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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Análise da cena III da 2.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

a) Ação

    A estrutura da cena articula-se em cinco momentos:

. Didascália inicial: A cena abre num ambiente marcado pelo confinamento e pela rigidez corporal. A sala de visitas, mantida na escuridão como um sepulcro desde o velório da mãe de Eben, é fracamente iluminada pelas velas acesas por Abbie. A entrada do rapaz, descalço e desorientado, e a sua postura imóvel ao lado da madrasta no sofá de crina estabelecem uma atmosfera de silêncio denso e pânico partilhado perante o desconhecido.

. Apaziguamento da presença materna: A conversa inicia-se com a confissão do medo perante uma força invisível na escuridão. Abbie nota que a presença do espírito da falecida matriarca parece ter-se tornado amável após a entrada do filho, interpretando esse abrandamento como uma bênção ao sentimento que os atrai. Eben reage com desconfiança e amargura, partilhando a dor acumulada pela destruição da mãe às mãos do rigorismo e da ganância do pai.

. A transição de papéis e a sobreposição afetiva: Num gesto de aproximação decisivo, a mulher oferece-se para preencher o vazio emocional do rapaz. De facto, promete cantar para ele, cuidar dele e dar-lhe a ternura de que foi privado, entrelaçando a figura de mãe protetora com a de amante sensual e desarmando gradualmente a carapaça defensiva do jovem.

. O conflito moral e a crise de culpa: A primeira entrega física precipita uma crise de consciência. Após um beijo ardente, Eben é tomado pelo horror ao pecado e pela culpa puritana, afastando-se bruscamente para apelar ao espírito da mãe. Abbie recusa ser reduzida a uma mera substituta materna, exigindo o reconhecimento de um desejo carnal autêntico e recíproco.

. Clímax e revelação libertadora: O ponto de viragem ocorre quando Eben encontra um significado para o ato de transgressão: compreende que a união com a madrasta não é uma profanação, mas sim o instrumento de vingança com que a mãe fará justiça contra o patriarca para poder descansar em paz. Liberto da repressão, cai de joelhos, confessa o amor guardado desde o primeiro olhar e os dois unem-se num beijo avassalador que sela o seu destino.

    A ação decorre na sala de visitas, que funciona como o centro nevrálgico do espaço psicológico. Mais do que uma divisão da habitação, é um santuário do passado e do luto suspenso. Ao acender as velas e invadir essa sala fechada, Abbie força a rutura da interdição. A luz vacilante das velas não dissipa o mistério, mas projeta as sombras da dor antiga, transformando o lugar do velório na arena onde a memória da mãe morta e a presença da madrasta viva se confrontam.

    O núcleo da tensão reside na complexidade do desejo de Eben. O jovem vive aprisionado numa necessidade desesperada de afeto materno e num ódio visceral contra o pai. A madrasta percebe com acuidade essa vulnerabilidade e manobra-a com mestria: ao oferecer o colo, a canção e o consolo, assume a persona da mãe perdida para depois transfigurar esse acolhimento em sedução carnal. Esta sobreposição de papéis dissolve as fronteiras entre o amor filial e o impulso incestuoso, permitindo ao rapaz ceder ao desejo sem sentir que está a trair a memória da mãe.

    A resolução do conflito moral opera-se através de uma inversão simbólica da culpa. Para o puritanismo tradicional, a união entre o enteado e a madrasta constituiria a abominação máxima. Contudo, a mente de Eben reinterpreta a transgressão como um ato de justiça poética. A profanação do leito e da autoridade de Ephraim Cabot torna-se a desforra definitiva da mulher oprimida contra o seu opressor. Ao ver na paixão por Abbie a vontade e a vingança da própria mãe, ele liberta-se da paralisia moral, transformando a queda no pecado num ato de libertação espiritual.

    O desfecho da cena consagra a vitória do instinto sobre a repressão religiosa e social. O gesto de Eben ao cair de joelhos e o abraço feroz que se segue assinalam a capitulação final das defesas morais. Ao confessarem que o desejo mútuo existia desde o instante em que se viram pela primeira vez, as personagens aceitam a força do seu vínculo. Contudo, esta libertação emocional carrega em si a semente da tragédia: ao buscarem a comunhão e a vingança através da transgressão dos tabus, Eben e Abbie selam irremediavelmente o caminho que os conduzirá à ruína e ao sacrifício final.

b) Espaço

    O espaço interior onde a cena decorre é a sala de visitas da casa patriarcal da herdade. A didascália inicial caracteriza-a como uma «sala desgraciosa e pesada», evidenciando a sua «conservada fealdade». A escassez e o rigor do mobiliário são visíveis na referência ao «sofá de crina», um assento duro e desconfortável onde Abbie e Eben se sentam de forma rígida e empertigada. A iluminação do espaço é assegurada por velas acesas pela mulher na tentativa de afastar a escuridão. As personagens entram neste espaço com gestos de hesitação física: o jovem surge com os «pés descalços» e o «chapéu na mão», mantendo-se junto à porta antes de se sentar na borda do sofá.

    Por outro lado, a didascália inicial estabelece uma comparação direta do espaço físico com um túmulo, definindo a sala como um «sepulcro em que a família tivesse sido enterrada viva». Nas comunidades rurais puritanas da Nova Inglaterra, a sala de visitas era uma divisão formal, mantida fechada e reservada a ocasiões solenes como velórios e sepultamentos. Por outro lado, é identificada como o domínio da mãe morta de Eben («esta sua sala onde ela esteve»). A atmosfera pesada e a penumbra inicial geram a sensação de que o espaço está habitado por uma presença invisível («parecia haver qualquer coisa...»). O facto de a aproximação física e a declaração de amor ocorrerem nesta sala confere à transgressão um caráter sagrado e aterrador, pois o ato de sedução e a confissão carnal violam a memória fúnebre do local.

    A sala de visitas integra-se numa estrutura geográfica e patrimonial mais ampla: a casa e a herdade dos Cabot. O diálogo explicita que o espaço físico da casa e da terra é o centro do conflito familiar, um objeto de posse e disputa («Esta casa era dela. Esta herdade era dela. / Esta é a minha casa! Esta é a minha herdade!»). A didascália estabelece uma ligação contínua entre a sala de visitas e o quarto («como no quarto, ele liberta-se dela com violência»), mostrando que a tensão erótica e o conflito que começaram nas áreas privadas da casa se deslocam para o centro simbólico do santuário materno.

