Português: Análise da cena II da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Análise da cena II da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

a) Ação
    A ação dramática nesta cena desenrola-se no plano verbal e psicológico, enquanto os três irmãos — Eben, Simeon e Peter — se reúnem em redor da mesa para jantar. O conflito estala imediatamente através da discussão sobre a figura do pai, Ephraim Cabot, cuja ausência prolongada é motivo de especulação e rancor. Eben acusa abertamente o pai de ter assassinado a sua mãe, trabalhando-a até à exaustão física, uma acusação que os irmãos mais velhos tentam relativizar devido à dureza geral da vida no campo. A tensão escala quando Eben revela o seu plano de visitar Min, a prostituta local mais velha com quem o pai e os próprios irmãos mais velhos já se deitaram. O deboche e as provocações de Simeon e Peter precipitam a saída furiosa de Eben, que, antes de partir, reafirma a pureza e a legitimidade da sua própria rebeldia sob a luz crepuscular.
b) Espaço
    A ação desta cena decorre na cozinha, um espaço desenhado com uma austeridade quase monástica, contendo apenas uma mesa com quatro cadeiras ao centro, um fogão a lenha e um cartaz publicitário da corrida ao ouro na Califórnia afixado na parede.
    No plano social, este espaço minimalista e prático ilustra a aridez e a crueza da sobrevivência rural da época, onde não há lugar para o supérfluo, o conforto ou a beleza estética.
    No plano psicológico, a cozinha funciona como uma câmara de opressão familiar. A cadeira vazia à mesa evoca a sombra constante e castradora do patriarca ausente, ao mesmo tempo que o fogão simboliza o antigo domínio da falecida mãe de Eben, cujo sacrifício físico ainda assombra o lar. O cartaz da Califórnia introduz um contraste psicológico crucial, representando uma janela mental de evasão e de libertação para os dois irmãos mais velhos, que contrasta com o sentimento de Eben de que a quinta é um território sagrado que ele tem o dever de reconquistar.
c) Tempo
    O tempo da ação decorre de forma contínua em relação à cena anterior, avançando para o cair da noite e para a hora da refeição, um período que propicia o confronto direto após o desgaste do trabalho diurno.
    O tempo do discurso é pesado, fragmentado por pausas para comer e por réplicas curtas e rudes, que refletem a fadiga física e a incapacidade das personagens de expressarem plenamente os seus sentimentos.
    No plano histórico, o ano de 1850 situa o drama no auge da corrida ao ouro, um contexto de transição que introduz a promessa de riqueza fácil e de fuga à rigidez da Nova Inglaterra.
    No plano psicológico, o tempo é vivido de forma fraturada: Eben encontra-se fixado no passado traumático da morte da sua mãe, agindo sob um imperativo de vingança, enquanto os seus irmãos vivem numa suspensão ansiosa, medindo o tempo pela iminência da morte do pai e pela esperança de fuga representada pelo Oeste.
d) Caracterização das personagens
    Eben Cabot mostra-se nesta cena como um jovem de 25 anos dominado pelo ressentimento e por uma fixação materna extrema. Socialmente, sente-se uma vítima explorada pelo pai, e psicologicamente exibe uma sensibilidade ferida que se traduz em impulsividade e agressividade defensiva.
    Simeon e Peter, ambos já perto dos quarenta anos, são caracterizados por um pragmatismo cínico e por uma rudeza física que evoca animais de tração. Socialmente resignados à sua condição de servos do pai, justificam a sua inação passada em relação à madrasta com o cansaço do trabalho implacável.
    O pai, Ephraim Cabot, embora ausente, é caracterizado através do ódio dos filhos como um tirano de 75 anos, cuja força física extraordinária e cegueira mística o levaram a partir em busca de uma revelação divina, governando a família com uma autoridade religiosa inflexível e desprovida de qualquer compaixão.
