Português

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Desconstruindo o exame nacional de Português 2026 - 2.ª fase: Pergunta 1 do Grupo I

Pergunta: No Poema 1, quanto à relação do sujeito poético com as palavras, verifica-se uma
                 oposição entre dois tempos: o presente («agora», vv. 1 e 15) e o passado («durante
                 muitos anos», v. 11).
                Refira duas alterações sentidas pelo sujeito poético na sua relação com as palavras.
Passo 1: O "Raio-X" ao Enunciado

  1. O Limite de Pesquisa (Onde?): O enunciado restringe a nossa análise apenas ao Poema 1 ("Agora as palavras", de Eugénio de Andrade).
  2. O Verbo de Comando (O que fazer?): "Refira" Regra: O aluno deve identificar e expor de forma clara a informação pedida. Não é necessário fazer uma análise literária complexa às figuras de estilo, basta apontar a realidade e prová-la com o texto.
  3. A Quantidade (Quantas?): Exigem-se exatamente "duas alterações". Dar apenas uma garante um corte drástico na cotação; dar três é perda de tempo e risco de erro.
  4. A Condição Obrigatória: O enunciado dá uma "pista" que é, na verdade, uma exigência. A pergunta fala numa "oposição entre dois tempos". Logo, para explicar uma "alteração", o aluno não pode focar-se só no agora. Tem obrigatoriamente de construir a sua resposta em espelho: mostrar como era no passado e contrastar com como é no presente.
Passo 2: A Recolha de Dados

  • Recolha para a Alteração 1:
    • Passado: Logo no primeiro verso, quando o poeta diz que as palavras lhe obedecem "agora muito menos", o aluno deduz logicamente que, no passado, elas lhe obedeciam e eram fáceis de dominar.
    • Presente: Agora, elas revoltaram-se. O poeta diz que elas «resmungam», «não fazem caso» e «não respeitam a minha idade».
  • Recolha para a Alteração 2:
    • Passado: O aluno lê a partir do verso 11 e encontra a tal harmonia. No passado, as palavras «gostaram» dele, «dançavam» à sua roda e até davam sentido à sua vida, pois com elas «sustentava os meus dias».
    • Presente: Hoje em dia, a relação azedou. Elas tornaram-se «ariscas» (fogem "por entre as mãos") e estão agressivas, pois «arreganham os dentes» se ele as tenta prender.
Passo 3: A Construção da Resposta

A regra de ouro para garantir os 13 pontos (Nível 5) é usar conetores lógicos ("Por um lado", "Por outro lado") para separar inequivocamente as duas alterações, e dentro de cada uma usar marcadores temporais ("No passado...", "No presente...") para evidenciar a oposição pedida.


Resposta:

    Na sua relação com as palavras, o sujeito poético evidencia duas grandes alterações assentes num forte contraste entre o passado e o presente.

    Por um lado, verifica-se uma mudança acentuada ao nível da obediência e do controlo. Se no passado as palavras se submetiam facilmente ao "eu", no presente, estas tornaram-se rebeldes, ignorando-o, pois «não fazem / caso do que lhes digo» (vv. 3-4), e escapando-se-lhe «por entre as mãos» (vv. 16-17).

    Por outro lado, nota-se uma alteração radical ao nível da harmonia e do afeto. Durante muitos anos, a relação era pautada pela felicidade e era vital para o sujeito poético, já que as palavras «dançavam» à sua roda e com elas «sustentava os meus dias» (vv. 12-15); no entanto, hoje em dia, elas mostram-se zangadas e hostis, numa manifestação de revolta ilustrada no momento em que «arreganham os dentes» (v. 17).

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Análise de O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos

 I. Vida de José Mauro de Vasconcelos


II. Obras


III. Obra


IV. Época


V. Ação

        1. Resumo

        2. Estrutura

        3. Resumo dos capítulos

                3.1. Primeira parte

                        3.1.1. Primeiro capítulo

                        3.1.2. Segundo capítulo

                        3.1.3. Terceiro capítulo

                        3.1.4. Quarto capítulo

                        3.1.5. Quinto capítulo

                3.2. Segunda parte

                        3.2.1. Primeiro capítulo

                        3.2.2. Segundo capítulo

                        3.2.3. Terceiro capítulo

                        3.2.4. Quarto capítulo

                        3.2.5. Quinto capítulo

                        3.2.6. Sexto capítulo

                        3.2.7. Sétimo capítulo

                        3.2.8. Oitavo capítulo

                        3.2.9. Último capítulo


VI. Análise dos capítulos

        1. Título da 1.ª parte

        2. Capítulo I

                2.1. Título

                2.2. Ação

                2.3. Caracterização das personagens

                        a) Zezé

                        b) Totoca

                        c) Mãe

                        d) Tio Edmundo

                        e) Pai de Zezé

                2.4. Espaço

                2.5. Tempo

                2.6. Narrador

                2.7. Simbologia

                2.8. Temas

        3. Capítulo II

                3.1. Título

                3.2. Ação



O tempo do capítulo I (1.ª parte) de O Meu Pé de Laranja Lima

 
a) Tempo da ação
 
● O tempo cronológico do capítulo é linear, acompanhando um período muito curto – parte de um dia –, em que Zezé passeia com Totoca pela rua, aprende a atravessar a estrada Rio-São Paulo, questiona, recorda a canção da mãe, recorda como aprendeu a ler sozinho e ouve do irmão a explicação sobre a mudança de casa.
 
● Os eventos são apresentados segundo uma sequência cronológica: saída de casa caminha atravessamento da estrada diálogo memórias regresso a casa.
 
● Embora não existam referências exatas / concretas a datas, existem indícios (carroças, lampião de petróleo, falta de luz elétrica) que remetem para as décadas de 1920 ou 1930.
 
b) Tempo do discurso
 
● O capítulo é caracterizado por uma alternância entre o presente narrativo (a voz da memória) e o passado (daí o recurso ao pretérito perfeito e imperfeito) da infância, recordado pelo narrador.
 
● O discurso é fragmentado, isto é, a narração cronológica é cortada por analepses. Por exemplo, o diálogo entre os irmãos, enquanto caminham pela rua, é interrompido pela memória da mãe a lavar a roupa. Mais tarde, ocorre novo recuo no tempo, nova analepse, para dar conta que Zezé deu a entender, há alguns dias, ao tio Edmundo que sabia ler. Esta ausência de linearidade do discurso mostra o modo como a memória infantil emerge aos saltos, consoante os pensamentos do narrador-personagem.
 
 
c) Tempo histórico
 
● A narrativa decorre no Brasil do início do século XX, provavelmente algures nas décadas de 1920 ou 1930, como se pode depreender dos seguintes dados:
- a mãe de Zezé lava roupa para famílias ricas, uma tarefa desempenhada por mulheres que habitavam em bairros suburbanos da época;
- as referências a carroças ou ao lampião de petróleo, substituto nos casos de ausência de eletricidade, e à precariedade de infraestruturas urbanas;
- a estrada Rio-São Paulo, símbolo do início de uma ligação moderna entre cidades, começou a ser construída nos anos 20 do século XX;
- as questões do desemprego do pai de Zezé, das dívidas da família e a luz cortada retratam a vulnerabilidade das classes trabalhadoras urbanas nesse período;
- as referências ao Moinho Inglês e a “Mister Scottfield” constituem marcas da presença de empresas estrangeiras no Brasil.
 
● Por outro lado, ao longo do capítulo, são identificáveis traços característicos do Brasil da época:
- as desigualdades e os contrastes sociais: famílias ricas, patrões estrangeiros, operários, trabalhadores domésticos;
- a infância pobre não tem direitos nem proteção social;
- a existência de trabalho infantil (Totoca ajuda na missa para ganhar uns trocados).
 
d) Tempo psicológico
 
● O tempo psicológico é o tempo subjetivo, o modo como o narrador-personagem vive o tempo no seu interior (as memórias, as emoções, os pensamentos).
 
● O tempo psicológico flui sem uma ordem cronológica rígida: enquanto os dois irmãos caminham, Zezé «viaja» pelo passado (a recordação da mãe a lavar no tanque), pelo sonho (Raio de Luar) ou por dentro de si (o canto interior).
 
● A recordação da canção de marinheiro prolonga-se muito mais na mente do que no tempo real, mostrando como a memória afeta a duração dos eventos na narrativa.
 
● Por outro lado, o tempo psicológico é um tempo sensível, fragmentado, marcado por uma tristeza difusa que Zezé não compreende. É o «espaço» onde a criança se defende da realidade dura e cruel através da imaginação (o canto, o sonho, o cavalo Raio de Luar).
 

