A linguagem na cena de abertura de O Mercador de Veneza destaca-se pela sua extraordinária riqueza metafórica, plasticidade poética e pela constante fusão entre o vocabulário das finanças e o da afetividade. Shakespeare utiliza diferentes registos e estilos retóricos para caracterizar as personagens e estabelecer os contrastes temáticos que guiarão toda a peça.
O diálogo inicial entre Salarino, Salânio e António é dominado por uma linguagem altamente visual, hiperbólica e descritiva. Para expressar a magnitude dos negócios de António, Salarino recorre à personificação das forças da natureza e das próprias embarcações. Os navios mercantes são descritos com termos de nobreza e imponência, sendo chamados de "senhores do oceano" e "orgulhosos" na sua mastreação, enquanto as embarcações mais pequenas são vistas como súbditos humildes que lhes fazem vénias.
A genialidade lírica desta exposição reside na forma como a linguagem transforma gestos domésticos e quotidianos em presságios de catástrofe marítima. O ato de soprar a sopa quente para a arrefecer transforma-se na imagem mental de um vento tempestuoso e destruidor; o olhar sobre a areia a escorrer numa ampulheta evoca de imediato os baixios arenosos e o naufrágio simulado de um navio que "beija a sua sepultura"; a visão das pedras de mármore de uma igreja evoca os rochedos perigosos que podem despedaçar as embarcações. Esta acumulação de imagens marinhas cria uma atmosfera de constante risco e suspense, onde a opulência e a miséria extrema estão separadas apenas pela fragilidade de uma tábua de madeira sobre as ondas.
Em forte contraste com a expansão poética e ansiosa dos seus companheiros, a linguagem de António é caracterizada pela sobriedade, contenção e brevidade. António expressa-se através de frases diretas e de um tom lacónico que reflete o seu estado de espírito melancólico. Quando formula a célebre metáfora do theatrum mundi — o mundo como um palco onde cada um representa um papel —, fá-lo de forma resignada e fatalista, despindo a linguagem de qualquer ornamento desnecessário.
Esta solenidade é vigorosamente desafiada pela linguagem exuberante, física e satírica de Graciano. Graciano utiliza uma retórica assente no corpo, na vitalidade e no humor, recorrendo a termos como "sangue quente", "fígado" e "riso" para combater a apatia. As suas comparações são grotescas e incisivas: compara o homem excessivamente solene a uma "inanimada estátua de alabastro de seu avô" ou a uma "água estagnada coberta de escuma". Através de uma sátira mordaz, Graciano desconstrói a autoridade do silêncio, ridicularizando aqueles que usam a gravidade artificial para parecerem "oráculos" imperturbáveis.
Quando a sós com António, a linguagem de Bassânio assume uma vertente altamente retórica e persuasiva. Sendo um devedor a pedir mais capital ao seu principal credor, ele evita inicialmente a crueza dos termos financeiros através de analogias poéticas e narrativas de infância. A famosa "metáfora da seta" é um exemplo perfeito de como Bassânio utiliza uma linguagem lúdica e escolar para suavizar a realidade de um novo empréstimo de alto risco, transformando um ato de especulação financeira numa aventura romântica e justificada pela insistência.
No entanto, o momento mais marcante do discurso de Bassânio ocorre quando ele descreve Pórcia. Aqui, a linguagem transita do registo pragmático da dívida para o universo elevado do mito e da Antiguidade Clássica. Bassânio utiliza uma rede de alusões mitológicas para idealizar a sua amada e a sua missão. Pórcia não é apenas uma mulher rica; ela é comparada à Pórcia romana, esposa de Bruto, e os seus cabelos loiros são descritos como um "velo de oiro" (o velocino de ouro). Consequentemente, a viagem a Belmonte deixa de ser uma mera tentativa de casamento por conveniência económica e passa a ser descrita como uma epopeia clássica, onde os pretendentes são "Jasões" em busca de uma conquista heroica na "nova Cólquida".
Por fim, o aspeto linguístico mais revelador desta cena é a interpenetração constante entre os campos semânticos do afeto e do comércio. Ao longo de todo o diálogo, as palavras associadas à economia ("recursos", "dívidas", "credores", "fortuna", "crédito", "haveres") surgem lado a lado com termos de profunda intimidade emocional ("coração", "amizade", "dedicação", "afeto", "amor"). Quando Bassânio diz que é a António que a sua bolsa e o seu coração são mais devedores, ou quando António responde oferecendo a sua "bolsa", a sua "pessoa" e os seus "haveres", a linguagem mostra que, no universo da peça, os laços humanos e os laços financeiros estão indissociavelmente unidos. O amor e a amizade exprimem-se e validam-se através de conceitos de fiança, risco e compromisso material, antecipando a forma como toda a intriga dramática se estruturará em torno de um contrato de carne e de um anel de noivado.
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