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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Benfica vence a 4.ª Supertaça de futebol feminino


 
    5 a 1!

    Como seria de esperar, o adversário não fez guarda de honra. É a exceção, como seria de esperar.
    Em todos os outros momentos e troféus, antes de este adversário chegar ao escalão mais alto, houve sempre desportivismo. Ontem, domingo, não. 

    Não acredito!!! Como é possível? Gente civilizada como esta de que falamos... 👺

Relação de Desejo sob os Ulmeiros com a tragédia grega

1. Introdução: A Ressonância do Mito no Realismo Moderno
    Eugene O'Neill não se limita a dramatizar a vida rural; ele atua como um arquiteto que reconstrói a tragédia grega sobre o solo árido e pedregoso da Nova Inglaterra de 1850. Ao transpor arquétipos milenares para o contexto puritano, O'Neill confere a Desejo sob os Ulmeiros uma dimensão universal e atemporal. A obra transcende o realismo regionalista ao fundir a crueza do cotidiano agrícola com forças míticas avassaladoras, transformando a disputa por uma fazenda em um palco para o eterno conflito entre o determinismo biológico e a vontade humana.
    A premissa central da obra reside na tensão dialética entre o desejo material — a posse obsessiva da terra e do ouro — e o desejo espiritual e sexual. Na dinâmica da família Cabot, a busca pela propriedade torna-se indissociável das pulsões mais profundas da psique. Este guia propõe explorar as camadas de Édipo Rei, Fedra e Medeia que estruturam a narrativa, revelando como a fatalidade antiga se manifesta sob a égide do calvinismo americano. Para compreender o destino dos Cabot, é imperativo observar a peça sob a luz da dualidade nietzschiana entre a ordem e o caos.
2. A Dialética Fundamental: O Apolíneo vs. o Dionisíaco
    A base estrutural de Desejo sob os Ulmeiros repousa sobre a filosofia de Friedrich Nietzsche em O Nascimento da Tragédia. Esta tensão define o clima de opressão e a eventual transfiguração trágica da narrativa. O'Neill estabelece um contraste visual e metafísico rigoroso: o brilho verde dionisíaco dos ulmeiros contra o exterior cinzento e esfarrapado da casa apolínea.
  1. O Impulso Apolíneo: Personificado em Ephraim Cabot, representa a ordem rígida, o trabalho árduo e a disciplina puritana. Sua devoção a um Deus "duro e solitário" manifesta-se fisicamente no muro de pedras que circunda a propriedade. Para Ephraim, a dureza é a única prova de santidade; o muro é a barreira contra o caos dos instintos.
  2. O Impulso Dionisíaco: Esta força é canalizada por Abbie Putnam e pela memória onipresente de "Maw" (a mãe de Eben). Representa a sensualidade, a união irracional com a natureza e o transbordamento emocional. É o desejo que desafia a lógica da posse material.
  3. A Maternidade Sinistra: Os imponentes ulmeiros personificam o lado dionisíaco que "esmaga" e "protege" a casa. Descritos com uma humanidade aterradora, as árvores assemelham-se a mulheres exaustas cujos seios caídos, mãos e cabelos pousam no telhado, transformando a chuva em lágrimas que apodrecem a estrutura apolínea da habitação.
3. O Complexo de Édipo e a Herança de Sófocles
    Eben Cabot emerge como o herdeiro da fatalidade de Édipo Rei. O'Neill utiliza a estrutura sofocleana para alcançar uma dimensão de ativismo biológico e vingança ancestral.
  • O Conflito com o Pai: A hostilidade de Eben para com Ephraim — o "Laios" deste cenário — é absoluta. Eben identifica-se totalmente com a linhagem materna ("Eu sou Maw — cada gota de sangue!"). O desejo de "matar o pai" é a ferramenta para recuperar a propriedade que ele acredita ter sido roubada de sua mãe pelo trabalho escravo imposto por Ephraim.
  • A Cegueira Trágica: Ecoando a ironia de Sófocles, a peça destaca a cegueira de Ephraim. Fisicamente míope (nearsighted), o patriarca é incapaz de enxergar a verdade sobre a paternidade de seu herdeiro, uma verdade que a comunidade — atuando como o Coro — já conhece e ridiculariza.
  • Determinismo Calvinista: O destino de Eben parece traçado por forças que ele não controla. Ele está preso em uma gaiola de desejos herdados, onde sua rebelião acaba por conduzi-lo ao mesmo caminho de destruição do pai, fundindo o determinismo grego com a predestinação puritana.
4. A Sedução e o Incesto: A Presença de Fedra