    Ao longo das cenas, o espaço sofre uma transformação no plano psicológico das personagens. De início, manifesta-se como um local fúnebre e opressivo que provoca paralisia, no qual Abbie e Eben ficam «rígidos, olhando em frente, com os olhos cheios de medo». Depois, a sala transforma-se num local de invocação e diálogo com o espírito invisível da mãe. Por fim, deixa de ser um local de interdição e converte-se num espaço de libertação e de vingança contra Ephraim Cabot. O espaço do «sepulcro» é simbolicamente purificado, permitindo à mãe «repousar em paz na sepultura» e culminando no «beijo feroz, esmagador» que consome a rigidez da sala

c) Tempo

    O tempo cronológico da cena caracteriza-se pela sua concentração, linearidade e continuidade imediata, desdobrando-se no período noturno. Nele, podem destacar-se os aspetos que, seguidamente, se discriminam.

    A ação decorre durante a noite, facto evidenciado na abertura da cena pela necessidade de recorrer à iluminação artificial. De facto,  a didascália indica que Abbie «Acendeu as velas todas» para combater a obscuridade da sala de visitas.

    Por outro lado, a indicação cénica inicial «Alguns minutos depois» estabelece um encadeamento temporal direto e sem saltos em relação à cena anterior (no andar de cima). O tempo da representação coincide praticamente com o tempo da ação, tratando-se de uma sequência curta e ininterrupta que se desenvolve em escassos minutos de diálogo.

    O tempo histórico leva-nos até meados do século XIX, inserido no ambiente rústico e puritano da Nova Inglaterra, refletido na atmosfera e nos elementos cenográficos da época (como o «sofá de crina»).

    Embora a ação cronológica presente seja muito breve, o discurso das personagens expande a dimensão temporal através da evocação de vários momentos: o passado distante (a memória da falecida matriarca e o histórico do seu sofrimento às mãos de Ephraim Cabot; o passado recente (a chegada de Abbie à casa — «desde a hora em que chegaste!» — e o confronto ocorrido momentos antes no quarto); o futuro (a promessa de dedicação incondicional de Abbie e a perspetiva de descanso eterno para o espírito da mãe).

    Ao contrário do tempo cronológico da cena — que é extremamente breve, concentrado e contínuo, desenrolando-se em escassos minutos de uma noite na sala de visitas —, o tempo psicológico caracteriza-se por uma profunda densidade, pela dilatação da experiência interior e pela constante sobreposição do passado, do presente e do futuro. Na perceção das duas personagens, a brevidade do tempo real dilui-se perante o peso das vivências reprimidas, fazendo com que o espaço da sala, caracterizado como um «sepulcro em que a família tivesse sido enterrada viva», funcione como uma câmara de ressonância temporal onde o passado do trauma recusa passar e permanece dolorosamente ativo no presente.

    No início do confronto, o tempo psicológico de Eben encontra-se paralisado e desacelerado pela memória da falecida matriarca. Perante a tentativa de atenuar o histórico de sofrimento da mãe através da expressão eufemística «A mãe tem queixas dele», a reação apaixonada do jovem com a apóstrofe «Por Deus, eu tenho!» revela que, para o jovem, o calvário materno não é um acontecimento acabado, mas uma dor presente e pulsante. Abbie, percebendo esta estagnação emocional, intervém ativamente no tempo interior do enteado ao projetar a memória no futuro e ao igualar a sua própria condição à da morta. Quando o rapaz recorda com nostalgia «Às vezes costumava cantar para mim», a madrasta responde com a promessa «Eu cantarei para ti!», e quando o diálogo se espelha no contraste entre o passado e o presente («Esta casa era dela...» / «Esta é a minha casa!», «Ele assassinou-a...» / «Ele assassina-me!»), opera-se uma fusão dos tempos psicológicos: a dor da mãe é absorvida pelo sofrimento de Abbie, cancelando a distância temporal e transformando a nostalgia do filho numa urgência afetiva no aqui e agora.

    O clímax do tempo psicológico atinge-se no momento da crise de culpa de Eben, em que a perceção do presente se suspende na iminência da transgressão. Abalado pelo contacto físico e tomado por um «estranho estado de terror», a mente do jovem recua ao plano do assombramento espiritual através da apóstrofe «Mãe! Mãe! Que queres? Que me estás a dizer?». Neste instante de paralisia interior, o tempo externo estagna até à eclosão da revelação libertadora, assinalada pelo momento em que o seu rosto se ilumina «subitamente de um imenso riso triunfante». Esta viragem marca a resolução do conflito no tempo interior de Eben, pois a compreensão de que a entrega a Abbie permite que a mãe «se vingue dele... e possa repousar em paz na sepultura» reconfigura o passado: a vingança no presente estanca o sofrimento de outrora e projeta a promessa de paz para a eternidade da morta.

    Por fim, o tempo psicológico sofre uma compressão e aceleração decisivas no fecho da cena. Ao confessar «Morro por ter-te... desde a hora em que chegaste!», o rapaz reescreve retroativamente todo o tempo decorrido desde a entrada da madrasta na herdade, revelando que a hostilidade e a rejeição mantidas ao longo dos meses eram, na verdade, a máscara temporal de uma paixão reprimida desde o primeiro instante. O tempo da dúvida, da retenção moral e do pavor religioso desmorona-se, dando lugar à urgência do instinto no «beijo feroz, esmagador», onde a longa duração do trauma se dissolve na irreversibilidade do compromisso trágico entre as duas personagens.

d) Caracterização das personagens

    Nesta cena, Abbie revela-se uma personagem de enorme densidade psicológica, na qual a vulnerabilidade emocional, a astúcia sedutora e um instinto de sobrevivência e afeição se articulam para dominar o conflito dramático.

    No momento em que a ação se inicia na sala de visitas, a mulher manifesta uma perturbação evidente, visível no modo como tenta combater a escuridão do espaço acendendo todas as velas e na postura sobressaltada com que se senta na extremidade do sofá, aparentando uma apreensão quase em pavor. Contudo, a sua atitude transforma-se rapidamente numa delicadeza cerimoniosa e calculada assim que Eben entra na divisão, convidando-o a sentar-se ao seu lado e demonstrando a firme intenção de quebrar a rigidez e a distância inicial entre ambos.

