Português: Resumo da cena I do ato IV de O Mercador de Veneza

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Resumo da cena I do ato IV de O Mercador de Veneza

    A ação decorre no solene tribunal de Veneza, onde o Doge abre a sessão lamentando o destino trágico de António perante um adversário desprovido de qualquer centelha de compaixão humana, ao passo que o mercador assume uma postura de resignação serena, declarando-se pronto a enfrentar o ódio alheio com paciência estoica. Intimado a justificar a sua recusa obstinada em aceitar o pagamento da dívida — que Bassânio se oferece para liquidar pelo dobro ou triplo do valor —, Shylock rejeita qualquer apelo à razão e à piedade, afirmando que a sua aversão visceral a António obedece a um impulso cego e irreprimível, exigindo a estrita execução da fiança e o cumprimento da lei veneziana que lhe confere o direito a uma libra de carne do corpo do devedor. Perante o impasse e a recusa do credor em ceder, chega ao tribunal uma carta do reputado jurista Belário de Pádua que, justificando a sua ausência por motivo de doença, recomenda calorosamente para o julgamento o jovem doutor Baltasar — identidade assumida em segredo por Pórcia, acompanhada por Nerissa disfarçada de escrivão.
    Ao entrar no tribunal, a jovem jurista começa por proferir um sublime elogio à misericórdia, apresentando-a como um atributo divino que enobrece os reis e eleva a justiça, mas Shylock permanece irredutível, clamando apenas pela letra do contrato e pela condenação da sua vítima. Reconhecendo a validade inquestionável da promissória e a impossibilidade legal de o tribunal revogar um acordo vinculativo sem pôr em causa a estabilidade comercial do Estado, Baltasar rejeita as ofertas financeiras desesperadas de Bassânio e concede a Shylock o direito à execução da dívida, o que leva o agiota a aclamar entusiasticamente o juiz como um novo Daniel dotado de suprema sabedoria. Quando António se prepara para o golpe fatal e se despede de Bassânio — momento em que este último e Graciano proclamam estar dispostos a sacrificar tudo, incluindo as respetivas esposas, para salvar a vida do amigo, provocando comentários irónicos das mulheres disfarçadas —, dá-se a grande reviravolta jurídica: Pórcia adverte o credor de que o contrato lhe concede uma libra exata de carne, mas não lhe atribui uma única gota de sangue nem permite desviar o peso pela espessura de um cabelo; caso derrame sangue cristão ou corte a mais ou a menos, incorrerá na pena de morte e no confisco imediato de todos os seus bens.
    Apanhado na armadilha da sua própria literalidade implacável, Shylock recua e tenta aceitar o dinheiro oferecido por Bassânio, mas Pórcia recusa terminantemente, declarando que quem rejeitou a clemência terá apenas a justiça crua que tanto exigiu. Indo ainda mais longe, a falsa jurista invoca uma lei de Veneza que pune qualquer estrangeiro que atente direta ou indiretamente contra a vida de um cidadão, determinando que metade dos seus bens reverta para a vítima e a outra metade para o Estado, ficando a vida do culpado à mercê do Doge. O governante poupa a vida a Shylock, e António abre mão da sua parte com a condição de que o credor se converta ao cristianismo e lavre em cartório uma escritura legando todo o seu património, aquando da sua morte, à filha Jéssica e a Lourenço. Completamente aniquilado moral e materialmente, Shylock aceita as condições e retira-se queixando-se de indisposição.
    No rescaldo da vitória judicial, o Doge e os fidalgos congratulam calorosamente o suposto magistrado, e Bassânio insiste em recompensá-lo financeiramente pelo seu brilhantismo. Pórcia recusa qualquer pagamento em dinheiro, mas, num ardil destinado a testar a fidelidade do esposo, exige como recordação o anel que este traz no dedo — a mesma joia sagrada que ela própria lhe dera em Belmonte com a promessa solene de nunca a ceder. Embora Bassânio comece por recusar entregar a aliança alegando o valor moral da promessa feita à mulher, acaba por ceder às súplicas comovidas de António, que lhe pede para colocar a dívida de amizade e a salvação da sua honra acima do compromisso conjugal, enviando Graciano com a missão de alcançar o jovem jurista e entregar-lhe o anel.

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