A nível físico, embora não exista uma descrição visual direta de Nerissa, a sua vivacidade e o seu papel ativo no castelo sugerem uma jovem enérgica, elegante e de presença agradável, perfeitamente integrada na refinada corte de Belmonte. Ela própria refere-se com humildade e modéstia aos seus olhos como sendo ignorantes ao comparar os homens que já conheceu, o que revela uma postura recatada, mas ao mesmo tempo muito atenta ao mundo que a rodeia, sugerindo que a sua presença se destaca mais pela expressão e pela agudeza do seu olhar do que por atributos puramente ornamentais.
No plano social, Nerissa ocupa a posição de dama de companhia e confidente íntima de Pórcia. Longe de ser uma mera serva submissa, ela desfruta de uma relação de grande cumplicidade, proximidade e liberdade de expressão com a sua senhora, a quem trata com profundo respeito, mas com quem partilha confidências e reflexões filosóficas. O seu estatuto confere-lhe acesso direto aos segredos da casa, aos meandros do testamento do falecido pai de Pórcia e às intenções e movimentações dos pretendentes que visitam o castelo, funcionando como uma ponte de comunicação indispensável e como a gestora prática do quotidiano de Belmonte.
No plano psicológico-moral, Nerissa destaca-se como uma mulher dotada de um excelente senso prático, equilíbrio e profunda sabedoria. É uma defensora acérrima da moderação, sustentando que a verdadeira felicidade reside na mediania e que os excessos — tanto da riqueza como da pobreza — são prejudiciais, lembrando ainda que as belas máximas têm mais valor quando são vividas do que quando são apenas proferidas. Além disso, revela uma natureza consoladora, leal e profundamente piedosa, defendendo a memória e a virtude do falecido pai de Pórcia e confortando-a com a convicção de que o teste dos três cofres foi inspirado por uma sabedoria divina que acabará por lhe trazer o homem ideal. Nerissa mostra-se também uma observadora perspicaz e com uma sensibilidade romântica apurada, demonstrando uma excelente memória ao recordar de forma elogiosa o jovem Bassânio como um homem instruído e valente, identificando-o prontamente como o mais digno do amor da sua senhora e revelando-se uma aliada silenciosa mas indispensável para a sua futura felicidade.
A sua atuação enquanto confidente é muito relevante. Sentindo-se exaurida e melancólica devido à constante e sufocante receção de pretendentes que disputam a sua mão, Pórcia desabafa com a sua confidente, Nerissa. Esta procura confortá-la recorrendo à filosofia moral da mediania, argumentando que a verdadeira felicidade reside no equilíbrio e na temperança, visto que a abundância exagerada traz tantas aflições como a extrema miséria, e o supérfluo apressa o envelhecimento, ao passo que o bem-estar moderado prolonga a existência. Pórcia reconhece a beleza destas máximas, mas contrapõe de forma muito realista sobre a fragilidade da natureza humana perante os desejos, sublinhando que é infinitamente mais fácil ensinar aos outros o caminho da retidão do que praticar os próprios conselhos. Na sua perspetiva, a razão humana dita leis frias aos sentidos, mas a juventude impetuosa comporta-se como uma lebre audaz que salta com facilidade sobre as redes impotentes da razão. A grande angústia existencial de Pórcia reside na total anulação do seu livre-arbítrio para decidir o seu próprio destino amoroso. Ela lamenta com amargura o facto de a vontade de uma filha viva estar irremediavelmente subjugada aos preceitos e ao testamento de um pai já falecido, o que a impede de escolher o homem que lhe agrada ou de rejeitar aquele que lhe desperta aversão. Nerissa, contudo, defende a memória e a virtude do falecido progenitor, lembrando que os homens virtuosos costumam ter boas inspirações no momento da morte. Ela assegura que o teste por ele concebido — a lotaria dos três cofres de ouro, prata e chumbo — funciona como um filtro de discernimento espiritual que garantirá que apenas o homem verdadeiramente digno e predestinado conseguirá escolher o cofre correto. O número três assume aqui um profundo simbolismo de provação moral e totalidade, dividindo as escolhas humanas entre a ambição material do ouro, a vaidade do mérito próprio da prata e o despojamento e aceitação do risco absoluto representados pelo humilde chumbo, que encerra em si a verdadeira essência do amor incondicional.
Para aliviar a melancolia da sua senhora, Nerissa propõe um jogo e começa a nomear os pretendentes que se encontram no castelo, permitindo que Pórcia os analise com uma inteligência brilhante e um humor satírico implacável que ridiculariza os estereótipos das nações europeias. O primeiro avaliado é o príncipe napolitano, a quem Pórcia descreve como um jovem pretensioso que apenas sabe falar do seu cavalo e gaba-se de o ferrar pessoalmente, ironizando que a sua mãe poderá ter tido amores com um ferrador. Segue-se o conde palatino, caracterizado por uma tristeza e rigidez melancólica estéreis, pois ouve as histórias mais divertidas sem esboçar um único sorriso; Pórcia confessa que preferiria casar-se com uma caveira com um osso na boca do que desposar um homem tão sombrio que parece carregar o peso do mundo. O fidalgo francês, Monsieur Le Bon, é satirizado como uma caricatura sem personalidade própria, que tenta imitar e agradecer os piores hábitos de todos os outros; ele move-se por impulsos erráticos, sendo capaz de dançar ao ouvir o canto de um melro ou de esgrimir contra a sua própria sombra, o que para Pórcia equivaleria a casar com vinte maridos diferentes.
