Português: 14/10/26

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Travessão

 
1. O travessão é o sinal de pontuação mais flexível da língua portuguesa.
 
2. Convém ter presente o seguinte facto: há quatro sinais constituídos por um traço horizontal:
• o travessão: —
• a meia-risca: –
• o hífen: -
• o underscore: _
         A meia-risca pode ser usada em substituição do travessão, por decisão editorial.
         O hífen só pode ser usado para substituir o travessão quando não há outra solução ou em textos muito informais (por exemplo, uma conversa por SMS ou no WhatsApp).
         O underscore é usado exclusivamente no âmbito informático.
 
3. Quando se escreve um texto num computador, há diversas hipóteses para inserir o travessão:
a) usar as teclas Ctrl-Alt+sinal de menos (-) (no teclado numérico);
b) clicar em Inserir, Símbolo, Mais Símbolos, Carateres Especiais (caso não tenha teclado numérico); depois, copiar o travessão e aceder à janela da correção automática (no menu Ficheiro, Opções, Verificação, Opções de Correção Automática); nessa janela, inserir a correção automática de «--» por «—»; sempre que se clicar duas vezes seguidas na tecla do hífen, surgirá um travessão.
 
4. O travessão é utilizado para:
 
4.1. Assinalar o diálogo / indicar a fala das personagens:
A Miquelina perguntou:
— Quem era Lito Sousa?
— Lito Sousa era um divulgador de aviação — respondeu a tia Gabriela.
 
4.2. Substituir a vírgula, destacando a parte isolada:
Mas quando nos apeámos no pequeno cais branco e fresco — só houve em torno de nós solidão e silêncio...
Eça de Queirós, “Civilização
 
4.3. Substituir os parênteses, destacando a parte isolada:
Foi então que apresentou o detetive Joe Kenda — que é muito conhecido.
Foi então que apresentou o detetive Joe Kenda (que é muito conhecido).
 
4.4. Substituir os dois pontos (exceto no diálogo),dando maior destaque ao que se segue:
(...) e aí depusemos melancolicamente o que nos ficara de trinta e sete malas — os paletós alvadios, uma bengala e um Jornal da Tarde.
 
4.5. Destacar uma parte da frase que não levaria outro tipo de pontuação:
Foi nesse momento que deparou com o assassino do Zodíaco — e desatou a tremer.
 
4.6. Definir ou explanar uma ideia:
Saudade — nome que diz a permanência do perdido.
 
4.7. Introduzir uma conclusão, equivalendo aos dois pontos:
E ainda hoje naquela ilha, que se chama agora S. Miguel, existe esse lugar maravilhoso e com aquele nome — as Sete Cidades.
 
4.8. Delimitar (travessão duplo) o início e o fim da fala do narrador, quando intercalada no discurso de uma personagem:
— Há de vir aí um artista — prometeu-me Ema. — Você verá o entusiasmo dele. Um mundo sem arte seria absurdo.
 
5. O uso do travessão depende muito do estilo de quem escreve.
O cão do meu vizinho é irritante — mas o meu não.
Tudo isto quer dizer apenas uma coisa — o travessão é um sinal muito flexível na língua portuguesa.
 
6. De acordo com o professor Marco Neves (Pontuação em Português, p. 79), “Há uma sucessão de sinais parentéticos constituída pelo travessão, parênteses e vírgula. O travessão dá um maior destaque à expressão parentética:
Foi então que chegou o João — que é o meu melhor amigo.
Foi então que chegou o João (que é o meu melhor amigo).
Foi então que chegou o João, que é o meu melhor amigo.
 
7. “Quando usamos os parênteses, é perfeitamente possível (e, por vezes, obrigatório) usar uma vírgula a seguir.
Se não usarmos a vírgula depois do travessão (o que fica ao nosso critério), estaremos a irritar algumas pessoas. Mas, se a usarmos, também...
Ora, no caso do travessão, temos dois ussos distintos: há quem use essa vírgula e há quem veja na vírgula um excesso, pois o travessão também tem o valor de vírgula. Aconselho o uso da vírgula, por analogia com a possibilidade de usar uma vírgula após os parênteses.
Se usarmos a vírgula depois do travessão — o que fica ao nosso critério —, estaremos a irritar algumas pessoas.
Se não usarmos a língua depois do travessão — o que fica ao nosso critério — estaremos a irritar outras pessoas.”
 
8. Por regra, a meia-risca é uma alternativa ao travessão. Contudo, pode ser usada para ligar dois elementos. Neste caso, não deixamos qualquer espaço antes nem depois da meia-risca:
O jogo Portugal–Noruega terminou 2 a 1.
O percurso Vilar Formoso–Aveiro demorou duas horas e meia.
Horário do exame: 9h–11h.
O mais habitual nestes casos, porém, é usar o hífen.
 
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