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terça-feira, 29 de setembro de 2026

Análise da cena IV da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

a) Ação 

    A quarta cena abre no interior da cozinha, onde Eben medita carrancudamente diante do prato intacto, enquanto Simeon e Peter terminam a refeição e o provocam sobre a sua noitada com Min. O caçula revela estar dominado por uma premonição febril sobre o regresso iminente do pai. Subitamente, os dois irmãos mais velhos recusam-se a continuar o trabalho agrícola, declarando a sua intenção de viver como os lírios do campo. Tomado por uma excitação quase mística, Eben proclama que a quinta pertence de novo à sua falecida mãe e sai para o exterior, contemplando a propriedade com um desejo obsessivo de posse. No exterior, Simeon e Peter bebem uísque, acendem os cachimbos e observam a alvorada, avistando ao longe a carroça em que Ephraim Cabot regressa acompanhado pela nova noiva. Eben corre ansioso ao encontro dos irmãos para anunciar a chegada da velha mula e da noiva. Antes da chegada do pai, os dois mais velhos recolhem as trouxas e exigem o pagamento prometido; o mais jovem retira debaixo do soalho da cozinha, junto ao fogão, o saco de lona com as moedas de ouro de vinte dólares deixadas pela progenitora. Após a contagem cuidadosa dos seiscentos dólares e a assinatura da renúncia aos direitos da herdade, Eben guarda o documento como um troféu de restauração moral. 
    No portão da quinta, desenrola-se o confronto de despedida: Simeon arranca a cancela dos gonzos, declarando abolidos todos os portões e barreiras, enquanto Ephraim e Abbie Putnam chegam à propriedade. Ao verem a nova madrasta, acolhem a chegada com sarcasmo e escárnio, lançando provocações diretas ao progenitor, executando uma absurda dança de guerra ao redor do velho petrificado e atirando pedras que partem os vidros da janela da sala. Os dois irmãos partem jubilosos pela estrada fora, cantando a canção da Califórnia. 
    Entretanto, Abbie entra na cozinha e depara-se com Eben. A nova esposa observa o jovem com uma avaliação calculista da sua força e com uma atração física incontestável, tentando seduzi-lo sob o pretexto de quererem ser amigos e partilhando o seu passado de privações e servidão. O rapaz debate-se numa violenta luta interna entre o ódio visceral e a atração física irresistível, acabando por precipitar-se para fora da casa após Abbie afirmar o seu domínio absoluto sobre o lar e o quarto superior. No exterior, Ephraim invoca o Deus dos Exércitos para amaldiçoar os filhos, sendo desafiado por Eben num aceso combate verbal de acusações e blasfémias. A cena encerra com a partida de pai e filho em direção ao estábulo para o trabalho diário, enquanto a voz distante dos irmãos se apaga na estrada e Abbie começa triunfalmente a lavar a louça na sua nova cozinha.

b) Espaço 

    O espaço físico articula-se entre o interior da cozinha — centrado na mesa de refeições, no fogão e no soalho que escondia o ouro — e o exterior imediato da casa, dominado pelo portão com o muro de pedra e pela estrada que conduz ao Oeste. No plano social, a quinta representa o microssistema agrário e patriarcal da Nova Inglaterra do século XIX, fundamentado na servidão familiar, no isolamento geográfico e na exploração do trabalho. No plano psicológico, o espaço transforma-se num território de conquista e profanação. A cozinha, antigo santuário da mãe de Eben, converte-se no palco onde Abbie afirma a sua soberania e onde a tensão erótica entre madrasta e enteado é selada. O portão de pedra deixa de ser uma mera divisória de propriedade para encarnar a barreira da escravidão; o seu desmantelamento físico por Simeon simboliza o romper da prisão doméstica, abrindo passagem para a estrada como espaço psicológico de utopia, evasão e liberdade.

c) Tempo

    O tempo da ação decorre durante o nascer do sol e o início da manhã, marcando a transição da luz cinzenta da alvorada para a luminosidade plena do dia. O tempo do discurso é extremamente dinâmico e polifónico, alternando entre a celebração ruidosa e carnavalesca dos irmãos mais velhos, o ritmo pausado, denso e sedutor do diálogo entre Abbie e Eben na cozinha, e a violência verbal cortante da disputa final exterior. No plano histórico, a ação fixa-se rigorosamente no ano de 1850, em plena febre do ouro na Califórnia, ambiente evocado pela canção popular e pela ilusão de enriquecimento rápido. No plano psicológico, o tempo adquire uma dupla dimensão: para Simeon e Peter, o tempo estagnado de décadas de servidão explode numa vertigem de libertação onde o futuro é conquistado em instantes; para Eben e Abbie, o tempo condensa-se num presente suspenso e ameaçador, onde o passado de trauma e a urgência do desejo futuro se chocam inevitavelmente.

d) Caracterização das personagens

    Eben Cabot surge como um jovem de 25 anos dotado de uma beleza rústica e de uma força física notável, mas profundamente dividido no seu foro íntimo. Psicologicamente, é dominado por uma obsessão patrimonial e por uma devoção quase religiosa à memória da mãe falecida, acreditando ter cumprido a sua missão ao recuperar o ouro e os papéis da quinta. Contudo, ao ser confrontado com Abbie, revela a sua extrema vulnerabilidade, lutando desesperadamente entre a repulsa moral pela usurpadora e uma atração erótica incontrolável. Socialmente, passa de servo explorado a suposto proprietário legítimo da herdade.

    Abbie Putnam, com 35 anos, é caracterizada por um ar alegre, cara cheia e bonita, impregnada de uma sensualidade vigorosa e um olhar determinado e duro. Tendo sofrido um passado miserável de orfandade, servidão e perdas pessoais, é movida por um instinto de sobrevivência e por uma necessidade visceral de possuir um lar. Revela-se calculista, sedutora e dominadora, consciente do seu poder sobre o velho Ephraim e capaz de reconhecer em Eben uma alma gémea em termos de energia e obstinação. Abbie Putnam apresenta-se com trinta e cinco anos, sendo quarenta anos mais jovem do que Ephraim Cabot. Exibe um rosto cheio e bonito, marcado por uma sensualidade um tanto grosseira e por um ar de vitalidade transbordante. A sua expressão denota força e obstinação visíveis no queixo, acompanhadas por uma determinação dura nos olhos. Estes traços revelam uma afinidade temperamental direta com o jovem Eben, uma vez que partilha com ele as mesmas características desesperadas, irrequietas e indomáveis.

    O seu percurso é profundamente marcado por um passado traumático de miséria e servidão. Tendo ficado órfã muito cedo, serviu em casas alheias e casou-se com um homem alcoólico. Após perder o filho e ver o marido adoecer e morrer, viu-se forçada a regressar ao trabalho doméstico explorado, quase perdendo a esperança de vir a ter um espaço próprio. É precisamente este percurso doloroso que explica a motivação do seu casamento com Ephraim Cabot, de setenta e cinco anos, o qual aceitou movida exclusivamente pela necessidade vital de encontrar segurança e a garantia de um teto seu.

    Ao chegar à quinta, demonstra a atitude firme de uma conquistadora que saboreia com orgulho a ideia de posse sobre a habitação. Reivindica categoricamente a soberania sobre o espaço perante a oposição dos enteados, assumindo o domínio da casa, da cozinha e do quarto principal no andar superior, onde concretiza simbolicamente a sua autoridade ao assumir com orgulho as tarefas domésticas.

    Nas suas relações, revela um jogo complexo de poder e sentimentos. Em relação a Ephraim Cabot, sobressai o controlo e a manipulação através da sedução, demonstrando um odiento sentido de poder sobre o velho, embora não consiga dissimular uma profunda repulsa física perante a ideia do leito conjugal partilhado. Já perante Eben, a sua atitude oscila entre a avaliação calculista e a sedução: ao encontrá-lo a sós na cozinha, pondera friamente a força física do jovem, mas deixa-se envolver pelo desejo despertado pela sua juventude e boa aparência. Alterna o papel provocatório de nova mãe com a proposta de uma aliança estratégica como amigos, tentando desarmar a hostilidade do rapaz. Acima de tudo, identifica em Eben um reflexo do seu próprio sofrimento, procurando construir uma ponte de empatia e união fundada na dor partilhada pela perda da mãe.

    Ephraim Cabot, aos 75 anos, mantém um corpo alto, seco e de costas curvadas pelo trabalho contínuo, apresentando um rosto duro como xisto e olhos míopes. Representa a rigidez do patriarca puritano, cuja autoridade se fundamenta numa teologia severa e num orgulho inflexível; apesar de traído pela debandada dos filhos e ridicularizado, tenta manter a postura de tirano inabalável. Simeon e Peter, libertados da sujeição agrícola, encarnam a transformação do embrutecimento animal na euforia infantil da alforria, entregando-se a um comportamento subversivo, sarcástico e festivo antes da partida definitiva.