O espaço do capítulo I (1.ª parte) de O Meu Pé de Laranja Lima

 
a) Espaço físico
 
i) O bairro e a rua
 
● A ação decorre num bairro pobre do Rio de Janeiro, concretamente o bairro de Bangu.
 
● Um dos espaços geográficos ocupado pelas personagens é a rua, um espaço aberto que possibilita alguma liberdade física a Zezé: nela, anda de mãos dadas com Totoca, aprende a atravessar a estrada Rio-São Paulo, observa o que o rodeia, faz perguntas.
 
● A rua é um espaço real, concreto, quotidiano, que ganha uma dimensão simbólica, visto que é nela que Zezé aprende a vida fora de casa.
 
● Outro espaço focado é a estrada Rio-São Paulo, caracterizada por um trânsito intenso que representa grande período, por isso Zezé tem que aprender a atravessá-la.
 
● Há ainda referência ao quintal da casa do Tio Edmundo e ao cesto de roupa suja, espaços domésticos concretos, mas são apenas produto da evocação por meio da memória, não cenário de ação.
 
ii) A casa da família
 
● O espaço doméstico surge, no primeiro capítulo, em retrospetiva, através da memória de Zezé, nomeadamente o tanque onde a mãe lava roupa para ganhar dinheiro, o quintal onde se apanha goiaba, o cesto de roupa onde a criança escondeu os óculos do Tio Edmundo.
 
● Esses espaços interiores estão associados à rotina dura, à disciplina (sovas), mas também à música (a canção da mãe).
 
● A casa é um espaço de regras e de repressão.
 
● Em suma, trata-se de um espaço humilde, suburbano, pobre, caracterizado por um quotidiano onde natureza e cidade se misturam.
 
b) Espaço psicológico
 
i) O interior de Zezé
 
● O capítulo dá-nos conta do universo interior do narrador: é nele que existe o passarinho que canta por dentro, quando não pode cantar em voz alta.
 
● É um espaço de imaginação viva: Zezé inventa um cavalinho de pau chamado Raio de Luar, sonha ser um poeta com gravata de laço, recorda as canções da mãe como se fossem um refúgio.
 
● O espaço psicológico vai para além da rua, projetando-se no passado (a mãe a lavar a roupa) e no futuro (o sonho de ser poeta).
 
ii) O refúgio contra a dura realidade
 
● Zezé sofre violência física, por isso encontra refúgio e proteção dentro do mundo que cria, um refúgio contra a violência e a repressão doméstica.
 
● O próprio evento de aprender a ler sozinho é mais psicológico do que físico, visto que constitui uma proeza do imaginário infantil, um «milagre» que ninguém explica.
 
iii) Conflito interno
 
● Zezé oscila entre a curiosidade e o medo, a alegria e a tristeza, o orgulho e a vergonha.
 
● Quando recorda a canção da mãe, sente uma tristeza profunda, mas não sabe explicar a razão desse sentimento.
 
● No momento em que Totoca o ameaça, sente vergonha.
 
c) Espaço social
 
i) A pobreza
 
● Zezé vive num bairro pobre e faz parte de uma família igualmente pobre: a família deve oito meses de renda, a luz foi cortada por falta de pagamento.
 
● A mãe trabalha como lavadeira para casas de família (neste caso, a do Dr. Faulhaber), Totoca ajuda na missa para conseguir uns trocos.
 
● O pai está desempregado, o que constitui um peso que recai sobre todo o resto da família.
 
● A pobreza extrema leva a família a mudar de casa, para evitar ser despejada.
 
ii) Estrutura familiar
 
● A família de Zezé é numerosa e pobre, com um pai ausente (ou impotente) e uma mãe sobrecarregada de trabalho.
 
● Sobre Zezé recai uma autoridade rígida: palmadas, repreensões, vigilância por parte das irmãs.
 
● Totoca assume a função de tutor: a ausência de estruturas formais (família, escola) faz com que os irmãos mais velhos eduquem os mais novos.
 
iii) Desigualdade familiar
 
● Personagens como o Dr. Faulhaber ou Mister Scottfield, o «patrão», representam a elite, classes social e economicamente privilegiadas.
 
● O tio Edmundo, agora aposentado, simboliza alguém que trabalhou a vida inteira e, atualmente, vive de um pequeno rendimento atribuído pelo Estado, contrastando com o pai de Zezé, que está desempregado e incapaz de contribuir para o sustento da família.
 
