1. Introdução: A Ressonância do Mito no Realismo Moderno
Eugene O'Neill não se limita a dramatizar a vida rural; ele atua como um arquiteto que reconstrói a tragédia grega sobre o solo árido e pedregoso da Nova Inglaterra de 1850. Ao transpor arquétipos milenares para o contexto puritano, O'Neill confere a Desejo sob os Ulmeiros uma dimensão universal e atemporal. A obra transcende o realismo regionalista ao fundir a crueza do cotidiano agrícola com forças míticas avassaladoras, transformando a disputa por uma fazenda em um palco para o eterno conflito entre o determinismo biológico e a vontade humana.
A premissa central da obra reside na tensão dialética entre o desejo material — a posse obsessiva da terra e do ouro — e o desejo espiritual e sexual. Na dinâmica da família Cabot, a busca pela propriedade torna-se indissociável das pulsões mais profundas da psique. Este guia propõe explorar as camadas de Édipo Rei, Fedra e Medeia que estruturam a narrativa, revelando como a fatalidade antiga se manifesta sob a égide do calvinismo americano. Para compreender o destino dos Cabot, é imperativo observar a peça sob a luz da dualidade nietzschiana entre a ordem e o caos.
2. A Dialética Fundamental: O Apolíneo vs. o Dionisíaco
A base estrutural de Desejo sob os Ulmeiros repousa sobre a filosofia de Friedrich Nietzsche em O Nascimento da Tragédia. Esta tensão define o clima de opressão e a eventual transfiguração trágica da narrativa. O'Neill estabelece um contraste visual e metafísico rigoroso: o brilho verde dionisíaco dos ulmeiros contra o exterior cinzento e esfarrapado da casa apolínea.
- O Impulso Apolíneo: Personificado em Ephraim Cabot, representa a ordem rígida, o trabalho árduo e a disciplina puritana. Sua devoção a um Deus "duro e solitário" manifesta-se fisicamente no muro de pedras que circunda a propriedade. Para Ephraim, a dureza é a única prova de santidade; o muro é a barreira contra o caos dos instintos.
- O Impulso Dionisíaco: Esta força é canalizada por Abbie Putnam e pela memória onipresente de "Maw" (a mãe de Eben). Representa a sensualidade, a união irracional com a natureza e o transbordamento emocional. É o desejo que desafia a lógica da posse material.
- A Maternidade Sinistra: Os imponentes ulmeiros personificam o lado dionisíaco que "esmaga" e "protege" a casa. Descritos com uma humanidade aterradora, as árvores assemelham-se a mulheres exaustas cujos seios caídos, mãos e cabelos pousam no telhado, transformando a chuva em lágrimas que apodrecem a estrutura apolínea da habitação.
3. O Complexo de Édipo e a Herança de Sófocles
Eben Cabot emerge como o herdeiro da fatalidade de Édipo Rei. O'Neill utiliza a estrutura sofocleana para alcançar uma dimensão de ativismo biológico e vingança ancestral.
- O Conflito com o Pai: A hostilidade de Eben para com Ephraim — o "Laios" deste cenário — é absoluta. Eben identifica-se totalmente com a linhagem materna ("Eu sou Maw — cada gota de sangue!"). O desejo de "matar o pai" é a ferramenta para recuperar a propriedade que ele acredita ter sido roubada de sua mãe pelo trabalho escravo imposto por Ephraim.
- A Cegueira Trágica: Ecoando a ironia de Sófocles, a peça destaca a cegueira de Ephraim. Fisicamente míope (nearsighted), o patriarca é incapaz de enxergar a verdade sobre a paternidade de seu herdeiro, uma verdade que a comunidade — atuando como o Coro — já conhece e ridiculariza.
- Determinismo Calvinista: O destino de Eben parece traçado por forças que ele não controla. Ele está preso em uma gaiola de desejos herdados, onde sua rebelião acaba por conduzi-lo ao mesmo caminho de destruição do pai, fundindo o determinismo grego com a predestinação puritana.
4. A Sedução e o Incesto: A Presença de Fedra
A entrada de Abbie Putnam reencena o mito de Fedra, transpondo a relação entre madrasta e enteado para a claustrofobia da Nova Inglaterra. O desejo proibido serve como catalisador para a destruição da estrutura patriarcal.