e) Linguagem

    A linguagem da cena é caracterizada por um registo coloquial e rústico, rico em termos do vocabulário agrícola, interjeições de desafio e celebração, expressões de tom bíblico e imprecações inflamadas. A oralidade é intensificada pela presença de cânticos populares e por diálogos rápidos e sobrepostos.
    A comparação "viver como os lírios do campo", proferida por Simeon no início da cena, evoca a passagem do Sermão da Montanha (Mateus 6:28-29), na qual Cristo exorta os discípulos a confiarem na Providência divina e a libertarem-se do materialismo: "Olhai os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam". Porém, colocada na boca da personagem Simeon, remete para a tirania da teologia calvinista e puritana implacável, ditada pelo patriarca Ephraim, segundo o qual Deus é um ente "duro e solitário" que só aprecia o trabalho contínuo, a abnegação e o sofrimento físico no cultivo da terra estéril. Ao usar as próprias Escrituras para justificar a recusa em pegar na enxada ou ir ordenhar as vacas, Simeon usa a Palavra de Deus contra a própria autoridade do pai. Ao afirmar que passará a viver como os lírios do campo, ele reivindica pela primeira vez o direito à contemplação, ao descanso e à desvinculação da lógica da produtividade, marcando a transição da servidão cega para o exercício de uma soberania pessoal, onde os dois irmãos se recusam a continuar a ser o "estrume" que fertiliza a propriedade do pai.
    A metáfora "Oeste Dourado" funciona como a antítese perfeita do solo estéril da Nova Inglaterra. Enquanto a herdade de Ephraim é descrita como um cárcere de "muros de pedra" onde os homens foram reduzidos a escravos, a Califórnia surge como uma utopia de abundância e salvação. O ouro deixa de ser um mero recurso económico e converte-se no símbolo da libertação do jugo paterno. Por outro lado, o movimento do astro ("É o sol que vem connosco para o Oeste Dourado") projeta a ilusão de que a própria natureza abençoa e acompanha a fuga dos irmãos.
    Outra metáfora ("Estrume de primeira é que eu tenho sido para ti"), proferida por Simeon ao dirigir-se à terra da quinta, expressa de forma crua a desumanização causada por décadas de trabalho agrícola escravo. Em vez de o ser humano ser o sujeito digno que domina e cultiva a terra para o seu sustento, é rebaixado à condição de insumo biológico cuja única utilidade é fertilizar o solo de Ephraim. A propriedade não nutre os homens; são estes que alimentam a terra com a sua própria vida. A metáfora denuncia como a quinta funcionou como um organismo parasitário que devorou a juventude e a energia dos irmãos mais velhos, sugando-os até os converter em resíduos antes de os descartar.
    A metáfora "Escravos destes muros de pedra", proferida por Peter, sintetiza o drama da servidão física e da opressão psicológica vivida pelos filhos na quinta. Ephraim submeteu a família, ao longo de anos, à remoção de rochas do solo estéril e à construção interminável de delimitações para a herdade. Assim, esses muros de pedra, erguidos pelos próprios filhos, deixam de ser simples barreiras de propriedade para se tornarem as muralhas de uma prisão a céu aberto que os enclausura e consome.
    A metáfora "A velha mula", dita pelos irmãos referindo-se ao pai e à sua chegada na carroça, despoja-o de qualquer respeitabilidade — um homem que se autoproclama um eleito de Deus e que sempre governou a quinta com mão de ferro é rebaixado à condição de um animal de carga idoso, rústico e desgastado. Por outro lado, a figura da mula está associada à teimosia inflexível e à esterilidade biológica e, ao associar esta imagem a Cabot, expõe a essência do seu caráter: um velho de 75 anos, cego na sua obstinação em dominar a terra e a vida dos filhos. Além disso, a incapacidade de gerar vida reflete o regime patriarcal de Ephraim, um modelo severo que não produziu afeto nem comunhão, mas apenas ressentimento, esterilidade afetiva e a debandada dos dois herdeiros mais velhos. Por último, a metáfora mostra que os filhos deixaram de temer e ser subservientes ao pai e eles montam um espetáculo de escárnio e provocação aquando da sua chegada.
    A metáfora "O cabresto rebentou! A albarda foi ao ar!" remete para o facto de Simeon e Peter serem frequentemente associados a "animais de tração" ou "bois de arado", embrutecidos pelo esforço físico diário. O cabresto (as rédeas que travam e guiam o animal) e a albarda (o arreio de carga colocado no lombo para suportar o peso) funcionam como os instrumentos da sua domesticação. Ao anunciarem que o cabresto rebentou e a albarda voou, os irmãos proclamam a recusa em continuarem a ser tratados como gado ao serviço do patriarca, recuperando simbolicamente a sua condição humana. O cabresto representa a autoridade castradora exercida por Ephraim e o seu "rebentar" simboliza que o medo e a capacidade de intimidação do pai deixaram de surtir efeito. Se o cabresto representa o controlo, a albarda encarna o peso esmagador da herdade: a remoção de rochas, a lida do gado e o trabalho sem recompensa. Lançar a albarda "ao ar" traduz a sensação visceral de alívio e desmaterialização da carga. Os corpos, curvados pelo trabalho agrícola, libertam-se do fardo para enfrentarem o caminho aberto.
    A metáfora "A ti te há de ele comer, velhote!" reaviva a disputa pela herdade a um ato de ferocidade física e sobrevivência animal. Ao garantir que Eben há de "comer" o pai, Simeon antecipa que o filho mais novo não só se limitará a reivindicar a herança legalmente; ele irá consumir gradualmente a autoridade, os bens, o orgulho e a energia vital do velho patriarca. A posse da quinta exige a aniquilação moral do opressor, transformando o conflito familiar numa luta de predadores onde o mais jovem devora o mais velho. No plano mitológico e psicanalítico, a expressão ressoa com o mito de Édipo e com a dinâmica da destruição do pai. Para que Eben afirme a sua virilidade e conquiste o território que considera que pertence legitimamente à sua mãe, o patriarca tem de ser despojado do seu poder e símbolo concreto "despojado". A convivência pacífica entre ambos é impossível; a afirmação da identidade de Eben passa inevitavelmente pela destruição da soberania de Ephraim. E, de facto, esta espécie de profecia concretizar-se-á de forma particularmente devastadora: o filho irá suplantar o pai ao unir-se sexualmente à sua nova esposa, Abbie, gerando com ela um filho na própria casa de Ephraim.
    A interrogação metafórica "Onde diabo a desenterrou?" possui uma forte carga de profanação, rejeição e presságio trágico. O uso da forma verbal "desenterrou" retirou a Abbie a condição de um ser humano vivo com uma origem social legítima, equiparando a sua "descoberta" à exumação de um cadáver ou à libertação de uma criatura das profundezas da terra. Além disso, ao associar a expressão à figura do "diabo", os irmãos insinuam que Ephraim não encontrou uma esposa através de uma união abençoada, mas antes realizou uma espécie de pacto profano, trazendo das profundezas uma presença negra para a quinta. Para Simeon e Peter, a nova madrasta é vista como uma intrusa que vem perturbar a ordem familiar, sendo, assim, despojada de qualquer dignidade ou autoridade materna, transformando a sua chegada num acontecimento objeto que causa repulsa e estranheza aos filhos do patriarca. Por outro lado, esta imagem contém um caráter premonitório, visto que, ao sugerirem que a mulher foi "desenterrada" da sepultura, os irmãos profetizam inconscientemente a atmosfera de morte e tragédia que Abbie trará consigo. A nova esposa, que vem em busca de vida e de um lar, levará a casa à ruína, ao infanticídio e à destruição moral, provando que, ao "desenterrá-la", Ephraim trouxe a própria cova para dentro da sua herdade.
    Ao catalogar Abbie como uma "porca" ("ordená-la no chiqueiro com as outras porcas") e ao destinar-lhe o "chiqueiro" como habitação legítima, Peter rebaixa a mulher à condição de animal doméstico associado à imundície, à voracidade e à abjeção. O chiqueiro contrasta com a noção de habitação e de espaço sagrado do lar. Ao sugerirem que devia ser recolhida entre os suínos, os irmãos negam a Abbie qualquer direito de soberania sobre a cozinha, sobre os quartos ou sobre a herdade. A imagem funciona como um ato de rejeição preventiva: antes mesmo de ela cruzar o limiar da porta, os enteados recusam-se a vê-la como autoridade materna ou parceira do pai. Convém considerar, no entanto, que esta espécie de insulto também atinge o velho Ephraim, dado que o facto de a nova esposa ser apelidada de "porca" destrói a fachada de respeitabilidade do matrimónio.
    Ao ameaçar os filhos ("Ficam como os ossos num feixe!"), Ephraim recorre a uma imagem da lida agrícola e florestal: o ato de atar gravetos ou lenha seca num fardo. Desta forma, traduz-se a fúria cega do velho e o seu desejo de castigar fisicamente a insubordinação de Simeon e Peter. A imaginação do homem não concebe uma punição através de abstrações morais ou espirituais, mas apenas por meio da força bruta e da agressividade/violência. Não obstante, apesar da ameaça, os filhos reagem com gargalhadas, danças de escárnio e pedradas às janelas da casa, evidenciando, assim, a inutilidade do discurso de intimidação.
    Quando fica a sós com Abbie na cozinha, Eben exclama: "Velha bruxa!". Confrontado com a presença sensual e provocadora da mulher, o rapaz sente-se atraído por ela, o que o deixa perturbado, reagindo com insultos. Por outro lado, ele procura, desta forma, racionalizar o que sente, tendo em conta também que a sua lealdade à memória da mãe e os ditames da moral puritana com que tinha sido criado proibiam qualquer impulso sexual pela esposa do pai. Deste modo, o desejo não é assumido como uma pulsão própria, mas explicado como um feitiço ou encantamento maligno lançado por uma entidade demoníaca — a própria madrasta. A mulher sedutora é vista como o agente do Diabo que enreda o homem inocente: se Abbie é uma bruxa dotada de poderes de sedução, Eben não passa de uma vítima indefesa da tentação e não um cúmplice consciente da profanação do leito paterno.
    Na iconografia bíblica (como no Salmo 23 ou no mito do Bom Pastor), a relação entre o pastor e as ovelhas simboliza o cuidado, a proteção espiritual e a condução amorosa do rebanho em direção à salvação e aos pastos verdes. Eben inverte completamente esta alegoria: o Deus severo invocado por Ephraim ("Atraindo as suas ovelhas ao pecado!") atua como um falso pastor perverso que, em vez de proteger o rebanho, atrai e empurra deliberadamente as suas "ovelhas" (os filhos) para o abismo do pecado e da transgressão. Assim, a metáfora funciona como uma crítica à hipocrisia do puritanismo de Cabot, pois, ao invocar constantemente um Deus duro, vingativo e cruel para sancionar a sua tirania e avareza, o patriarca criou um ambiente doméstico sufocante, desprovido de afeto e repressivo, de tal forma que a única resposta possível para os filhos é a rebeldia e a profanação. Deste modo, Eben expõe a hipocrisia do pai: a religião de Ephraim não salva nem purifica; antes é um instrumento de opressão que semeia o ódio e incita à perdição moral. Além disso, convém recordar que as ovelhas são animais indefesos que foram explorados e manipulados sob a ameaça do castigo divino, pelo que, ao proferir esta metáfora, Eben rompe com a imagem do cordeiro vulnerável conduzido ao matadouro: ele recusa-se a aceitar a culpa que o pai lhe tenta impor e devolve a responsabilidade moral da corrupção da família ao próprio patriarca. Por último, ao acusar o pai de levar os filhos ao pecado, Eben, sem disso ter consciência, profetiza o pesadelo em que se vai afundar. Ao trazer Abbie para a quinta como sua esposa, Ephraim é o próprio a introduzir no lar a tentação que conduzirá o filho mais novo ao pecado do "incesto".
    A metáfora "Nunca chegaste a homem inteiro!", posta na boca de Ephraim Cabot, reduz Eben à condição de um ser fraco, incompleto e infantilizado que é incapaz de exercer a autoridade ou demonstrar a têmpera necessária para governar a sua própria vida e a propriedade. No momento em que o desafia e reivindica a legitimidade da herdade, o patriarca tenta desarmar o filho atacando diretamente o seu orgulho masculino. Claro que este "ataque" tem consequências: Ephraim atiça o ressentimento do filho e alimenta o seu desejo obsessivo de provar a sua masculinidade. É precisamente para desafiar esta negação paterna e demonstrar que é um "homem inteiro" que Eben se lançará nos braços de Abbie, visando na ligação à madrasta a validação da sua força e a usurpação definitiva do lugar do pai.
    Quando confronta o pai na cozinha, e ataca a legitimidade do casamento, exclama: "E comprou-a... como quem compra uma pega!", equiparando-o à compra de uma prostituta ou de uma mercadoria vulgar e reduzindo a união sagrada do matrimónio a uma mera transação comercial de prostituição. Na perspetiva do jovem, a madrasta vendeu o seu corpo e a sua liberdade a um velho em troca do teto e do sustento. Por outro lado, ao degradar Abbie à condição de mercadoria comprada, o jovem tenta desarmar o poder de fascinação que ela começa a exercer sobre si, mascarando a sua vulnerabilidade sob a capa do desprezo. Por seu turno, Abbie assume friamente que casou por necessidade de ter um lar e usa essa mesma transação para afirmar o seu domínio absoluto sobre a cozinha e sobre a herdade, mostrando que a "comprada" é quem passará a controlar a casa.
    Ao avistar Simeon e Peter, Abbie afirma: "Estão dois homens espreitados ao portão a olhar para mim como um par de porcos para a bolota." Ao comparar a atitude dos dois enteados ao olhar fixo e famélico dos porcos perante o seu alimento ("bolota"), a mulher desumaniza-os, devolvendo-lhes a linguagem degradante e animalizada com que estes costumam classificar as mulheres (reduzidas a "gado", "fêmeas" ou "vacas" nas cenas anteriores). Os homens, que se consideravam dominadores, são rebaixados pela nova madrasta à condição de animais famintos e impotentes no portão. Ao identificar-se metaforicamente com uma bolota, Abbie demonstra ter consciência da forma como é percecionada na quinta. De facto, para Simeon e Peter, ela não é uma pessoa, mas um mero objeto de apetite e uma ameaça patrimonial, um bem apetecível que o pai adquiriu e que vem usurpar a herança. A atração erótica, a fome física e a disputa pela posse da terra reduzem-se ao mesmo impulso biológico e instintivo de sobrevivência. Além disso, em vez de se mostrar intimidada pelo olhar de desprezo que lhe é dedicado, a nova esposa dedica-lhes apenas desdém e sarcasmo, desarmando a atitude ameaçadora dos dois filhos mais velhos.