    À medida que o diálogo avança, ela evidencia uma extraordinária sensibilidade para ler o estado de espírito do enteado e manobrar o ambiente fúnebre do local. Ao aperceber-se de que o enteado associa a atmosfera da sala à presença invisível da falecida matriarca, a personagem não recua perante o assombramento; pelo contrário, apropria-se dele, declarando sentir que o espírito da falecida se tornou amável para consigo desde a chegada do jovem e chegando ao ponto de dirigir um agradecimento ao ar. Esta atitude permite-lhe desarmar a desconfiança de Eben e abrir caminho para uma aproximação física progressiva e envolvente, que se materializa no gesto de lhe pegar na mão, dar-lhe festas tranquilizadoras e passar-lhe o braço pelos ombros enquanto o incentiva a desabafar sobre o passado.

    A vertente mais complexa da caracterização de Abbie reside na simbiose entre o impulso protetor e a paixão erótica. Para conseguir a rendição emocional do jovem, a personagem opera uma sobreposição de papéis: iguala o seu próprio sofrimento à opressão vivida pela antiga senhora da casa e oferece-se para assumir o lugar da mãe perdida, prometendo-lhe o mesmo aconchego e a mesma dedicação. O seu comportamento oscila continuamente entre a ternura maternal e o desejo carnal avassalador, utilizando a linguagem da pureza — ao sugerir que o beijo inicial seja encarado como o afeto protetor de uma mãe a dar as boas-noites ao filho — para mascarar a natureza proibida da atração e dissolver a culpa do enteado.

    Quando Eben recua aterrorizado pelo peso do pecado e pela lembrança do tabu, a madrasta revela uma determinação obsessiva e uma entrega sem reservas. Em vez de recuar, intensifica a súplica de mãos estendidas e exige um amor total, recusando ser encarada apenas como uma figura materna substituta e reivindicando um afeto muito mais intenso e apaixonado para garantir a felicidade de ambos. Com grande perspicácia, reinterpreta o pavor espiritual do jovem, assegurando-lhe com firmeza que a presença invisível da mãe não o está a condenar, mas sim a incentivar a que se entregue a essa união.

    No desfecho da cena, ao ver que o enteado reconfigura o envolvimento amoroso como um ato de justiça e vingança contra o patriarca, ela acolhe essa transformação com exaltação e júbilo, oferecendo os braços abertos e retribuindo a confissão final do jovem. A sua caracterização culmina na imagem de uma mulher totalmente dominada por uma paixão avassaladora, que sela o pacto afetuoso através de um abraço e de um beijo intenso e definitivo, consumindo qualquer dúvida moral e assumindo até às últimas consequências a aliança trágica que a une ao enteado.

    Nesta cena, Eben emerge como uma figura de profunda complexidade e perturbação psicológica, cuja conduta oscila continuamente entre a vulnerabilidade do trauma infantil, o ressentimento patriarcal e o pavor religioso ao pecado.

    A caracterização do jovem abre com uma imagem de acentuada inibição e desorientação física: ao entrar na sala de visitas de pés descalços, com o chapéu na mão e sentando-se rigidamente na borda do sofá de crina, o jovem revela o seu respeito temeroso por um espaço sagrado e fúnebre, associado ao luto e à memória da mãe falecida. A sua dor não se apresenta como uma recordação ultrapassada, mas como uma ferida viva. Quando confrontado com a ideia das queixas da falecida, o jovem reage com uma paixão incontida ao exclamar «Por Deus, eu tenho!», revelando pouco depois a nostalgia do afeto perdido ao recordar que a mãe «Às vezes costumava cantar para mim». Esta fixação na figura materna expõe a carência emocional que o torna permeável à aproximação de Abbie.

    A dimensão psicológica de Eben é igualmente estruturada pelo ódio e pela sede de justiça contra a figura do pai, Ephraim Cabot. O rapaz encara a morte da mãe como o resultado de um aniquilamento sistemático, expressando essa convicção através de uma reivindicação patrimonial e moral obsessiva ao afirmar «Esta casa era dela. Esta herdade era dela», reforçando que o pai «não soube apreciá-la» e acusando-o categoricamente de que «Ele assassinou-a à força de dureza». Esta sacralização do sofrimento materno transforma o ressentimento de Eben numa dívida de sangue, levando-o a encarar a posse da terra e o confronto com o patriarca como um dever sagrado de reparação.

    No entanto, a proximidade do desejo físico por Abbie desperta nele um violento conflito moral. Perante a tentativa de sedução e o contacto físico, a sua mente puritana entra em colapso, mergulhando num «estranho estado de terror» provocado pelo horror ao incesto e ao adultério. Sentindo-se espiado e julgado pelo espírito da falecida, o jovem expressa a sua paralisia e angústia através da apóstrofe desesperada «Mãe! Mãe! Que queres? Que me estás a dizer?», demonstrando a fraqueza do seu autocontrolo e a enorme culpa que o impede de ceder ao impulso carnal.

    A viragem decisiva na caracterização de Eben ocorre no momento em que reinterpreta o assombramento materno. Ao convencer-se de que o espírito da mãe não o está a condenar, mas sim a incentivar a punir o patriarca, a sua fisionomia transfigura-se radicalmente, surgindo «com o rosto a iluminar-se subitamente de um imenso riso triunfante». Esta clareza permite-lhe racionalizar a transgressão e libertar-se da culpa, declarando com alívio e exaltação que «É que ela, assim, vinga-se dele... e pode repousar em paz na sepultura!». A união proibida deixa de ser vista como um pecado para se reconfigurar como um ato de piedade filial e vingança divina.

