Português: Análise da cena II da 2.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Análise da cena II da 2.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

a) Ação

    A ação da cena estrutura-se em três momentos de crescente intensidade dramática:

    A inquietação no quarto matrimonial e o monólogo místico de Cabot: a cena inicia-se no piso superior, com Cabot e Abbie no quarto de casal e Eben no quarto contíguo. Enquanto o patriarca reafirma com obsessão a necessidade de ter um filho para dar continuidade ao seu legado, a distância afetiva da esposa é manifesta. Pressionado pela apatia desta, o velho homem entrega-se a uma longa confissão retrospetiva: relata a sua chegada à terra árida há cinquenta anos, a sua luta contra o solo pedregoso, a conceção de um Deus duro e a profunda solidão que sempre o acompanhou. Subitamente, é assaltado por uma sensação sufocante de frio e por sombras invisíveis que parecem povoar os cantos da casa, o que o leva a abandonar o leito conjugal para ir dormir no estábulo junto do calor dos animais.

    A transgressão do espaço e o abraço: com a saída de Cabot, Abbie abandona o seu quarto e invade o espaço privado de Eben. Vencendo a imobilidade e a agitação contida do jovem, lança-se ao seu pescoço num abraço apaixonado e cobre-o de beijos. Ele cede num primeiro momento, mas a vaga de culpa puritana impele-o a repeli-la brutalmente, declarando que o beijo lhe soube a peçonha e tentando mentir a si próprio ao afirmar que imaginava estar com outra mulher.

    O duelo: Abbie desmascara a hipocrisia de Eben, confrontando-o com o ardor da sua própria resposta física. Perante a resistência do enteado, a madrasta inverte a tática: insulta-o, afirma que nunca o amou e que apenas o usou como instrumento para assegurar o domínio da herdade, reduzindo-o à condição de mero jornaleiro. Para consolidar a sua vitória, anuncia que vai descer para abrir e iluminar a sala de visitas — mantida fechada e consagrada ao luto desde a morte da mãe de Eben —, convidando-o a juntar-se a ela. O impacto psicológico e a profanação do espaço materno destroem a força de vontade do rapaz, que, num estado de transe e desorientação, se veste mecanicamente e caminha para a sala atrás de Abbie, invocando em vão o espírito da mãe falecida.

b) Espaço

Espaço Físico: A cenografia apresenta o andar superior da habitação dividido em dois quartos contíguos, separados por uma ténue parede de tábuas de madeira. O espaço é tétrico, caracterizado por tetos baixos com vigas expostas e uma iluminação parca proporcionada por velas frouxas. Mais tarde, a ação desloca-se virtual e fisicamente para a sala de visitas no piso inferior, um espaço encerrado há anos que funciona como o santuário da falecida mãe de Eben.

Espaço Social: Retrata a comunidade rural e puritana da Nova Inglaterra de meados do século XIX, um ambiente isolado onde a vida comunitária é inexistente e as relações humanas são moldadas pela ética do trabalho árduo, pelo valor da propriedade privada e pela dominação patriarcal.

Espaço Psicológico: O cenário converte-se num território de profunda claustrofobia e opressão. A parede de tábuas atua como uma membrana permeável através da qual o desejo reprimido e a hostilidade circulam. O frio interior que atormenta Cabot simboliza a rejeição espiritual da casa em relação à sua presença, enquanto o quarto de Eben e a sala de visitas assumem a dimensão de um espaço psíquico onde o trauma materno e o impulso incestuoso se defrontam.

Espaço cénico: didascálias.

c) Tempo

Tempo da Ação: Desenrola-se durante uma noite abafada e sufocante de Verão, concentrando-se num intervalo contínuo de poucas horas durante o período noturno.

Tempo do Discurso: Sofre uma desaceleração marcada durante o longo monólogo autobiográfico de Cabot, onde o tempo presente da cena se dilata para dar lugar ao tempo da memória e da retrospetiva histórica.

Tempo Histórico: Circunscreve-se a meados do século XIX (década de 1850) no meio rural dos Estados Unidos, refletindo as condições económicas e o rigor religioso do período.

Tempo Psicológico: É denso, estagnado e doloroso. Para Cabot, o tempo é a contagem acumulada de cinquenta anos de solidão e decrepitude biológica; para Eben e Abbie, o tempo condensa-se na urgência absoluta do desejo represado e no peso de um passado não resolvido.

d) Caracterização Aprofundada das Personagens

Ephraim Cabot:

Física: Idoso de setenta e cinco anos, de estatura rija e ossatura rija temperada pelo trabalho na lavoura, mas revelando a vulnerabilidade do envelhecimento na sua extrema sensibilidade ao frio da casa.

Psicológica: Fanático, orgulhoso, dominador e profundamente solitário. O seu rigor religioso esconde uma trágica incapacidade de amar ou de se conectar com os outros, refugiando-se num Deus duro e inflexível.

Social: Patriarca autoritário e proprietário absoluto da herdade, figura temida e respeitada pela sua força de trabalho, mas totalmente isolada no plano interpessoal.

Abbie Putnam:

Física: Jovem, atraente, dotada de uma sensualidade magnética e vigorosa que contrasta abertamente com a decadência de Cabot.