    Através de outra comparação ("Tenho a impressão de que se aproxima... sinto-o chegar, como se sente o arrepio das febres, antes de elas começarem"), Eben compara a chegada do pai aos sintomas de uma doença: o calafrio que antecede um surto febril. O patriarca atua no organismo do filho como um vírus ou uma infeção iminente, fazendo o seu corpo tremer e adoecer antes mesmo do confronto presencial. A aproximação física da carroça funciona como uma epidemia que vem desestabilizar o ambiente doméstico e arrastar as personagens para a vertigem da loucura e da destruição. Por sua vez, Simeon diz sobre Eben o seguinte: "É duro como um marmeleiro!". Esta comparação significa que o filho mais jovem herdou e reproduz a mesma obstinação e inflexibilidade do patriarca, apesar do repúdio que mostra относительно ao pai. O "marmeleiro" funciona como a metáfora vegetal do próprio sangue dos Cabot, mostrando que Eben é feito da mesma matéria resistente e intransigente do pai. Além disso, a comparação traduz a sua compleição física e o seu caráter, moldados pelo esforço diário na terra estéril da quinta. A sua força não é delicada ou polida, mas rústica, calejada e preparada para a lida e para o confronto. No entanto, debaixo da carcaça inflexível do "marmeleiro", o jovem esconde a ferida aberta do trauma associado à perda da mãe.
    Numa didascália, podemos ler o seguinte: "O rosto é duro, como se tivesse sido esculpido num seixo...". Esta comparação estabelece uma equivalência entre a fisionomia do velho patriarca e a matéria mineral inerte ("seixo"). Ephraim não é apresentado com feições humanas suaves ou expressivas, mas como um homem cuja cara foi esculpida pela dureza da rocha. Esta comparação traduz a calcificação da sua alma: 75 anos de fanatismo puritano, aridez afetiva e isolamento moral transformaram o seu caráter numa estrutura rígida, insensível e totalmente impermeável à compaixão. Ao longo da peça, é visível que existe uma profunda identificação entre a figura de Cabot e a própria terra que ele cultivou obstinadamente ao longo de décadas. As pedras e as rochas que abundam na quinta — e que aprisionaram a família na servidão agrícola — surgem agora impressas no próprio rosto do patriarca. Este mineralizou-se à imagem e semelhança da sua propriedade; Cabot tornou-se a personificação física do solo agreste que exige o sacrifício de todos em seu redor. Por outro lado, a fisionomia "esculpida num seixo" antecipa a reação do patriarca perante o confronto com os filhos e a nova realidade do lar: um rosto feito de pedra não cede, não chora, não reconhece a culpa nem expressa ternura. A comparação sinaliza a impossibilidade absoluta de reconciliação interpessoal: perante o escárnio de Simeon e Peter e a rivalidade com Eben, o velho permanece petrificado na sua obstinação, encarando o mundo com a mesma aridez inabalável com que enfrentou a terra.
    Em determinado momento, Peter equipara as mãos calejadas, engrossadas e gretadas dos homens da família aos cascos dos animais de arado e de carga: "As mãos parecem cascos!". A comparação evidencia como o esforço físico contínuo, a remoção de pedras do solo e a lida diária desfiguraram a própria anatomia humana, destruindo a delicadeza e a sensibilidade do toque. Ter mãos que "parecem cascos" significa que o corpo dos filhos foi gradualmente modificado pela rotina agrícola para funcionar como o do próprio gado da herdade, aproximando os seres humanos da condição das bestas de tração. As mãos transformadas em "cascos" servem unicamente para agarrar a enxada, empurrar o arado ou ordenhar as vacas, tornando-se incapazes de gestos de afeto, ternura ou consolo. A comparação resume a tragédia da família Cabot: a aridez da terra e a brutalidade do trabalho estiolaram a capacidade de amar, deixando no seu lugar apenas a rigidez, o calo e a deformação física.
    Quando celebram a sua partida da quinta, Simeon e Peter entregam-se a uma dança característica dos índios em torno do pai: "Livres como Injuns! Teus garotos que a gente não te escalpela!". Estar livre como um Injun significa rejeitar as vedações, os muros de pedra e a servidão agrícola imposta por Ephraim. Desta forma, os irmãos apropriam-se do estereótipo do "selvagem" para efetivar a rutura com a ordem doméstica patriarcal e celebrar a alforria rumo à liberdade.
    Quando Eben contempla a herdade com um brilho de posse nos olhos e exclama que as vacas e a quinta lhe pertencem, Simeon comenta "Tal e qual o pai", ao que Peter acrescenta "Escrito e escarrado!". Mais à frente, Simeon reforça: "O Eben é o pai escrito e escarrado! Sai a si! É duro como um marmeleiro!". Estes excertos evidenciam a contradição central na personalidade do caçula. Embora este professe um ódio mortal pelo pai e invoque a memória da mãe falecida para legitimar a sua causa, o seu "desejo de posse" revela a mesma avareza e obstinação territorial que caracterizam Ephraim. Por seu lado, a expressão popular "escrito e escarrado" enfatiza a impossibilidade de Eben escapar ao determinismo familiar. O rapaz acredita que está a agir por amor e vingança materna, mas os irmãos mais velhos percebem que ele reproduz inconscientemente os traços da índole paterna, prometendo perpetuar a mesma lógica de tirania sobre a terra.
    Ao refletirem com alguma nostalgia sobre o gado e os animais da herdade que criaram ao longo de trinta anos, Simeon declara: "A nós, conhecem-nos como irmãos... e gostam de nós! (...) Não os criámos até serem de primeira ordem, prémios de exposição?". Esta comparação estabelece um laço de fraternidade e afeto genuíno entre os trabalhadores e o gado, que contrasta com a frieza e hostilidade das relações humanas dentro de casa. Simeon e Peter sentem maior empatia e cumplicidade com os animais do que com o próprio pai. Por outro lado, o recurso expressivo revela a única dimensão gratificante de décadas de sacrifício: o orgulho de ter criado o vivo e mantido os animais com zelo. Contudo, como os irmãos reconhecem com resignação, até essa fraternidade com a bicharada precisa de ser cortada para poderem conquistar a alforria e partir para a Califórnia.
    Quando Peter avisa Abbie de que vai encontrar Eben na cozinha e sugere não o provocar Ephraim intervém com desprezo: "Não precisas de poupar o Eben. O Eben é um pateta... como a mãe... pacato e simplório!" Desta forma, o patriarca rebaixa o filho mais novo, associando a sua índole à alegada passividade e subserviência da sua falecida segunda esposa. Para a visão de mundo puritana de Ephraim, centrada na dureza e aridez, a sensibilidade e a doçura são vistas como falhas morais desprezíveis. Além disso, a comparação expõe a incapacidade do patriarca de avaliar o perigo real. Ao rotular o filho mais novo como "pacato e simplório", Cabot subestima o ressentimento e a violência que fermentam no íntimo do jovem, caindo numa falsa sensação de segurança que facilitará a aproximação entre Eben e Abbie.
    Antes de abandonar a quinta, Simeon bate com o pé no chão e dirige-se diretamente ao solo: "... Teus trinta anos de mim enterrados em ti... espalhados por ti... sangue e ossos e suor... podres... a estrumarem-te... a fazerem de ti boa terra... Santo Deus, estrume de primeira é que eu tenho sido para ti!!". Neste caso, a terra é personificada como uma entidade vampírica e insaciável. Em vez de ser apresentada como um monstro devorador que "suga" a juventude, a energia e o corpo dos trabalhadores, reduzindo os seres humanos à condição de "estrume", sugerindo o profundo ressentimento de Simeon por três décadas de escravidão agrícola sob o domínio paterno.
    Ao projetarem a viagem, Peter desabafa: "É o Sol que vem connosco para o Oeste Dourado". Neste caso, deixa de ser um mero astro e passa a ser encarado como um companheiro de viagem e guia ativo, simbolizando a fuga dos irmãos, marchando ao seu lado rumo à liberdade, à luz e à promessa do ouro no Oeste.
    Noutro passo, Peter e Simeon atribuem uma vontade opressora às estruturas da quinta ao afirmarem: "Temos sido escravos destes muros de pedra" e "As cercas foram abaixo! Os muros caem aos bocados!!". Neste caso, os muros de pedra são personificados como carcereiros petrificados. Eles encarnam a própria figura de Ephraim Cabot e a sua teologia puritana rigorosa. Quando Simeon celebra a queda dos muros e arranca a calçada dos guias, a destruição destas entidades personificadas simboliza a conquista da autonomia moral e o fim da prisão doméstica.
    Os dois espaços referidos na cena representam valores opostos. Assim, a vida de árdua labuta e sujeição dentro dos muros de pedra da quinta opõe-se radicalmente ao sonho de liberdade, sol e riqueza representado pela Califórnia. Este contraste é estabelecido entre o confinamento sufocante da herdade e a ânsia de liberdade dos dois irmãos mais velhos. Ao contraporem a aridez do solo escuro à luminosidade do sol nascente ("É o Sol que vem connosco para o Oeste Dourado"), Simeon e Peter assinalam a rutura definitiva com o trabalho escravo e com a tirania do pai.
    Outra antítese é estabelecida entre a reivindicação ao património de Ephraim. De facto, Eben proclama que a herdade e o gado lhe pertencem por herança da falecida mãe ("É outra vez a quinta da mãe! É minha!"), em oposição direta à afirmação categórica e desafiadora de Abbie: "Esta herdade é minha! É o meu lar! E esta é a minha cozinha!"). Esta antítese traduz o conflito patrimonial e territorial no coração da família Cabot, colocando em confronto duas legitimidades antagónicas — a legitimidade do sangue / herança materna de Eben versus a legitimidade legal e oportunista de Abbie —, desencadeando a disputa pelo espaço físico da casa que levará à tragédia.
    Outra antítese é estabelecida entre a aridez de Cabot e a sensualidade e vitalidade de Abbie. O rosto "esculpido num seixo", o fato preto sombrio dos domingos e a rigidez envelhecida do patriarca de 75 anos opõem-se à juventude / ao "ar alegre, cheio de vitalidade" e à "sensualidade um tanto grosseira" de uma esposa com menos 40 anos, cuja entrada traz consigo uma onda de calor e desejo a um ambiente doméstico calcificado pela aridez moral do patriarca, antecipando a desordem que sobrevirá.
    Por outro lado, a violência verbal, o desprezo e as acusações de Eben ("Velha bruxa!", "... comprou-a... como quem compra uma pega!") contrapõem-se à perturbação física e à atração irresistível que a presença e o toque sedutor de Abbie lhe despertam, enfatizando o conflito psicológico interior que o jovem experimenta. Enquanto a sua mente tenta erguer um escudo de repulsa moral fundamentado na fidelidade à memória da mãe, o seu corpo sucumbe à sedução e ao poder hipnótico de Abbie, prenunciando a profanação.
    O fervor religioso e as invocações solenes de Cabot ao "Deus dos Exércitos" e "Deus dos patriarcas" opõem-se à acusação de Eben de que o pai perverte os princípios religiosos ("Atraindo as suas ovelhas ao pecado!") e ao apetite materialista que domina as relações no lar. Este contraste põe a nu a hipocrisia e a esterilidade do puritanismo de Ephraim. A religiosi dade rígida do velho opõe-se à realidade moral da casa, revelando que a sua fé serve apenas como pretexto para mascarar a sua tirania e avareza.
    A hipérbole "... sangue e ossos e suor... a estrumar-te... estrume de primeira é que eu tenho sido para ti!" traduz a brutalidade da exploração agrícola, redefinindo trinta anos de vida e sofrimento à condição objeta de "estrume". Por outro lado, o exagero das sensações corporais exprime o alívio do momento de rutura. Após uma vida inteira sob a rigidez puritana do pai, a perspetiva de fuga provoca uma reação física extrema de gargalhada descontrolada e sensação de levitação: "Até me parece que rebento de riso!", "Sinto a cabeça no ar e os pés leves!"
    Através da hipérbole "... esta porcaria deste monte de pedras que é esta herdade...", Peter reduz a propriedade — objeto de obsessão e disputa feroz para Cabot e Eben — a um insignificante monte de pedras. A figura de estilo acentua a libertação mental de Peter, para quem a terra perdeu todo o valor patrimonial. Já a imagem hiperbólica da aniquilação pelo fogo ("Podes ficar com isto e deitar-lhe o fogo! Ou enterrar tudo!") expressa a violência do ressentimento acumulado, mostrando que a destruição total da obra do pai é preferível à perpetuação da servidão.
    Já "Lavar muito ouro sem fim!" remete para o exagero da promessa da corrida ao ouro na Califórnia ("sem fim"), projetando um mito de abundância ilimitada. A hipérbole serve de contraponto idealizado à miséria, escassez e aridez vividas na casa de lavoura dos Cabot.
    Por sua vez, Ephraim, na sua fúria, eleva o conflito familiar a uma escala bíblica e cósmica, implorando a Deus a destruição e aniquilação moral dos próprios filhos através da "pior das maldições", revelando a dimensão fanática e implacável do seu puritanismo: "... esmaga esses filhos sem vergonha com a pior das tuas maldições!". Com a hipérbole "Eu valho por dez de vós, velho como sou!", Cabot exagera desmesuradamente a sua própria capacidade física e vigor de trabalho perante Eben. Deste modo, reafirma a sua autoridade e orgulho descomunal, recusando aceitar a velhice (75 anos) ou qualquer vulnerabilidade perante a rebeldia dos filhos.
    O recurso à animalização retrata o embrutecimento das personagens, a degradação das relações familiares e a redução do ser humano à condição instintiva e biológica da vida agrícola. Simeon autoriza a submissão dos dois irmãos mais velhos ao pai, comparando a ingenuidade e a docilidade com que suportaram anos de exploração à figura do asno: "Tu és um asno, Pete... e eu também!". A imagem funciona como um ponto de viragem psicológica: a tomada de consciência da própria "estupidez" impele-os a cruzar os braços e a recusar o trabalho.
