que Zezé passeia com Totoca pela rua, aprende a atravessar a
estrada Rio-São Paulo, questiona, recorda a canção da mãe, recorda como
aprendeu a ler sozinho e ouve do irmão a explicação sobre a mudança de casa.
● Os
eventos são apresentados segundo uma sequência cronológica: saída de casa → caminha → atravessamento da estrada → diálogo → memórias → regresso a casa.
● Embora
não existam referências exatas / concretas a datas, existem indícios (carroças,
lampião de petróleo, falta de luz elétrica) que remetem para as décadas de 1920
ou 1930.
b) Tempo do discurso
● O
capítulo é caracterizado por uma alternância entre o presente narrativo (a voz
da memória) e o passado (daí o recurso ao pretérito perfeito e imperfeito) da
infância, recordado pelo narrador.
● O
discurso é fragmentado, isto é, a narração cronológica é cortada por analepses.
Por exemplo, o diálogo entre os irmãos, enquanto caminham pela rua, é
interrompido pela memória da mãe a lavar a roupa. Mais tarde, ocorre novo recuo
no tempo, nova analepse, para dar conta que Zezé deu a entender, há alguns
dias, ao tio Edmundo que sabia ler. Esta ausência de linearidade do discurso
mostra o modo como a memória infantil emerge aos saltos, consoante os
pensamentos do narrador-personagem.
c) Tempo histórico
● A
narrativa decorre no Brasil do início do século XX, provavelmente algures nas
décadas de 1920 ou 1930, como se pode depreender dos seguintes dados:
- a mãe de
Zezé lava roupa para famílias ricas, uma tarefa desempenhada por mulheres que
habitavam em bairros suburbanos da época;
- as
referências a carroças ou ao lampião de petróleo, substituto nos casos de
ausência de eletricidade, e à precariedade de infraestruturas urbanas;
- a
estrada Rio-São Paulo, símbolo do início de uma ligação moderna entre cidades,
começou a ser construída nos anos 20 do século XX;
- as
questões do desemprego do pai de Zezé, das dívidas da família e a luz cortada
retratam a vulnerabilidade das classes trabalhadoras urbanas nesse período;
- as
referências ao Moinho Inglês e a “Mister Scottfield” constituem marcas da
presença de empresas estrangeiras no Brasil.
● Por
outro lado, ao longo do capítulo, são identificáveis traços característicos do
Brasil da época:
- as
desigualdades e os contrastes sociais: famílias ricas, patrões estrangeiros,
operários, trabalhadores domésticos;
- a
infância pobre não tem direitos nem proteção social;
- a
existência de trabalho infantil (Totoca ajuda na missa para ganhar uns
trocados).
d) Tempo psicológico
● O tempo
psicológico é o tempo subjetivo, o modo como o narrador-personagem vive o tempo
no seu interior (as memórias, as emoções, os pensamentos).
● O tempo
psicológico flui sem uma ordem cronológica rígida: enquanto os dois irmãos
caminham, Zezé «viaja» pelo passado (a recordação da mãe a lavar no tanque),
pelo sonho (Raio de Luar) ou por dentro de si (o canto interior).
● A
recordação da canção de marinheiro prolonga-se muito mais na mente do que no
tempo real, mostrando como a memória afeta a duração dos eventos na narrativa.
● Por
outro lado, o tempo psicológico é um tempo sensível, fragmentado, marcado por
uma tristeza difusa que Zezé não compreende. É o «espaço» onde a criança se
defende da realidade dura e cruel através da imaginação (o canto, o sonho, o
cavalo Raio de Luar).
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