    Com a dissolução das inibições religiosas, Eben desmascara a postura defensiva que mantivera até então. Ao confessar apaixonadamente «Morro por ter-te... desde a hora em que chegaste!», o jovem admite que a sua rivalidade e rejeição iniciais eram o disfarce de um desejo avassalador reprimido desde o primeiro momento. A sua evolução ao longo da cena culmina numa entrega total e impulsiva, caindo de joelhos e unindo-se a Abbie num «beijo feroz, esmagador», no qual a busca por consolo e a violência da paixão se fundem para o selar definitivamente num destino trágico.

e) Linguagem e recursos estilísticos

    A comparação «pesada como um sepulcro em que a família tivesse sido enterrada viva» estabelece a atmosfera fúnebre e claustrofóbica da sala de visitas, associando o espaço à claustrofobia e à morte. Ao associar o peso da sala de visitas à figura de um sepulcro, a comparação projeta sobre aquele espaço doméstico as qualidades de um túmulo: o frio, a escuridão, a imobilidade e a ausência de vida. Não há ali qualquer noção de acolhimento familiar; pelo contrário, tudo ressoa a interdição, opressão e luto suspenso. A ideia de seres vivos viverem encarcerados na obscuridade reflete a condição psicológica das personagens, que habitam aquele espaço aprisionados pelo peso da memória, pelas convenções puritanas e pela impossibilidade de fuga. O núcleo familiar não representa um espaço de acolhimento, de proteção, mas uma espécie de condenação sem fim.

    A dupla adjetivação que caracteriza a sala («a sala desgraciosa e pesada»; «cerimoniosa e nervosa delicadeza») é extremamente expressiva. O primeiro par de adjetivos («desgraciosa e pesada») despoja o compartimento de qualquer dimensão de acolhimento ou harmonia. O qualificativo «desgraciosa» acentua a austeridade e a fealdade de um espaço desprovido de afeto, ao passo que «pesada» atribui uma gravidade quase física ao ar da divisão. A combinação dos adjetivos projeta sobre a sala de visitas uma atmosfera inóspita e sufocante, na qual a própria arquitetura doméstica parece esmagar quem nela entra. Por outro lado, a expressão «perplexidade obsessiva» intensifica o estado de perturbação e paralisia mental de Eben. O adjetivo «obsessiva» significa que não se trata de uma mera hesitação passageira, mas de uma desorientação profunda e contínua, que faz com que o seu pensamento fique preso no trauma da mãe falecida e no receio profundo de transgredir o tabu. Por seu turno, a fórmula «cerimoniosa e nervosa delicadeza» explora a contradição entre a fachada de autocontrole e a agitação latente. O adjetivo «cerimoniosa» sugere uma rigidez formal e um distanciamento, próprio de uma espécie de ritual num espaço sagrado ou fúnebre, enquanto «nervosa» denuncia a ansiedade e o medo que estão escondidos sob essa compostura.

    A personificação «A sala é assim patenteada em toda a sua conservada fealdade.» atribui à divisão da casa e à sua feiura uma presença quase viva. O verbo «patentear» sugere que a própria sala se revela e exibe perante os olhos de quem nela entra. O adjetivo «conservada» sugere que a fealdade do compartimento não decorre do mero desgaste natural ou do abandono, mas antes de uma preservação deliberada e congelada no tempo. A autoridade do espaço foi mantida intacta, guardada como um monumento ao luto e ao sofrimento desde a morte da matriarca. Nota-se que a personificação humaniza a fealdade do ambiente, convertendo-a numa presença física e psicológica sufocante. A sala de visitas deixa de ser um simples espaço, passando a funcionar como uma espécie de entidade austera e vigilante, cuja fealdade afeta as personagens e reforça a impossibilidade de esquecer a opressão e a morte que ali habitam.

    A frase «Parece que se vai tornando mais amável e afetuosa comigo» traz a figura materna de volta à vida. O uso da forma verbal «vai tornando» sugere que a capacidade de acolhimento que é atribuída à figura materna falecida é um processo progressivo: a força espiritual que paira na sala de visitas, inicialmente percecionada como um foco de pavor, ameaça e desconfiança, evolui para um estado de benevolência e concórdia. Na perspetiva de Abbie, esta humanização do invisível, entendida por ela como uma legitimação moral e emocional, neutraliza o caráter punitivo do assombramento. A figura da mãe falecida deixa de funcionar como um obstáculo ou uma força de interdição para ser reconfigurada como um agente de bênção e cumplicidade, o que permite desarmar gradualmente a culpa e as defesas puritanas de Eben perante a aproximação dos dois.

    Através de uma espécie de apóstrofe e agradecimento [«(Dirigindo-se ao ar, com estranheza:) Obrigada.»], Abbie interpela diretamente a entidade invisível que sente no espaço. O ato de agradecer pressupõe a existência de um diálogo silencioso, no qual a personagem responde a um sinal impercetível, transformando a entidade num contacto interpessoal. A expressão «com estranheza» traduz a perplexidade da madrasta perante o fenómeno sobrenatural. O agradecimento brota de um sobressalto diante da perceção de que a força invisível abrandou a sua hostilidade. A mulher reconhece o mistério daquela presença, mas escolhe interpretar a alteração da atmosfera como um sinal de consentimento e acolhimento. Por outro lado, ao proferir o agradecimento «Obrigada», Abbie instaura formalmente uma ponte com a antiga matriarca, moldando a realidade da cena perante Eben. A interpelação converte o espírito da mãe falecida numa entidade benevolente e cúmplice, pavimentando o caminho para desarmar o pavor do enteado e transformar a invasão do espaço sagrado num ato abençoado.

    As pausas e o uso de reticências («Quando entrei aqui... às escuras... parecia haver qualquer coisa...») reflete a respiração entrecortada, o medo, a voz trémula provocados pelo medo do desconhecido. Além disso, a hesitação traduz a procura de palavras para nomear o innominável. As pausas que isolam os segmentos «aqui», «às escuras» e «parecia haver qualquer coisa» assinalam o esforço da mente para dar forma a uma sensação vaga e perturbadora. A ameaça não se apresenta ainda como uma entidade definida, mas como uma presença difusa e invisível que paira no espaço.

    O eufemismo «A mãe tem queixas dele.» suaviza e atenua o histórico de maus-tratos, sofrimento e dor sofridos pela mãe às mãos do patriarca. Ao recorrer à expressão «ter queixas» para traduzir uma vida inteira de subjugação, exploração e desgaste até à morte sofrido pela mãe de Eben às mãos de Ephraim Cabot, em vez de nomear explicitamente a violência, a crueldade, a fala traduz o sofrimento através do eufemismo, revelando o pudor e a inibição de quem aborda a memória de uma vítima e a conduta do próprio pai.