    A animalização e comparação "As mãos parecem cascos!" denunciam a deformação física do corpo humano provocada pela lida contínua da terra. As mãos perdem a delicadeza e a sensibilidade do toque, tornando-se queratinizadas e engrossadas como os cascos das bestas de tração. A frase expressa a transformação do trabalhador no próprio gado de arado da herdade.
    Em "A velha mula mais a noiva!", Eben reduz o próprio pai à figura de uma "velha mula", animalizando Cabot e ressaltando a sua teimosia xucra, a inflexibilidade do seu caráter e a esterilidade afetiva de um patriarca de 75 anos que conduz a jovem noiva ao lar
    Simeon ("O cabresto rebentou! A albarda foi ao ar!") equipara a servidão dos irmãos à condição de animais de trabalho subjugados por arreios. O "cabresto" simboliza a contenção da autoridade paterna; a "albarda" encarna o peso esmagador do trabalho na quinta. A rutura destes instrumentos agrícolas assinala o sacudir da sujeição animal e a conquista da alforria.
    Por sua vez, Abbie animaliza os seus enteados: "... a olhar para mim como um par de porcos..." para a bolota". Ao comparar a atitude cobiçosa de Simeon e Peter ao olhar do gado suíno perante a comida, a nova esposa devolve aos homens a linguagem de curral, desarmando a hostilidade dos dois e afirmando a sua superioridade e frio domínio sobre o espaço.
    O recurso ao provérbio popular "Dentada de cão cura-se com pelo do mesmo cão." animaliza o conflito entre Eben e Ephraim. A disputa pelo poder e pela posse da casa é encarada como uma luta instintiva entre cães da mesma matilha / sangue, onde a ferocidade de um só é neutralizada pela mesma agressividade do outro.
    Outro recurso relevante é a metonímia. Quando Simeon desabafa "... teus trinta anos de mim enterrados em ti... sangue e ossos e suor... podres... a estrumarem-te...", substitui a abstração do trabalho agrícola e da juventude sacrificada pelos componentes biológicos e fluidos corporais tangíveis (sangue, ossos, suor), para exprimir de forma crua a desumanização dos trabalhadores: a energia vital e a existência física dos irmãos foram dissolvidas no solo ao longo de muitos anos, reduzindo a vida humana a adubo orgânico.
    Noutro passo, Peter declara "Temos sido escravos destes muros de pedra" e refere-se à quinta como "esta porcaria deste monte de pedras que é esta herdade". As pedras e os muros que delimitam a propriedade tomam o lugar de toda a herdade e do sistema opressivo criado por Ephraim. A metonímia reduz a quinta à sua matéria mais estéril e dura, enfatizando a ideia de que a propriedade não representa um lar acolhedor, mas antes uma prisão mineral e um monumento ao trabalho escravo.
    No momento em que os irmãos mais velhos brindam "ao ouro da Califórnia", observam que "o dourado está agora a leste" e celebram que vão a caminho do "ouro da Califórnia". O nome "ouro" ou o adjetivo "dourado" são empregues metonimicamente para designar toda a viagem, a Califórnia e o novo horizonte de alforria e prosperidade. A luminosidade do metal precioso contrapõe-se metonimicamente à escuridão da terra batida e das pedras da Nova Inglaterra.
    Noutro ponto, Peter exige a Eben, antes de assinar o papel atestando o pagamento pela parte da herança que caberia aos irmãos mais velhos: "Primeiro vejamos a cor dessa dinheirama, e a gente depois assina." A "cor" (o brilho do ouro das moedas) designa a presença física e imediata do dinheiro vivo. A metonímia reflete o pragmatismo calejado dos irmãos mais velhos: para quem passou a vida a trabalhar sem grande compensação, somente a visão concreta e o toque do metal garantem a realidade do negócio.
    Na didascália que marca a entrada de Ephraim, constatamos que "Está vestido com o seu fato preto, sombrio, dos domingos." O traje dominical negro substitui a própria atitude moral e religiosa do patriarca. A veste de caráter formal funciona como uma metonímia da sua autoridade patriarcal, do seu fervor puritano e do caráter solene e austero com que regressa ao lar acompanhado da nova esposa.
    Abbie afirma com firmeza: "Esta herdade é minha! É o meu lar! E esta é a minha cozinha!", acrescentando mais tarde "E agora vou lavar a..." minha louça"**. A "cozinha", a "cama" e o ato de "lavar a louça" surgem como metonímias do domínio territorial e da legitimidade como senhora da casa. Ao tomar conta da cozinha (o núcleo do lar) e ao realizar as tarefas domésticas que pertenceram à falecida mãe de Eben, Abbie concretiza metonimicamente a usurpação do poder e o triunfo sobre o enteado.
    A cena IV inicia-se no "pardo da alvorada" com uma vela acesa na cozinha; progride quando "o céu começa a colorir-se com o nascer do Sol" e atinge o auge na iluminação plena da manhã: "É o Sol que vem connosco para o Oeste Dourado". Esta gradação acompanha a transformação interior de Simeon e Peter. A transição do cinzento da madrugada para a claridade do astro simboliza o despertar da consciência dos irmãos: passam do torpor e encarceramento da vida na quinta para o entusiasmo radioso e luminoso da alforria rumo à Califórnia.
    Simeon descreve a sua vida no solo em escala descendente: "... trinta anos de mim enterrados em ti... espalhados por ti... sangue e ossos e suor... podres... a estrumarem-te... estrume de primeira é que eu tenho sido para ti!". A sequência intensifica o processo de destruição física e biológica do trabalhador. Parto do esforço fluido (suor), passa pelos tecidos e estrutura corpórea (sangue e ossos), atinge a decomposição (podres) e culmina na perda absoluta de humanidade ("estrume de primeira"). Estamos na presença do auge do ressentimento acumulado por quem foi reduzido a adubo orgânico ao longo de três décadas de exploração agrícola.
    A apropriação, por parte de Abbie, da propriedade vai evoluindo ao longo da cena: começa com o deslumbramento hesitante ("É lindo... custa-me a crer que seja meu!"); passa pela disputa de autoridade com o marido ("Teu? Meu!... Nosso... talvez!" / "Uma mulher tem de ter um lar!"); segue para a imposição categórica a Eben ("Esta herdade é minha!... É o meu lar! E esta é a minha cozinha!"); e culmina na conquista do espaço íntimo ("... lá em cima... é o meu quarto... e a minha cama!"**). Esta gradação espelha o avanço da ambição e do domínio de Abbie sobre a casa. Ela marca a sua afirmação progressiva como senhora da propriedade, expandindo o seu controlo desde o pórtico exterior até ao centro da casa (cozinha) e, finalmente, ao território do desejo e do leito conjugal.
    Ao ficar perante a madrasta pela primeira vez, Eben começa por rejeitar, de forma insolente e agressiva ("Não! Vai pró Diabo!"); passa pela fúria de ressentimento patrimonial ("... comprou-a... como quem compra uma pega!"); hesita momentaneamente, hipnotizado, ao sentir o toque da mulher ["Eben (estupidificado, como que hipnotizado): Sim!..."]; e reage com uma explosão de defesa desesperada ("Não, velha bruxa! Tenho-te ódio!"). Esta gradação revela a perda de controlo psicológico e o combate interior (psicomaquia) do jovem. À medida que a sedução de Abbie se intensifica, o facto de se escudar na arrogância verbal vai ruindo, forçando o caçula a recorrer a uma explosão de ódio e insulto para não sucumbir imediatamente ao desejo incestuoso.
    Após o regresso, a reação de Ephraim à situação com que se depara em casa vai evoluindo ao longo da cena. Assim, começa por se mostrar espantado e irritado perante a falta de trabalho ("Por que não estão a trabalhar?"); depois gagueja e mostra-se atrapalhado face à insolência dos filhos; evolui para a fúria cega de ameaças e rogo de pragas ("A minha maldição vos cubra!" / "ficam com os ossos num feixe!"); e culmina numa espécie de delírio teológico e desespero fanático ("Senhor Deus dos Exércitos, esmaga esses filhos sem vergonha com a pior das Tuas maldições!" / "Eu valho por dez de vós..."). Esta gradação mostra o desmantelamento da figura omnipotente do patriarca. O seu poder e controlo degrada-se até se converter em gritos impotentes ao céu, revelando a aridez, a solidão e o isolamento em que o velho de 75 anos fica confinado após o abandono dos filhos.
    Ao contemplar a propriedade com o desejo de posse e erguer a cabeça para o céu, Eben interpela a presença invisível da mãe: "Olinha, estás a ouvir? Minha!". O jovem dirige-se ao espírito da mãe como se esta estivesse presente no espaço cénico. A apóstrofe evidencia a obsessão edipiana do jovem e a sua necessidade de validação materna: ao reclamar a posse da quinta, o caçula fala diretamente com a falecida para lhe oferecer a vitória patrimonial como reparação pelas injustiças que ela sofreu em vida.
    Perante a rebeldia e fuga dos filhos, Ephraim ergue os braços ao céu e interpela a figura divina, no sentido de os castigar fortemente: "Senhor Deus dos Exércitos, esmaga esses filhos sem vergonha com a pior das Tuas maldições!"; "Deus dos patriarcas! Deus dos solitários!". Estes excertos expressam o fanatismo religioso, a solidão existencial e a rigidez do patriarca. Ao invocar a divindade, Cabot procura ancorar a sua autoridade abalada numa sanção divina, evidenciando a sua incapacidade de afeto humano e a sua aridez espiritual.
    Enquanto se afastam pela estrada, abandonando a casa paterna, Simeon e Peter cantam festivamente: "Oh! Califórnia, | Tu és a terra pra mim! / Vou-me já pra Califórnia! / Lavar muito ouro sem fim!". Os dois irmãos dirigem-se à Califórnia como se fosse uma terra prometida e libertadora. A apóstrofe sacraliza o mito do Oeste Dourado, funcionando como um cântico de alforria que celebra o fim do confinamento na Nova Inglaterra e a conquista da liberdade e da independência. Pela parte dos irmãos, ao cruzarem o portão, interpelam diretamente o pai de forma desrespeitosa e injuriam-no, dessacralizando a autoridade paterna: o tirano que dominava a herdade é reduzido a um "velho coiro", impotente perante a partida definitiva dos filhos ("Tu, meu velho coiro! Adeus!").
    No início da cena, diante do silêncio emburrado de Eben ao pequeno-almoço, Simeon atira sarcasticamente a Peter: "Lamentando os seus pecados da carne!". Desta forma, troça com a culpa puritana de Eben após ter estado com a prostituta Min. O sarcasmo desvaloriza o dilema moral do caçula, reduzindo o seu sofrimento existencial a um motivo de piada material entre os irmãos mais velhos.
    Na ausência do pai, Eben demonstra um certo entusiasmo por se julgar o novo senhor da propriedade, mas Simeon adverte-o com ironia: "És o dono... até ele chegar... Pois és só um criado de lavoura que és tu!". A ironia expõe a ilusão do poder de Eben e põe a nu a contradição entre a megalomania do jovem (que se julga herdeiro da quinta) e a crua realidade da sua condição: na prática, ele continua a ser um mero "criado de lavoura" sem qualquer autoridade real perante a figura esmagadora do patriarca.
    Enquanto esperam por Ephraim no portão antes de partirem para a Califórnia, Peter exclama com um riso trocista: "E para lhe darmos a ele o beijo da despedida!". O "beijo da despedida" atua como uma ironia mordaz e sarcástica. A expressão evoca um gesto tradicional de afeto, respeito ou reconciliação familiar, quando, na verdade, os irmãos se preparam para desconsiderar o pai, executando uma dança de guerra zombeteira e atirando-lhe pedras às janelas da casa. Quando o patriarca surge de surpresa e questiona a falta de trabalho na quinta, Simeon responde com frieza e sarcasmo: "Estávamos à sua espera para o receber... e à noiva!". Ele simula uma atitude de cortesia e celebração familiar para mascarar a provocação e o desprezo. A ironia desconcerta o velho patriarca de 75 anos, transformando a chegada da nova esposa num espetáculo de escárnio público.
    Em resposta às acusações de Cabot de que os filhos foram corrompidos pela "cobiça do ouro, do pecaminoso e fácil ouro da Califórnia"), Simeon desafia: "E não gostavas de que a gente te mandasse algum desse ouro pecaminoso, ó pecador encardido?". O filho apropria-se do vocabulário puritano do pai ("pecaminoso", "pecador") para lhe devolver uma estocada irónica e sarcástica. Desmascara a hipocrisia de Ephraim, sugerindo que, apesar de todo o seu fervor religioso, o velho avarento não recusaria o ouro vindo do "pecado".
    Perante Abbie, o pai procura desqualificá-lo, afirmando com desprezo: "Não precisas de poupar o Eben. O Eben é um pateta... como a mãe... pacato e simplório!". Cabot julga que o filho é inofensivo e incapaz de rebelião, no entanto a realidade é que esse "pateta" acabará por se unir sexual e afetivamente a Abbie, consumar a usurpação do leito conjugal e destruir o império moral do progenitor.
    Simeon avisa o pai de que a rivalidade entre Eben e Ephraim não terminará bem: "Dentada de cão cura-se com pelo do mesmo cão. A ti te há de ele comer, velhote!"**. Embora Simeon profira esta frase num tom de deboche e risada sardónica, pressagiando com precisão a destruição do velho patriarca através do filho mais novo, que devorará a autoridade e o património do progenitor ao conquistar o amor e o corpo da madrasta.
    No primeiro encontro a sós na cozinha, Abbie aproxima-se de Eben com um tom sedutor e declara: "És... o Eben? Eu sou a Abbie... (Ri-se.) Quer dizer... a tua nova mãe!". A madrasta usa a designação de "nova mãe" com uma ironia provocatória e sensual. Ela brinca deliberadamente com o tabu do incesto, usando a máscara da autoridade materna não para educar ou acolher o enteado, mas como um jogo erótico de manipulação e dominação sobre o jovem.
    Por último, quando Ephraim chama solenemente ao "Deus dos patriarcas", Eben interrompe com troça: "Atraindo as suas ovelhas ao pecado! O seu Deus que vá para o Inferno!". O caçula recorre ao sarcasmo para desmantelar a religiosidade do pai. Ao parodiar a metáfora do Bom Pastor e mandar o Deus puritano "para o Inferno", Eben nega qualquer autoridade moral ao patriarca, assinalando a falência espiritual do lar dos Cabot.

