Português: O tempo do capítulo I (1.ª parte) de O Meu Pé de Laranja Lima

segunda-feira, 20 de julho de 2026

O tempo do capítulo I (1.ª parte) de O Meu Pé de Laranja Lima

 
a) Tempo da ação
 
● O tempo cronológico do capítulo é linear, acompanhando um período muito curto – parte de um dia –, em que Zezé passeia com Totoca pela rua, aprende a atravessar a estrada Rio-São Paulo, questiona, recorda a canção da mãe, recorda como aprendeu a ler sozinho e ouve do irmão a explicação sobre a mudança de casa.
 
● Os eventos são apresentados segundo uma sequência cronológica: saída de casa caminha atravessamento da estrada diálogo memórias regresso a casa.
 
● Embora não existam referências exatas / concretas a datas, existem indícios (carroças, lampião de petróleo, falta de luz elétrica) que remetem para as décadas de 1920 ou 1930.
 
b) Tempo do discurso
 
● O capítulo é caracterizado por uma alternância entre o presente narrativo (a voz da memória) e o passado (daí o recurso ao pretérito perfeito e imperfeito) da infância, recordado pelo narrador.
 
● O discurso é fragmentado, isto é, a narração cronológica é cortada por analepses. Por exemplo, o diálogo entre os irmãos, enquanto caminham pela rua, é interrompido pela memória da mãe a lavar a roupa. Mais tarde, ocorre novo recuo no tempo, nova analepse, para dar conta que Zezé deu a entender, há alguns dias, ao tio Edmundo que sabia ler. Esta ausência de linearidade do discurso mostra o modo como a memória infantil emerge aos saltos, consoante os pensamentos do narrador-personagem.
 
 
c) Tempo histórico
 
● A narrativa decorre no Brasil do início do século XX, provavelmente algures nas décadas de 1920 ou 1930, como se pode depreender dos seguintes dados:
- a mãe de Zezé lava roupa para famílias ricas, uma tarefa desempenhada por mulheres que habitavam em bairros suburbanos da época;
- as referências a carroças ou ao lampião de petróleo, substituto nos casos de ausência de eletricidade, e à precariedade de infraestruturas urbanas;
- a estrada Rio-São Paulo, símbolo do início de uma ligação moderna entre cidades, começou a ser construída nos anos 20 do século XX;
- as questões do desemprego do pai de Zezé, das dívidas da família e a luz cortada retratam a vulnerabilidade das classes trabalhadoras urbanas nesse período;
- as referências ao Moinho Inglês e a “Mister Scottfield” constituem marcas da presença de empresas estrangeiras no Brasil.
 
● Por outro lado, ao longo do capítulo, são identificáveis traços característicos do Brasil da época:
- as desigualdades e os contrastes sociais: famílias ricas, patrões estrangeiros, operários, trabalhadores domésticos;
- a infância pobre não tem direitos nem proteção social;
- a existência de trabalho infantil (Totoca ajuda na missa para ganhar uns trocados).
 
d) Tempo psicológico
 
● O tempo psicológico é o tempo subjetivo, o modo como o narrador-personagem vive o tempo no seu interior (as memórias, as emoções, os pensamentos).
 
● O tempo psicológico flui sem uma ordem cronológica rígida: enquanto os dois irmãos caminham, Zezé «viaja» pelo passado (a recordação da mãe a lavar no tanque), pelo sonho (Raio de Luar) ou por dentro de si (o canto interior).
 
● A recordação da canção de marinheiro prolonga-se muito mais na mente do que no tempo real, mostrando como a memória afeta a duração dos eventos na narrativa.
 
● Por outro lado, o tempo psicológico é um tempo sensível, fragmentado, marcado por uma tristeza difusa que Zezé não compreende. É o «espaço» onde a criança se defende da realidade dura e cruel através da imaginação (o canto, o sonho, o cavalo Raio de Luar).
 

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