a) Ação
A ação da quarta cena desenvolve-se no exterior da casa dos
Cabot ao alvorecer e marca a consumação da viragem psicológica, espiritual e
moral na vida das personagens após a noite de intimidade. A dinâmica dramática
assenta numa estrutura bipartida claramente definida, articulando dois
momentos: um primeiro de intimidade romântica e cumplicidade libertadora entre
Eben e Abbie, seguido de um segundo de confronto sarcástico e inversão de
poderes entre pai e filho.
A primeira parte da cena abre com a saída de Eben
para o trabalho. A atitude do jovem contrasta radicalmente com o seu
comportamento do passado: apresenta-se sorridente, confiante e imbuído de uma
satisfação plena. A ação ganha dinamismo quando Abbie abre a janela da sala de
visitas e se debruça de cabelo desalinhado e olhar langoroso para se despedir
do enteado, agora amante. Neste diálogo matinal, a ação progride no sentido de
consolidar o vínculo afetivo através da declaração explícita de amor por parte
do rapaz. Em simultâneo, opera-se a regeneração simbólica e física do espaço: ela
escancara as persianas para deixar entrar a luz do sol e o ar puro, proclamando
que a divisão fúnebre e "morta" renasceu para se tornar o quarto do
casal. O clímax desta primeira parte é atingido quando as personagens constatam
que o espírito da falecida matriarca regressou definitivamente à sepultura,
conquistando o repouso e absolvendo o amor dos jovens de qualquer culpa
puritana.
A segunda parte da cena inicia-se com a transição
provocada pela aproximação de Ephraim Cabot, que obriga Abbie a recolher ao
interior e deixa Eben sozinho no terreiro à espera do pai. O ritmo da cena
altera-se, passando da ternura amorosa para a tensão dramática e a provocação
sarcástica. O jovem adota a atitude de novo senhor da herdade, contemplando a
propriedade com ares de dono e dirigindo ao patriarca um cumprimento irónico
sobre a sua abstração espiritual. Quando Cabot tenta enquadrar a eufórica boa
disposição do filho no consumo de álcool, ele rejeita a acusação e define a sua
alegria como o transbordar da própria vida, estendendo a mão ao progenitor para
declarar que a dívida moral da família está saldada e que a mãe já pode dormir
em paz.
O fecho da cena e do ato consagra a incomunicabilidade e o
desfasamento entre as personagens. Perplexo e incapaz de decifrar o verdadeiro
alcance das palavras enigmáticas do filho, Ephraim atribui o seu comportamento
à insensatez genética herdada da falecida esposa. A progressão dramática
culmina na afirmação triunfalista de Eben, que se proclama o galo da capoeira
antes de se retirar a rir para o estábulo, enquanto o patriarca o observa com
desprezo, desqualificando-o como um insensato sem salvação antes de se dirigir
para a porta, momento em que o pano cai.
A didascália que abre a cena marca uma rotura visual e
espacial imediata com a clausura noturna da cena anterior. A indicação «Exterior
da casa. Alvorece» estabelece uma dupla transição: por um lado, a
deslocação do foco dramático do interior fechado para o espaço aberto do
terreiro; por outro, o nascimento da luz matinal, que substitui a penumbra e o
mistério da noite pela clareza e pela transparência do dia.
O movimento inicial de Eben — ao sair pela porta principal à
direita, dar a volta até ao portão e avançar para a cancela — desenha uma
trajetória física de libertação. Trajado com o fato de trabalho e exibindo uma
postura firme e risonha, o jovem ocupa o terreiro não já como um subordinado
vergado pelo peso da lida diária, mas com a vivacidade de quem se sente
renovado.