    A entrada de Abbie Putnam reencena o mito de Fedra, transpondo a relação entre madrasta e enteado para a claustrofobia da Nova Inglaterra. O desejo proibido serve como catalisador para a destruição da estrutura patriarcal.
  • Abbie como Fedra: Inicialmente movida pela avareza material, Abbie evolui para uma amante desesperada que seduz o enteado (Hipólito/Eben). Ela utiliza a fixação materna de Eben como manobra psicológica, oferecendo-se para substituir a mãe falecida e quebrar a resistência do jovem.
  • O Espaço do Sagrado Profano: A cena na "sala de visitas" (parlor) é o ápice desta fusão. O local, uma tumba onde a família enterra seus mortos, torna-se o palco de uma luxúria e um amor maternal horrivelmente francos. Ali, o incesto simbólico é selado, unindo o desejo carnal ao espírito da mãe em um pacto sombrio.
  • A Mentira Estratégica: Assim como no mito clássico, Abbie utiliza a manipulação ao incitar Ephraim contra Eben, alegando falsamente uma tentativa de sedução para proteger seus interesses na fazenda, precipitando o confronto violento entre as gerações.
5. O Sacrifício Supremo: A Sombra de Medeia
    O infanticídio cometido por Abbie deve ser interpretado não como um crime comum, mas sob a ótica da tragédia de Eurípides, elevando-o ao status de prova trágica de iconoclastia.
  • A Inversão da Utilidade Materialista: No sistema de valores de Ephraim, o bebê é a "moeda" que garante a posse da terra. Ao matar o filho, Abbie realiza um ato supremo de rejeição à lógica da herança. O bebê deixa de ser um "herdeiro útil" para se tornar o obstáculo entre os amantes; sua eliminação prova a Eben que o amor dela transcende a avareza.
  • Infanticídio como Prova: Diferente de Medeia, que mata por ódio puro contra Jasão, Abbie sacrifica o fruto de seu ventre para restaurar a pureza de seu vínculo com Eben, destruindo o único laço que a prendia ao plano de sucessão material da fazenda.
  • Redenção e Culpa: A aceitação conjunta da culpa transforma o crime em uma libertação espiritual. Ao se entregarem à justiça, Eben e Abbie alcançam uma exaltação que os coloca acima da moralidade puritana, encontrando a paz no momento em que renunciam à posse da terra.
6. Simbolismo e Estrutura: A Arquitetura da Tragédia
    A cenografia da peça, concebida por O'Neill e Robert Edmond Jones, é um agente ativo na narrativa, funcionando como uma extensão física da psique dos personagens.
  • O Coração da Casa: As divisões internas da fazenda foram projetadas para replicar a sístole e a diástole das quatro câmaras do coração humano. Esta arquitetura orgânica enfatiza que o drama não ocorre apenas entre quatro paredes, mas dentro da própria pulsação vital e emocional dos Cabot.
  • O Muro de Pedras: Símbolo do isolamento de Ephraim e da dureza de seu Deus. As pedras representam o esforço de uma vida inteira para "cercar" e "conter" a natureza, um monumento à solidão inquebrável do patriarca.
  • A Festa como Coro Grego: A celebração do nascimento do bebê funciona como uma adaptação moderna do coro antigo. Enquanto Ephraim dança freneticamente, exibindo sua vitalidade aos 76 anos, os vizinhos comentam e zombam de sua cegueira, criando uma poderosa ironia dramática que sublinha o isolamento do herdeiro traído.
7. Conclusão: Solidão, Culpa e Exaltação
    A conclusão de Desejo sob os Ulmeiros reafirma a visão de O'Neill de que a tragédia é um processo de descoberta da verdade através do sofrimento.
  • O Destino de Ephraim: O'Neill identificava-se com Ephraim, elevando-o ao status de herói trágico resiliente. Embora permaneça com a posse da terra, Ephraim é condenado à solidão absoluta, reafirmando seu Deus "duro e lonesome". Ele não é um vilão, mas uma figura de força inabalável que escolhe o caminho mais difícil como prova de existência.
  • A Vitória do Amor: Eben e Abbie, ao caminharem para a punição, representam a vitória do espírito sobre a matéria. Eles admiram o amanhecer juntos, libertos da obsessão pela terra que os escravizava.
  • A Circularidade do Desejo: A ironia final reside na fala do Sheriff: "É uma fazenda de primeira... quem me dera que fosse minha!". Esta frase encerra a peça demonstrando que, enquanto os indivíduos são destruídos, o ciclo da avareza e do desejo de posse recomeça, tornando a tragédia circular e reafirmando o legado de O'Neill como o criador da primeira grande tragédia genuinamente americana.

