1. A atmosfera de decadência material e isolamento rural
A descrição localiza geograficamente o drama e introduz uma tensão imediata entre a preservação física da propriedade e o seu visível desgaste estético, refletindo a dureza e a falta de harmonia no quotidiano daquela família. A ação decorre na "Nova Inglaterra, em 1850", tendo como cenário a "casa de lavoura dos Cabots". O texto indica que "a casa está em bom estado, mas precisada de pintura", sugerindo um espaço onde o trabalho utilitário se sobrepõe ao cuidado e ao bem-estar.
Esta aspereza é cromática e texturalmente reforçada através de pormenores como as paredes de um "pardo-sujo" e o "verde das persianas [que] está desbotado". Para além disso, o isolamento e o fechamento do núcleo doméstico em relação à sociedade são demarcados pela presença de "um muro de pedra com um portão ao centro", que cria uma barreira física e simbólica rígida entre o lar e o exterior, representado pelo "caminho rural".
2. A personificação gótica e a "maternidade sinistra" dos ulmeiros
O aspeto mais expressivo das direções de cena é a humanização dos dois enormes ulmeiros situados de cada lado da habitação. A natureza deixa de ser um fundo passivo para se tornar numa força psicológica ativa, quase monstruosa, que vigia e oprime os habitantes. O texto explicita esta ambivalência ao afirmar que as árvores "parecem proteger e ao mesmo tempo dominar".
Através de uma personificação visceral e sombria, o autor atribui-lhes uma maternidade possessiva, ciumenta e sufocante, decorrente da sua ligação íntima com os dramas humanos da casa:
"Há, no aspecto deles, uma maternidade sinistra, uma absorção ciosa e esmagadora. Desenvolveram, no contacto íntimo com a vida humana na casa, uma humanidade aterradora."
Esta presença vegetal é descrita como um peso físico e mental constante. As árvores "meditam opressivamente sobre a casa" e são comparadas a "mulheres exaustas que pousam no telhado os seios pendentes, as mãos e os cabelos". Numa imagem de profunda melancolia, a própria água da chuva é transfigurada num choro fúnebre e destrutivo, em que "as suas lágrimas escorrem monotonamente e apodrecem no telhado de madeira". Esta simbiose entre as árvores e o sofrimento das mulheres que ali viveram sugere um passado assombrado que se recusa a desaparecer.
3. A estrutura arquitetónica e a divisão psicológica do espaço
A disposição física da habitação serve como um mapa visual das divisões e tensões psicológicas que caracterizam a família. O espectador depara-se com uma fachada desenhada de forma a expor a partilha forçada e a falta de privacidade entre as personagens masculinas no piso superior. A parede voltada para o público revela "duas janelas no andar de cima" correspondentes a "a do quarto do pai e a do dos irmãos", estabelecendo de imediato um paralelismo visual e de confronto entre as duas gerações.
No andar inferior, o espaço divide-se entre a área funcional de sobrevivência e a área de repressão emocional. Enquanto "à esquerda, no piso térreo, é a cozinha", o espaço de trabalho diário, à direita situa-se a sala. Esta última é caracterizada pelo ocultamento e pela ausência de vida, sendo descrita como uma "sala, cujas persianas estão sempre fechadas". Este pormenor das persianas permanentemente cerradas antecipa a existência de segredos e de uma rigidez quase tumular dentro do seio familiar, onde a luz do mundo exterior não é autorizada a penetrar.
4. Contraste entre os ulmeiros e o muro de pedra
O contraste entre os ulmeiros e o muro de pedra é um dos elementos cénicos e simbólicos mais importantes de Desejo sob os Ulmeiros, estruturando visualmente os grandes conflitos psicológicos, teológicos e geracionais da peça. Esta oposição pode ser dividida em três dimensões fundamentais:
A. O muro de pedra: o impulso apolíneo, a lei do pai e o aprisionamento
O muro de pedra que circunda a casa representa a presença austera do patriarca Ephraim Cabot e a rigidez do seu Deus puritano.
- O deus duro de Ephraim: O muro simboliza a mundividência de Ephraim, que passou décadas a arrancar pedras do solo da Nova Inglaterra para erguer a sua quinta com as próprias mãos. Para ele, o esforço bruto contra a pedra é sinónimo de salvação, pois acredita num Deus "duro e solitário" que não tolera a facilidade.
- A prisão dos filhos: Para os irmãos mais velhos, Simeon e Peter, as pedras não representam comunhão espiritual, mas sim escravatura e confinamento. Peter descreve o muro como uma barreira opressora: "são pedras sobre as pedras... fazendo muros de pedra para nos vedar". A conquista da liberdade de ambos é simbolizada precisamente quando retiram o portão de madeira desse muro antes de partirem para a Califórnia.
- O útero de Eben: Ironicamente, para o filho mais novo, Eben, o muro também assume uma dupla função, funcionando por vezes como uma divisória quase uterina que o protege e isola do mundo exterior.
- O impulso apolíneo: Simbolicamente, o muro alinha-se com o conceito nietzschiano de Apolíneo: representa a ordem, a razão, a disciplina pelo trabalho implacável e o egoísmo possessivo da herança da terra.
B. Os ulmeiros: o impulso dionisíaco, o espírito da Mãe e a paixão fértil
Em contraste absoluto com a aridez mineral do muro, os dois gigantescos ulmeiros que abraçam a casa de lavoura trazem a força pulsante da natureza e do desejo carnal.
- A presença da mãe falecida: Os ulmeiros funcionam como a manifestação física e psicológica de "Maw", a falecida mãe de Eben, cujo espírito continua a pairar sobre a casa e a guiar a sede de vingança do filho contra o pai.
- A "maternidade sinistra": Nas direções de cena, as árvores são personificadas de forma quase gótica como "mulheres exaustas que pousam no telhado os seios pendentes, as mãos e os cabelos", exercendo uma "maternidade sinistra, uma absorção ciosa e esmagadora" sobre o lar dos Cabots.
- As forças vegetativas e a sensualidade: Enquanto a casa é cinzenta e estéril, os ulmeiros emitem um brilho verde que simboliza as forças geradoras da vida, do rejuvenescimento, da atração carnal e da união com a natureza. Abbie compara o calor sufocante e o desejo que arde dentro de si à força que faz crescer as árvores, "como aqueles ulmeiros".
- O impulso dionisíaco: As árvores encarnam o Dionisíaco - o irracional, o fluxo da emoção desimpedida, o misticismo natural e a união sexual que desafia as convenções sociais e puritanas.
C. A colisão das duas forças no protagonista
O drama da peça desenvolve-se através do choque inevitável entre estes dois polos. Eben Cabot encontra-se tragicamente dividido no meio deste contraste. Por um lado, herda o lado "duro" do pai (apolíneo), agindo inicialmente com ganância, calculismo e vendo a sua relação com as mulheres como uma forma de "posse" da propriedade. Por outro lado, herda o lado "suave" da mãe (dionisíaco), revelando uma sensibilidade aguçada para a beleza da terra e uma profunda necessidade de afeto.
A trajetória trágica de Eben e Abbie culmina na vitória do impulso dionisíaco (os ulmeiros) sobre o apolíneo (o muro), quando ambos abandonam a obsessão pela herança material da quinta e aceitam o castigo da prisão em nome do amor espiritual que partilham.
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