Português: Caracterização do velho Gobbo

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Caracterização do velho Gobbo

    O velho Gobbo é uma figura de enorme simplicidade, ternura e comicidade popular, representando a honestidade e a vulnerabilidade das classes mais humildes de Veneza.
    Fisicamente, a sua caracterização é marcada pela debilidade da velhice e, acima de tudo, por uma acentuada limitação sensorial: ele é míope e extremamente falto de vista. Esta quase cegueira torna-o incapaz de reconhecer o próprio filho, Lanceloto, quando o encontra na rua, o que o deixa inteiramente vulnerável às partidas e enganos deste. Além disso, surge em cena a carregar um cesto, um pormenor físico que ilustra a sua condição de trabalhador modesto e a sua dignidade rústica.
    Do ponto de vista social e moral, Gobbo é a personificação do homem do povo honrado e temente a Deus. Ele define-se a si próprio como um "pobre velho", mas faz questão de sublinhar que é um homem de boa vida e costumes, integridade esta que o próprio filho mais tarde corrobora ao descrevê-lo perante a fidalguia como um "honrado velho". A sua origem simples e camponesa é também sugerida pela posse de um cavalo de carroça chamado Dobbin e pelo presente simples que traz de casa (uns casais de pombos), uma oferenda modesta, mas sincera que tencionava originalmente entregar ao patrão do filho para assegurar que este era bem tratado.
    O traço psicológico mais profundo do velho Gobbo é o seu amor paternal incondicional. Lanceloto é o centro da sua existência, a sua única esperança de amparo, a quem ele carinhosamente descreve como o seu "único arrimo" e o seu "bordão na velhice". A mentira sobre a morte do jovem atinge-o no seu ponto mais sensível, provocando-lhe uma dor genuína e um desespero imediato. A sua forte ligação familiar revela-se quando a menção ao nome da sua esposa, Margarida, desfaz qualquer dúvida, levando-o a acolher o filho com enorme afeto como a sua própria "carne" e o seu "sangue". O seu instinto protetor manifesta-se na preocupação em saber se o filho vive em harmonia com o patrão e na docilidade com que aceita desviar o presente de pombos para Bassânio, tudo para garantir um futuro melhor ao seu rapaz.
    Finalmente, a sua simplicidade e inaptidão social conferem-lhe uma dimensão altamente cómica. Perante figuras de prestígio como Bassânio, é extremamente respeituoso e cerimonioso, mas a sua falta de traquejo linguístico fá-lo perder-se. Ao tentar apresentar a petição para o novo emprego do filho, ele e Lanceloto atropelam-se mutuamente numa conversa atabalhoada e cheia de interrupções (de alguma forma, trazem à memória as figuras dos judeus de Farsa de Inês Pereira, a célebre peça de Gil Vicente), gerando uma confusão hilariante que deixa o fidalgo perplexo e incapaz de compreender o que realmente pretendem. Assim, o velho Gobbo destaca-se como um pai devoto, cuja ingenuidade e cegueira física são amplamente compensadas pela pureza do seu afeto e pela sua integridade moral.

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