Análise da didascália inicial Desejo sobre os Ulmeiros

1. A atmosfera de decadência material e isolamento rural
    A descrição localiza geograficamente o drama e introduz uma tensão imediata entre a preservação física da propriedade e o seu visível desgaste estético, refletindo a dureza e a falta de harmonia no quotidiano daquela família. A ação decorre na "Nova Inglaterra, em 1850", tendo como cenário a "casa de lavoura dos Cabots". O texto indica que "a casa está em bom estado, mas precisada de pintura", sugerindo um espaço onde o trabalho utilitário se sobrepõe ao cuidado e ao bem-estar.
    Esta aspereza é cromática e texturalmente reforçada através de pormenores como as paredes de um "pardo-sujo" e o "verde das persianas [que] está desbotado". Para além disso, o isolamento e o fechamento do núcleo doméstico em relação à sociedade são demarcados pela presença de "um muro de pedra com um portão ao centro", que cria uma barreira física e simbólica rígida entre o lar e o exterior, representado pelo "caminho rural".
2. A personificação gótica e a "maternidade sinistra" dos ulmeiros
    O aspeto mais expressivo das direções de cena é a humanização dos dois enormes ulmeiros situados de cada lado da habitação. A natureza deixa de ser um fundo passivo para se tornar numa força psicológica ativa, quase monstruosa, que vigia e oprime os habitantes. O texto explicita esta ambivalência ao afirmar que as árvores "parecem proteger e ao mesmo tempo dominar".
    Através de uma personificação visceral e sombria, o autor atribui-lhes uma maternidade possessiva, ciumenta e sufocante, decorrente da sua ligação íntima com os dramas humanos da casa:
"Há, no aspecto deles, uma maternidade sinistra, uma absorção ciosa e esmagadora. Desenvolveram, no contacto íntimo com a vida humana na casa, uma humanidade aterradora."
    Esta presença vegetal é descrita como um peso físico e mental constante. As árvores "meditam opressivamente sobre a casa" e são comparadas a "mulheres exaustas que pousam no telhado os seios pendentes, as mãos e os cabelos". Numa imagem de profunda melancolia, a própria água da chuva é transfigurada num choro fúnebre e destrutivo, em que "as suas lágrimas escorrem monotonamente e apodrecem no telhado de madeira". Esta simbiose entre as árvores e o sofrimento das mulheres que ali viveram sugere um passado assombrado que se recusa a desaparecer.
3. A estrutura arquitetónica e a divisão psicológica do espaço
    A disposição física da habitação serve como um mapa visual das divisões e tensões psicológicas que caracterizam a família. O espectador depara-se com uma fachada desenhada de forma a expor a partilha forçada e a falta de privacidade entre as personagens masculinas no piso superior. A parede voltada para o público revela "duas janelas no andar de cima" correspondentes a "a do quarto do pai e a do dos irmãos", estabelecendo de imediato um paralelismo visual e de confronto entre as duas gerações.
    No andar inferior, o espaço divide-se entre a área funcional de sobrevivência e a área de repressão emocional. Enquanto "à esquerda, no piso térreo, é a cozinha", o espaço de trabalho diário, à direita situa-se a sala. Esta última é caracterizada pelo ocultamento e pela ausência de vida, sendo descrita como uma "sala, cujas persianas estão sempre fechadas". Este pormenor das persianas permanentemente cerradas antecipa a existência de segredos e de uma rigidez quase tumular dentro do seio familiar, onde a luz do mundo exterior não é autorizada a penetrar.

