Português: Análise da cena IV da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Análise da cena IV da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

a) Ação 

    A quarta cena abre no interior da cozinha, onde Eben medita carrancudamente diante do prato intacto, enquanto Simeon e Peter terminam a refeição e o provocam sobre a sua noitada com Min. O caçula revela estar dominado por uma premonição febril sobre o regresso iminente do pai. Subitamente, os dois irmãos mais velhos recusam-se a continuar o trabalho agrícola, declarando a sua intenção de viver como os lírios do campo. Tomado por uma excitação quase mística, Eben proclama que a quinta pertence de novo à sua falecida mãe e sai para o exterior, contemplando a propriedade com um desejo obsessivo de posse. No exterior, Simeon e Peter bebem uísque, acendem os cachimbos e observam a alvorada, avistando ao longe a carroça em que Ephraim Cabot regressa acompanhado pela nova noiva. Eben corre ansioso ao encontro dos irmãos para anunciar a chegada da velha mula e da noiva. Antes da chegada do pai, os dois mais velhos recolhem as trouxas e exigem o pagamento prometido; o mais jovem retira debaixo do soalho da cozinha, junto ao fogão, o saco de lona com as moedas de ouro de vinte dólares deixadas pela progenitora. Após a contagem cuidadosa dos seiscentos dólares e a assinatura da renúncia aos direitos da herdade, Eben guarda o documento como um troféu de restauração moral. 
    No portão da quinta, desenrola-se o confronto de despedida: Simeon arranca a cancela dos gonzos, declarando abolidos todos os portões e barreiras, enquanto Ephraim e Abbie Putnam chegam à propriedade. Ao verem a nova madrasta, acolhem a chegada com sarcasmo e escárnio, lançando provocações diretas ao progenitor, executando uma absurda dança de guerra ao redor do velho petrificado e atirando pedras que partem os vidros da janela da sala. Os dois irmãos partem jubilosos pela estrada fora, cantando a canção da Califórnia. 
    Entretanto, Abbie entra na cozinha e depara-se com Eben. A nova esposa observa o jovem com uma avaliação calculista da sua força e com uma atração física incontestável, tentando seduzi-lo sob o pretexto de quererem ser amigos e partilhando o seu passado de privações e servidão. O rapaz debate-se numa violenta luta interna entre o ódio visceral e a atração física irresistível, acabando por precipitar-se para fora da casa após Abbie afirmar o seu domínio absoluto sobre o lar e o quarto superior. No exterior, Ephraim invoca o Deus dos Exércitos para amaldiçoar os filhos, sendo desafiado por Eben num aceso combate verbal de acusações e blasfémias. A cena encerra com a partida de pai e filho em direção ao estábulo para o trabalho diário, enquanto a voz distante dos irmãos se apaga na estrada e Abbie começa triunfalmente a lavar a louça na sua nova cozinha.

b) Espaço 

O espaço físico articula-se entre o interior da cozinha — centrado na mesa de refeições, no fogão e no soalho que escondia o ouro — e o exterior imediato da casa, dominado pelo portão com o muro de pedra e pela estrada que conduz ao Oeste. No plano social, a quinta representa o microssistema agrário e patriarcal da Nova Inglaterra do século XIX, fundamentado na servidão familiar, no isolamento geográfico e na exploração do trabalho. No plano psicológico, o espaço transforma-se num território de conquista e profanação. A cozinha, antigo santuário da mãe de Eben, converte-se no palco onde Abbie afirma a sua soberania e onde a tensão erótica entre madrasta e enteado é selada. O portão de pedra deixa de ser uma mera divisória de propriedade para encarnar a barreira da escravidão; o seu desmantelamento físico por Simeon simboliza o romper da prisão doméstica, abrindo passagem para a estrada como espaço psicológico de utopia, evasão e liberdade.

c) Tempo (da Ação, do Discurso, Histórico e Psicológico) O tempo da ação decorre durante o nascer do sol e o início da manhã, marcando a transição da luz cinzenta da alvorada para a luminosidade plena do dia. O tempo do discurso é extremamente dinâmico e polifónico, alternando entre a celebração ruidosa e carnavalesca dos irmãos mais velhos, o ritmo pausado, denso e sedutor do diálogo entre Abbie e Eben na cozinha, e a violência verbal cortante da disputa final exterior. No plano histórico, a ação fixa-se rigorosamente no ano de 1850, em plena febre do ouro na Califórnia, ambiente evocado pela canção popular e pela ilusão de enriquecimento rápido. No plano psicológico, o tempo adquire uma dupla dimensão: para Simeon e Peter, o tempo estagnado de décadas de servidão explode numa vertigem de libertação onde o futuro é conquistado em instantes; para Eben e Abbie, o tempo condensa-se num presente suspenso e ameaçador, onde o passado de trauma e a urgência do desejo futuro se chocam inevitavelmente.