    A apóstrofe e a exclamação [«(Com paixão:) Por Deus, eu tenho!»] traduz o sobressalto e a intensidade do ressentimento acumulado por Eben. Ao invocar a divindade («Por Deus») adquire uma noção de protesto visceral e juramento moral. A indicação cénica «Com paixão» reforça esta dimensão, enfatizando que a resposta da personagem brota de uma carga emocional incontrolável que estilhaça subitamente a postura de hesitação. Há aqui um claro contraste com a atitude moderada anterior. Perante a tentativa de suavização do sofrimento da falecida mãe, Eben recusa agora qualquer atenuação. A afirmação «Eu tenho!» mostra que o jovem assume como sua a missão de personificar a dor da mãe e legitimando a hostilidade que nutre contra o pai.

    O paralelismo sintático entre as falas de Eben e Abbie («Às vezes costumava cantar para mim.» / «Eu cantarei para ti!») cria uma ponte, através das palavras, entre a recordação do carinho materno e a oferta de afeto por parte da madrasta. O jovem evoca a memória da mãe, ao passo que a resposta imediata e simétrica da mulher, a repetição do verbo «cantar» e a correspondência dos pronomes pessoais permitem unir o passado da perda ao presente da oferta. Neste passo, é visível a sagacidade de Abbie, que capta a vulnerabilidade do enteado e se apropria do léxico do afeto materno para desarmar a sua postura defensiva. Por outro lado, a passagem do pretérito imperfeito («costumava»), que marca a nostalgia, a ausência e a irreversibilidade da morte, para o futuro do modo indicativo («cantarei»), que projeta uma promessa firme e um compromisso afetuoso, estabelece um contraste muito profundo. Ao oferecer-se para proporcionar ao jovem o mesmo tipo de consolo que a mãe lhe dava, Abbie opera uma subtil sobreposição de papéis, através da qual pavimenta a transição da dor da perda para a recetividade ao novo afeto.
    Segue-se um outro paralelismo, o qual traduz um diálogo espelhado entre Eben e Abbie:
        — Esta casa era dela. Esta verdadeira dona.         — Esta é a minha casa! Esta é a minha herdade!         — Ele não soube apreciá-la.         — Ele não soube apreciar-me.         — Ele assassinou-a à força de dureza.         — Ele assassina-me!
    Esta oposição simétrica de frases com a mesma estrutura sintática iguala a dor da mãe morta ao sofrimento da nova esposa. A passagem do pretérito imperfeito («era dela») e do perfeito («soube», «assassinou-a») para o presente («é a minha», «não sabe», «assassina-me») opera uma deslocação temporal: a dor da memória da mãe transforma-se num sofrimento vivo e palpável. Por outro lado, permite a Abbie igualar a sua condição à da progenitora de Eben, sobrepondo a opressão conjugal presente ao calvário sofrido pela antiga senhora da casa. Ao reutilizar as mesmas ideias — a posse da casa e da herdade, a incapacidade do patriarca em «apreciar» e a ação de «assassinar» através da dureza —, Abbie apropria-se da narrativa de vitimização que alimenta a fúria e a nostalgia do enteado. Este dado desarma a hostilidade inicial do jovem, levando-o a reconhecer na madrasta também uma vítima semelhante do rigor e da insensibilidade de Ephraim Cabot. Assim, é exposta a continuidade do ciclo de opressão patriarcal sobre as mulheres daquela casa e, em simultâneo, estabelece-se a equivalência emocional necessária para que Eben transfira a sua devoção para Abbie, vendo na proteção desta a continuidade da justiça devida à memória da mãe.
    A metáfora «Ele assassinou-a à força de dureza» denuncia a crueldade do pai e a origem do trauma familiar. Ao associar a «dureza» de Ephraim, entendida como o seu rigorismo puritano, a insensibilidade afetiva e o culto avaro do trabalho, à condição de instrumento homicida, a morte da antiga matriarca deixa de ser encarada como o resultado de uma doença ou do desgaste natural do tempo para ser denunciada como um ato de aniquilamento sistemático e prolongado. A ausência de compaixão e o peso da opressão atuaram como uma arma de destruição lenta. Num outro sentido, ao caracterizar o pai como o assassino da mãe, o jovem defrauda a sua causa de justiça sagrada. A metáfora despoja a autoridade do patriarca de qualquer legitimidade moral, justificando a revolta do filho e preparando o terreno para que a futura transgressão com Abbie seja vivida não como um pecado, mas como a única vingança capaz de reparar o crime cometido na habitação.
    A anáfora e a hipérbole «Hei de cantar para ti! Hei de morrer por ti! (...) Hei de tomar o lugar da tua mãe!» sublinham a promessa obsessiva e a entrega sem limites. De facto, a anáfora «Hei de» faz com que a promessa pareça um juramento solene, uma ideia fixa da qual a mulher não vai recuar. Além disso, forja falas marcantes e insistentes, não deixando margem para Eben ignorar o que ela está a propor. Através da hipérbole, ao colocar a própria vida como penhor do seu sentimento, a madrasta eleva a sua entrega a uma dimensão trágica e sem limites, na qual o risco da morte deixa de ser uma fração para se tornar a prova máxima da sua devoção. Este exagero reflete uma paixão devoradora e sem moderação, que antecipa o caráter absoluto da aliança que se estabelece entre ambos. Ao continuar a sequência com a afirmação «Hei de tomar o lugar da tua mãe!», articulando a promessa de consolo e a disposição ao sacrifício com a ocupação direta do espaço deixado vago pela falecida progenitora, expõe-se a estratégia psicológica de Abbie: ela pretende assumir a figura da mãe perdida para desarmar a culpa do enteado e absorver inteiramente a sua necessidade de amparo.
    A antítese «uma horrivelmente franca mistura de cio e de amor de mãe» une dois impulsos aparentemente inconciliáveis: o instinto carnal erótico e a proteção maternal. Ao aproximar e fundir dois fogos opostos — o erotismo (o apetite carnal, primitivo e erótico) e o amor de mãe (a proteção, a pureza e a dedicação maternal) —, a antítese une dois impulsos que a normalidade e as convenções sociais não admitem. Esta fusão gera uma tensão monstruosa: o acolhimento e o afeto de que Eben necessita para curar o trauma da perda são oferecidos imbricados na atração física, de modo que a figura da mãe substituída e a da amante sensual se tornam indissociáveis no mesmo gesto. Por sua vez, o advérbio «horrivelmente» assinala o impacto perturbador e chocante dessa revelação, enquanto o adjetivo «franca» sublinha a ausência de disfarce ou pudor. Não estamos na presença de uma atração dissimulada, mas de uma verdade visceral que se expõe sem rodeios, chocando o leitor ou espectador ao desnudar a natureza híbrida do desejo de Abbie. Ao expor a coexistência do impulso incestuoso e da permuta filial, o autor expõe a rutura definitiva dos tabus puritanos. Paradoxalmente, é esta sobreposição ambígua de afetos que permite desarmar a resistência de Eben, dado que o jovem cede ao desejo carnal sob a ilusão de estar a regressar ao colo protetor da mãe.
    A metáfora «abrasador desejo» associa a paixão física à imagem do fogo e do calor avassalador. Ao qualificar o desejo como «abrasador», converte o sentimento numa experiência física urgente e devoradora. O desejo deixa de ser uma escolha racional ou uma afeição branda para se converter numa força incontrolável que consome a vontade, o discernmento e a capacidade de contenção do indivíduo. Note-se que esta metáfora contrasta com o espaço e o ambiente onde as duas personagens se encontram: a sala de visitas é um local frio, estático e fúnebre, associado à morte e ao luto, mas nela brota um calor abrasador que marca a irrupção violenta da vida e do instinto sobre o passado. O fogo do desejo atua simultaneamente como uma força destruidora, que reduz a cinzas as inibições e a culpa puritana de Eben, e como um elemento de purificação que queima a rigidez da habitação para permitir a consumação do desejo carnal.