Simultaneamente, a didascália introduz a janela da sala de
visitas como o elemento limiar mais relevante da cena. O som e o gesto com que «as
persianas são atiradas e Abbie debruça-se para fora» assinalam a rutura
violenta com o isolamento do passado. Ao debruçar-se com o cabelo desalinhado,
o rosto corado e o olhar langoroso, a mulher projeta a sensualidade e a
intimidade da noite interior para a luz pública do exterior, unindo visualmente
a casa e o terreiro numa mesma atmosfera de afeto e cumplicidade.
A janela escancarada funciona como uma metáfora de
purificação e arejamento. A sala de visitas no rés do chão — que ao longo da
obra figurara como um espaço fúnebre, escuro e reservado ao culto estático dos
mortos («este quarto tem estado morto») — é submetida a uma invasão de luz
solar e ar puro.
Ao abrir as persianas de par em par, Abbie rompe
simbolicamente com a estagnação do luto e com o interdito puritano. O espaço
doméstico deixa de ser um túmulo para se transfigurar no «quarto» do casal, um
lugar onde a vida e a paixão substituem o assombramento da falecida matriarca e
a rigidez do patriarca.
No desenvolvimento da cena, o espaço exterior desdobra-se em
segmentos:
- A
cancela e o terreiro: espaço ocupado por Eben, de onde o jovem
contempla a propriedade «com ares de dono». O chão da quinta deixa de ser
o local de opressão agrícola para se tornar o território simbolicamente
conquistado ao pai.
- O
estábulo (à esquerda): espaço associado à rotina do trabalho com o
gado e, ironicamente, ao recolhimento de Ephraim Cabot, que ali passou a
noite «com as vacas». O estábulo representa a animalidade, o isolamento e
a lonjura do velho patriarca, estabelecendo um contraste vincado com a
vivacidade da casa recém-regenerada.
- A
porta principal da casa: funciona como o ponto de fecho da cena, para
onde Cabot se dirige no final, mantendo-se tragicamente alheado e cego
perante a transformação que a abertura da janela e a luz da manhã acabaram
de consagrar na sua própria habitação.
Deste modo, a espacialidade da cena desenha o triunfo da luz
sobre a penumbra, da abertura sobre o confinamento e do espaço vivo e renovado
sobre a esterilidade fúnebre do passado.
A ação situa-se no alvorecer, um momento de transição
temporal exata em que a noite cede lugar às primeiras luzes da manhã. Este
marco temporal não é apenas uma indicação cénica, mas a marcação do início de
um novo ciclo na rotina da herdade, onde Eben, já vestido com as suas roupas de
trabalho, se prepara para começar as tarefas agrícolas, enquanto Abbie assinala
a extensão das horas que se avizinham ao lamentar a ausência do enteado ao
longo do dia.
No plano do tempo quotidiano e agrícola, a cronologia
da cena está intrinsecamente ligada ao ritmo rigoroso da vida na quinta dos
Cabot. O tempo é medido pelas tarefas do campo e pela lida do gado: o amanhecer
dita o despertar dos trabalhadores, a deslocação para o estábulo e a preparação
do pequeno-almoço. A chegada de Ephraim Cabot, vindo do estábulo onde passou a
noite inteira recolhido entre os animais, delimita a duração do período noturno
e marca a transição para a manhã. A provocação de Eben ao saudar o pai
perguntando-lhe se está a «ver as estrelas ao meio-dia» joga precisamente com a
iluminação solar do dia em contraste com a cegueira temporal do velho
patriarca.
No plano simbólico e psicológico, o tempo cronológico
opera uma rutura radical entre o passado e o futuro. A noite, que
dominou a cena anterior, representava o tempo do segredo, da repressão puritana
e da presença opressiva do fantasma da falecida matriarca. O alvorecer
consagra o fim desse tempo estático e fúnebre, que mantinha a casa e as
personagens aprisionadas ao passado. Com a entrada da luz do sol e do ar puro
pelas persianas abertas, o tempo da culpa e da vingança fica definitivamente
encerrado — a mãe regressa à sepultura para repousar em paz —, dando lugar a um
tempo presente de libertação, energia e renovação amorosa.