4. Contraste entre os ulmeiros e o muro de pedra

    O contraste entre os ulmeiros e o muro de pedra é um dos elementos cénicos e simbólicos mais importantes de Desejo sob os Ulmeiros, estruturando visualmente os grandes conflitos psicológicos, teológicos e geracionais da peça. Esta oposição pode ser dividida em três dimensões fundamentais:
    A. O muro de pedra: o impulso apolíneo, a lei do pai e o aprisionamento
    O muro de pedra que circunda a casa representa a presença austera do patriarca Ephraim Cabot e a rigidez do seu Deus puritano.
  • O deus duro de Ephraim: O muro simboliza a mundividência de Ephraim, que passou décadas a arrancar pedras do solo da Nova Inglaterra para erguer a sua quinta com as próprias mãos. Para ele, o esforço bruto contra a pedra é sinónimo de salvação, pois acredita num Deus "duro e solitário" que não tolera a facilidade.
  • A prisão dos filhos: Para os irmãos mais velhos, Simeon e Peter, as pedras não representam comunhão espiritual, mas sim escravatura e confinamento. Peter descreve o muro como uma barreira opressora: "são pedras sobre as pedras... fazendo muros de pedra para nos vedar". A conquista da liberdade de ambos é simbolizada precisamente quando retiram o portão de madeira desse muro antes de partirem para a Califórnia.
  • O útero de Eben: Ironicamente, para o filho mais novo, Eben, o muro também assume uma dupla função, funcionando por vezes como uma divisória quase uterina que o protege e isola do mundo exterior.
  • O impulso apolíneo: Simbolicamente, o muro alinha-se com o conceito nietzschiano de Apolíneo: representa a ordem, a razão, a disciplina pelo trabalho implacável e o egoísmo possessivo da herança da terra.
    B. Os ulmeiros: o impulso dionisíaco, o espírito da Mãe e a paixão fértil
    Em contraste absoluto com a aridez mineral do muro, os dois gigantescos ulmeiros que abraçam a casa de lavoura trazem a força pulsante da natureza e do desejo carnal.
  • A presença da mãe falecida: Os ulmeiros funcionam como a manifestação física e psicológica de "Maw", a falecida mãe de Eben, cujo espírito continua a pairar sobre a casa e a guiar a sede de vingança do filho contra o pai.
  • A "maternidade sinistra": Nas direções de cena, as árvores são personificadas de forma quase gótica como "mulheres exaustas que pousam no telhado os seios pendentes, as mãos e os cabelos", exercendo uma "maternidade sinistra, uma absorção ciosa e esmagadora" sobre o lar dos Cabots.
  • As forças vegetativas e a sensualidade: Enquanto a casa é cinzenta e estéril, os ulmeiros emitem um brilho verde que simboliza as forças geradoras da vida, do rejuvenescimento, da atração carnal e da união com a natureza. Abbie compara o calor sufocante e o desejo que arde dentro de si à força que faz crescer as árvores, "como aqueles ulmeiros".
  • O impulso dionisíaco: As árvores encarnam o Dionisíaco - o irracional, o fluxo da emoção desimpedida, o misticismo natural e a união sexual que desafia as convenções sociais e puritanas.
    C. A colisão das duas forças no protagonista
    O drama da peça desenvolve-se através do choque inevitável entre estes dois polos. Eben Cabot encontra-se tragicamente dividido no meio deste contraste. Por um lado, herda o lado "duro" do pai (apolíneo), agindo inicialmente com ganância, calculismo e vendo a sua relação com as mulheres como uma forma de "posse" da propriedade. Por outro lado, herda o lado "suave" da mãe (dionisíaco), revelando uma sensibilidade aguçada para a beleza da terra e uma profunda necessidade de afeto.
    A trajetória trágica de Eben e Abbie culmina na vitória do impulso dionisíaco (os ulmeiros) sobre o apolíneo (o muro), quando ambos abandonam a obsessão pela herança material da quinta e aceitam o castigo da prisão em nome do amor espiritual que partilham.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Representatividade das personagens de O Mercador de Veneza