f) Características da tragédia clássica grega

    A quarta cena acolhe elementos estruturantes do drama trágico clássico. A hybris (insolência e desmedida) manifesta-se tanto no fanatismo religioso e orgulho cego de Ephraim, como no desejo possessivo e absoluto de Abbie e Eben pela conquista da casa. A anagnórise e a peripécia ocorrem com a chegada da nova esposa e a partida dos irmãos, alterando radicalmente a estrutura de poder da quinta. A atração imediata e perturbadora entre Eben e a sua madrasta reencarna o mito trágico de Fedra e Hipólito, insinuando a inevitabilidade de um incesto trágico imposto pelo Fado (Moira). A maldição paterna lançada ao céu por Ephraim retoma a tradição das pragas familiares e das teias de culpa hereditária. Além disso, o comportamento ritualístico de Simeon e Peter ao arrancarem o portão, executarem uma dança de guerra e partirem os vidros mimetiza um ato de profanação e rutura com a ordem sagrada do lar doméstico.

g) Elementos simbólicos

    Os elementos cénicos e materiais da quarta cena possuem uma elevada carga simbólica. O portão e a cancela de pedra representam a opressão, a demarcação da propriedade e a escravidão secular dos filhos; o ato de arrancar a cancela dos gonzos e levá-la sob o braço simboliza a destruição física das cadeias do patriarcado e a conquista da liberdade. As moedas de ouro de vinte dólares, retiradas do esconderijo sob o soalho junto ao fogão, simbolizam o sangue e a herança espiritual da mãe falecida de Eben, funcionando como a moeda de alforria dos irmãos e o instrumento de reparação histórica. A janela da sala quebrada pelas pedras representa a destruição da fachada de respeitabilidade e puritanismo da casa. A cozinha e o fogão funcionam como o centro sagrado da memória materna, que é profanado e tomado por Abbie quando esta começa a lavar a sua louça. Finalmente, a canção da Califórnia atua como o hino de evasão e símbolo da promessa dionisíaca de utopia e prosperidade no Oeste.

h) Análise ideológica da cena

    Sob a perspetiva ideológica, a cena apresenta uma crítica devastadora ao materialismo possessivo e à falência moral da sociedade puritana e patriarcal. O'Neill expõe como a obsessão pela propriedade privada e pelo domínio da terra reduz todas as relações humanas a meros vínculos de troca, exploração e poder. A retórica religiosa de Ephraim Cabot é desmascarada como uma ideologia de autojustificação que utiliza o nome de Deus para sancionar a tirania doméstica, a ganância e a opressão dos filhos. Paralelamente, o relato autobiográfico de Abbie introduz uma contundente crítica social à condição da mulher no século XIX, mostrando que a sua conduta implacável resulta da miséria, da exploração do trabalho feminino e da urgência de obter a posse de um lar para garantir a sobrevivência. Por fim, a partida de Simeon e Peter para a Califórnia estabelece o contraste entre o Feudalismo Agrário sufocante da Nova Inglaterra e o Mito da Fronteira do Capitalismo nascente, onde a busca do ouro surge como a única via de libertação individual face ao jugo da autoridade paterna. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Análise da cena III da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