Psicológica: Determinada, calculista, astuta e dotada de uma vontade implacável. Combina a ambição material de possuir um lar com uma capacidade avassaladora de entrega erótica e paixão genuína por Eben.

Social: Mulher de origem humilde e desapossada que procurou no casamento com o velho patriarca a segurança económica, lutando ferozmente para erguer o seu domínio na casa.

Eben Cabot:

Física: Jovem, forte e em pleno vigor físico, apresentando ao longo da cena uma agitação motora constante — descalço e em roupa interior —, que reflete a sua febre interior.

Psicológica: Imaturo, conflituoso e emocionalmente instável. É dominado por um complexo edipiano em relação à mãe falecida e por um sentimento de culpa puritano que o divide entre o dever filial, o ódio ao pai e a atração fatal por Abbie.

Social: O filho mais novo da casa, desprovido de herança e remetido à condição de trabalhador explorado na própria terra que considera sua por direito materno.

e) Linguagem e Figuras de Estilo

A linguagem da cena caracteriza-se pelo tom coloquial, cru e dialetal próprio da zona rural, cruzado com a solenidade arcaica e rítmica do discurso bíblico nas falas de Cabot.

Enumeração das Figuras de Estilo Presentes na Cena:

Metáfora

Comparação

Antítese

Personificação

Hipérbole

Apóstrofe

Gradação

Repetição / Anáfora

f) Características da Tragédia Clássica Grega

Hybris (A Desmedida e a Soberba): Manifesta-se na cegueira de Cabot, que se considera o escolhido de Deus e o senhor absoluto da terra e da vida, julgando-se acima da velhice e das necessidades afetivas dos que o rodeiam.

Hamartia (O Erro Trágico): O erro fatal de Cabot ao introduzir uma jovem esposa na casa e ao ignorar a força da natureza, bem como a transgressão moral cometida por Eben e Abbie ao cederem ao desejo proibido.

Anagnorisis e Peripeteia (Reconhecimento e Inversão): O momento em que Cabot pressente que a casa o rejeita através do frio e das sombras, e a súbita inversão de poder no quarto de Eben, onde a rejeição inicial se transforma em capitulação total.

Ananké (A Fatalidade e o Destino): O determinismo biológico e ambiental que esmaga as personagens. Elas são joguetes de forças superiores a si próprias: o desejo carnal incoercível, o peso da terra, a hereditariedade e o chamamento do espírito da mãe falecida.

Mito Edipiano e Incesto Simbólico: A reconstituição da tragédia de Édipo e de Fedra, onde o filho se une à madrasta no espaço sacralizado da mãe morta, consumando a vingança contra o pai e a violação do tabu ancestral.

g) Elementos Simbólicos

A Parede Divisória: Simboliza a barreira moral e a interdição do incesto, mas funciona simultaneamente como um condutor psicológico que aproxima as mentes de Abbie e Eben.

A Sala de Visitas (Parlor): Representa o santuário mudo da falecida mãe de Eben. A sua reabertura e iluminação simbolizam a profanação do luto, o local do sacrifício e o palco definitivo do incesto.

O Frio e as Sombras: O frio inexplicável que penetra no quarto de Cabot simboliza a ausência de amor, a esterilidade da sua conduta e a presença espiritual vingativa da segunda esposa.

As Pedras e o Deus de Pedra: Representam a dureza inflexível de Cabot e o puritanismo esterilizante que rejeita a facilidade e a compaixão em favor do sofrimento e da posse.

O Estábulo e as Vacas: Simbolizam o refúgio na natureza bruta e animal, onde o calor e a paz simples dos animais oferecem o conforto que a casa dos homens recusa a Cabot.

A Vela e a Luz na Janela: A luz vacilante das velas evoca a precariedade moral e a penumbra da consciência, enquanto o brilho que emana da sala de visitas assinala o acender do fogo trágico.

h) Análise Ideológica da Cena

A cena desenvolve uma rigorosa desconstrução dos pilares fundacionais da sociedade puritana e americana do século XIX. Em primeiro lugar, procede a uma crítica profunda ao puritanismo dogmático e ao calvinismo, demonstrando como a conceção de um Deus duro e punitivo gera seres humanos emocionalmente mutilados, incapazes de criar laços de afeto genuínos e condenados a uma solidão trágica.

Em segundo lugar, expõe as contradições do materialismo patriarcal e do culto da propriedade. A terra e o património surgem como obsessões que reificam os indivíduos: as mulheres são tratadas como instrumentos de reprodução para assegurar herdeiros e os filhos como mão de obra servil. A luta pelo domínio da herdade converte a família num campo de batalha onde o amor é instrumentalizado como arma de conquista económica.

Por fim, a cena afirma o triunfo do determinismo biológico e da Natureza sobre a Lei e a Moral. O desejo erótico entre Abbie e Eben e a necessidade de reparação do trauma materno revelam-se forças primitivas e incontroláveis, capazes de fazer ruir todas as interdições religiosas, sociais e legais. O incesto surge, assim, não apenas como um pecado, mas como uma forma trágica de libertação e vingança contra a tirania do patriarca.


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