    Pórcia ergue-se como a representação máxima da inteligência humanista, da agência feminina e da flexibilidade jurídica, rompendo de forma categórica com os moldes passivos impostos às mulheres da sua época histórica. No contexto de transição do final do Renascimento, ela corporiza o ideal da sabedoria prática e da equidade moral. Ao assumir o disfarce masculino para atuar no tribunal de Veneza, Pórcia não representa apenas a capacidade intelectual da mulher para dominar um espaço público exclusivamente masculino; ela simboliza também a introdução da misericórdia, da compaixão e da flexibilidade interpretativa num sistema legal que se mostrava cego e destrutivo. Em Belmonte, a sua figura personifica a soberania e a liderança do espaço doméstico, demonstrando que a harmonia social e o casamento moderno devem ser fundados no respeito pela capacidade estratégica e racional feminina, e não na submissão cega ao patriarcado tradicional.
    Em contraste absoluto, Shylock representa a alteridade marginalizada, o rigor legalista e as contradições do capitalismo financeiro emergente. Enquanto judeu segregado nos limites da sua comunidade, ele é a encarnação do estrangeiro perseguido, cuja identidade é moldada pela exclusão social, pela hostilidade sistémica e pelo preconceito religioso do meio cristão. No plano económico e ideológico, Shylock simboliza a transição para um mundo moderno governado pela frieza do dinheiro, pelo contrato escrito e pela usura, opondo-se à ética da caridade cristã tradicional. A sua representatividade ganha uma densidade trágica extraordinária por ser ele quem expõe a hipocrisia da sociedade que o marginaliza, a qual exige clemência mas tolera a desigualdade social e a posse de escravos. Shylock encarna, assim, a justiça literal, matemática e sem alma, cujo colapso final simboliza a derrota da vingança pessoal face a uma estrutura jurídica estatal implacável que protege os seus próprios cidadãos à custa da aniquilação identitária do outro.
    António representa a velha ordem mercantil e o establishment cristão, caracterizados por uma profunda melancolia e por um idealismo relacional abnegado. Como mercador, ele simboliza a vulnerabilidade da riqueza física exposta aos caprichos da fortuna e da natureza, arriscando toda a sua integridade económica nos mares da especulação comercial global. No entanto, a sua verdadeira força de representação reside na ética da amizade e da solidariedade. António corporiza o sacrifício e a lealdade incondicional, aceitando de bom grado a perspetiva do martírio físico para salvar e satisfazer os desejos do seu amigo mais próximo. Esta postura, contudo, é matizada por uma melancolia apática e autodestrutiva que revela as fragilidades de uma elite que, embora generosa no seu círculo íntimo, é incapaz de conviver de forma saudável com a diversidade exterior, terminando a sua jornada como um símbolo de isolamento e pacificação forçada.
    Bassânio, por seu turno, representa a figura do jovem nobre em transição, que equilibra a prodigalidade aristocrática com a busca romântica pela ascensão social. Ele simboliza o herói de romance que depende inteiramente do crédito, da reputação e da generosidade alheia para construir o seu próprio destino num mundo mercantilizado. A sua jornada representa a fusão entre o amor idealizado e o pragmatismo financeiro, onde a conquista de Pórcia é tanto um ato de paixão genuína como uma solução para as suas dívidas mundanas. Ao escolher o cofre de chumbo, Bassânio representa a rejeição das aparências enganadoras do ouro e da prata em favor da substância moral e do risco do sacrifício, consolidando o seu papel como o elo de ligação necessário que permite curar a urgência pragmática de Veneza através do idílio poético e da cumplicidade que governam Belmonte.

