A experiência do tempo em António é marcada, desde o início, por uma melancolia profunda e inexplicável que arrasta e obscurece o seu presente. Para o mercador, o tempo interior parece desprovido de dinamismo ou expectativa; ele caminha com uma resignação apática que se acentua drasticamente quando o contrato com Shylock se aproxima do vencimento. Sob a iminência do sacrifício da libra de carne, o tempo psicológico de António desacelera até se transformar num lento e sombrio compasso de espera pela morte. No tribunal, enquanto os outros se agitam em discussões inflamadas, António vivencia um tempo de absoluta estagnação interior, caracterizando-se a si próprio como uma ovelha doente destinada ao abate, cuja única pressa é que o veredicto se cumpra rapidamente para abreviar o sofrimento do seu amigo Bassânio.
Em oposição a este torpor melancólico, Bassânio e Pórcia experimentam um tempo psicológico febril, acelerado pela ansiedade do desejo e pela angústia da escolha. Na cena dos cofres em Belmonte, a discrepância entre o tempo do relógio e o tempo do coração atinge o seu auge dramático. Pórcia, movida pelo pânico de perder o seu amado caso este selecione o cofre errado, suplica-lhe que adie a decisão por um ou dois meses, tentando esticar desesperadamente o presente para prolongar a convivência mútua. Para ela, o tempo da espera é um refúgio precioso que urge dilatar. No entanto, para Bassânio, a suspensão da escolha é descrita como uma tortura intolerável; ele sente-se como se estivesse no potro de suplício, onde cada segundo de incerteza equivale a uma agonia prolongada. O seu tempo psicológico está de tal forma comprimido pela paixão que ele exige submeter-se ao teste de imediato, incapaz de habitar a lentidão angustiante que Pórcia lhe propõe.
Por sua vez, o tempo interior de Shylock é governado por uma contabilidade obsessiva e rancorosa, onde cada hora é medida pelo peso do ressentimento. O prazo de três meses do contrato é vivido pelo credor como uma contagem decrescente em que a paciência forçada acumula ódio. Após a fuga de Jéssica, que lhe rouba os bens e a memória familiar, o tempo psicológico de Shylock fragmenta-se numa alternância caótica entre a dor da traição e a fúria da vingança. No tribunal, ele demonstra uma impaciência inflexível, afiando a faca com pressa na sola do sapato; para ele, a justiça não pode tardar e qualquer tentativa de atrasar o julgamento ou de apelar à clemência é recebida como um desperdício de tempo que adia o seu triunfo moral sobre o inimigo cristão.
Finalmente, Belmonte surge como o espaço privilegiado de suspensão e pacificação do tempo psicológico. No jardim noturno, sob a claridade do luar, os amantes Lourenço e Jéssica transcendem a urgência diurna de Veneza através da contemplação lírica e da escuta da música. Ali, o tempo interior liberta-se da ansiedade e expande-se numa atmosfera mística e quase intemporal. Mesmo quando o enredo introduz a comédia dos anéis, provocando uma aceleração momentânea do pulso dos maridos confrontados com a sua suposta infidelidade e o fingido ultraje das esposas, trata-se de um jogo lúdico que é rapidamente desarmado. Com o despontar da aurora e a revelação dos disfarces, o tempo psicológico das personagens é plenamente curado e harmonizado, deixando para trás a angústia dos prazos de Veneza para abraçar a leveza e a renovação de um novo dia fundado na verdade e na cumplicidade.
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