A cena II do ato I decorre em Belmonte, num quarto do castelo de Pórcia, apresentando um forte contraste com o ambiente urbano e comercial de Veneza. A ação inicia-se com Pórcia a desabafar com a sua confidente, Nerissa, sobre o profundo cansaço que sente devido à constante receção de pretendentes que disputam a sua mão. Esta aproveita o momento para refletir de forma sensata sobre a condição humana, argumentando que a verdadeira felicidade reside na moderação e que o excesso de riqueza pode ser tão penoso quanto a extrema pobreza.
Pórcia, embora concorde com as máximas da sua dama, lamenta a sua total falta de livre-arbítrio. Ela explica que a sua vontade como filha viva está completamente subjugada às regras impostas pelo seu falecido pai. Segundo o testamento deste, Pórcia não pode escolher nem rejeitar nenhum pretendente; o seu destino matrimonial será decidido através de uma lotaria que envolve três cofres (um de ouro, um de prata e um de chumbo). Aquele que escolher o cofre correto ganhará o direito de casar com ela. Nerissa procura consolá-la, assegurando-lhe que o seu pai era um homem virtuoso e que os homens santos têm boas inspirações no momento da morte, pelo que o teste certamente atrairá o parceiro ideal.
Para avaliar os pretendentes que se encontram no castelo, Nerissa começa a nomeá-los um a um, permitindo que Pórcia os caracterize com um humor extremamente mordaz e irónico:
- O príncipe napolitano é ridicularizado por falar obsessivamente sobre o seu cavalo e por se gabar de o saber ferrar, o que leva Pórcia a gracejar que a mãe dele talvez tenha tido um caso com um ferrador.
- O conde palatino é descrito como um homem excessivamente triste e melancólico, que nunca sorri, mesmo perante as histórias mais alegres, parecendo estar sempre a dizer que não se importa de ser escolhido ou não.
- O fidalgo francês é visto como uma caricatura sem personalidade própria, que tenta imitar e exagerar os hábitos dos outros (tendo um cavalo melhor que o do napolitano e um semblante mais carregado que o do palatino), sendo capaz de dançar ao ouvir um melro ou de esgrimir com a sua própria sombra.
- O jovem barão inglês (Falconbridge) é criticado pela total impossibilidade de comunicação, pois não domina o latim, o francês ou o italiano, tal como Pórcia não percebe o inglês. Além disso, embora seja atraente, veste-se de forma bizarra, misturando modas adquiridas em Itália, França e Alemanha.
- O lorde escocês revela falta de firmeza, pois permitiu que o inglês lhe batesse sem retribuir no momento, tendo o francês como fiador da sua promessa de retribuição futura.
- O jovem alemão (sobrinho do duque de Saxe) é caracterizado como um bêbedo detestável, que se comporta pior do que um animal quando está embriagado à tarde e pouco melhor do que um homem quando está sóbrio de manhã. Para evitar o desastre de casar com ele, Pórcia sugere colocar um copo de vinho sobre o cofre errado para o induzir em erro.
Nerissa acalma então Pórcia com boas notícias: todos estes pretendentes decidiram regressar às suas pátrias sem participar na lotaria dos cofres, uma vez que não desejam sujeitar-se às regras rígidas do teste. Aliviada, Pórcia declara que preferirá morrer tão casta como a deusa Diana do que casar fora do método prescrito pelo pai.
Nesse momento de confidência, Nerissa recorda um jovem veneziano, estudante e soldado, que visitara o castelo ainda em vida do pai de Pórcia: Bassânio. Ambas concordam que, de todos os homens que já viram, ele é o mais digno do amor de uma formosa donzela.
A cena termina com a entrada de um criado que anuncia a despedida dos quatro pretendentes estrangeiros e a chegada iminente de um novo concorrente: o príncipe de Marrocos. Pórcia lamenta que mal se vê livre de uns surja logo outro, comentando que se o novo visitante tiver as qualidades de um santo mas a aparência escura de um demónio, preferirá tê-lo como confessor a tê-lo como marido, retirando-se de seguida com a sua dama.
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