Análise de O Mercador de Veneza

 I. Contexto

    1.1. O Ghetto de Veneza


II. Resumos

    2.1. Resumo da peça

    2.2. Resumo das cenas

            2.2.1. Cena I, Ato I

            2.2.2. Cena II, Ato I

            2.2.3. Cena III, Ato I

            2.2.4. Cena I, Ato II

            2.2.5. Cena II, Ato II

            2.2.6. Cena III, Ato II

            2.2.7. Cena IV, Ato II

            2.2.8. Cena V, Ato II

            2.2.9. Cena VI, Ato II

            2.2.10. Cena VII, Ato II

            2.2.11. Cena VIII, Ato II

            2.2.12. Cena IX, Ato II

            2.2.13. Cena I, Ato III

            2.2.14. Cena II, Ato III

            2.2.15. Cena III, Ato III

            2.2.16. Cena IV, Ato III

            2.2.17. Cena V, Ato III

            2.2.18. Cena I, Ato IV

            2.2.19. Cena II, Ato IV

            2.2.20. Cena I, Ato V

    2.3. Análise das cenas

            2.3.1. Cena I, Ato I

            2.3.2. Cena II, Ato I

            2.3.3. Cena III, Ato I

            2.3.4. Cena I, Ato II

            2.3.5. Cena II, Ato II

            2.3.6. Cena III, Ato II

            2.3.7. Cena IV, Ato II

            2.3.8. Cena V, Ato II

            2.3.9. Cena VI, Ato II

            2.3.10. Cena VII, Ato II

            2.3.11. Cena VIII, Ato II

            2.3.12. Cena IX, Ato II

            2.3.13. Cena I, Ato III

            2.3.14. Cena II, Ato III

            2.3.15. Cena III, Ato III

            2.3.16. Cena IV, Ato III

            2.3.17. Cena V, Ato III

            2.3.18. Cena I, Ato IV

            2.3.19. Cena II, Ato IV

            2.3.20. Cena I, Ato V


III. Personagens

    3.1. Caracterização

            1. António

            2. Bassânio

            3. Pórcia

            4. Lourenço

            5. Graciano

            6. Salarino e Salânio

            7. Falconbridge

            8. Nerissa

            9. Sobrinho do duque de Saxe

            10. Criado de Pórcia

            11. Shylock

            12. Tubal

            13. Servo de Shylock

            14. Príncipe marroquino

            15. Lanceloto Gobbo

            16. Velho Gobbo

            17. Jéssica

            18. Príncipe de Aragão

            19. Comitivas e séquitos

            20. Músicos e cantores

            21. Dr. Belário

            22. Doge

            23. Belário de Pádua

    3.2. Papel / Relevo

    3.3. Representatividade

    3.4. Relações entre as personagens

            1. António e Bassânio

            2. Shylock e Tubal


IV. Espaço

    4.1. Físico / Geográfico

    4.2. Social

    4.3. Psicológico


V. Tempo

    5.1. Histórico

    5.2. Da ação

    5.3. Do discurso

    5.4. Psicológico


VI. Linguagem


VII. Elementos simbólicos


VIII. Temas


IX. Dimensão trágica da obra

    1. Presságios


X. A crítica

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