    Min é uma prostituta, a encarnação da tentação carnal na comunidade, tendo mantido relações sexuais com todos os homens mais velhos da família Cabot, sendo desejada igualmente por Eben. Peter e Simeon apelidam-ma de "Mulher Escarlate", usando o termo para desvalorizar o irmão mais novo, ridicularizando o seu desejo e reduzindo-o a uma mera partilha de luxúria familiar,
e) Linguagem
    A linguagem da cena assenta num dialeto rural rústico e seco, repleto de coloquialismos e contrações que acentuam a inexpressividade poética das personagens. No entanto, o texto é densificado por recursos estilísticos de grande força expressiva. A personificação manifesta-se no discurso filosófico de Simeon quando este afirma enigmaticamente que "ninguém nunca mata ninguém. É sempre qualquer coisa. Esse é que é o assassino", transformando o meio hostil e o destino numa força homicida invisível. A metáfora surge quando Eben descreve a morte da mãe, acusando o pai de a ter assassinado "centímetro a centímetro" através do trabalho, uma imagem que intensifica a crueldade doméstica do patriarca. A comparação implícita das personagens a animais é reforçada pela descrição do apetite e dos movimentos pesados dos irmãos, que se dirigem à comida como bois ao estábulo. Finalmente, o contraste e a ironia marcam o final da cena, quando as provocações sobre as visitas de Eben a Min são respondidas pelo protagonista com um lirismo desafiador, comparando o seu pecado à beleza do pôr do sol ao afirmar que o seu desejo é tão "belo como qualquer um dos deles", elevando a sua rebeldia carnal a um ato de afirmação estética e espiritual face à sordidez da quinta.
    Uma das figuras de estilo mais presentes na segunda cena da primeira parte é a comparação, usada frequentemente para acentuar o caráter primitivo e o embrutecimento físico das personagens. O ambiente doméstico da cozinha é definido desde logo pelo facto de a sua atmosfera se assemelhar mais à "de um acampamento de homens que a de uma casa", marcando a aridez e a falta de afeto que ali se vivem. Os dois irmãos mais velhos, Simeon e Peter, são apresentados a comer "com o à-vontade de animais do campo", uma "comparação animal" que ilustra a sua resignação e a sua redução ao papel de bestas de carga moldadas pela rotina do trabalho agrícola. Noutro momento da cena, Simeon socorre-se de comparações muito depreciativas para descrever a astúcia e, ao mesmo tempo, a insensibilidade do patriarca, Ephraim Cabot, cujos olhos se assemelham a "olhinhos de cobra velha a brilharem ao sol" e cujo riso desdenhoso é caracterizado como um "risinho de mula". Além disso, ele é comparado a uma "nogueira seca que só serve para o lume", uma imagem que concretiza a aridez espiritual e a esterilidade afetiva do velho latifundiário.
    Pelo oposto, a atração erótica de Eben pela prostituta Min é poetizada quando a personagem declara que ela é "como esta noite... é macia, é quente". Esta comparação mostra que Eben não vê a mulher como uma figura decadente e degradada, mas como uma força natural, harmoniosa e acolhedora. Esta associação a elementos naturais é consolidada quando ele acrescenta que Min "cheira como o ardor de um campo lavrado", que transforma o ato carnal numa celebração da fertilidade e da terra dionísica (suave, fecunda, vital), opondo-se à aridez estéril e "dura" do puritanismo do pai, simbolizada pelos implacáveis muros de pedra da quinta.
    Por outro lado, a comparação traduz a fixação materna de Eben. De facto, vivendo num lar dominado pelo ódio, pelo ressentimento e pela dureza materialista de Ephraim, no qual não existe qualquer espaço para o afeto ou ternura, o filho mais novo encontra-se emocionalmente desamparado e traumatizado pela morte da mãe. A procura de uma mulher que é "macia" e "quente" representa a sua necessidade infantil e inconsciente de recuperar o aconchego, o carinho e a proteção do útero materno. Assim sendo, Min funciona como esse refúgio temporário contra a hostilidade do pai. Ao proclamar que "o meu pecado vale tanto como os dos outros", Eben usa o calor da noite para validar a sua própria humanidade e rebeldia contra a opressão da quinta, preparando o caminho para a paixão ainda mais avassaladora e trágica que viverá mais tarde com Abbie.