● A rua é um espaço de desigualdade: na estrada Rio-São Paulo, passa todo o tipo de veículo (camiões, automóveis, carroças), no entanto a família de Zezé mal tem como se deslocar.
 

Caracterização do pai de Zezé (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização psicológica
 
● Vive frustrado e apático por estar desempregado.
 
● Manifesta pouca paciência relativamente a Zezé, castigando-o pelas suas travessuras.
 
ii) Caracterização social
 
● Desempregado, sente-se humilhado pela pobreza e pelo facto de ser a esposa a sustentar a casa.
 
● É uma figura de autoridade distante, dura e cansada.
  

Caracterização do Tio Edmundo (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização física
 
● Não é um parente biológico de Zezé, mas faz parte da vida da família, assumindo o papel semelhante ao de um tio.
 
● É um homem velho e reformado, de cabelo branco e óculos na ponta do nariz, que passa o seu tempo acompanhando Dindinha.
 
● Fala pausadamente, lê o jornal, adotando a postura de quem já não participa ativamente no mundo do trabalho.
 
ii) Caracterização psicológica
 
● Para Zezé, é um “sábio”, uma referência intelectual que admira pelo seu conhecimento.
 
● É visto pela família como “meio trongola”, meio excêntrico ou «maluco», porém, para o narrador, é o portador de uma sabedoria encantadora.
 
● Velho e separado da mulher, vive sozinho, apesar de ter cinco filhos, que não o visitam.
 
iii) Caracterização social
 
● Está aposentado: recebe pensão da Câmara Municipal.
 
● De condição modesta, é visto como «sábio» e respeitado por Zezé.
 
● É um transmissor de cultura: não sendo professor, é um mestre involuntário.
 

Caracterização da Mãe (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização física
 
● É alta, magra, mas muito bonita, e tem a pele queimada pelo sol.
 

● Os seus cabelos são pretos, lisos e longos, caindo até à cintura.

 
● Usa um lenço na cabeça para se proteger do sol e um avental na cintura enquanto lava.
 
● A sua imagem surge associada ao tanque de lavar a roupa: as mãos na água, o sabão, a espuma e o estendal.
 
ii) Caracterização psicológica
 
● Reprime Zezé, mas não de forma tão dura como outros membros da família.
 
● Demonstra o seu afeto não por palavras, mas através de pequenos gestos, como, por exemplo, cantar para o filho enquanto trabalha.
 
● A canção que cantava ficou gravada no íntimo de Zezé como símbolo de consolo e memória afetiva.
 
iii) Caracterização social
 
É uma mulher do povo, casada, com vários filhos.
 
É uma mulher trabalhadora: sustenta a casa e a família com o escasso produto do seu trabalho – lava a roupa da família do Dr. Faulhaber.
 
Vive condicionada pelas circunstâncias: o marido está desempregado, as contas atrasadas, a luz cortada.

sábado, 11 de julho de 2026

Na aula (LXX): D. Duarte contra o assassino da língua

Texto de aluno

    A resposta que se reproduz pertence, naturalmente, a um aluno do 12.º ano, que respondia a uma pergunta sobre um poema de Mensagem sobre a figura do rei D. Duarte.
    Lida a resposta, imagina-se o desgraçado do monarca a revolver-se na tumba, confuso consigo mesmo e o seu reinado. 
    Há quem considere de extrema dificuldade a interpretação dos textos de Fernando Pessoa, porém este texto supera largamente tudo o que de mais hermético o poeta lisboeta escreveu na sua relativa curta vida. Solicita-se, urgentemente, um exegeta...

Na aula (LXIX): O eclipse gramatical


    A criatura humana queria escrever elipse, mas... estava um dia solarengo e quente. Foi isso...