d) Caracterização Aprofundada (Física, Psicológica e Social) das Personagens Eben Cabot surge como um jovem de 25 anos dotado de uma beleza rústica e de uma força física notável, mas profundamente dividido no seu foro íntimo. Psicologicamente, é dominado por uma obsessão patrimonial e por uma devoção quase religiosa à memória da mãe falecida, acreditando ter cumprido a sua missão ao recuperar o ouro e os papéis da quinta. Contudo, ao ser confrontado com Abbie, revela a sua extrema vulnerabilidade, lutando desesperadamente entre a repulsa moral pela usurpadora e uma atração erótica incontrolável. Socialmente, passa de servo explorado a suposto proprietário legítimo da herdade. Abbie Putnam, com 35 anos, é caracterizada por um ar alegre, cara cheia e bonita, impregnada de uma sensualidade vigorosa e um olhar determinado e duro. Tendo sofrido um passado miserável de orfandade, servidão e perdas pessoais, é movida por um instinto de sobrevivência e por uma necessidade visceral de possuir um lar. Revela-se calculista, sedutora e dominadora, consciente do seu poder sobre o velho Ephraim e capaz de reconhecer em Eben uma alma gémea em termos de energia e obstinação. Ephraim Cabot, aos 75 anos, mantém um corpo alto, seco e de costas curvadas pelo trabalho contínuo, apresentando um rosto duro como xisto e olhos miopes. Representa a rigidez do patriarca puritano, cuja autoridade se fundamenta numa teologia severa e num orgulho inflexível; apesar de traído pela debandada dos filhos e ridicularizado, tenta manter a postura de tirano inabalável. Simeon e Peter, libertados da sujeição agrícola, encarnam a transformação do embrutecimento animal na euforia infantil da alforria, entregando-se a um comportamento subversivo, sarcástico e festivo antes da partida definitiva.

e) Linguagem e Enumeração das Figuras de Estilo A linguagem da cena é caracterizada por um registo coloquial e rústico, rico em termos do vocabulário agrícola, interjeições de desafio e celebração, expressões de tom bíblico e imprecações inflamadas. A oralidade é intensificada pela presença de cânticos populares e por diálogos rápidos e sobrepostos. Enumeram-se, exclusivamente, as seguintes figuras de estilo presentes na cena:

Metáfora

Comparação

Personificação (Prosopopeia)

Antítese

Hipérbole

Animalização (Zoomorfismo)

Ironia (e Sarcasmo)

Metonímia

Gradação

Apóstrofe (e Imprecação)

f) Características da Tragédia Clássica Grega A quarta cena acolhe elementos estruturantes do drama trágico clássico. A húbris (insolência e desmedida) manifesta-se tanto no fanatismo religioso e orgulho cego de Ephraim, como no desejo possessivo e absoluto de Abbie e Eben pela conquista da casa. A anagnórise e a peripécia ocorrem com a chegada da nova esposa e a partida dos irmãos, alterando radicalmente a estrutura de poder da quinta. A atração imediata e perturbadora entre Eben e a sua madrasta reencarna o mito trágico de Fedra e Hipólito, insinuando a inevitabilidade de um incesto trágico imposto pelo Fado (Moira). A maldição paterna lançada ao céu por Ephraim retoma a tradição das pragas familiares e das teias de culpa hereditária. Além disso, o comportamento ritualístico de Simeon e Peter ao arrancarem o portão, executarem uma dança de guerra e partirem os vidros mimetiza um ato de profanação e rutura com a ordem sagrada do lar doméstico.

g) Elementos Simbólicos Os elementos cénicos e materiais da quarta cena possuem uma elevada carga simbólica. O portão e a cancela de pedra representam a opressão, a demarcação da propriedade e a escravidão secular dos filhos; o ato de arrancar a cancela dos gonzos e levá-la sob o braço simboliza a destruição física das cadeias do patriarcado e a conquista da liberdade. As moedas de ouro de vinte dólares, retiradas do esconderijo sob o soalho junto ao fogão, simbolizam o sangue e a herança espiritual da mãe falecida de Eben, funcionando como a moeda de alforria dos irmãos e o instrumento de reparação histórica. A janela da sala quebrada pelas pedras representa a destruição da fachada de respeitabilidade e puritanismo da casa. A cozinha e o fogão funcionam como o centro sagrado da memória materna, que é profanado e tomado por Abbie quando esta começa a lavar a sua louça. Finalmente, a canção da Califórnia atua como o hino de evasão e símbolo da promessa dionisíaca de utopia e prosperidade no Oeste.

h) Análise Ideológica da Cena Sob a perspetiva ideológica, a cena apresenta uma crítica devastadora ao materialismo possessivo e à falência moral da sociedade puritana e patriarcal. O'Neill expõe como a obsessão pela propriedade privada e pelo domínio da terra reduz todas as relações humanas a meros vínculos de troca, exploração e poder. A retórica religiosa de Ephraim Cabot é desmascarada como uma ideologia de auto-justificação que utiliza o nome de Deus para sancionar a tirania doméstica, a ganância e a opressão dos filhos. Paralelamente, o relato autobiográfico de Abbie introduz uma contundente crítica social à condição da mulher no século XIX, mostrando que a sua conduta implacável resulta da miséria, da exploração do trabalho feminino e da urgência de obter a posse de um lar para garantir a sobrevivência. Por fim, a partida de Simeon e Peter para a Califórnia estabelece o contraste entre o Feudalismo Agrário sufocante da Nova Inglaterra e o Mito da Fronteira do Capitalismo nascente, onde a busca do ouro surge como a única via de libertação individual face ao jugo da autoridade paterna. 

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