    A metáfora traduz a violência doméstica e a desumanização gerada pela ganância. Eben acusa repetidamente o pai de ter "assassinado aos poucos" ou "escravizado até à morte" a sua mãe, referindo com raiva que ele lhe "pagou matando-a", metaforizando o trabalho físico extenuante como um crime lento. A bestialidade das personagens é acentuada quando Simeon "ri consigo mesmo, num latido sem alegria". Outra metáfora está presente quando Eben descreve o trabalho de erguer as demarcações da propriedade da seguinte forma: "fazer muros... pedra sobre pedra... muros e muros até o coração ser uma pedra que se tira do caminho para uma pessoa se tornar uma pedra!" Esta imagem representa a total perda de sensibilidade e humanidade de quem vive sujeito à lei implacável do pai, mimetizando a transformação do ser humano em mineral.
    Além disso, Eben é metaforizado como "escrito e escarrado" o pai, sugerindo a herança psicológica que partilham, ao passo que as suas futuras visitas a Min são descritas por Peter como uma atração pela "Mulher Escarlate". Na Nova Inglaterra da época colonial, as mulheres adúlteras e, por extensão, as prostitutas usavam uma letra escarlate bordada na roupa, uma metáfora histórica e bíblica para a transgressão e a luxúria. Essa prática histórica da letra escarlate, que visava a humilhação pública e a marcação física e visual do "pecado" carnal, demonstra como a sociedade colonial puritana punia e isolava a luxúria. Apelidar Min de "Mulher Escarlate" significa, no fundo, inseri-la diretamente nesse registo histórico de marginalização social, transformando o seu corpo e a sua sexualidade num símbolo vivo de desonra e transgressão comunitária.
    Indo mais fundo, a peça Desejo sob os Ulmeiros está imbuída de uma Teologia calvinista, segundo a qual a moralidade e a lei são ditadas por um Deus "duro e solitário". Esta influência bíblica e dogmática manifesta-se nos nomes e nas referências bíblicas (O'Neill recorre a nomes bíblicos para as suas personagens para evocar as suas personagens para evocar as antigas e severas relações familiares do Velho Testamento; além disso, o patriarca Ephraim Cabot cita frequentemente as Escrituras) e na luxúria como transgressão (num ambiente governado por uma doutrina que encara a carne como algo pecaminoso e glorifica apenas o trabalho físico implacável e estéril, a "Mulher Escarlate" evoca as grandes metáforas bíblicas de transgressão e corrupção espiritual, associadas tradicionalmente à figura bíblica do Apocalipse que personifica a sedução, o pecado e a decadência). De forma trágica, Simeon constata que eles são "herdeiros dele [do pai] em tudo", uma metáfora de duplo sentido que antecipa a partilha das mesmas mulheres.
    Por outro lado, a estrutura cíclica e asfixiante do trabalho no campo é construída através de anáforas, paralelismo e enumerações. A ladainha infindável dos deveres quotidianos é enumerada pelos irmãos numa cadência rítmica repetitiva: "Ou havia que lavrar. Ou que secar o feno. Ou que estrumar. Ou que sachar. Ou que podar. Ou que ordenhar." Esta anáfora construída a partir da expressão "Ou que..." simula o trabalho infindável que têm de desempenhar, a falta de alternativa e o automatismo a que estão sujeitos. De igual modo, Eben reconstitui o martírio da mãe falecida recorrendo a uma enumeração anafórica que expressa a impossibilidade do seu descanso: "Ela havia de voltar para me ajudar... voltar para descascar as batatas... voltar para fritar o presunto... voltar para cozer o pão... voltar, cheia de dores, para atiçar o lume...", enfatizando o facto de a mãe não se conseguir sentir livre "nem mesmo na cova". A determinação obsessiva de Eben em a vingar é também marcada por uma tripla anáfora de compromisso: "Hei de dizer-lhe... Hei de berrar-lhas... Hei de conseguir que a minha mãe repouse...".