Apreciação crítica de O Amante, de Marguerite Duras

    A obra O Amante (1984), que rendeu a Marguerite Duras o prestigiado Prémio Goncourt e se tornou um fenómeno literário mundial, não é apenas um sucesso de vendas, mas um divisor de águas na narrativa do século XX. Trata-se de uma obra que desafia categorizações rígidas, inserindo-se no território híbrido da autoficção, um espaço onde o pacto autobiográfico se funde irremediavelmente com a invenção romanesca. Ao recusar as amarras do memorialismo cronológico e do realismo burguês, Duras reconstrói o seu passado na Indochina colonial através de uma poética da memória e do desejo. 
    Em O Amante, a memória não é um depósito passivo de factos, mas sim um fluxo errático e imprevisível. A narrativa constrói-se sobre uma temporalidade não-linear, operando através de saltos, retrocessos e sobreposições. O tempo do relato é o tempo do trauma e da lembrança, onde o presente da mulher idosa, já com o seu "rosto devastado", se sobrepõe ao passado da jovem de quinze anos e meio. A estrutura do livro gravita em torno do que a crítica literária tem vindo a designar como um "álbum fotográfico sem fotografias". O núcleo do romance é uma imagem absoluta que nunca foi registada fisicamente por uma câmara: o momento inaugural da travessia do rio Mekong na barcaça, quando a protagonista e o amante chinês se cruzam pela primeira vez. A ausência do suporte físico da fotografia é colmatada pela própria linguagem, demonstrando que o ato de narrar em Duras serve para conferir visibilidade àquilo que se perdeu ou foi silenciado pela história. O rio Mekong atua como uma metáfora dupla: representa tanto o fluir incontrolável da memória como a imobilidade paralisante do trauma.
    Estilisticamente, a obra assinala o apogeu do que a própria autora chamou de "escrita corrente" (écriture courante). O texto é pautado por um minimalismo extremo, frases curtas, parataxe (ausência de subordinação) e, sobretudo, por uma engenharia sofisticada de repetições. A reiteração sistemática de sonoridades, palavras e frases atua como uma estrutura de sustentação num enredo propositadamente esburacado, criando uma musicalidade ofegante que mimetiza a respiração e a pulsação do corpo que é marcado pelo desejo. Além das pausas e dos silêncios, que funcionam ativamente como operadores de sentido, o romance caracteriza-se por uma profunda instabilidade enunciativa. A narradora oscila continuamente entre a primeira pessoa ("eu") e a terceira pessoa ("ela", "a criança", "a jovem branca"). Esta clivagem pronominal traduz uma crise do sujeito e da identidade: a narradora desdobra-se, observando-se a si mesma com um distanciamento quase cinematográfico, o que reforça o carácter autoficcional do texto ao desconstruir a ilusão de um "eu" unitário.
    Outra questão abordada pela obra centra-se no sublime feminino e a na subversão dos papéis de género. Na filosofia tradicional, o conceito de sublime estava frequentemente associado ao masculino (o transcendente, o ilimitado), enquanto ao feminino restava o domínio do "belo" (o finito, o doméstico). Duras opera uma revolução conceptual ao erigir um "sublime feminino", no qual a experiência do limite e do absoluto se funde intrinsecamente com a carne e com o corpo. Neste espaço, a jovem recusa a passividade e assume uma agência transgressora. A sua identidade é cristalizada logo no início através de uma indumentária altamente simbólica: um vestido de seda usado, sapatos em lamê dourado e um insólito chapéu masculino de feltro rosa. A apropriação deste chapéu de homem num corpo infantil subverte as expectativas patriarcais, convertendo a sua fragilidade num instrumento consciente de sedução e de poder. A iniciação sexual não é descrita com romantismo dócil, mas como uma torrente incontrolável, um ato de vontade em que ela impõe os seus termos, dominando a situação do princípio ao fim.
    Duras aborda, igualmente, a temática das assimetrias coloniais. Assim, a paixão clandestina em O Amante é indissociável da violenta teia de opressão racial e de classe que estrutura a Indochina dos anos 1920. O romance expõe um retrato impiedoso das hierarquias coloniais, operando uma inversão radical das dinâmicas tradicionais de poder na relação entre o casal. Por um lado, o amante possui a riqueza e o estatuto de herdeiro capitalista, provendo o sustento que salva a família francesa da miséria. Contudo, ele é profundamente marginalizado pela sua raça e encontra-se subjugado à vontade de um pai tirânico e tradicionalista. A sua fragilidade é exposta não só socialmente, mas também fisicamente: ele chora, é descrito como imberbe, fraco e submisso perante o amor. Por outro lado, a jovem pobre, protegida pelo prestígio simbólico e pela arrogância da sua "branquitude", exerce uma soberania inabalável. O clímax desta tensão ocorre nos infames jantares nos restaurantes mais luxuosos, onde a família branca devora banquetes pagos pelo amante, mas recusa-se a olhar para ele ou a dirigir-lhe a palavra, aplicando-lhe a violência suprema da invisibilidade e do racismo estrutural.
    O refúgio no desejo erótico surge, fundamentalmente, como uma estratégia de evasão e de corte com um núcleo familiar doente. A narrativa familiar de Duras é quase trágica, dominada por uma mãe exausta que sucumbe à loucura após o desastre financeiro de investir em terras constantemente inundadas pelo Pacífico. O ambiente é agravado pela tirania silenciosa de um irmão mais velho violento (por quem a mãe nutre uma predileção patológica e até incestuosa) e pelo amor desesperado ao irmão mais novo, que acabará por morrer tragicamente. A travessia na barcaça e a entrada na luxuosa limusina preta figuram como verdadeiras "experiências de limiar" ou ritos de passagem irreversíveis. A jovem aceita mergulhar na infâmia da colónia, transformando-se num corpo "prostituído" aos olhos das restantes famílias brancas, mas garantindo, com isso, a sua emancipação mental e física.
    O Amante é uma obra que provoca um necessário desconforto no leitor. Longe das facilidades do melodrama ou do psicologismo explicativo, Marguerite Duras transforma a matéria brutal do trauma e do vazio familiar numa experiência poética de alto calibre. Ao fazer colidir a lucidez impiedosa, as tensões raciais do colonialismo e a força absoluta do desejo, afirma-se como um marco incontornável de como a linguagem, nas suas falhas, ecos e silêncios, pode circunscrever e redimir as zonas mais insondáveis da existência humana.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Terá-la-á: pena efetiva de prisão para o assassino da língua


