O Príncipe de Marrocos apresenta-se como uma figura de enorme imponência dramática, marcada por um forte contraste entre o seu heroísmo guerreiro e a sua vulnerabilidade perante o destino.
No aspeto físico, destaca-se a sua pele escura e bronzeada, fruto do sol ardente da sua terra natal, uma característica que ele próprio assume com altivez, denominando-a de "negra libré". Longe de se envergonhar da sua aparência, o Príncipe exibe um orgulho racial e físico notável, desafiando qualquer comparação ao propor que se avalie a nobreza e a coragem do seu sangue — que afirma ser tão vermelho quanto o do homem mais belo do norte — através de uma incisão física na sua pele. Esta autoconfiança é indissociável do seu magnetismo pessoal, gabando-se de que a sua presença física já aterrorizou muitos homens valentes e de que despertou o amor de várias virgens na sua pátria. Ele declara ainda que só aceitaria mudar de cor se isso fosse o único caminho para obter a mão de Pórcia, a quem chama de sua encantadora rainha.
No plano psicológico e moral, o Príncipe é a personificação do herói trágico e cavalheiresco, cuja linguagem é pautada por uma grandiloquência militar. Ele revela uma bravura excecional, simbolizada pela sua lendária cimitarra, com a qual derrotou o Sofi e um príncipe persa que havia vencido três batalhas contra o sultão Solimão. A sua determinação amorosa é imensa: para conquistar Pórcia, declara-se pronto a realizar as proezas mais audazes, tais como subjugar o homem mais orgulhoso, afrontar o mais ousado, roubar filhotes a uma ursa ou atacar um leão faminto.
No entanto, toda esta força física depara-se com uma profunda angústia existencial perante o acaso. O Príncipe revela uma aguda consciência da sua impotência face à "cega fortuna" que governa o teste dos cofres. Ele compreende que o método de escolha anula o mérito pessoal, comparando sensivelmente a sua provação a um jogo de dados entre Hércules (Alcides) e o seu pajem Licas, no qual o mais fraco pode vencer o herói por mero capricho da sorte. Este receio de perder o prémio para alguém menos digno consome-o, levando-o a admitir que a derrota o faria morrer de desgosto e dor.
Apesar deste temor, o Príncipe demonstra ser um homem de ação resoluto e de palavra inabalável. Quando confrontado com a severidade do regulamento que o obriga a jurar nunca mais propor casamento a outra mulher caso falhe, ele não hesita nem recua, aceitando prontamente todas as condições impostas. O seu caráter apaixonado e absoluto dita a sua visão da prova, que encara como um veredicto definitivo sobre a sua existência, ciente de que o momento da escolha o consagrará como o mais feliz ou o mais desgraçado de todos os homens.
Vamos ao ato II e à cena VII. Nela, o príncipe de Marrocos apresenta-se como uma figura de extraordinária altivez, cuja nobreza de sangue é acompanhada por uma profunda vaidade e por um deslumbramento inevitável pelas aparências materiais. Ele define-se a si próprio como uma "alma elevada", recusando firmemente rebaixar-se a escolher o cofre de chumbo, que considera um "metal vil" e de mau agouro, incapaz de conter sequer os restos mortais de Pórcia. Esta atitude expõe um orgulho aristocrático que condiciona a sua visão do mundo, onde o valor de uma pessoa ou de um sentimento deve ser sempre proporcional à riqueza do seu invólucro. Ao avaliar-se perante o cofre de prata, Marrocos revela uma autoestima imensa e sem hesitações; após um breve momento de aparente modéstia, conclui com absoluta segurança que merece a mão de Pórcia em virtude do seu nascimento ilustre, da sua fortuna, dos seus dotes físicos, da sua educação cuidada e, acima de tudo, da intensidade do seu amor.
Esta autoconfiança cega foca-se na busca pelo ouro, impulsionada por uma visão grandiosa e quase mitológica da sua pretendida, a quem descreve em tons de adoração religiosa como uma "santa viva" e um "relicário" cobiçado internacionalmente. Marrocos deslumbra-se com a ideia de que Pórcia é um troféu pelo qual príncipes do mundo inteiro cruzam os desertos da Arábia, as solidões da Hircânia e as ondas orgulhosas do oceano, convertendo terras inóspitas em estradas frequentadas. No entanto, esta mesma idealização poética trai a sua profunda superficialidade espiritual. Ao equiparar o valor moral de Pórcia ao brilho dourado e ao preço de mercado dos metais, argumentando que uma joia tão preciosa só pode estar engastada em ouro puro, ele demonstra uma total incapacidade de enxergar além da superfície.
A sua derrota dramática expõe a ausência de maturidade que o pergaminho do cofre critica severamente, advertindo-o de que, apesar de toda a sua "ousadia" juvenil e "energia da mocidade", faltaram-lhe a "prudência", o "tino" e a "idade da razão" necessários para não se deixar seduzir pelo "externo fulgor". Ao deparar-se com o esqueleto que repousa no interior dourado, o príncipe sofre um choque de realidade avassalador que estilhaça instantaneamente a sua soberba. A sua saída é marcada por uma profunda dor e humilhação, traduzida num lamento dramático sobre o tempo perdido e o fim abrupto do seu "ardente amor", despedindo-se com uma pressa melancólica que ilustra a rapidez com que a sua altivez se desfez diante do desengano moral do desafio.
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