    A comparação «É um beijo puro, Eben... como se eu fosse tua mãe... e tu podes beijar-me como se fosses meu filho...» mostra toda a astúcia de Abbie, procurando desarmar as barreiras morais e a culpa puritana do enteado. Ao referir-se à analogia da relação filial através da fórmula «como se», a mulher estabelece uma equivalência ilusória entre o gesto erótico e a afetividade maternal. O desejo físico é, assim, materializado: o beijo, que constitui em si um ato de aproximação física e sensual entre as duas personagens, é linguisticamente desconfigurado como um gesto de consolo, pureza e proteção filial. Psicologicamente, a comparação explora diretamente o ponto vulnerável de Eben: a memória da mãe falecida, encobrindo aqui uma espécie de autorização moral para ceder ao contacto físico sem sentir que está a profanar o tabu ou a trair o espírito da progenitora. A comparação funciona, deste modo, como uma máscara protetora que envolve o impulso erótico numa aura de inocência, permitindo que a intimidade seja aceite.
    A hipérbole «sem teres mais» mostra que Abbie recusa ser amada somente como uma figura materna substituta, exigindo de Eben uma entrega erótica e emocional que supere qualquer laço anterior. O quantificador numeral «um» traduz a lucidez da sua mente do seu próprio desejo e a necessidade premida de garantir a posse total e exclusiva do afeto do enteado. Por outro lado, a hipérbole expõe o caráter devorador e incondicional da paixão de Abbie. Ao elevar a exigência amorosa a um patamar desmedido, a fala pressiona o jovem a romper com os seus preconceitos e resistência, forçando-o a abandonar as reservas morais e entregar-se à paixão pela madrasta.
    A apóstrofe, a repetição, a exclamação e as interrogações retóricas em «Mãe! Mãe! Que queres? Que me estás a dizer?» constituem um apelo desesperado e instintivo à autoridade e à proteção da falecida matriarca. Eben procura na figura materna um refúgio contra o receio do pecado, constituindo a repetição do chamamento a expressão da urgência de uma intervenção superior que trave o impulso erótico que o consome. As interrogações revelam o estado de alucinação psicológica do jovem. Sob o peso da dor intensamente sufocada, Eben deixa de ser silencioso e passa a escutar a mãe como uma voz de assombrações, uma voz incoerente e incompreensível. As perguntas retóricas mostram a sua incerteza e a incapacidade de descodificar o significado do que está a acontecer: ele debate-se entre o medo de ser punido pelo adultério/incesto e a necessidade de compreender a verdadeira vontade da mãe. Estamos no momento em que a resistência moral atinge o seu clímax, o momento em que a figura materna deixa de ser vista como um agente de interdição e passa a ser olhada como a inspiradora da própria vingança.
    A adjetivação expressiva, presente em «intensa súplica», «estranho estado de terror» e «ardor sensual», intensifica o pavor que atinge o jovem. O grupo nominal «intensa súplica» caracteriza a atitude de Abbie, elevando o seu apelo amoroso a um estado de urgência e desespero emocional. O adjetivo «intensa» mostra-nos uma personagem vulnerável e totalmente entregue à necessidade de ver o seu afeto correspondido. Quanto à reação do enteado, a expressão «estranho estado de terror» traduz o impacto da culpa e da presença fantasmagórica da mãe. O adjetivo «estranho» assinala a natureza invulgar desse pavor, uma perturbação que não nasce de uma ameaça física concreta, mas do horror à profanação do tabu, enquanto o nome «terror» exacerba a dimensão do medo moral, mostrando como a proximidade da transgressão convulsiona a mente do jovem. Por fim, a expressão «ardor sensual» marca a viragem física que acaba com a resistência de Eben. O adjetivo «sensual» explicita a natureza erótica do contacto, enquanto o nome comum «ardor» reintroduz a imagem de combustão interna e do calor avassalador que sobrepuja e substitui a paralisia do medo. Esta linguagem mostra como o beijo é vivenciado não como uma transição suave, mas como um confronto de forças extremas onde a angústia e a violência da paixão carnal se defrontam e se fundem definitivamente.
    A metáfora «com o rosto a iluminar-se subitamente de um imenso riso triunfante» está presente na ideia de o rosto «se iluminar». O rosto não acende uma lâmpada real; o autor usa a imagem da luz para mostrar o que acontece no interior da personagem. Eben passa, num instante, da «escuridão», isto é, da culpa e da confusão, para a «luz», a clareza absoluta, ou seja, ele entende finalmente que o espírito da mãe não o está a condenar, mas a apoiar aquela relação para se vingar de Ephraim Cabot. O sorriso «triunfante» mostra que o jovem deixa de se sentir um pecador assustado e passa a ver-se como o libertador que vai fazer justiça pela memória da progenitora.
    A antítese «E que ela, assim, me vingará dele... e pode repousar em paz na sepultura!» apresenta a transgressão do incesto e do adultério como um ato paradoxal de justiça, purificação e repouso espiritual para a falecida. A união carnal entre a madrasta e o enteado, que a moral social e religiosa condena como pecado gravoso de adultério e incesto, passa a ser encarada como um ato de justiça e reparação que irá libertar o espírito da falecida matriarca do peso da injustiça e do sofrimento suportados em vida, ao lado de Ephraim Cabot. A antítese conjuga duas realidades: a violência ativa do castigo («vingar-se dele») e a serenidade absoluta da morte («repousar em paz na sepultura»). A vingança contra a dureza do patriarca é apresentada como a condição indispensável para o apaziguamento da morta. Por outro lado, tudo isto anula em definitivo a culpa de Eben, visto que, quando se convence de que a entrega a Abbie constitui o triunfo da mãe sobre a tirania do pai, liberta-se de vez da paralisia moral e do pavor do castigo divino. Assim, a paixão reprimida pode irromper finalmente sem travões nem reservas.
    A hipérbole «Morro por ter-te... desde a hora em que chegaste!» traduz o momento em que Eben confessa abertamente a verdade: está apaixonado pela madrasta. Por seu turno, o recurso ao verbo «morrer» («Morro por ter-te») reflete o sofrimento físico e psicológico causado pela contenção do desejo. De facto, a impossibilidade de dar vazão ao desejo carnal é apresentada como um tormento agonizante. A expressão temporal «desde a hora em que chegaste!» demonstra que a rivalidade, a agressividade e a rejeição inicial de Eben eram, na verdade, uma máscara defensiva, um mecanismo de negação para dissimular uma atração imediata e avassaladora que ele tentava recalcar a todo o custo.
    A adjetivação e a metáfora em «Os lábios de ambos juntam-se num beijo feroz, esmagador.» expressam o impacto avassalador do contacto físico entre as duas personagens. O adjetivo «feroz» remete para o instinto indomável e a animalidade libertadas pela paixão reprimida ao romper subitamente com a violência de uma força da Natureza, depois de ter estado reprimida pelas amarras da culpa e das convenções sociais e religiosas. Já o adjetivo «esmagador» sugere um contacto de tal modo intenso e absoluto que aniquila a resistência individual, as dúvidas morais, etc. Em suma, a metáfora funde, no mesmo gesto, o amor erótico e a violência trágica. O beijo é vivenciado como a consumação do desejo e como um choque de forças onde o afeto e a destrutividade se tornam indissociáveis. A intensidade do abraço reflete a carga de tudo o que aconteceu anteriormente: a libertação do trauma da mãe, a profanação do espaço sagrado do patriarca e a assunção definitiva do pecado como um ato de vingança.