O barão inglês, Falconbridge, embora seja descrito como uma bonita estampa de homem, revela-se uma estátua muda devido a uma barreira linguística intransponível, uma vez que não domina o latim, o francês ou o italiano, impossibilitando qualquer comunicação inteligível. Pórcia ridiculariza também o seu vestuário excêntrico e bizarro, que mistura peças compradas de forma dispersa em Itália, França e Alemanha, revelando uma total ausência de identidade própria. O lorde escocês é ironizado pela sua passividade e aparente cobardia ao tolerar uma bofetada do inglês com a mera promessa de uma retribuição futura, tendo o fidalgo francês como fiador fictício dessa vingança. Por fim, o jovem alemão, sobrinho do duque de Saxe, é retratado como um bêbado detestável que se comporta um pouco menos do que um homem quando está sóbrio pela manhã, e pouco melhor do que um animal irracional quando se encontra ébrio à tarde. Para evitar a desgraça de se casar com uma esponja desprovida de vontade, Pórcia planeia sabotar a sua escolha ao pedir a Nerissa que coloque um grande copo de vinho sobre o cofre errado, sabendo que ele não resistirá à tentação sensorial.
A tensão dissipa-se temporariamente quando Nerissa anuncia que todos estes pretendentes decidiram regressar às suas terras sem realizar o teste, por se recusarem a submeter às regras estritas do testamento. Aliviada por esta partida espontânea, Pórcia reafirma a sua integridade moral e determinação em cumprir a vontade paterna, jurando que, mesmo que viva até à idade avançada da profética sibila, preferirá morrer tão casta como a deusa Diana a aceitar dar a sua mão por qualquer outra via que não seja o método legítimo. É neste momento de cumplicidade íntima que Nerissa recorda a antiga visita de Bassânio, um veneziano instruído e valente que acompanhara o marquês de Montferrato, identificando-o prontamente como o mais digno do amor de uma formosa donzela. Pórcia confirma a lembrança com entusiasmo e doçura, concordando que ele é inteiramente merecedor de todos os elogios.
A atmosfera de recolhimento e esperança é subitamente quebrada pela entrada de um criado, que precipita uma aceleração no tempo da ação. O criado informa que os quatro estrangeiros pedem audiência para se despedirem e anuncia a chegada iminente de um novo pretendente, o príncipe de Marrocos, que deverá chegar essa tarde. Confrontada com esta nova visita, Pórcia exterioriza os preconceitos raciais e estéticos da sua época ao declarar que, mesmo que o recém-chegado possua as qualidades morais de um santo, se tiver a aparência escura de um demónio, ela preferirá tê-lo como confessor do que como marido. Com esta afirmação que salienta a constante e implacável pressão temporal a que está sujeita, a cena termina com a saída de todas as personagens, deixando o público expectante perante os desafios e provações que se avizinham no teste dos cofres.
Na cena IX do ato II, Nerissa, apesar de ter uma participação verbal contida, revela-se uma figura fulcral na engrenagem de Belmonte, acumulando as funções de administradora prática do palácio, confidente íntima e aliada romântica de Pórcia. Logo na abertura da cena, assume uma postura de liderança organizacional e eficiência, comandando ativamente as ações de um criado para que este prepare o cenário com rapidez antes da entrada da corte. Ao ordenar que se corra a cortina para revelar os cofres e ao assinalar que o Príncipe de Aragão já cumpriu o juramento exigido, ela demonstra um domínio seguro do protocolo solene que rege Belmonte, agindo como a guardiã prática das regras do desafio. Para além da sua competência logística, Nerissa destaca-se como portadora de uma sabedoria popular e de um fatalismo reconfortante. Diante do desfecho irónico da escolha falhada de Aragão, ela responde à reflexão de Pórcia com a citação de um conhecido ditado, segundo o qual o casamento e a mortalha são talhados no Céu. Esta intervenção revela a sua crença profunda de que os caminhos do amor e do matrimónio não dependem do orgulho ou do cálculo racional dos homens, mas sim de um desígnio espiritual superior e do destino predeterminado. Por fim, a sua caraterização completa-se com uma tocante cumplicidade afetiva e lealdade para com Pórcia. No fecho do ato, perante o anúncio entusiástico de um novo e requintado mensageiro veneziano que traz ricas ofertas, Nerissa verbaliza uma prece íntima e cúmplice ao desejar que o senhor desse recém-chegado seja Bassânio. Este desabafo final mostra que ela não só partilha dos segredos sentimentais da sua senhora, como também está emocionalmente investida na sua felicidade, torcendo ativamente para que o teste dos cofres encontre o desfecho romântico que ambas idealizam.
A sua felicidade e o seu futuro estão intrinsecamente ligados aos da sua senhora. O seu noivado com Graciano é estruturado como um espelho exato do enlace principal, tendo Nerissa condicionado a aceitação do casamento ao sucesso de Bassânio no teste dos cofres, o que demonstra uma solidariedade e cumplicidade profundas. Longe de ser uma mera espectadora, manifesta uma alegria calorosa e genuína ao congratular os noivos, provando que o seu afeto por Pórcia ultrapassa a barreira da servidão. No momento da crise, assume-se como uma força de acolhimento prático, sendo encarregue de cuidar e integrar a recém-chegada Jéssica. Por fim, a sua prontidão em aceitar o plano da sua senhora para viver em reclusão temporária enquanto os maridos partem para Veneza sela a sua caracterização como uma companheira inestimável, pronta a partilhar com a mesma fidelidade tanto as celebrações como os sacrifícios da sua senhora.