    Cá estamos mais uma vez no Inferno do assassinato, sem dó nem piedade, da língua portuguesa.
    Quem é professor já ouviu milhares de vezes, passe a hipérbole corriqueira, afagos como «fizestesio», «terala», «compraria-o», etc., provenientes na boca e das falanges dos alunos.
    Qual o espanto, portanto, ao encontrar peças como a exposta nesta imagem, na qual um jornalista (?) do "Correio da Manhã" escreve alegremente «terá-la-á»? Zero! Nenhum! Bola!

    Existem duas formas corretas de produzir essa frase, dependendo da ênfase pretendida:
    1. uso da próclise: no contexto da frase, a conjunção "que" ("...relata que Maria Lisboa...") atrai o pronome para antes do verbo. Assim, a forma correta e mais fluida é: "a terá perseguido".
    2. uso da mesóclise: se o objetivo fosse manter a mesóclise (embora o "que" a desencoraje aqui), a regra dita que o pronome se insere entre o infinitivo do verbo e a terminação. Para o verbo "ter", conjugado no futuro, a forma correta seria: "tê-la-á" (ter + la + á). Neste caso, dá-se a queda do /r/ e a acentuação da sílaba /tê/
    Assim sendo, o trecho correto deveria ser: "...a ex-agente relata que Maria Lisboa a terá perseguido, agredido e ainda vandalizado...".

Autópsia a um texto mal pontuado

    A notícia reporta um acontecimento trágico e nada dado a humor. Já o texto redigido e publicado é um hino à ignorância no que diz respeito à pontuação.

    Passemos à sua identificação e correção:
        1. Falta de vírgula a seguir a "De imediato".
            - Errado: "De imediato foram acionados...".
            - Correto: "De imediato, foram acionados...".

        2. Falta de vírgula antes de "que ali chegaram".
            - Errado: "para o local que ali chegaram...".
            - Correto: "para o local, que ali chegaram...".
            - Nota: a vírgula justifica-se, porque estamos na
                         presença de uma oração subordinada
                         adjetiva relativa explicativa, que é sempre
                                                                 isolada por vírgula.

 
        3. Falta de vírgula em "No local, além da PSP esteve também...".
            - Errado: "... No local, além da PSP estiveram também...".
            - Correto: "No local, além da PSP, estiveram também...".

        4. Falta de vírgula no penúltimo parágrafo:
            - Errado: "A área está agora interdita para investigação que deverá ser entregue, 
                              entretanto, à Polícia Judiciária...".
            - Correto: "A área está agora interdita para investigação, que deverá ser entregue, 
                                entretanto, à Polícia Judiciária...".
            - Nota: a oração relativa é explicativa e deve ser isolada por vírgula.
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