O tempo da história na peça estrutura-se através de um engenhoso duplo esquema temporal (a técnica dramática do "duplo tempo"), que manipula de forma brilhante a perceção do espectador para harmonizar duas narrativas de ritmos inteiramente opostos. Por um lado, a obra necessita de um tempo longo e realista para que o conflito mercantil e jurídico de Veneza ganhe verosimilhança; por outro, exige um tempo curto, dinâmico e quase febril para manter o dinamismo da comédia romântica e das conquistas amorosas em Belmonte. Esta sobreposição de relógios invisíveis permite que a narrativa avance em frentes paralelas sem que a discrepância cronológica quebre a ilusão cénica.
O chamado tempo longo ou contratual está ancorado no espaço urbano e mercantil de Veneza, sendo ditado pelo rigor matemático do direito e do comércio. O contrato assinado entre António e Shylock estipula um prazo exato de três meses para o pagamento da dívida. Este período de noventa dias é cronologicamente essencial para o desenvolvimento da intriga realista: é o intervalo necessário para que as naus de António naveguem por mares distantes e se percam em locais como Trípoli, México, Inglaterra ou Índia, e para que os boatos e confirmações dos naufrágios viajem de volta até ao Rialto. É também dentro desta moldura de tempo alargado que se processa a fuga de Jéssica e Lourenço e as suas andanças dispendiosas por Génova, onde Shylock recebe a notícia dolorosa de que a filha gastara oitenta ducados numa única noite. O tempo em Veneza é, portanto, o tempo da espera, do desgaste e da inevitabilidade de uma contagem decrescente que ameaça um desfecho de sangue.
Em contraste absoluto, Belmonte opera sob a lógica do tempo curto ou comprimido, característico do universo fabuloso do romance. A chegada de Bassânio ao palácio de Pórcia, o desafio dos três cofres e a celebração do seu matrimónio parecem ocorrer no espaço de escassos dias. Embora Pórcia suplique a Bassânio para adiar a sua escolha por um dia ou dois, ou mesmo por um ou dois meses, com receio de o perder caso falhe o teste, a impaciência do jovem amante força uma decisão imediata. Assim que o enigma é resolvido e os votos são selados com os anéis, o tempo romântico colide abruptamente com o tempo mercantil: a receção da carta que anuncia a ruína de António revela que os três meses do contrato em Veneza já expiraram. Esta súbita revelação funde instantaneamente os dois relógios, exigindo que Bassânio parta no próprio dia do seu casamento para resgatar o amigo, comprimindo semanas de viagem numa urgência dramática instantânea.
A mestria do drama reside precisamente no modo como esta disparidade cronológica é ocultada pela alternância constante de cenas entre Veneza e Belmonte. Ao transitar de um cenário para o outro, a narrativa suspende a nossa contabilidade lógica do tempo, permitindo-nos aceitar que três meses passaram para o contrato da libra de carne enquanto apenas alguns dias decorreram para o idílio dos amantes. No último ato, em Belmonte, esta tensão temporal é finalmente dissolvida na serenidade de uma única noite. Sob o luar, o tempo desacelera e purga-se da pressa e do cálculo frio das leis venezianas, transitando de forma suave para o amanhecer. A aurora que rompe no final da cena sela não apenas a harmonia relacional e financeira das personagens, mas consagra o restabelecimento de um tempo natural, cíclico e humano, curado da rigidez matemática que quase destruiu a vida do mercador.