f) Características da tragédia grega

    Em primeiro lugar, destaca-se o mito do incesto e a dimensão edipiana, que remete diretamente para as tragédias de Eurípides e Sófocles, em particular para o mito de Fedra e Hipólito e para a estrutura de Édipo Rei. A relação proibida entre a madrasta e o enteado ultrapassa a mera atração carnal para se converter num nó trágico onde o erotismo e o instinto maternal se fundem paradoxalmente. Ao oferecer-se explicitamente para tomar o lugar da mãe falecida, prometendo o mesmo afeto e proteção, a personagem feminina assume a dupla função de amante e figura materna substituta, permitindo que o jovem canalize a sua devoção filial reprimida para a consumação do desejo interdito.

    Em segundo lugar, a cena é dominada pela presença de uma força invisível e atávica, que desempenha o papel análogo ao de uma Erínia (Fúria) ou de uma divindade vingativa do teatro grego. O espaço da sala de visitas, caracterizado na sua essência como um sepulcro fúnebre, não é um mero cenário passivo, mas a morada do espírito da antiga matriarca que exige reparação. A dor da morta paira sobre os vivos como uma maldição familiar, paralisando as personagens num estado de terror sagrado e impedindo a reconciliação até que a dívida de sangue e de sofrimento cobrada ao patriarca seja devidamente paga.

    Em terceiro lugar, desenrola-se o momento fundamental da anagnórise trágica — a iluminação ou revelação da verdade interior. O ponto de viragem ocorre quando o jovem, paralisado pelo medo do pecado e pela angústia da culpa, sofre uma iluminação súbita ao reinterpretar a vontade da mãe. A transfiguração do seu rosto num riso triunfante marca a passagem da cegueira espiritual (até) para o entendimento do fado: a conceção de que a transgressão do adultério não é uma profanação a ser punida, mas sim o instrumento escolhido pelo destino para que a falecida se vingue da crueldade do marido e possa finalmente repousar em paz na sepultura.

    Por fim, a cena culmina na manifestação da hybris e da fatalidade (anankê), onde o sacrilégio moral é racionalizado como um ato de justiça divina e purificação. Ao proclamar que é Deus quem se vinga em todos eles e ao entregarem-se a um beijo avassalador e feroz, as personagens julgam ter alcançado a libertação e o triunfo sobre a autoridade do pai. Contudo, essa aparente vitória encerra a trágica cegueira dos heróis clássicos (hamartia), uma vez que a ilusão de santificar o pecado através da vingança os amarra inexoravelmente a um pacto destrutivo, conduzindo-os passo a passo para a inevitável catástrofe final.

g) Elementos simbólicos

    O elemento simbólico central é a própria sala de visitas, configurada no texto como um sepulcro doméstico. Nas comunidades rurais puritanas, esta divisão permanecia habitualmente fechada e reservada a ritos fúnebres, funcionando na cena como o símbolo vivo do luto não ultrapassado, da paralisia do passado e da opressão exercida pela autoridade patriarcal. A sala não é apenas um cenário passivo, mas a encarnação da câmara de luto e o santuário da falecida matriarca. Ao transformarem este espaço de interdição no palco da atração carnal, as personagens operam uma profanação simbólica que converte o túmulo do medo no local da revelação e da transgressão.

