A nível físico, António é caracterizado de forma indireta através do olhar preocupado dos seus amigos, que reparam que ele apresenta um mau parecer e se encontra muito mudado, evidenciando o impacto exterior da sua melancolia. A sua expressividade é marcada por uma solenidade rígida e silenciosa, ao ponto de ser comparado a uma estátua inanimada de alabastro que parece "dormindo acordado", o que sugere uma postura apática, séria e totalmente distante de qualquer manifestação espontânea de riso ou jovialidade.
No plano social, ele é um próspero e respeitado mercador veneziano, cuja riqueza assenta numa vasta atividade comercial marítima. Embora seja um homem de posses, cuja prudência o levou a distribuir estrategicamente as suas mercadorias por várias frotas e destinos diferentes para evitar a ruína, António encontra-se atualmente falto de liquidez imediata, uma vez que todos os seus haveres estão confiados ao oceano. Todavia, a sua posição na sociedade de Veneza é de tal forma sólida que goza de uma elevada consideração pessoal e de um crédito financeiro inabalável, o que lhe confere a capacidade de obter empréstimos significativos baseados unicamente na força do seu nome. Ele move-se nos círculos da elite local e assume um papel de grande protetor e principal credor de Bassânio, de quem é o amigo mais íntimo.
A nível psicológico-moral, António é profundamente definido por uma tristeza inexplicável e persistente que o desgasta e o deixa incapaz de compreender a sua própria disposição de espírito. Recusando categoricamente que a sua melancolia se deva à ansiedade pelos seus negócios ou a uma paixão amorosa, ele adota uma perspetiva fatalista, encarando a existência como um teatro onde lhe cabe representar o papel de um homem triste. Sob o ponto de vista moral, destaca-se a sua extrema generosidade, altruísmo e lealdade incondicional. António é um amigo de uma dedicação absoluta, que coloca a sua bolsa, a sua própria pessoa e todos os seus haveres ao dispor dos projetos de Bassânio. Revelando um desprendimento material quase temerário, ele confessa sentir-se mais magoado pelos rodeios retóricos de Bassânio — que parecem pôr em dúvida a sua devoção — do que se este desperdiçasse todos os seus bens, demonstrando que, para si, os laços afetivos e o dever moral de apoio mútuo superam qualquer consideração económica.
António revela-se, na cena III do ato I, como uma personagem de extrema complexidade, dividida entre uma generosidade profunda para com os seus e uma arrogância implacável face aos que considera inferiores ou imorais. A sua principal virtude dramática reside na lealdade incondicional que nutre por Bassânio; para socorrer as necessidades urgentes do amigo, António dispõe-se a violar a sua própria regra de conduta mais rígida de nunca pedir nem emprestar dinheiro com juros, colocando a sua própria segurança financeira e física em risco absoluto como fiador. Esta atitude generosa, contudo, coexiste com uma soberba de classe e religiosa avassaladora. No plano comercial, António exibe uma autoconfiança cega e temerária na solidez dos seus negócios marítimos, desvalorizando por completo os avisos sensatos sobre a volatilidade dos mares, dos piratas e dos escolhos, convencido de que as suas frotas regressarão triunfantes muito antes do vencimento do prazo.
Essa mesma altivez dita a sua relação com Shylock, pautada por um preconceito e hostilidade indisfarçáveis. Longe de se mostrar arrependido pelas agressões físicas e verbais do passado — que incluem ter cuspido na capa hebraica do credor, pontapeado-o e chamado de cão —, António reafirma com soberba que voltará a repetir tais insultos. Ele recusa categoricamente estabelecer qualquer laço de amizade ou humanidade com Shylock, exigindo arrogantemente que a transação seja feita sob a égide da inimizade absoluta, o que acaba por legitimar e incitar a severidade legal que Shylock usará contra ele. Finalmente, a sua cegueira trágica e ingenuidade tornam-se patentes quando aceita de forma leviana a macabra cláusula de uma libra de carne humana. Incapaz de decifrar o rancor e a sede de vingança que se escondem por trás da aparente condescendência do credor, António desvaloriza os avisos prudentes de Bassânio e cai ingenuamente na armadilha, chegando a apelidar Shylock de obsequioso e a profetizar a sua conversão ao cristianismo, num gesto de profunda e fatal condescendência moral.
No final da cena VI do ato II, encarna a autoridade, a severidade e o pragmatismo utilitário que quebram abruptamente o tom lírico e festivo da noite. Ele repreende de imediato Graciano pelo atraso e ordena-lhe que se cale, informando que já são nove horas e que a mascarada planeada pelos jovens foi cancelada. António é uma figura de ação e dever, focada exclusivamente nos preparativos práticos da viagem de Bassânio, que deve aproveitar o vento favorável para partir imediatamente. Ele revela a sua lealdade e empenho para com o amigo ao coordenar ativamente o embarque, tendo inclusivamente enviado vinte homens à procura de Graciano para garantir que este se apressa a embarcar.
Na cena VIII, é caraterizado nesta cena de forma indireta através das observações e dos relatos dos seus amigos próximos, Salarino e Salânio, revelando-se como uma figura de extraordinário altruísmo, profunda sensibilidade e uma melancolia tocante que beira a tragédia. O traço mais marcante da sua personalidade é a sua total dedicação à amizade, sendo descrito como o homem que possui o coração que melhor compreende este sentimento em todo o mundo. Esta abnegação manifesta-se de forma exemplar na sua despedida de Bassânio, onde António abdica voluntariamente do seu próprio conforto emocional e segurança para priorizar o sucesso e a felicidade do amigo. Ele insta Bassânio a não apressar o seu regresso de Belmonte nem a descurar os seus objetivos românticos por sua causa, pedindo-lhe que mantenha o espírito alegre e focado na conquista da sua amada, livre de quaisquer preocupações ou sombras relativas ao perigoso contrato financeiro assinado com o credor.
Esta generosidade é acompanhada por uma profunda vulnerabilidade emocional. Apesar de tentar transmitir coragem e desassombro a Bassânio para que este parta sem sentimentos de culpa, António não consegue ocultar a dor da separação, despedindo-se com os olhos arrasados de lágrimas e virando o rosto para ocultar a sua aflição enquanto lhe estende a mão num aperto enérgico. Esta dependência afetiva em relação a Bassânio é tão pronunciada que os seus pares chegam a afirmar que o mercador vive quase exclusivamente para o seu amigo, sendo a partida deste o fator que o mergulha numa profunda e preocupante melancolia, um estado de tristeza inercial no qual António parece deleitar-se de forma passiva.
Além do seu papel como amigo devoto, António surge também como uma figura de palavra e de proteção ativa dentro do seu círculo social. Ele não hesita em intervir a favor dos jovens amantes, Lourenço e Jéssica, ao dar a sua garantia pessoal e afiançar perante o Doge que o casal em fuga não seguia a bordo do navio de Bassânio, demonstrando a sua cumplicidade e lealdade para com os seus pares cristãos. Contudo, esta mesma nobreza de caráter coloca-o numa posição de grave perigo. Enquanto se despoja de preocupações para salvaguardar a tranquilidade de Bassânio, o leitor toma consciência, através dos avisos pragmáticos de Salânio e dos boatos do naufrágio de uma embarcação veneziana no canal da Mancha, de que a sua ruína financeira e física é uma ameaça real e iminente. António é, assim, delineado como um herói melancólico e sacrificial, cuja bondade desarmada o deixa perigosamente exposto à fúria vingativa do seu credor.