    Por seu turno, a hipérbole ilustra a frustração existencial face à esterilidade da quinta. Ao lamentar a tremenda distância física e mental que os separa da liberdade, Peter afirma que, se colocassem uns atrás dos outros todos os passos inúteis que deram a lavrar aquela terra ingrata, "até chegávamos à Lua!", um claro exagero dramático que traduz a futilidade e o absurdo do esforço imposto pelo patriarca da família. No plano da lealdade familiar, Eben faz uso da hipérbole ao declarar que se identifica com e sai à mãe "até à última gota de sangue", consolidando a sua fixação freudiana absoluta.
    Por fim, no solilóquio que encerra a cena, Eben evidencia a sua sensibilidade reprimida através do polissíndeto e da sinestesia. A repetição da conjunção coordenativa "e" ("e não sei onde está ele, e eu aqui, e Min... E se eu a beijar? E que me rala...") confere à fala um ritmo flutuante, sensual e lento, que reflete o seu devaneio carnal. Este ritmo é preenchido por uma sinestesia que caracteriza Min: "cheira como o ardor de um campo lavrado". A mistura de sensações alia a sexualidade da prostituta à fertilidade dionísica da terra cultivada, mostrando que, por trás da dureza puritana dos muros de pedra, a vida pulsa e o desejo "cresce e cresce" até "rebentar".
f) Características da Tragédia Clássica Grega
    A rivalidade primordial entre Eben e Ephraim pelo amor da mãe e pelo controlo da terra evoca o Complexo de Édipo. A partilha da mesma mulher, Min, introduz um elemento de incesto simbólico e contaminação familiar que remete para as teias de maldição hereditária das linhagens míticas. O espírito da mãe falecida atua como uma Erínia, uma força sobrenatural invisível que exige vingança e reposição da justiça contra a insolência (hybris) do pai. A reflexão de Simeon de que "é sempre qualquer coisa" que mata reflete a noção clássica de Fado (moira), sugerindo que as personagens estão presas a um determinismo cósmico e psicológico do qual não podem escapar, caminhando inevitavelmente para a sua própria ruína.
g) Elementos Simbólicos
    Os elementos cénicos da cozinha estão carregados de simbolismo dramático. A mesa com quatro cadeiras, apresentando um lugar vazio, simboliza a omnipresença opressiva da autoridade patriarcal de Ephraim, que continua a governar e a vigiar as mentes dos filhos mesmo quando não se encontra fisicamente presente. O fogão a lenha evoca o sacrifício e a herança da mãe de Eben, cujo quotidiano doméstico a consumiu até à morte. O cartaz da Califórnia na parede funciona como o símbolo da tentação material e do apelo à fuga, oferecendo um contraste direto com a aridez estéril das pedras da quinta. O pôr do sol que Eben contempla ao sair simboliza a beleza trágica e a paixão dionisíaca, uma força de rebeldia que se recusa a ser sufocada pela escuridão do puritanismo severo da casa.
h) Análise Ideológica da Cena
    No plano ideológico, a cena constitui uma crítica profunda ao materialismo possessivo e à ética puritana do trabalho que moldaram a sociedade americana. O'Neill denuncia a forma como a obsessão pela propriedade e pela acumulação de riqueza destrói os laços humanos e familiares mais básicos. A quinta dos Cabots não é um lar, mas sim uma empresa de exploração económica onde tudo é mercantilizado: a força de trabalho dos filhos, o sacrifício das esposas e a própria sexualidade. Ao mostrar que os irmãos mais velhos preferiram o trabalho contínuo à defesa da madrasta, e que o pai utilizou a religião para justificar a opressão, a peça expõe a falência espiritual de um sistema que coloca o valor material acima da dignidade e dos afetos, mostrando que a ganância cega apenas gera solidão, sofrimento e isolamento.

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