Lanceloto Gobbo apresenta-se como a figura clássica do bobo ou lacaio cómico da tradição shakespeariana, cuja personalidade é moldada por uma mistura vibrante de ingenuidade, astúcia popular, irreverência e uma tagarelice incessante. Ele funciona como um elemento de leveza e sátira, trazendo para a peça uma perspetiva popular e pragmática que contrasta com as elevadas preocupações aristocráticas e os sombrios pactos financeiros dos seus superiores.
No plano moral e espiritual, é dominado por uma visão do mundo altamente fantasiosa e supersticiosa, expressa na sua célebre batalha interior entre a sua consciência e o demónio. Este debate caricato revela a sua profunda insatisfação no serviço de Shylock, a quem ele não hesita em classificar como a própria encarnação do mal e um diabo em pessoa. A sua decisão de seguir o conselho do demónio e fugir da casa do judeu ilustra o seu pragmatismo voltado para a sobrevivência: para si, a lealdade servil é secundária face ao seu bem-estar físico, justificando a fuga pela penúria extrema a que é sujeito. Ele queixa-se amargamente de que o amo o mata de fome, ao ponto de se poderem contar as suas costelas com os dedos, o que o motiva a procurar a proteção de Bassânio, conhecido por tratar e vestir bem os seus criados.
A relação de Lanceloto com o seu pai, o velho Gobbo, revela um traço de traquinice e gosto pela representação que raia a crueldade inocente. Aproveitando-se da quase cegueira do pai, o jovem lacaio decide pregar-lhe uma partida, baralhando-o com direções intencionalmente absurdas e confusas para a casa do judeu e inventando a sua própria morte. Este "teste" ao afeto do pai, embora gere uma dor temporária no ancião, que via no filho o único sustento da sua velhice, desagua num reencontro cómico e afetuoso, marcado por piadas físicas sobre o seu crescimento e a comparação grotesca do seu cabelo com a cauda de um cavalo de carroça. É também Lanceloto quem assume as rédeas da estratégia familiar, convencendo o pai a desviar o presente de pombos originalmente destinado a Shylock para o oferecer a Bassânio, demonstrando um oportunismo ágil para garantir o seu novo emprego.
Linguisticamente, Lanceloto caracteriza-se pela sua incapacidade de ser direto e pelo uso confuso e pretensioso de palavras difíceis, o que gera uma cacofonia hilariante quando tenta apresentar a sua petição a Bassânio juntamente com o pai. Esta verborreia atabalhoada, repleta de interrupções e mal-entendidos, reflete a sua origem popular, mas também o seu charme natural, que acaba por conquistar Bassânio. Ele celebra a sua nova farda e a sua admissão ao serviço do fidalgo pobre através de provérbios e da leitura popular da palma da mão. A sua prática de quiromancia revela um caráter alegre, vaidoso e imensamente otimista, prevendo com entusiasmo um futuro repleto de casamentos, viúvas, riqueza e fugas milagrosas à morte.
Em suma, Lanceloto Gobbo é um sobrevivente simpático e traquina, que prefere a alegria, a mesa farta e a folia carnavalesca à rigidez puritana do seu antigo amo, representando a vitalidade e a irreverência do povo veneziano.
Na cena III do ato II, Lanceloto é caracterizado como uma figura profundamente afetuosa, sentimental e de grande sensibilidade, cuja partida deixa um vazio imenso na casa de Shylock. Ele revela-se uma personalidade alegre e cativante, sendo descrito por Jéssica como o único elemento capaz de trazer alegria a um lar que ela própria define como um autêntico "inferno". A sua despedida é pautada por uma genuína e avassaladora emoção; chora copiosamente, admitindo de forma comovida que as suas lágrimas são muito mais eloquentes do que as suas próprias palavras e confessando que a dor de partir lhe retira as forças e o ânimo para continuar a falar.
Para além do seu temperamento emotivo, demonstra uma profunda admiração e carinho por Jéssica. Ele tece-lhe elogios de um lirismo tocante, chamando-lhe "linda pagã" e "amável judia", e exalta o valor da jovem ao afirmar que ela seria merecedora de que um cristão cometesse um crime para a obter. Esta forte ligação afetiva é acompanhada por uma relação de extrema confiança mútua. Lanceloto assume voluntariamente o papel de cúmplice e mensageiro clandestino na conspiração amorosa de Jéssica, aceitando a missão de entregar de forma absolutamente oculta uma carta a Lourenço durante a ceia de Bassânio, o seu novo amo. Assim, mesmo despedindo-se daquela casa, age como um elo de ligação vital para a libertação de Jéssica, partindo sob o peso da tristeza mas firme na sua lealdade e afeto para com a jovem.
Na cena IV do segundo ato, apresenta-se nesta cena no seu novo papel de mensageiro e elo de ligação clandestino, caracterizando-se pela sua cortesia, humildade e respeito para com a fidalguia. Dirige-se a Lourenço e aos seus amigos com deferência, pedindo licença para se retirar e apresentando a entrega da carta de forma humilde. Ao mesmo tempo, ele atua como o catalisador involuntário da fuga ao revelar, com simplicidade, a sua tarefa de convidar Shylock para jantar em casa de Bassânio, um pormenor logístico crucial que deixará a casa do judeu desprotegida e livre para o rapto amoroso.
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