a) Ação
    A ação dramática da terceira cena desenvolve-se na penumbra do quarto dos irmãos, no piso superior da casa de lavoura, estruturando-se através de uma sucessão de revelações e negociações de forte intensidade emocional e pragmática. A cena inicia-se com a irrupção eufórica de Eben, que acorda bruscamente Simeon e Peter na calada da noite para lhes comunicar uma notícia avassaladora: o regresso iminente do patriarca Ephraim Cabot, de 75 anos, casado com uma mulher de 35. Esta revelação destrói instantaneamente as expetativas dos dois irmãos mais velhos de virem a herdar a propriedade, desencadeando neles a decisão súbita e irreversível de abandonarem a quinta e partirem para a Califórnia. Aproveitando este momento de crise, Eben executa um plano friamente calculado: apresenta um documento de renúncia dos direitos à herdade, oferecendo em troca trezentos dólares a cada um dos irmãos, quantia proveniente do dinheiro da falecida mãe que o pai mantivera escondido. A ação progride com a confissão de Eben sobre a sua noite com a prostituta Min, revelando que a tomou fisicamente num misto de choro, fúria e vingança contra o pai e os irmãos. A cena encerra com as provocações irónicas dos irmãos mais velhos sobre a possibilidade de Eben tentar possuir também a nova esposa de Ephraim — o que o jovem repele com nojo — e com a decisão cautelosa e vingativa de Simeon e Peter de aceitarem a proposta assim que virem o dinheiro vivo e a chegada da noiva.
b) Espaço
    O espaço físico é o quarto dos irmãos, localizado na água-furtada ou sótão da casa de lavoura, cujo teto inclinado acompanha a água do telhado. Trata-se de um compartimento exíguo, tétrico e claustrofóbico, onde os homens apenas se conseguem pôr de pé junto à parede divisória, estando ocupado por uma cama de casal para Simeon e Peter e pela cama de Eben ao fundo.
    No plano social, este espaço expõe a indigência, a promiscuidade forçada e a subalternidade da vida camponesa puritana da Nova Inglaterra de meados do século XIX, onde os filhos adultos continuam confinados a uma divisão miserável enquanto trabalham como servos na terra do pai.
    No plano psicológico, o quarto funciona como um verdadeiro recinto de conspiração e acerto de contas. Iluminado pela chama trémula de uma vela trazida por Eben e mais tarde pela luz fria da alvorada, o espaço transfigura-se num tribunal doméstico onde a autoridade do pai é profanada, os laços de sangue são convertidos em transações financeiras e o fantasma da mãe falecida atua como o elo invisível que guia a distribuição do dinheiro oculto.
c) Tempo
    O tempo da ação situa-se na calada da noite, na transição crítica que precede o raiar do sol e o alvorecer. Esta passagem da escuridão para a luz matutina acompanha ritmicamente a revelação dos segredos e a tomada de decisões definitivas.
    O tempo do discurso é rápido, tenso e entrecortado por interjeições e rubricas expressivas de fúria, surpresa e ironia.
    O tempo histórico está rigidamente marcado pelo ano de 1850 e pelo impacto da corrida ao ouro na Califórnia, que surge no horizonte das personagens como a promessa de enriquecimento rápido e alforria frente ao modelo agrário e puritano da Nova Inglaterra.
    No plano psicológico, o tempo é vivido com uma urgência sufocante. Para Simeon e Peter, o tempo de esperar pela morte do pai esgotou-se subitamente com o novo casamento; para Eben, o tempo da passividade terminou, acelerando-se a concretização do seu plano de apropriação e vingança em nome da mãe.
d) Caracterização das Personagens
    Eben Cabot surge caracterizado como um jovem de 25 anos em forte turbulência emocional, cujo rosto reflete uma mistura inquietante de riso malicioso, fúria e vulnerabilidade infantil. Psicologicamente, revela-se astuto, vingativo e obsessivo; a sua visita a Min expõe a sua imaturidade afetiva ao chorar como um vitelo antes de a possuir como um ato de apropriação e desforra contra o pai. Eben rejeita o afeto genuíno e encara o sexo e a propriedade como troféus de poder no conflito com Ephraim, demonstrando ao mesmo tempo um calculismo frio ao trazer já preparado no bolso o contrato de renúncia para os irmãos. Socialmente, posiciona-se como o legítimo herdeiro e vingador da mãe.
    Simeon e Peter são caracterizados como homens maduros, cansados e embrutecidos pelo trabalho contínuo. Psicologicamente, oscilam entre a incredulidade inicial e um pragmatismo cínico; quando perdem a expetativa da herança, decidem imediatamente vender os seus direitos e emigrar, revelando uma desconfiança astuta ao recusarem assinar qualquer documento sem verem o dinheiro e a noiva. Socialmente, são servos explorados que aproveitam a crise familiar para obterem a sua alforria financeira.
    Ephraim Cabot, embora ausente, é caracterizado através das acusações dos filhos como um velho de 75 anos hipócrita e libidinoso, que utilizou o pretexto de escutar a mensagem de Deus na primavera para casar com uma mulher jovem e esconder o dinheiro ganho com a herdade da falecida esposa.
e) Linguagem
    A cena é dominada por metáforas, as quais refletem o ressentimento, a ganância, a desumanização e a ironia trágica que caracterizam a dinâmica da família Cabot. Ao dar notícia do novo casamento do pai, Eben declara que aquele se "atrelou a uma fêmea de trinta e cinco anos", uma metáfora que despoja o matrimónio de qualquer dimensão afetiva. De facto, a forma verbal "atrelou-se" reduz o casamento a um acoplamento utilitário de gado de tração agrícola, ao passo que o nome "fêmea" desumaniza a noiva, convertendo-a num espécime reprodutivo. Esta animalização amplia-se mais à frente quando Eben caracteriza a nova madrasta como a "vaca a que o velho se atrelou" e quando afasta qualquer hipótese de paixão por Min, declarando que não se perde "com gado daquele". A expressividade destas metáforas zoomórficas é devastadora, pois revelam como o ambiente bruto e mercantilizado da quinta moldou a mente dos homens, levando-os a encarar as mulheres não como sujeitos, mas como bens pecuários, posses materiais ou objetos de disputa e dominação masculina.
    Paralelamente a esta animalização de caráter pecuário, surgem metáforas de repulsa visceral carregadas de simbolismo faunístico e bíblico. Quando é confrontado com a insinuação sarcástica dos irmãos de que poderá vir a desejar a nova madrasta, Eben reage com nojo, declarando que "mais valia amansar uma doninha malcheirosa ou beijar uma serpente". A metáfora da "doninha malcheirosa" traduz a repulsa física e a contaminação moral que o jovem associa à mulher que vem usurpar a herança da sua falecida mãe. Por sua vez, a metáfora da "serpente" ressoa com uma intensa carga teológica e bíblica, evocando a tentação demoníaca, o veneno e o perigo mortal. A expressividade disto reside na sua profunda dimensão premonitória: ao comparar a nova esposa a uma serpente, Eben expressa um repúdio absoluto que, de forma tragicamente irónica, antecipa a natureza perigosa, tentadora e mortal da paixão que virá a consumi-lo e a destruição no relacionamento com Abbie.
    Por outro lado, Eben e Simeon referem-se ao pai como "um diabo saído do Inferno" e desejam que a sua nova esposa seja "uma diaba que o faça desejar a morte e viver nas profundas do Inferno". Este vocabulário evocativo do demoníaco remete para a cosmovisão calvinista e maniqueísta em que as personagens foram criadas, onde o mal moral é personificado pela figura do Diabo e do Inferno. Ao metaforizarem o pai e a madrasta como seres diabólicos oriundos do abismo, os filhos elevam o conflito doméstico em torno da herança a uma guerra de contornos cósmicos e espirituais, usando a linguagem da religião para santificar o seu próprio ódio e justificar a vingança. A própria terra da quinta é envolvida nesta linguagem quando Simeon proclama que "a herdade que vá para o diabo", metaforizando a propriedade como um território amaldiçoado que deve ser entregue à perda e à destruição espiritual.
    No plano da questão económica e da luta pela sobrevivência, encontramos outras metáforas que apontam para as ideias de ruína financeira, libertação e falsa soberania. Quando Peter toma consciência de que o novo casamento do pai anula as suas expetativas de herança, conclui sombriamente que o patriarca os "liquidou". A metáfora financeira da "liquidação" traduz a perceção de que a própria existência dos filhos foi anulada e executada comercialmente pelo pai, reduzindo o valor das suas vidas ao valor da propriedade. Perante esta falência, a urgência de fugir daquele ambiente é traduzida por Simeon através da metáfora aviária "se nos desses asas, íamos a voar", que contrasta expressivamente com a condição pesada e bovina que mantinham na quinta, afirmando que vão "fazer de ricos, para variar", uma metáfora que ironiza a sua condição de servos e expressa a ilusão temporária de poder e o gozo cínico de quem decide usufruir da comida e da bebida da casa antes de a abandonar em definitivo.
    A finalizar a cena, O'Neill desconstrói metaforicamente a hipocrisia religiosa do patriarca. Assim, Simeon parodia o discurso do pai ao recordar a frase em que este justificava a sua partida na primavera para "escutar a mensagem que Deus me manda na Primavera, como os profetas faziam". A metáfora da vocação profética e do chamado divino é desmascarada pela observação sarcástica de que Ephraim ia, na verdade, andar metido com mulheres de má vida. Este contraste expõe a fratura ideológica do puritanismo, visto que a retórica piedosa e mística dos profetas bíblicos é revelada como uma máscara verbal que encobre a luxúria e o egoísmo do velho patriarca, consolidando a denúncia da falência moral e espiritual que domina todo o universo da peça.
    Outro recurso relevante é a comparação. Quando Eben confessa o seu encontro noturno com a prostituta Min, admite ter começado a "chorar como um vitelo" antes de a possuir. A escolha da imagem do "vitelo" — um bezerro jovem, indefeso, recém-nascido e historicamente associado ao sacrifício — desmascara a fachada de masculinidade bruta e calculista que o rapaz tenta ostentar perante os irmãos mais velhos. Face à memória da mãe falecida e à sombra castradora do pai, a arrogância do jovem desmorona perante a sua reação infantil; o homem que mostra ódio e busca vingança revela-se, afinal, uma espécie de criança assustada e desamparada, entregue a um choro animal e instintivo. A comparação traduz a sua grande vulnerabilidade, mostrando que as suas palavras ameaçadoras constituem uma mera carcaça defensiva para proteger a ferida aberta da perda da mãe.
    Por seu turno, Simeon parodia o discurso moral do pai quando, ao relembrar a justificação dada por ele para a sua partida durante a primavera (a alegação de que partia para "escutar a mensagem que Deus me manda na Primavera, como os profetas faziam"), denuncia dessa forma a hipocrisia puritana do pai. Ao aproximar a caminhada do velho latifundiário à jornada espiritual dos patriarcas e visionários bíblicos, a comparação e a linguagem expõem o espaço que separa a hybris religiosa de Ephraim, que se autoproclama um eleito divino, da crueza dos seus atos reais, movidos pela procura de consolo da carne junto de uma mulher muito mais jovem do que ele. Deste modo, o filho desmascara a suposta autoridade moral do progenitor, reduzindo-a a um mero disfarce destinado a encobrir o egoísmo e o desejo sexual.
    Eben sente repulsa ao tomar conhecimento do novo matrimónio do pai e ao consciencializar-se de que teria de passar a conviver com alguém que considera vir usurpar a herança materna. Por outro lado, essa repulsa estende-se às insinuações dos irmãos, às quais reage exclamando que "mais valia amansar uma doninha malcheirosa ou beijar uma serpente" do que aceitar a presença na casa da família da nova madrasta. Note-se a expressividade desta comparação: ela traduz a analogia entre o medo instintivo suscitado por animais considerados repugnantes ou venenosos e a aversão absoluta que Eben dedica à mulher que vem usurpar o lugar e a herança da mãe. Ao declarar que prefere contactar fisicamente com uma doninha pestilenta ou beijar mortalmente um réptil venenoso, Eben não deixa qualquer dúvida acerca do grau de rejeição que sente pela nova esposa do pai. Por outro lado, ao associá-la à figura da serpente — símbolo bíblico da tentação, do pecado e da catástrofe, evidenciado pelo episódio vivido nos jardins do Éden com Eva e Adão —, a personagem presagia o perigo mortal que a chegada de Abbie trará para a sua vida, antecipando a paixão proibida e trágica que o enredará.