- Abbie como Fedra: Inicialmente movida pela avareza material, Abbie evolui para uma amante desesperada que seduz o enteado (Hipólito/Eben). Ela utiliza a fixação materna de Eben como manobra psicológica, oferecendo-se para substituir a mãe falecida e quebrar a resistência do jovem.
- O Espaço do Sagrado Profano: A cena na "sala de visitas" (parlor) é o ápice desta fusão. O local, uma tumba onde a família enterra seus mortos, torna-se o palco de uma luxúria e um amor maternal horrivelmente francos. Ali, o incesto simbólico é selado, unindo o desejo carnal ao espírito da mãe em um pacto sombrio.
- A Mentira Estratégica: Assim como no mito clássico, Abbie utiliza a manipulação ao incitar Ephraim contra Eben, alegando falsamente uma tentativa de sedução para proteger seus interesses na fazenda, precipitando o confronto violento entre as gerações.
5. O Sacrifício Supremo: A Sombra de Medeia
O infanticídio cometido por Abbie deve ser interpretado não como um crime comum, mas sob a ótica da tragédia de Eurípides, elevando-o ao status de prova trágica de iconoclastia.
- A Inversão da Utilidade Materialista: No sistema de valores de Ephraim, o bebê é a "moeda" que garante a posse da terra. Ao matar o filho, Abbie realiza um ato supremo de rejeição à lógica da herança. O bebê deixa de ser um "herdeiro útil" para se tornar o obstáculo entre os amantes; sua eliminação prova a Eben que o amor dela transcende a avareza.
- Infanticídio como Prova: Diferente de Medeia, que mata por ódio puro contra Jasão, Abbie sacrifica o fruto de seu ventre para restaurar a pureza de seu vínculo com Eben, destruindo o único laço que a prendia ao plano de sucessão material da fazenda.
- Redenção e Culpa: A aceitação conjunta da culpa transforma o crime em uma libertação espiritual. Ao se entregarem à justiça, Eben e Abbie alcançam uma exaltação que os coloca acima da moralidade puritana, encontrando a paz no momento em que renunciam à posse da terra.
6. Simbolismo e Estrutura: A Arquitetura da Tragédia
A cenografia da peça, concebida por O'Neill e Robert Edmond Jones, é um agente ativo na narrativa, funcionando como uma extensão física da psique dos personagens.
- O Coração da Casa: As divisões internas da fazenda foram projetadas para replicar a sístole e a diástole das quatro câmaras do coração humano. Esta arquitetura orgânica enfatiza que o drama não ocorre apenas entre quatro paredes, mas dentro da própria pulsação vital e emocional dos Cabot.
- O Muro de Pedras: Símbolo do isolamento de Ephraim e da dureza de seu Deus. As pedras representam o esforço de uma vida inteira para "cercar" e "conter" a natureza, um monumento à solidão inquebrável do patriarca.
- A Festa como Coro Grego: A celebração do nascimento do bebê funciona como uma adaptação moderna do coro antigo. Enquanto Ephraim dança freneticamente, exibindo sua vitalidade aos 76 anos, os vizinhos comentam e zombam de sua cegueira, criando uma poderosa ironia dramática que sublinha o isolamento do herdeiro traído.
7. Conclusão: Solidão, Culpa e Exaltação
A conclusão de Desejo sob os Ulmeiros reafirma a visão de O'Neill de que a tragédia é um processo de descoberta da verdade através do sofrimento.
- O Destino de Ephraim: O'Neill identificava-se com Ephraim, elevando-o ao status de herói trágico resiliente. Embora permaneça com a posse da terra, Ephraim é condenado à solidão absoluta, reafirmando seu Deus "duro e lonesome". Ele não é um vilão, mas uma figura de força inabalável que escolhe o caminho mais difícil como prova de existência.
- A Vitória do Amor: Eben e Abbie, ao caminharem para a punição, representam a vitória do espírito sobre a matéria. Eles admiram o amanhecer juntos, libertos da obsessão pela terra que os escravizava.
- A Circularidade do Desejo: A ironia final reside na fala do Sheriff: "É uma fazenda de primeira... quem me dera que fosse minha!". Esta frase encerra a peça demonstrando que, enquanto os indivíduos são destruídos, o ciclo da avareza e do desejo de posse recomeça, tornando a tragédia circular e reafirmando o legado de O'Neill como o criador da primeira grande tragédia genuinamente americana.
Sem comentários :
Enviar um comentário