    A dialética entre a luz e a escuridão, introduzida pelo ato de acender todas as velas, carrega igualmente uma forte dimensão simbólica. A escuridão da sala representa a penumbra moral, o pavor do pecado e a presença opressiva da morte. Ao acender as velas, procura-se simbolicamente espantar o medo e expulsar a atmosfera fúnebre do local, estabelecendo uma busca de calor humano e de proximidade. Esta iluminação exterior antecipa a transfiguração simbólica que ocorre mais tarde na fisionomia do jovem: a luz que invade o seu rosto no momento da compreensão da vingança representa a iluminação espiritual interna, na qual a cegueira da culpa dá lugar à clareza libertadora.

    O sofá de crina e a austeridade do mobiliário simbolizam o rigorismo ético e a insensibilidade que caracterizam a vida na herdade sob o domínio do patriarca. A crina, áspera e desconfortável, é o signo do despojar de qualquer comodidade ou afeto, refletindo a rigidez corporal e a inibição com que as personagens se sentam no início da cena. Contudo, o sofá sofre uma inversão simbólica ao transformar-se no plano físico onde a repressão cede lugar ao contacto e ao abraço, convertendo o instrumento da austeridade puritana no espaço da entrega apaixonada.

    A caracterização física do jovem no momento em que entra no espaço — apresentando-se com os pés descalços e o chapéu na mão — introduz símbolos visuais de vulnerabilidade, despojamento e reverência quase religiosa. O ato de descalçar os pés evoca o respeito ancestral perante um solo sagrado ou fúnebre, mostrando uma personagem desarmada das suas defesas exteriores e despida da agressividade habitual. O chapéu mantido na mão reforça a atitude de submissão e modéstia perante a memória da mãe, expondo a sua condição interior de órfão necessitado de amparo.

    A presença invisível da mãe funciona como um símbolo intangível da consciência moral e do fado. Inicialmente, esta força fantasmática encarna o olho vigilante do puritanismo e o interdito religioso que castiga a ideia do adultério e do incesto. Contudo, ao longo da cena, a figura materna transfigura-se no símbolo da justiça matriarcal: a sua presença deixa de significar a proibição do pecado e passa a representar a exigência de reparação histórica, convertendo o ato proibido num instrumento sagrado de vindicta contra a tirania do pai.

    A casa e a herdade surgem no discurso como extensões simbólicas da própria maternidade e do corpo da falecida. A terra e a habitação não são encaradas como meros bens materiais ou patrimoniais, mas como a corporização do trabalho, do sofrimento e da vida da matriarca usurpadora pela rigidez do marido. A disputa e a reivindicação do espaço físico equivalem, assim, à luta pela recuperação do legado matrilinear e da dignidade profanada.

    Por fim, o beijo final, qualificado pela sua intensidade avassaladora e feroz, constitui o símbolo supremo do pacto trágico. O beijo une paradoxalmente a paixão erótica, a violência e a reconciliação com o passado. Ao aniquilar a rigidez fúnebre que dominava a sala, este gesto final simboliza a combustão do medo e a aceitação definitiva do destino, selando a aliança entre as personagens num ponto de irreversibilidade onde a libertação e a tragédia se tornam indissociáveis.

h) Análise ideológica da cena

    A análise ideológica desta cena revela o confronto entre as estruturas dominantes do puritanismo patriarcal e do capitalismo agrário da Nova Inglaterra do século XIX e as forças emergentes de subversão assentes no matriarcado, no desejo vitalista e na justiça reparadora dos oprimidos. A sala de visitas, enquanto espaço fúnebre e institucional da casa dos Cabot, torna-se a arena onde se defrontam duas visões do mundo inconciliáveis: a ideologia autoritária e puritana encarnada pela figura ausente do patriarca e o impulso de libertação que une as personagens na profanação dessa mesma ordem.

    No cerne da ordem social retratada está a ideologia patriarcal puritana, na qual a religião e a posse da terra se articulam como instrumentos de dominação. O patriarca Ephraim Cabot personifica uma divindade severa e mercantil, que legitima a exploração do trabalho familiar e a apropriação dos bens em nome da virtude, do dever e do esforço individual. Nesta visão do mundo, a terra e a casa não são apenas propriedade privada, mas extensões do poder masculino que reificam e subordinam a mulher e os filhos. A falecida mãe de Eben surge como a vítima primordial dessa ideologia: o seu trabalho e os seus direitos sobre a herdade foram anulados pela dureza patriarcal, reduzindo a sua existência ao esgotamento físico e à anulação da sua dignidade e identidade.

    A aliança que se estabelece entre Abbie e Eben constitui uma rutura ideológica profunda com este modelo. Ao reivindicarem o espaço e a memória da matriarca usurpadora, as personagens desafiam a legitimidade da propriedade e da autoridade paterna. O conflito ultrapassa a dimensão interpessoal para se converter num combate ideológico sobre o direito à terra e à herança: a união erótica e afetiva entre o enteado e a nova esposa do patriarca funciona como um ato de expropriação simbólica e prática do poder do pai. A transição da culpa puritana para a exaltação da vingança demonstra como a moralidade religiosa dominante é desconstruída e substituída por uma ética alternativa, fundada na reparação histórica da injustiça cometida contra a mulher e o filho.

    Do ponto de vista da sexualidade e do corpo, a cena põe em evidência a crise da ideologia puritana de repressão dos afetos. O puritanismo tradicional encara a paixão e o prazer carnal — e em particular o incesto e o adultério — como marcas de degradação moral e pecado intolerável. Contudo, a irrupção do desejo entre as personagens assume um caráter vitalista e quase pagão, no qual a sexualidade se afirma como uma força instintiva e libertadora que consome a paralisia e o luto do passado. Ao ressignificarem a transgressão como um ato legítimo e apadrinhado pelo espírito materno, as personagens desmantelam o dogma de que o sofrimento e a sujeição ao patriarca são as únicas vias morais possíveis.

    Em última análise, a cena expõe as fraturas internas da família patriarcal. A fusão entre a proteção maternal e o erotismo desafia as categorias éticas do sistema dominante. Todavia, a tragédia ideológica reside no facto de a libertação das personagens permanecer aprisionada na própria lógica de posse e vingança que procuram combater: ao tentarem alcançar a justiça através da usurpação e do sacrilégio, Abbie e Eben acabam por selar um pacto de irreversibilidade, no qual a utopia do afeto livre se defronta com as forças esmagadoras do fado e da punição social.
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