    Reagindo às palavras dos irmãos, Eben procura afastar a ideia de que se apaixonou por Min e, para tal, compara a prostituta à nova esposa do pai, afirmando que a primeira "não é tão má como isso" e que a noiva de Ephraim será uma "vaca" que "bate a Minnie". Esta comparação é profundamente depreciativa para as figuras femininas e traduz a rudeza que caracteriza os três irmãos. As mulheres são constantemente aferidas e comparadas num plano de ameaça ou utilidade: Min acaba por ser tolerada por representar uma mulher que foi uma conquista do pai, ao passo que a nova madrasta é antecipadamente percecionada como uma ameaça maior à integridade da herdade.
    Outro recurso estilístico relevante na cena é a hipérbole. Quando o casamento de Ephraim é anunciado, Eben sente-se humilhado e, ao afirmar que "toda a aldeia sabe" do matrimónio do progenitor antes dos próprios filhos, ele enfatiza o contraste entre o segredo guardado do núcleo familiar e a exposição pública do evento. Ter consciência de que a notícia circula por toda a aldeia transforma a opressão doméstica num espetáculo em que os três filhos são vítimas de chacota coletiva, o que aprofunda a ferida do orgulho dos três homens, que antecipam a perda da herança à vista de todos.
    A revelação desencadeia no protagonista um estado emocional de exacerbação absoluta, que é expresso quando Eben confessa ter ficado "doido de fúria" a ponto de agir "de doido que estava". Ao hiperbolizar a raiva como forma de alienação mental ou loucura temporária, está a justificar a conduta errática do filho mais novo, explicando como o choque o conduziu a uma oscilação extrema entre o choro convulsivo infantil e a posse violenta de Min. A fúria não é descrita como uma simples irritação, mas como uma tempestade mental devastadora que anula a razão e força a saída imediata dos impulsos reprimidos.
    Simeon também reage de forma hiperbólica à notícia e fá-lo de forma agressiva, rogando pragas sobre o futuro do velho patriarca com a nova esposa. Ao manifestar o desejo de que a noiva, que ainda não conhece, seja "uma diaba que o faça desejar a morte e viver nas profundas do Inferno", no fundo, está a dizer que não é suficiente que o pai seja enganado, mas que o seu sofrimento seja de tal ordem intenso que a própria vida se torne tão insuportável que o leve a implorar pela morte. Esta hipérbole, em suma, revela o ressentimento dos filhos.
    Posteriormente, Eben projeta a nova madrasta como uma ameaça sem precedentes, garantindo que "há, no mundo, muito pior" e que ela "bate a Minnie", mostrando que não constitui apenas uma rival, mas a corporização da pior desgraça possível. No fundo, ele está a antecipar o terror que a chegada da mulher representa para a memória da mãe falecida, elevando a intrusa à condição de um monstro moral que supera qualquer transgressão anterior.
    Por sua vez, Peter exclama "a herdade que vá para o diabo!". A propriedade, até então, tinha sido o objeto de todo o foco, de todo o sacrifício, da disputa familiar; agora, perante a possibilidade de a perderem, os irmãos preferem a sua destruição total a continuarem acorrentados ao seu cultivo.
    Já a hipérbole que brota dos lábios de Eben, que aconselha os outros dois a alimentarem-se com "comida que até se agarre às costelas", traduz o esforço físico brutal que a viagem para a Califórnia vai requerer. O alimento deixa de ser mero sustento para se transformar numa massa de força que tem de fundir-se hiperbolicamente com a própria estrutura óssea para lhes dar resistência durante a travessia.
    Por fim, a transição para a liberdade dos irmãos mais velhos é assinalada por uma indolência que reflete falsa opulência, quando Simeon e Peter declaram que vão "fazer de ricos, para variar" e recusam levantar-se da cama enquanto o almoço não estiver pronto e servido à mesa. Dois homens que sempre viveram como bestas de carga decidem, durante algum tempo, caricaturar a preguiça e o luxo das pessoas abastadas, usando-os como uma espécie de desforra celebratória antes do abandono definitivo da quinta.
    Por outro lado, a herdade e a própria terra da quinta são percecionadas através de personificações como entes rurais dotados de vida, suscetíveis de serem roubados, escravizados ou condenados. Quando Eben expressa a sua repulsa pela madrasta, acusa-a de vir "roubar a herdade da minha mãe", atribuindo à propriedade a condição de um corpo vulnerável que foi usurpado e que necessita de proteção. Mais tarde, perante o desespero de perderem a herança, Peter declara "a herdade que vá para o diabo!", humanizando a terra: ela não é uma extensão neutra de solo, mas uma entidade amaldiçoada e moralmente arruinada pela tirania de Ephraim. Ao mandá-la para o Diabo, ele trata a quinta como uma pessoa cuja condenação eterna é desejada para que ceda finalmente o seu domínio sobre as vidas dos filhos.
    Outro contraste presente nesta cena centra-se na oposição entre dois espaços físicos: a Califórnia e o contexto familiar ("Há ouro nos campos da Califórnia, sim. Já não vale a pena ficarmos cá."; "Vamos fazer de ricos, para variar. Não me levanto da cama enquanto o almoço não estiver pronto."). Os extratos citados expõem a realidade da escravidão agrícola na terra estéril do pai com o mito da riqueza fácil no Oeste. O contraste atinge o seu auge quando dois homens habituados a trabalhar como animais decidem passar o dia a "fazer de ricos", opondo a opressão secular a uma caricatura de indolência que ironiza a ética puritana do trabalho.
    O ouro dos campos da Califórnia e o apelo da viagem surgem personificados como forças sedutoras vivas que acenam e dialogam com a imaginação dos irmãos mais velhos. A miragem do Oeste não é descrita como um destino geográfico passivo, como um ente dinâmico que oferece "asas para voar" e promete libertá-los da opressão da quinta. Esta personificação contrapõe a vitalidade radiante do ouro distante à esterilidade morta das pedras do patriarca, atuando como um estímulo psicológico poderoso que devolve aos dois homens embrutecidos a capacidade de desejar e de agir.
    A antítese entre noite e dia, escuridão e claridade ("É noite escura, logo antes do raiar do dia."), representa o contraste entre a estagnação e o confinamento claustrofóbico dos filhos no contexto da quinta e o caminho para a revelação. A chama trémula da vela trazida por Eben e o céu que gradualmente "aclara" pela janela representam a luz da verdade que desfaz as ilusões de herança e ilumina a decisão de fuga dos irmãos mais velhos rumo à Califórnia.
    O contraste entre a velhice de Ephraim Cabot (de 75 anos) e a vitalidade de uma mulher de 35 anos denuncia o desejo carnal e a afirmação do poder do velho patriarca, que tenta desafiar a velhice através da posse de um corpo jovem, ao mesmo tempo que abre um abismo geracional que prefigura a atração e a aliança inevitável entre a nova madrasta e o jovem Eben (25 anos).
    A oposição, no discurso de Eben, entre o "chorar como um vitelo" e o "agarrar e possuir" expõe a fratura da sua mente. Esta antítese revela o conflito interno da personagem: sob a fachada de homem violento e conquistador que deseja vingar-se do pai, "esconde-se" uma criança traumatizada e vulnerável que desaba em lágrimas infantis antes de recorrer à posse física como mecanismo de afirmação moral e sexual: "quando a vi, não lhe bati... nem a beijei... comecei a chorar como um vitelo e a praguejar ao mesmo tempo."
    Por fim, no plano da animalização (ou zoomorfismo), a fala "Atrelou-se a uma fêmea de trinta e cinco anos... e bonita, dizem.", por meio da combinação da forma verbal "atrelou-se" com o nome "fêmea", rebaixa a união matrimonial a um mero acoplamento de uma junta de animais (bois ou cavalos). O termo "fêmea" reduz a nova esposa a uma espécie reprodutiva biológica. Por sua vez, a forma verbal evoca a ideia de que o matrimónio, para o patriarca, não passa de mais uma parelha ajustada às exigências da quinta.
    Ao descrever o seu colapso emocional diante de Min ("comecei a chorar como um vitelo e a praguejar ao mesmo tempo, de doido que estava..."), Eben animaliza-se a si próprio ao comparar o seu choro ao berro indefeso de um vitelo. Sob a capa de um homem ríspido e vingativo, a dor do trauma materno redu-lo a um animalzinho recém-nascido e assustado, entregue ao sacrifício e ao desamparo. O contraste entre este choro bovino/infantil e o ato posterior de "agarrar e possuir" expõe a fratura interior de quem recorre à força física somente para estancar a sua profunda desolação interior.
    Ao rejeitar, com indignação, a ideia de que está apaixonado por Min ("Paixão! Eu não me perco com gado daquele!"), Eben classifica a prostituta sob a categoria genérica de "gado". Esta metáfora zoomórfica revela a mentalidade patrimonialista da quinta: as mulheres que satisfazem a sexualidade masculina são agrupadas como manada ou pecuária, destituídas de valor sentimental e apreciadas apenas como mercadoria de uso temporário. Ao apelidar Min de "gado", ele tenta afastar a acusação de fraqueza afetiva, racionalizando a sua visita como a tomada de um bem de consumo que pertencia ao pai.
    Por último, a nova madrasta é apresentada como um animal de produção: "Esperem para ver a vaca a que o velhote se atrelou! Está-me a parecer que bate a Minnie!". A linguagem de Eben revela uma agressividade manifesta ("vaca"): se a prostituta é catalogada como "gado", a nova esposa de Ephraim é diretamente associada ao animal leiteiro e produtivo da herdade, associado novamente à forma verbal "atrelou-se". Este insulto reflete a repulsa de Eben perante a intrusa que vem usurpar a herança materna, transformando a disputa legal e familiar numa lida entre animais de grande porte no estábulo doméstico. Perante a hipótese de vir a aproximar-se da nova esposa do pai, Eben recorre a duas animalizações degradantes: "Mais valia amansar uma doninha malcheirosa ou beijar uma serpente!". Ao associar a madrasta a uma "doninha malcheirosa", a personagem conecta-a com um mamífero carnívoro considerado uma praga agrícola, famoso pelo seu odor pestilento e caráter traiçoeiro, traduzindo assim o nojo que ela lhe provoca. Por outro lado, ao relacioná-la a uma serpente, profetiza, sem saber, a tentação perigosa e o veneno da paixão incestuosa que acabará por enredá-lo e destruí-lo.
f) Características da tragédia clássica grega
    A cena acolhe os pilares fundamentais da tragédia grega clássica. A revelação do casamento de Ephraim atua como uma anagnórise (reconhecimento ou revelação de uma verdade oculta) que desencadeia a peripécia, isto é, a súbita alteração do destino de Simeon e Peter. A figura de Eben reencarna o mito de Édipo e de Orestes: movido pela memória da mãe falecida — que funciona como uma Erínia ou força de vingança —, ele busca punir a húbris e a tirania do pai através da usurpação dos seus bens e do seu território simbólico. A provocação final de Simeon sobre a possibilidade de Eben vir a possuir a nova esposa do pai constitui uma ironia trágica de grande valor premonitório, antecipando com precisão absoluta o incesto e a catástrofe afetiva que se consumarão nas cenas subsequentes.
g) Elementos simbólicos
    Os elementos cénicos da terceira cena estão impregnados de uma forte densidade simbólica. A vela acesa trazida por Eben para a escuridão do quarto representa a luz da revelação que destrói as ilusões dos irmãos, mas simboliza também o fogo da discórdia e da paixão destrutiva. O teto inclinado da água-furtada encarna a opressão física e a pequenez a que os filhos foram submetidos. O dinheiro escondido na casa deixa de ser um mero recurso económico para se converter no sangue e no suor roubados à mãe de Eben, funcionando como o instrumento mágico de libertação e reparação histórica. O documento amarrotado com o contrato de venda simboliza a degradação dos laços familiares, transformando o afeto de irmãos num frio pacto comercial. Finalmente, a alvorada que desponta pela janela simboliza a rutura definitiva com a noite da estagnação e o início do êxodo dos irmãos mais velhos rumo ao Oeste.
h) Análise Ideológica da Cena
    No plano ideológico, a cena oferece uma crítica feroz ao materialismo mercantil e à hipocrisia da moral puritana. O'Neill demonstra como, numa sociedade regida pela obsessão da propriedade privada, as relações humanas e familiares são completamente reificadas e convertidas em relações de troca e valor monetário. A própria figura feminina é desumanizada: tanto Min como a nova noiva são tratadas como meros objetos de posse, "gado" ou troféus no conflito de poder masculino entre o pai e os filhos. Paralelamente, a cena desmascara a religiosidade puritana de Ephraim Cabot, revelando o abismo entre o discurso espiritualista e a conduta terrena motivada pelo egoísmo e pela luxúria. Por fim, a miragem da Califórnia representa o mito da fronteira americana, expondo a tentativa desesperada dos indivíduos de escaparem à opressão feudal da terra através da ilusão do enriquecimento rápido do capitalismo nascente.