Por fim, a cronologia do alvorecer simboliza o despertar de
uma nova relação de forças na herdade. Eben renasce com o novo dia («parece
outro»), projetando-se para o futuro já não como o filho subjugado de outrora,
mas como o triunfante senhor da casa. O tempo da velhice, do cansaço e do
passado, encarnado por Cabot, contrasta vivamente com a temporalidade jovem,
efervescente e orientada para o seu futuro com a madrasta, tornando esta manhã
no palco onde se consagra a transição entre a morte de um ciclo e o nascimento
de uma nova era de paixão e domínio.
Quanto ao tempo do discurso, embora a ação avance em tempo real, o diálogo das
personagens abre frequentes janelas de recuo ao passado através de analepses
evocativas:
- Analepse
de passado recente: Abbie evoca a noite de paixão recém-consumada ao
recordar a entrega amorosa entre ambos, tal como Cabot evoca a forma como
passou a noite anterior recolhido no estábulo.
- Analepse
de passado remoto: Abbie e Eben recuam a um passado mais distante ao
evocarem o longo período em que a sala de visitas permaneceu fúnebre e
inacessível, bem como o historial de sofrimento da falecida matriarca e a
concretização da sua vingança.
As prolepses surgem de forma pontual no discurso,
projetando intenções e expetativas sobre o futuro imediato:
- Abbie
antecipa a falta que Eben lhe fará ao longo da jornada de trabalho.
- Além
disso, projeta a estratégia de dissimulação que irá adotar nas horas
seguintes perante o marido.
Relativamente ao tempo psicológico, Para Abbie e Eben, o tempo interior é vivido sob o signo da plenitude, da exaltação e do alívio. Após a consumação da paixão e a convicção de que o espírito da falecida matriarca alcançou a paz, a perceção temporal dos dois amantes é marcada por uma dupla dimensão:
- Suspensão
e desejo de prolongamento: na despedida matinal à janela, o tempo da
urgência do trabalho é suspenso pela necessidade afetiva de retardar o
momento da separação («Tenho um milhão deles guardados para ti!»).
- Aceleração
vital e libertação: o tempo interior de Eben deixa de ser o tempo
pesado e arrastado da submissão e do ressentimento. O jovem sente que o
tempo renasceu e que a vida flui com uma nova energia («É só a vida»),
projetando-se com impaciência e entusiasmo para o futuro da herdade.
Em contrapartida, o tempo psicológico de Ephraim Cabot surge
marcado pela frieza, pela solidão e pela estagnação espiritual:
- Lentidão
e alheamento: tendo passado a noite inteira no estábulo, recolhido
entre os animais, Cabot habita um tempo interior pesado, rígido e
desfasado do presente. A sua entrada na cena, fitando o céu com um olhar
vago, reflete uma perceção temporal "cega" e alheada, incapaz de
captar a profunda transformação que se operou ao seu redor.
- Prisão
ao passado: enquanto o tempo dos jovens se orienta para a vida e para
o futuro, o tempo interior do patriarca permanece preso ao rancor, à
desconfiança e à memória das velhas amarguras.
A tensão dramática da cena resulta fundamentalmente do choque
entre estes dois tempos psicológicos incomunicáveis:
- Por
um lado, a temporalidade efervescente e luminosa de Abbie e Eben,
que vivenciam o momento presente como o início de um novo ciclo de domínio
e felicidade.
- Por
outro lado, a temporalidade sombria e estática de Cabot, que
interpreta a exaltação do filho como fruto do álcool ou de uma loucura
hereditária, revelando a sua absoluta incapacidade de acompanhar o ritmo
interior da nova realidade da casa.
Deste modo, o tempo psicológico traduz o abismo emocional
que separa as personagens: enquanto Eben e Abbie celebram a intensidade viva do
presente, Cabot permanece encerrado na sua própria solidão temporal.
d) Personagens