O Príncipe de Aragão carateriza-se fundamentalmente pela sua soberba intelectual, elitismo aristocrático e por uma autovalorização desmedida que acaba por ditar o seu fracasso. Ao contrário do pretendente anterior, Aragão não se deixa seduzir pelo brilho material imediato, mas sim por uma vaidade intelectual e de classe que o faz considerar-se intrinsecamente superior ao homem comum.
O seu profundo desdém pelo vulgo e pelas massas ignorantes fica patente na sua rejeição imediata do cofre de ouro. Para o príncipe, o ouro representa o desejo da multidão que se deixa guiar cegamente pelas aparências visuais, sem nunca procurar a essência interior das coisas. Ele recorre à metáfora das andorinhas que constroem os seus ninhos no exterior das paredes, expostas às intempéries, para ilustrar a tolice daqueles que não possuem discernimento. Recusando misturar-se com a mediocridade do povo, Aragão demonstra uma altivez e um orgulho de classe que o impedem de escolher o que muitos desejam.
Esta rejeição da massa conduz o príncipe a uma firme defesa da meritocracia, que serve, paradoxalmente, para alimentar a sua própria vaidade. Perante a inscrição do cofre de prata, Aragão tece uma crítica social bastante lúcida e severa sobre a corrupção do seu tempo, lamentando que as honras, as riquezas e os cargos públicos sejam tantas vezes distribuídos por compadrio e influência, e não pelo verdadeiro merecimento. Contudo, esta aparente retidão moral é imediatamente traída pelo seu egocentrismo. O príncipe assume, com uma certeza inabalável e sem qualquer espaço para a dúvida, que o seu nascimento, a sua fortuna e as suas qualidades pessoais o colocam no patamar máximo do mérito, tornando-o inteiramente merecedor da mão de Pórcia.
Quando confrontado com o desfecho humilhante do seu teste, ao encontrar no cofre de prata o retrato de um idiota a piscar o olho, o seu orgulho é profundamente golpeado. Sentindo-se insultado, ele questiona com revolta se aquela imagem ridícula é a justa recompensa pelo seu valor. Aragão demonstra ser incapaz de compreender que a sua pretensa sabedoria era apenas uma ilusão e que, tal como o pergaminho o adverte, ele era prateado por fora, mas tolo por dentro. Apesar da sua cólera crescente, o príncipe revela um respeito estrito pela palavra dada, contendo a sua raiva em obediência ao juramento que prestou. Ao retirar-se apressadamente, exibe uma consciência amarga e irónica da sua própria estultícia, reconhecendo que a permanência no castelo apenas o fará parecer ainda mais estúpido, partindo assim como um homem derrotado pela sua própria soberba e presunção de merecimento.
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