Resumo da cena III da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

    A terceira cena da 1.ª parte decorre na penumbra do quarto dos irmãos, no piso superior da casa de lavoura, momentos antes do amanhecer. Eben surge tateando na escuridão, rindo amargamente e praguejando entre dentes, até irromper pelo quarto de vela na mão para acordar bruscamente Simeon e Peter. Sob o olhar estremunhado dos meio-irmãos mais velhos, lança uma notícia bombástica que acabou de saber na aldeia: o velho Ephraim Cabot, de 75 anos, voltou a casar-se em New Dover com uma mulher de trinta e cinco anos.
    A revelação provoca um choque inicial de incredulidade em Simeon e Peter, que tentam convencer-se de que se trata de uma mentira. Contudo, ao perceberem a veracidade do rumor trazido pelo padre local, os dois irmãos caem em desespero ao constatar que a nova esposa passará a herdar tudo, anulando qualquer expetativa de virem a obter proveito da quinta. Esta constatação atua como o catalisador definitivo para a decisão de abandonarem a terra e partirem imediatamente para a Califórnia em busca de ouro.
    Aproveitando o desespero e a urgência dos irmãos, Eben revela a sua faceta mais calculista e astuta. Ele tira do bolso um documento previamente preparado e propõe um negócio: se os irmãos assinarem a renúncia aos seus direitos sobre a herdade, ele entregar-lhes-á trezentos dólares a cada um, quantia suficiente para pagarem a viagem de barco para o Oeste. Interrogado com desconfiança sobre a proveniência de tão avultada soma, revela que encontrou o dinheiro que o pai mantivera escondido durante anos, uma quantia que pertencera originalmente à sua falecida mãe e que ele agora reivindica como sua por direito.
    Com o raiar da alvorada a aclarar o céu pela janela, a conversa desvia-se para o paradeiro de Eben durante a noite. O jovem confessa ter ido a casa da prostituta Min. Explica que, a caminho, atormentado pelas revelações sobre a mulher ter pertencido ao pai e aos irmãos, foi tomado por uma fúria descontrolada; ao chegar junto dela, chorou como um vitelo e acabou por se deitar com ela, proclamando com orgulho desafiador que a tomou para si para possuir algo que pertencera ao pai e se vingar dele, tornando-a sua por direito.
    Quando os irmãos troçam do seu envolvimento e sugerem com ironia que Min daria uma esposa fiel, ele repele a ideia com desprezo, afirmando que não se apaixona por "gado" e que a mulher apenas lhe interessou por ser uma posse de Ephraim. A provocação atinge o auge quando Simeon insinua, de forma profética, se Eben não irá tentar possuir também a nova esposa do pai. O rapaz cospe com nojo, declarando que preferia beijar uma serpente a aproximar-se da mulher que vem roubar a herança da sua mãe e sai indignado para a cozinha para acender o lume e preparar o pequeno-almoço.
    Ficando a sós no quarto, Simeon e Peter decidem ser cautelosos: concordam em não assinar qualquer documento até verem o dinheiro vivo e confirmarem a chegada da noiva. Num acesso de cinismo e vindicta, o primeiro conclui que, se o pai realmente casou, estarão a vender a Eben algo que nunca será dele, decidindo aproveitar o dia para descansar, comer e beber à mesa, enquanto deseja asperamente que a nova madrasta seja uma diaba que faça a vida do velho patriarca um verdadeiro inferno.
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