A terceira cena do segundo ato decorre num quarto da casa de Shylock, apresentando o momento da despedida entre Jéssica, a filha do judeu, e o criado Lanceloto, que está prestes a transitar para o serviço de Bassânio.
Jéssica lamenta profundamente a partida do amado, confessando que a habitação do pai é um verdadeiro "inferno" e que o lacaio era a única presença capaz de trazer alguma alegria àquele ambiente sombrio. Como demonstração de apreço e despedida, ela oferece-lhe um ducado e confia-lhe uma missão de extrema importância e confidencialidade: entregar, de forma absolutamente secreta, uma carta a Lourenço, a quem Lanceloto irá encontrar na ceia do seu novo amo. Com receio de que o pai os surpreenda a conversar, Jéssica apressa o criado a partir.
O jovem despede-se de Jéssica visivelmente comovido, afirmando que as suas lágrimas dizem muito mais do que as suas palavras seriam capazes de expressar. Ele tece-lhe calorosos elogios, chamando-lhe "linda pagã" e "amável judia", e declara comovido que ela seria digna de que um cristão cometesse um crime para a conquistar, retirando-se de seguida sob o peso das lágrimas e da falta de ânimo.
Ficando a sós no aposento, Jéssica revela num breve mas poderoso monólogo o conflito interior que a atormenta. Ela admite sentir-se culpada por se envergonhar de ser filha de Shylock, mas reflete sobre a sua própria identidade, concluindo que, embora tenha herdado o sangue do pai, não partilha de forma alguma do seu caráter. A cena termina com uma promessa apaixonada e definitiva: se Lourenço cumprir a palavra que lhe deu, ela porá fim a esta luta dolorosa, convertendo-se ao cristianismo para se tornar sua esposa.
Sem comentários :
Enviar um comentário